Taim, um país banhado de vida

Projeto de pesquisadores do Curso de Arqueologia da UFPEL identifica 39 sítios arqueológicos na região do Taim

Pesquisadores da UFPEL fazem trabalho arqueológico na região do Taim

Carlos Dominguez / Em Pauta

Banhado é um terreno plano e cheio de água, no vocabulário casual dos moradores do Rio Grande do Sul. Há milhares de anos, a região hoje conhecida como banhado do Taim era o território de uma população significativa para a imensidão de horizontes. Os moradores, ancestrais dos Minuanos e Charruas erguiam estruturas elevadas onde faziam suas habitações, locais de alimentação, atividades espirituais das mais variadas. Uma parte desta realidade pré-histórica vem sendo redescoberta nas areias da Estação Ecológica do Taim, uma reserva ambiental federal que manteve uma imensa área preservada, cerca de 32.7 mil hectares, tanto no aspecto ambiental como arqueológico.

-Já identificamos 39 sítios arqueológicos e, até agora, pesquisamos em não mais de 28% da região. Estamos conseguindo redimensionar a intensidade da ocupação humana do local – afirma Rafael Milheira, arqueólogo e coordenador do projeto Arqueologia dos Cerritos em unidades de conservação no Sul do Brasil.

Escavações ocorrem em locais isolados da planície costeira

A pesquisa arqueológica da Universidade Federal de Pelotas começou há dois anos e é financiada pela Fapergs/Cnpq. Nos últimos dias de março uma equipe de 15 pesquisadores, entre professores, alunos de pós-graduação, graduação e servidores federais trabalharam na Estação Ecológica do Taim, parque nacional criado em 1986, entre os municípios de Rio Grande e Santa Vitória do Palmar. Na região de banhados, campos, lagoas, praias arenosas e dunas litorâneas – Bioma Marinho Costeiro – vivem capivaras, jacaré e muitas aves, inclusive migratórias: colheireiro, cisne branco, flamingos, maçaricos. Já foram identificadas muitas espécies de animais – 30 delas, mamíferos. Toda esta abundância de fauna e de ecossistemas diferentes contribuíram em muito para a fixação das populações no local.

– Tem muita comida por aqui. Estamos verificando quais sítios eram de moradia e quais eram de obtenção de alimento. Há milhares de anos, a geografia era um pouco diferente. Haviam mais canais e lagoas. Nestes pontos, tinha muita disponibilidade de comida. Dá para pensar que as muitas lagoas eram como um supermercado – brinca Rafael, próximo a “trincheira” que a equipe de campo abriu em um terreno elevado, circundado de mata esparsa típica, figueiras e outras árvores, e diversas lagoas e banhados.

Retirada de material para análise em laboratório da UFPEL é feita de forma metódica

O primeiro passo na pesquisa de campo é identificar onde poderiam existir sítios arqueológicos, os cerritos. Auxilia sempre na prospecção buscar os terrenos mais elevados na planície. Também a existência de buracos de tatu servem, muitas vezes, como bons indicadores.

– Os tatus indicam onde existe matéria orgânica enterrada – diz Milheira, enquanto aponta um buraco feito pelo animal próximo a escavação arqueológica.

O trabalho é minucioso. Depois de identificados os pontos mais promissores, começa a retirada lenta e gradual da terra superficial, com pequenas pás, “colher de pedreiro” e pincéis e trinchas. O buraco quadrangular vai sendo aberto até poder ser verificada a camada de conchas que surge cerca de 30 centímetros abaixo da superfície.

– Nesta camada é onde encontramos mais material arqueológico. Tem conchas, cerâmica, ossos, carvões. Retiramos amostras que vão para a universidade para serem triadas e identificadas – explica Marcos César Pereira Santos, professor visitante que participa das pesquisas do Lepparq, Laboratório de Ensino em Pesquisa em Arqueologia e Antropologia da UFPEL.

Além de muitas espécies vegetais, o local é repleto de vida. As capivaras são presença constante próximo aos locais de escavação. Simplesmente circulam em pequenos bandos, buscando as lagoas para se refrescar e, até, namorar alheio a presença humana rara e esporádica. Características de áreas bem preservadas.

Atividades de pesquisa exigem remoção do solo

No local trabalham cerca de 7 pessoas, todas de coletes verde limão, chapéus e proteção contra o sol inclemente do dia quente de março. Estão ali os mais diversos utensílios e ferramentas para cavar, separar, medir, anotar, registar as amostras que serão posteriormente encaminhadas para o laboratório. Pás, carrinho de mão, baldes, peneiras e uma parafernália de ferramentas específicas compõem os equipamentos do grupo que naquele dia estava retirando as últimas amostras do local. Depois, os 5 profundos buracos teriam de ser fechados para deixar o ambiente o mais próximo ao que estava antes de ser explorado. O local é escavado até o ponto onde se pode verificar que não é mais terra acumulada por trabalho humano, em cerca de 80 cm de profundidade.

Arthur da Rosa, 22 anos, aluno do 5 semestre do curso de Biologia fazia sua estreia no trabalho de campo arqueológico. O estudante trabalha com o estudo de polens – palinologia – uma especialização que une biologia e arqueologia e está fazendo estágio nesta pesquisa.

– Por meio das amostras de polens, podemos identificar as espécies vegetais que existiram aqui a milhares de anos – explica Artur.

Artur da Rosa, estudante de biologia, faz sua primeira participação no projeto

Assim como o pólen, as pesquisas arqueológicas têm enfoques diversos. Existem estudos com rochas, conchas, solo, espécies vegetais e animais, madeira e carvões, e, claro, artefatos produzidos por seres humanos como cerâmicas e utensílios como pontas de flecha além de adereços como contas para colares. Este mosaico de evidências permitem que se faça um panorama de como seria a vida das populações pré-históricas que habitavam aquela região e toda a imensa planície costeira do Rio Grande do Sul. Um dos achados nos sítios arqueológicos são os denominados enterramentos, ou seja, locais onde indivíduos foram sepultados.

– Encontramos sepultamentos aqui no Taim. Inclusive próximo ao local há também ossos de um cavalo. Ainda temos muitas coisas para verificar, mas existem relatos de chefes charruas que eram enterrados com seus cavalos. Para avançar temos de fazer datações destes material, o que demora, pois no Brasil só existe praticamente um laboratório que faz este processo – explica Rafael Milheira, antes de voltar para auxiliar os colegas que estavam retirando amostras dos locais.

O céu incrivelmente azul com algumas nuvens brancas agrupadas que aliviam os raios de sol iluminam uma paisagem de contrastes e horizontes infinitos. Pequenos grupos de vegetação baixa e fechada em tons de verde somam-se a plantas diferenciadas dos banhados, cercados por lagoas pequenas e canais por onde a água, em épocas de cheia, transformam a região em um imenso lago. Paraíso dos jacarés que circulam em um número bem elevado pela região do Taim.

Um local de alimentação farta em caça e pesca. Ainda hoje. Sem lavouras mecanizadas a natureza mantém sua diversidade que é ameaçada pelas monoculturas de soja e arroz, florestas artificiais para produção de madeira e celulose, pecuária extensiva. Tudo que é mantido do lado de fora da área protegida. Só que as demarcações de terras são coisa muito recente nos “campos neutrais”, denominação da área que separava os impérios portugueses e espanhóis na época colonial. Porém, para Minuanos e Charruas e seus antecessores milenares, as “fronteiras” não tinham nenhum significado. A planície litorânea era ocupada pelas etnias indígenas há milhares de anos.

– Esta área específica já não é mais a reserva do Taim. Aqui é um espaço particular. Negociamos o trabalho direto com a empresa proprietária – explica o coordenador do projeto.

Próximo a área de escavação, uma figueira centenária observa o estranho movimento.

Seus galhos grossos e barbados de “barbas de bode” cinzentas criam uma janela emoldurada pelas trepadeiras que vivem nos imensos galhos da imensa árvore. Seus galhos rentes ao chão e copas cerradas oferece abrigo para as capivaras. Pode-se ver onde se aninham, com o terreno marcado e sem vegetação. Algumas ossadas de animais mortos indicam que algum carnívoro pode ter passado por ali também. O ciclo de morte e nascimento ignora a presença humana, quando possível. Estudar como eram os ciclos dos habitantes ancestrais desta região única é essencial para que a espécie humana consiga sobreviver tanto como as figueiras.

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