O Ministério da Relações Exteriores manifestou-se oficialmente em 9 de setembro de 2025, repudiando veementemente declarações da porta-voz da administração estadunidense, Karoline Leavitt, que aventaram a possibilidade de utilização de meios militares e econômicos contra a República Federativa do Brasil sob a justificativa de proteção à “liberdade de expressão” (Ministério das Relações Exteriores, 2025).
O pronunciamento ocorreu em coletiva de imprensa, quando questionada sobre o posicionamento dos Estados Unidos frente ao julgamento do ex-Presidente Jair Bolsonaro, réu perante o Supremo Tribunal Federal (STF),
É notório que a ingerência dos Estados Unidos na referida decisão se ancora, de forma estrutural, no controle da informação, concebida não apenas como veículo de circulação de dados, mas como instrumento de poder sobre o que é veiculado e sobre os interesses globais e geopolíticos que deles derivam. De maneira análoga, as sanções econômicas operam como ativos estratégicos, projetados para impactar diretamente o Brasil e reforçar sua dependência em relação ao aparato estadunidense. A liberdade de expressão, neste contexto, manifesta-se como uma modalidade suplementar de controle da informação, cuja pretensa universalidade contrasta com a incapacidade estrutural dos Estados Unidos de exercer domínio absoluto sobre o fluxo informacional global, expondo a vulnerabilidade de seu poder simbólico e a dependência recíproca que caracteriza sua posição dentro da hierarquia do sistema-mundo.
No dia anterior à divulgação do posicionamento oficial pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil, cujo teor delineou a posição diplomática do país e atendendo à iniciativa do Chefe de Estado brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, foi convocada e realizada uma Cúpula Extraordinária do BRICS em formato virtual, congregando os principais líderes dos Estados membros e parceiros estratégicos do bloco com o propósito de articular agendas conjuntas e consolidar o diálogo político-econômico em âmbito multilateral (BRASIL, 2025).
Participaram: o Presidente da Federação Russa, Vladimir Putin; o Presidente da República Popular da China, Xi Jinping; o Presidente da República da África do Sul, Cyril Ramaphosa; o Presidente da República Árabe do Egito, Abdel Fattah el-Sisi; o Presidente da República Islâmica do Irã, Masoud Pezeshkian; o Ministro da Defesa da Indonésia, Prabowo Subianto; e o Príncipe Herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohammed bin Zayed Al Nahyan. A República da Índia foi representada pelo Ministro das Relações Exteriores, Subrahmanyam Jaishankar, e a República Federal da Etiópia pelo Vice-Ministro das Relações Exteriores, Misganu Arega (BRICS, 2025).
Sob essa perspectiva, a soberania financeira digital, — pauta da reunião extraordinária, abrange tanto o aspecto econômico quanto o informático, pois o controle do fluxo de dados equivale ao controle monetário. Vulnerabilidades cibernéticas em pacotes ou protocolos podem gerar perdas instantâneas, enquanto auditorias em tempo real e monitoramento de logs asseguram liquidez supervisionada e resiliente, constituindo cada transação em um contrato de segurança e valor.
Nesse sentido, o Sistema De Pagamentos Instantâneos brasileiro, o Pix, tem se destacado internacionalmente como um modelo de inovação financeira, sendo reconhecido com o Prêmio World Summit Award Brasil 2025 nas categorias Acessibilidade Digital e Negócios e Comércio (SINTRACIMENTO, 2025). Inspirando-se nesse modelo, a Federação Russa, após a promulgação da Lei Federal nº 259-FZ de 2025, voltada à implementação do rublo digital, adota mecanismos baseados no QR code instantâneo do Pix e nos sistemas de pagamento chineses, como WeChat Pay e Alipay, com o objetivo de modernizar sua infraestrutura financeira e ampliar a autonomia monetária digital (RUSSIAN FEDERATION, 2020).
No âmbito da integração financeira cibernética continental e global a África vem avançando em direção à soberania financeira digital, com iniciativas como o PAPSS (Pan African Payment and Settlement System), instituído sob a Área de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA), com a União Africana orientando a Afreximbank e o secretariado da AfCFTA a expandir sua cobertura para todo o continente, em vigor desde 13 de janeiro de 2022, o qual permite pagamentos transfronteiriços instantâneos em moedas locais e reduz a dependência de sistemas de pagamento estrangeiros (UNIÃO AFRICANA, 2019). Países africanos também utilizam sistemas de pagamento digital consolidados, como o M-Pesa, cuja eficácia para inclusão financeira em regiões com infraestrutura bancária limitada tem sido amplamente reconhecida (BANCO DE MOÇAMBIQUE, 2023). No contexto dos BRICS, Rússia, China e Índia desenvolvem moedas digitais próprias — rublo, yuan (e-CNY) e e-rupee — e iniciativas como o BRICS Pay buscam consolidar uma normativa legal e operacional que permita, em futuro próximo, a realização de transações internacionais em moedas locais, promovendo a autonomia econômica regional e reforçando a soberania financeira digital de cada Estado-membro.
Deve-se consignar que o modelo financeiro norte-americano, utilizado globalmente, apresenta implicações críticas para os países do BRICS no que tange à segurança de pessoas jurídicas e físicas, bem como à proteção de investimentos e ativos financeiros. A persistente exposição a vulnerabilidades cibernéticas, característica dos modelos tradicionais que dependem de múltiplos intermediários bancários e instituições de liquidação financeira, constitui um vetor de risco para a soberania financeira nacional e corporativa. Estruturas hierarquizadas e fragmentadas, típicas do sistema de clearing interbancário, apresentam vulnerabilidades, detalhadas a seguir:
- Ataques de ransomware direcionados a instituições financeiras e operadores de pagamento – capazes de interromper fluxos financeiros essenciais e comprometer dados sensíveis de clientes, impactando diretamente a liquidez e a confiança no sistema (GOV.BR, 2025).
- Phishing e engenharia social – exploração de lacunas nos protocolos de autenticação, com potencial para apropriação indevida de fundos corporativos, violação de contas e comprometimento da integridade operacional (METACOMPLIANCE, 2023; BRICS 2025).
- Vulnerabilidades de infraestrutura e sistemas legados – a integração de soluções digitais modernas com plataformas obsoletas aumenta o risco de intrusões cibernéticas, ataques distribuídos de negação de serviço (DDoS) e interrupções de continuidade operacional (CRP COMPUTADORES, 2025).
- Riscos associados à intermediação financeira global – especialmente a liquidação em dólares via correspondent banking, sujeita a sanções extraterritoriais, concentração de poder em instituições norte-americanas e potencial manipulação geopolítica de fluxos financeiros (SWIFT, 2024).
Infere-se, porquanto a hegemonia de dados e informações perpassa o cenário econômico, na medida em que a conversão de dados em valores monetários consagra a informação digital como ativo financeiro instantaneamente líquido, rastreável e operável algoritmicamente, subordinado aos fluxos de circulação econômica. Destaca-se, nesse contexto, a crescente adoção de sistemas de pagamento instantâneos, que, além de praticidade e maior segurança, consolidam-se como instrumento da projeção tecnológica e financeira de um país. Quando aliados a normativas e regulamentações nacionais, como já praticam os países do BRICS dentro de seus limites territoriais e em caráter transfronteiriço, tais sistemas constituem uma expressão de soberania digital e financeira, capaz de acelerar o declínio do dólar e a hegemonia monetária de Washington. Ressalta-se, ainda, que é estratégico que cada Estado consolide seu próprio sistema de pagamento nacional, garantindo autonomia financeira mesmo para além da integração proporcionada pelo BRICS Pay.
Referências
MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES. Pronunciamento oficial sobre declarações da porta-voz estadunidense Karoline Leavitt. Brasília, 9 set. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br.
LIMA, Francisco Artur de. Itamaraty repudia ameaças militar e econômica dos EUA contra o Brasil. Correio Braziliense, 9 set. 2025. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/politica/2025/09/amp/7245186-itamaraty-repudia-ameacas-militar-e-economica-dos-eua-contra-o-brasil.html.
AYRES, Marcela. Brazil’s central bank enhances security of the financial system. Reuters, 5 set. 2025. Disponível em: https://www.reuters.com/world/americas/brazils-central-bank-enhances-security-financial-system-2025-09-05/.
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SINTRACIMENTO. Pix leva prêmio internacional e coloca Brasil em destaque global. 16 set. 2025. Disponível em: https://sintracimento.org.br/2025/09/16/pix-leva-premio-internacional-e-coloca-brasil-em-destaque-global/.
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FATF – GAFI. Guidance on Correspondent Banking Services. 2022. Disponível em: https://www.fatf-gafi.org/en/publications/Fatfrecommendations/Correspondent-banking-services.html.
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Banco de Moçambique. Relatório de Inclusão Financeira 2023. 2023. Disponível em: https://www.bancomoc.mz/media/b2sgulnx/relat%C3%B3rio-de-inclus%C3%A3o-financeira-2023.pdf.
BRICS Pay. Sistema de Pagamento BRICS. 2024. Disponível em: https://www.brics-pay.com/.
* Victoria de Aquino é pesquisadora do LabGRIMA
