Arroz orgânico ganha terreno na safra gaúcha
Assentamento Filhos de Sepé concentra maior produção de arroz orgânico da América Latina em Viamão/RS
Emily do Amaral, Otávio de Mattos e Rafaela Silveira / Em Pauta
A cidade de Viamão, na Região Metropolitana de Porto Alegre, é considerada a capital nacional do Arroz Orgânico. É no Assentamento Filhos de Sepé, ligado à Coooperativa dos Produtores Orgânicos de Reforma Agrária de Viamão (Coperav), que está a maior área contínua de produção de arroz orgânico da América Latina. Lá, cerca de 1,600 hectares são dedicados a este cultivo, envolvendo cerca de 150 famílias.
A base dessa produção está na agroecologia e na busca por autonomia produtiva. Segundo o sócio fundador da Coperav, Huli Zang, um dos principais desafios dos assentamentos sempre foi a dependência externa de sementes. “O desafio é ter a produção própria. Esse projeto surge justamente para garantir autonomia, com qualidade e diversidade de materiais”, afirma. A parceria com a Embrapa é central nesse processo. A cooperação permite acesso a materiais genéticos e acompanhamento técnico contínuo, o que, na avaliação de Zang, traz segurança para avançar.
Mais do que ampliar a produção, o projeto aposta na diversificação como estratégia de mercado. “A gente não trabalha só com o ‘arroz agulhinha’. Estamos investindo em arrozes integrais, coloridos e especiais, como o vermelho e o para sushi, justamente para atender nichos diferentes”, explica. Segundo ele, enquanto o arroz tradicional segue abastecendo programas institucionais, como a alimentação escolar, as variedades especiais abrem espaço em feiras e mercados diferenciados.
Outro ponto destacado por Zang é a inovação no manejo. A adoção do sistema de mudas, com uso de equipamentos importados, representa uma mudança importante na lógica produtiva. “A gente buscou novas tecnologias, fez mudas e transplantou. Isso já mostra resultado na lavoura, tanto em desenvolvimento quanto em qualidade”, relata.
No campo da pesquisa, o acompanhamento da Embrapa Clima Temperado, com sede em Pelotas/RS, reforça a base técnica da iniciativa. O pesquisador Elbio Cardoso chama atenção para o conjunto de cultivares avaliadas, que inclui desde grãos longos finos, mais comuns no consumo brasileiro, até variedades especiais, como arroz japonês e vermelho. Para ele, o diferencial dessas cultivares está na adaptação ao sistema orgânico. “São materiais com boa tolerância a doenças, especialmente à brusone, e com alta eficiência produtiva mesmo em ambientes com menor fertilidade”, explica. Isso reduz a necessidade de insumos externos e torna o sistema mais sustentável.
Cardoso também destaca o potencial econômico da diversificação. “Os nichos de mercado, como arroz vermelho, preto ou japonês, agregam valor. Em áreas menores, como é o caso da produção orgânica, isso permite maior rentabilidade ao produtor”, afirma. Ele ressalta ainda que esses produtos podem ser comercializados tanto em cadeias curtas, como feiras, quanto em mercados maiores, ampliando as oportunidades.
A adoção do sistema de mudas também é apontada como um avanço técnico relevante. “Quando você transplanta uma planta já desenvolvida, ela tem um arranque mais rápido e compete melhor com as invasoras. Isso melhora o controle de plantas daninhas e a qualidade da produção de sementes”, detalha o pesquisador. Em sistemas agroecológicos, onde não se utilizam herbicidas, esse fator é decisivo. Para Cardoso, a inovação do projeto está justamente na integração de diferentes tecnologias. “Não é uma solução isolada. É a soma de cultivares adaptadas, uso de mudas e mecanização específica, permitindo que os próprios agricultores avancem na autonomia da produção de sementes”, avalia.
A combinação entre conhecimento científico, inovação tecnológica e organização coletiva tem transformado o assentamento em referência. Mais do que produzir alimentos, a experiência aponta caminhos para uma agricultura mais sustentável e economicamente viável.
Ao final da cadeia, a Coperav garante que esse trabalho chegue ao consumidor com qualidade: a cooperativa atua do campo à mesa, realizando o beneficiamento do arroz em sua própria indústria. O processo industrial também segue os princípios da agroecologia: não há geração de resíduos, e todos os subprodutos são reaproveitados, reforçando o modelo produtivo sustentável em todas as etapas.



