Entrelinhas: uma representação de esperança, força e justiça 

Livro da autora S. Ganeff é uma leitura viciante que expressa o papel da mulher em uma sociedade injusta 

Por Vanessa Ferro/ Em Pauta 

Certamente você já deve estar familiarizado no modo como os julgamentos funcionam, o réu, o juiz, o promotor, os advogados e os jurados são os atores que fazem o ato funcionar. Agora, você já imaginou entrar em um tribunal e ver cento e onze meninas menores de idade sendo julgadas pelo assassinato brutal de um homem adulto? Bom, essa é a premissa de “Entrelinhas” da autora S. Ganeff. O livro, publicado em outubro de 2025, traz uma história perturbadora, com uma escrita impossível de largar e, ao mesmo tempo, delicada como as folhas do papel.

Livro da autora paulistana S. Ganeff foi lançado em outubro de 2025 pela Editora Labrador. Foto: Divulgação/ Em Pauta

Escrito literalmente nas entrelinhas, o livro traz, nas linhas amarelas, uma história sensível, a amizade improvável de três jovens meninas com vidas completamente diferentes, vai se transformando em um movimento social e político, mesmo que elas, por serem tão novas, não saibam exatamente disso. Em pouco tempo, suas vidas mudarão para sempre. Já, nas linhas pretas, acompanhamos um julgamento chocante, judicialmente impossível na vida real, que, em um dia qualquer, julgará o futuro de cento e onze meninas que nem sequer terão direito a defesa

Entrelinhas é um relato humano de amizade, cansaço, tristeza e, mais do que tudo, para aquelas cento e onze garotas, esperança de que a vida das mulheres não nasce pré determinada e que elas têm o direito de escolher o próprio futuro. Por outro lado, a história também retrata o descaso da justiça brasileira com a vida das mulheres. Essa junção, promove uma experiência de leitura espetacular, nos traz reflexões e, mais importante do que isso, sensibilidade.

Como leitora ávida, posso dizer que Entrelinhas é um presente da literatura brasileira. O livro mostra a força da geração mais nova de escritores. Sophia Ganeff é estudante de Direito e escritora com três livros publicados, sendo Entrelinhas o último. Ela nos conta que a paixão pela literatura e pela escrita surgiu na infância, na escola. “Eu tive muita sorte, porque meus pais, principalmente a minha mãe, sempre me colocaram em escolas que eram muito voltadas para a arte e que traziam um senso de humanidade. Também, a literatura sempre foi muito presente, eu não consigo imaginar um dia em que eu estivesse com a minha mãe ou com o meu pai e não tivesse um livro envolvido. Então, eu fui moldada como pessoa, acabou sendo uma coisa natural”, destaca Sophia.

A autora, de 23 anos, relata o amor pela literatura. Foto: Camila Rossi/especial Em Pauta

Sobre Entrelinhas, a escritora ressalta que a inspiração para o livro surgiu da sala de aula do curso de direito. “Você recebe aquela carga densa de teoria, principalmente de penal, e nós vemos que na prática as coisas não funcionam desse jeito. É aí que vem a literatura como uma porta de entrada para falar, não só sobre esse assunto, mas trazer uma reflexão para o leitor”, realça. Ela conta que Entrelinhas nasce, justamente, dessa provocação das expectativas da teoria e do que realmente acontece na prática. “Como que a gente pode provocar o leitor, a sociedade para que isso mude? O que eu, Sophia, posso fazer para alterar essa situação? Então, o livro nasceu bastante disso, de enxergar na prática tantas injustiças.” Ela também conta que o processo de escrita do livro foi algo quase utópico. “O processo foi muito fluido, acho que ele veio muito de dentro, da alma mesmo. Ele veio mais como esse grito de socorro, de olhar para o que está acontecendo, colocar um foco nisso”, destaca.

Entrelinhas discute as violências que uma mulher sofre ao longo da vida e como o direito à defesa, nos diversos entendimentos da palavra é, muitas vezes, negado a essa parcela da sociedade. Para Sophia, o livro se sobressai à ficção. “O Entrelinhas, por mais que seja uma história fictícia, não é tão irreal assim, até eu me assusto com a potência da obra, a forma como ele vai ganhando notoriedade, nunca imaginei que ele fosse ficar tão grande quanto ficou. É aí que você vê que não é algo tão ficcional assim, isso existe e muito”, salienta.

Foto: Lançamento de Entrelinhas na Livraria da Travessa, em São Paulo. Foto: Camila Rossi./Especial Em Pauta

Para ela, é de extrema importância falar mais sobre a violência contra a mulher e conscientização.“Eu acho que é isso que vai começar a mudar o mundo, acho que estamos começando uma nova onda de mulheres terem a coragem de agir, já que antes isso era difícil. Eu fico feliz em ver uma sociedade mais consciente, trazendo mais apoio para essas vítimas, isso é muito gratificante, mas, com certeza, não está no ideal. Eu vejo o Entrelinhas como uma ótima forma de trazer esse assunto à tona para conscientizar e para que a gente acabe com esse ciclo vicioso”, comenta.

Uma das maiores mensagens do livro é a possibilidade de escolher o seu destino, de ter a autonomia de traçar o seu futuro. Sendo assim, Sophia deixa um recado às jovens mulheres que pensam em seguir no rumo da literatura. “Acredite em você mesma, não duvide de si, do seu coração, da sua potência e do seu talento. Tenha força para conquistar os seus objetivos, não ceda aos barulhos que a sociedade faz”, enfatiza.

Por fim, saber que Entrelinhas está entre as prateleiras das livrarias é um alívio. É um consolo saber que existem pessoas tentando, e conseguindo, mudar a história e a estrutura de uma sociedade desigual. As cento e onze meninas retratadas no livro não são reais, porém, elas representam uma população inteira de mulheres que estão esgotadas e que estão prontas para mudar o mundo.

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