Entre águas e encruzilhadas

Como as religiões de matriz africana ocupam o espaço público em Pelotas

Inauguração da Esquina do Axé, junto ao Mercado Público de Pelotas. Foto Rodrigo Chagas especial Em Pauta

Kailaine Quevedo/ Em Pauta

Pelotas é conhecida pelos casarões do centro histórico, pela tradição doceira e pela força de sua universidade. Mas por trás dessa imagem existe outra Pelotas, mais antiga e menos contada: a cidade que foi erguida pelo trabalho, pela inteligência e pelo corpo de pessoas negras escravizadas nas charqueadas, e que hoje é reconhecida como um dos maiores polos de religiosidade afro-brasileira do país.

Essa presença não é recente. Ela remonta ao século XIX, quando os primeiros terreiros começaram a se organizar na região sul do Rio Grande do Sul, mantendo vivas, através da oralidade, práticas e tradições trazidas pela diáspora africana. Ao longo de mais de dois séculos, essa religiosidade passou da discrição para a ocupação legítima do espaço público, e hoje se manifesta em leis, monumentos, celebrações e datas fixas no calendário da cidade.

Batuque, Umbanda e Quimbanda: as religiões que formam o povo de terreiro pelotense

Em Pelotas, como em boa parte do Rio Grande do Sul, a religiosidade afro-gaúcha se organiza principalmente em três vertentes que dialogam entre si dentro de um mesmo terreiro: o Batuque, a mais antiga delas, que cultua doze orixás e mantém o nagô como língua litúrgica; a Umbanda, que reúne caboclos, pretos-velhos e orixás; e a Quimbanda, ou Linha Cruzada, voltada ao culto de Exus e Pombagiras e que, atualmente, é a que mais cresce entre as três. Nas casas religiosas da cidade, é comum que essas tradições coexistam sob um mesmo teto, integrando a mesma comunidade e os mesmos rituais.

Essa herança deixou marcas que vão muito além dos muros dos terreiros. Um dos exemplos mais simbólicos é a demarcação do assentamento do Bará no Mercado Central, realizada em 2021 como forma de reafirmar a tradição afro-diaspórica no coração da cidade. Desde 2015, a Procissão do Bará acontece anualmente e já se tornou um dos rituais públicos mais tradicionais da cidade, ao lado das festividades dedicadas a Iemanjá. A cidade também recebeu, nos últimos anos, monumentos em homenagem ao Exu Bará da Rua e ao orixá Ogum, reforçando a presença religiosa afro-brasileira na paisagem urbana.

Vice prefeita Dani Brisolara e membros do Municipal do Povo de Terreiro.  Foto: Jornal Tradição especial Em Pauta

Um conselho para representar o povo de terreiro

Desde 2018, essas comunidades contam com um espaço institucional próprio dentro da Prefeitura: o Conselho Municipal do Povo de Terreiro, criado pela Lei nº 6.584. O órgão reúne lideranças de terreiros, casas e centros religiosos da cidade, com a missão de propor políticas públicas para as religiões de matriz africana e atuar no combate à intolerância religiosa. Entre seus projetos está o mapeamento das casas de religião da cidade, feito em diálogo com o levantamento estadual conduzido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

À frente do Conselho está Pai Rodrigo de Bará, babalorixá e uma das principais lideranças religiosas da cidade. Foi dele a iniciativa que, em 2024 surgiu a ideia da proposta de reconhecer uma orixá como padroeira do município. “Se a história da cidade já é representada por um santo da tradição católica, também seria legítimo que uma orixá representasse as religiões de matriz africana”, comentou Pai Rodrigo de Bará ao justificar a ideia.

A proposta foi debatida internamente entre lideranças e praticantes das religiões de matriz africana que integram o órgão, até ser votada e definida a orixá que representaria o município. Depois, o processo seguiu os trâmites institucionais: elaboração de um projeto de lei fundamentado na Constituição Federal e em instrumentos como o Estatuto da Igualdade Racial, encaminhamento ao vereador Paulo Coitinho e tramitação pela Câmara de Vereadores, passando pelas comissões de Constituição e Justiça e de Orçamento e Finanças. Segundo Coitinho, não houve contestações relevantes ao projeto ao longo de sua tramitação.

Antes da votação final, o próprio povo de terreiro se mobilizou para ampliar o debate: promoveu diálogos diretos com os vereadores e realizou uma consulta pública nas redes sociais, que reuniu mais de 500 votos e pouquíssimas manifestações contrárias. “Reconhecer a presença de uma orixá como padroeira representava, sobretudo, reconhecer a contribuição histórica, cultural e religiosa das comunidades de matriz africana para a formação do município”, resume Pai Rodrigo.

Por que Oxum foi escolhida para ser a padroeira da cidade

No dia 16 de setembro de 2024, a Câmara de Vereadores aprovou a Lei Municipal nº 7.363, proclamando a orixá Oxum, ao lado de São Francisco de Paula, padroeira de Pelotas. Foi a primeira vez que uma divindade das religiões de matriz africana passou a integrar oficialmente os símbolos que representam o município.

A escolha não foi aleatória. Para as lideranças religiosas ouvidas ao longo do processo, Oxum, orixá das águas doces, da fertilidade e do ouro, dialoga diretamente com a identidade de uma cidade cercada de água e conhecida por seus doces. “A orixá Oxum dialoga muito com o nosso município: ela é a orixá da doçura, das águas, da fertilidade”, resume o vereador Paulo Coitinho. Já a historiadora Francisca Jesus, estudiosa da presença negra em Pelotas, lembra que a tradição doceira da cidade também tem raízes negras: “quem mexia os tachos eram as mulheres negras, quem fazia as adaptações nas receitas eram as mulheres negras”, afirma, destacando que essas mulheres eram detentoras de uma verdadeira “tecnologia da culinária” trazida da África.

Para Pai Rodrigo, a força simbólica da escolha vai além da religião. “Não é apenas uma homenagem religiosa: ela vem com um resgate histórico para valorizar as religiões africanas”, afirma. É uma leitura compartilhada por Francisca Jesus, para quem reconhecer Oxum como padroeira “é um processo de reparação civilizatória que a cidade nos deve”.

Fé que também é política

Mais do que uma data no calendário oficial, o reconhecimento de Oxum é descrito pelas lideranças ouvidas como um marco de reparação histórica. “Pelotas é uma cidade negra. A gente fala muito que Pelotas tem construções e prédios históricos que são europeus. Não, na verdade eles são negros, porque quem construiu, quem moldou, quem formou foram os negros”, afirma Pai Leonardo de Oxum, babalorixá e secretário-geral do Conselho Municipal do Povo de Terreiro.

A yalorixá Yá Sandrali, filha de Oxum, reforça que o reconhecimento veio na forma de lei, e não de decreto, o que garante permanência: “pode passar a gestão que for, o prefeito que for, isso não vai mudar.” Para ela, a conquista também diz respeito ao lugar da religiosidade afro-brasileira na vida pública da cidade: “a espiritualidade também é política, e a política também é espiritualidade”, explica, lembrando que a política nunca esteve de fato separada da religiosidade em Pelotas apenas vinculada, durante muito tempo, exclusivamente à tradição cristã.

Hoje, entre a Procissão do Bará, as festas para Iemanjá, os monumentos espalhados pela cidade e um conselho próprio dentro da Prefeitura, as religiões de matriz africana em Pelotas ocupam, cada vez mais, um espaço que sempre foi delas por direito. Como resume Pai Leonardo, “a reparação histórica que a gente tanto fala só começa de verdade quando nós nos colocamos, quando nós vamos atrás do que realmente é nosso”.

Falas extraídas do acervo de entrevistas do documentário “Pelotas é de Oxum”, produzido como parte do Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

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