O Natal de Poirot – Uma resenha para o livro que mais me surpreendeu
Por Pedro de Almeida / Em Pauta
Quando ganhei de uma prima um livro que veio de brinde em um pedido feito por antigos catálogos de compra, não imaginei que encontraria uma das minhas leituras favoritas.
O Natal de Poirot é empolgante e imersivo. A trama apresenta Simeon Lee, um patriarca milionário com pitadas de sadismo na personalidade, um marcante nariz aquilino e altamente manipulador com a própria família. Isso, por si só, já nos traz um suposto spoiler sobre quem seriam os possíveis suspeitos de um crime já previsto, tratando-se de Ágatha Christie.
Por pura diversão um tanto cruel, ele reúne seus herdeiros mais distantes na Mansão Gorston para as festividades de final de ano. Quem olha pode pensar que, no final da vida — e o começo da leitura até nos faz entender isso —, ele quer estar mais perto das pessoas e busca conciliação. Mas, na verdade, o objetivo não é o perdão ou a união. Seu foco é semear ainda mais discórdia, humilhar os filhos e alterar o seu testamento.
O contexto do livro traz um ambiente apertado, com um clima claustrofóbico que atinge o limite máximo quando um estrondo e gritos aterrorizantes, como os de um porco sendo carneado, ecoam pelos corredores da casa.
O anfitrião é encontrado com a garganta cortada em um quarto completamente bagunçado, em cima de uma poça de sangue. O detalhe mais intrigante é que a porta estava trancada por dentro. Ou seja: como ele foi morto em um quarto fechado por dentro? Teria o assassino fugido pela janela?
Para resolver o caso, o brilhante detetive Hercule Poirot, presença bastante frequente nos romances policiais da autora, estava nas redondezas passando o feriado com o chefe da polícia local. Diante disso, cabe a ele assumir o caso. O detetive belga logo descobre que absolutamente todos na mansão possuíam motivos evidentes para o crime, algo que percebemos desde os primeiros momentos.
Apesar de ser evidente que cada um ali tinha motivos para odiar a vítima, não seria tão óbvio assim que fosse um deles… ou seria? Cada membro da família, além dos convidados enigmáticos, escondia ressentimentos profundos e segredos inconfessáveis, que virão à tona à medida que não conseguirem mais escondê-los dos atentos ouvidos de Poirot. A autora aproveita isso para espalhar pistas sutis com a maestria de sempre, construindo uma teia complexa de falsos suspeitos e álibis bastante convenientes.
Intrigante como sempre, a narrativa instiga a mente ao dissecar a psicologia sombria dos personagens em vez de focar apenas no ato letal. A gente consegue mergulhar nas suspeitas que cada um tinha e na maneira como seus próprios repertórios e julgamentos levavam a visões diferentes sobre o desfecho.
A revelação do assassino quebra todas as convenções do gênero policial clássico e manipula perfeitamente a confiança do leitor. É nesse surpreendente plot twist final que a Rainha do Crime atinge o ápice da sua genialidade narrativa. O foco da reviravolta recai de forma impiedosa sobre o Superintendente Sugden, a autoridade encarregada de solucionar o crime.
Até então, não se sabia de nenhuma ligação dele com a família. E aí entra uma coisa que deveríamos ter suspeitado no começo do livro, mas que em nenhum momento é diretamente mencionada: na realidade, ele é o filho ilegítimo de Simeon Lee, fruto de — segundo a autora — erros do passado e motivado por uma vingança fria. A ironia macabra de ter o assassino conduzindo as investigações oficiais escondeu a dura verdade bem debaixo do nosso nariz.
Sendo um policial corrupto, ele forjou o momento exato do homicídio enquanto possuía testemunhas ao seu redor. O barulho da suposta luta e os gritos de agonia foram uma ilusão sonora mecânica, muito bem fabricada previamente por ele próprio. O excesso de sangue na cena do crime serviu como uma distração teatral bizarra para mascarar, com precisão cirúrgica, a sua ação.
Agatha Christie prova o quão fácil é subverter a bússola moral da história, transformando o grande representante da lei no algoz. Isso faz um contato direto com a história como um todo. O patriarca que deveria proteger e cuidar, na verdade, humilhava sua família. Talvez seja uma história não de romance, mas de karma policial. O impacto esmagador dessa revelação muda instantaneamente a perspectiva sobre todas as evidências apresentadas até o momento.
Poirot desmonta essa ilusão de ótica criminal ao notar contradições minúsculas no comportamento e na aparência física de Sugden. A semelhança familiar ocultada — afinal, no final das contas ele também herdou o famoso nariz aquilino do pai! — e os pequenos lapsos no roteiro ensaiado do policial foram as únicas rachaduras em seu plano perfeito.
A resolução não deixa pontas soltas. As peças do quebra-cabeça se encaixam com uma lógica afiada e realista. O autorretrato de um crime insolúvel torna-se, página após página, uma das armadilhas intelectuais mais primorosas da literatura. O livro nos ensina que o aconchego de uma lareira natalina pode encobrir facilmente os corações mais gélidos e vingativos. É uma obra-prima de leitura obrigatória que vai instigar a sua imaginação por muito tempo.


