A era das telas chegou à Toy Story

O filme da pixar coloca um tablet no centro do conflito e abre um debate que pais, professores e pesquisadores já travam há anos.

Por Adriana Cunha e Inácio Amorim

 

O Cartaz de divulgação do filme no cinema cineflix do shopping, Pelotas. Imagem: arquivo pessoal / Em Pauta.

Bonnie tem oito anos e não consegue mais fazer amigos. Enquanto as outras crianças da vizinhança vivem coladas nas telas dos celulares, ela ainda brinca com seus brinquedos — um comportamento que, no mundo do quinto filme da franquia Toy Story, já virou sinal de exclusão social. A solução encontrada pelos pais é a mesma que milhares de famílias brasileiras tomam todos os dias: um tablet.

No enredo de “Toy Story 5”, esse tablet tem nome e voz. Chama-se Lilypad — dublada por Maísa — e consegue criar mundos virtuais inteiros que prendem a atenção de Bonnie e a afastam dos brinquedos que ela amava. O que parece ser uma solução para o isolamento da menina vai se revelando, lentamente, uma nova forma de prisão. O tablet promete conexões rápidas, mas joga Bonnie em um ambiente hostil de pressões e cyberbullying.

O brinquedo que ninguém mais quer

Toy Story 5 parte de uma constatação que o diretor Andrew Stanton descreveu, em entrevista à revista Empire, como “a realização de um problema existencial: ninguém mais está brincando com brinquedos de verdade”. O filme ecoa um debate que pesquisadores e educadores brasileiros travam há anos, com urgência crescente.

Para Alan Ricardo Costa, professor de Linguística Aplicada na Universidade Federal de Roraima (UFRR), o filme acerta ao recusar o caminho fácil do pânico moral. “A mensagem parece ser outra: restringir a infância às telas significa empobrecer a experiência de ser criança. A brincadeira, a imaginação, o contato com outras crianças, a exploração do mundo… são coisas que não podem ser substituídas pela mediação de uma tela”, avalia o professor.

A leitura de Costa dialoga diretamente com o que a crítica identificou na narrativa. O filme evita o maniqueísmo: em vez de uma guerra declarada entre o analógico e o digital, a trama propõe um alerta sobre o uso excessivo de telas e a erosão da imaginação tradicional. A chegada do tablet Lilypad poderia facilmente transformar o filme em uma crítica simplista à tecnologia, mas a narrativa evita esse caminho confortável.

Ciran Kaled Gonçalves Carvalho, estudante de Pedagogia da UFPel, lembra de uma aula em que o professor perguntou à turma se alguém conhecia a cantiga “Olê, olê, mulher anda”. Quase ninguém sabia. E quando a turma visitou uma brinquedoteca infantil, descobriu que as crianças também não conheciam. “A própria família acaba substituindo brinquedos e atenção dos filhos pelo celular”, relata o estudante. Ele cita um dado que, embora ainda sem confirmação oficial, já circula nos debates de educação: a Hasbro, uma das maiores fabricantes de brinquedos do mundo, teria entrado em recuperação judicial por queda nas vendas — diretamente ligada à substituição dos brinquedos físicos pelos dispositivos digitais. “As crianças hoje já não têm mais o conhecimento do que é um pião”, diz o estudante. “E o único local onde aprendem isso acaba sendo na escola.”

Fernanda Degas, doutoranda em Estudos de Linguagens na UFMS e pesquisadora de tecnologia e educação, vê consequências concretas dessa mudança. “As telas vêm atrofiando as capacidades das crianças, não só de aprendizado, mas também de socialização. Elas estão menos sociáveis, mais aceleradas, querem tudo para ontem, não aguentam escrever um texto. Hoje, mais de cinco linhas, não aguentam ler”, afirma. “Isso prejudica não somente a área do conhecimento, mas também a saúde e a socialização.”

Jessie sabia o que estava perdendo

No filme, é Jessie quem assume o protagonismo. Isso faz sentido: a vaqueira sempre foi uma personagem marcada pelo abandono, pela troca e pelo medo de ser deixada para trás. Não existe ninguém melhor para conduzir uma história que fala justamente sobre adaptação.

A jogada mais acertada do filme está em deslocar o centro de gravidade. Woody e Buzz continuam presentes, mas a história pertence, desta vez, à cowgirl, que já entrou nessa família ferida por um abandono antigo. Dar-lhe o protagonismo permite duas coisas ao mesmo tempo: aprofundar uma personagem que vivia à margem e ligar a sua cicatriz pessoal à pergunta que o filme quer mesmo fazer: o que é brincar, e o que se perde quando se deixa de saber brincar?

A pergunta ressoa além das telas. Carolina Larrosa de Oliveira Claro, professora e mãe de Dom, de seis anos, reconhece o retrato. “Eu sinto que os pais dessa geração não fazem isso [sentar e assistir junto]. Porque é muito cômodo deixar uma criança na frente da televisão e ir fazer as suas coisas, agilizar alguma coisa do trabalho, providenciar alguma coisa da casa”, diz. Ela cita um dado que o filme também encena: os próprios pais de Bonnie lançam avisos de longe enquanto, provavelmente, estão diante de outras telas.

O filho de Larrosa, Dom, com o brinquedo do filme, Woody. Imagem: Carolina Larossa de Oliveira Claro.

“A vida hoje é muito mais corrida. As mulheres antigamente pegavam o filho, levavam para a pracinha. As mulheres de hoje trabalham. E a casa, quem cuida? Elas”, questiona Carolina. A tela como babá não é um julgamento moral. É, muitas vezes, o único recurso disponível.

O professor Alan Ricardo Costa invoca Paulo Freire para situar o debate. “A tecnologia não é, por si só, um problema. Ela pode expandir, em lugar de reduzir, a capacidade crítica e criativa das crianças”, defende. “A questão fundamental permanece a mesma que Freire colocava nos anos 90: a tecnologia está a serviço de quem? De quê? Com qual finalidade?”

O professor Alan Ricardo Costa. Imagem: Alan Ricardo Costa.

O filme encontra essa mesma resposta. Ao revelar que Lilypad foi originalmente criada com propósito de aprendizagem, a narrativa sugere que a tecnologia não é inimiga das crianças — desde que haja supervisão de um adulto. É exatamente o que acontece quando as pessoas ao redor de Bonnie passam a lhe dar atenção.

Mas o alerta permanece. Costa faz um apontamento que o filme também encena: “Quando vemos uma criança brincando sozinha em seu quarto, costumamos associar essa cena à ideia de proteção. Só que, em razão das tecnologias atuais, isso talvez não seja verdade. Se ela está conectada à internet, talvez não esteja ‘sozinha’ como imaginamos.” Bonnie, no filme, enfrenta exatamente isso: pressões e cyberbullying vindos de um ambiente que seus pais acreditavam ser seguro.

Para Degas, a saída passa por letramento, e não por proibição. “Os pais, em sua grande maioria, não estão preparados, porque veem a tecnologia como inimiga. Tem muito aquele discurso contra. E não ‘como vamos remediar a situação?'”, avalia. O próprio desfecho do filme recusa a solução fácil: Lilypad não é destruída, banida ou derrotada em batalha. A lição não é nostálgica — é sobre como coisas que amamos precisam encontrar novos papéis para continuar relevantes.

O fim da era dos brinquedos — ou uma nova era?

Toy Story 5 parece desejar construir uma espécie de dialética entre brinquedos e tecnologia: de um lado, a materialidade afetiva dos objetos que dependem da imaginação; de outro, a eficiência hipnótica dos aparelhos que prometem conexão, entretenimento e pertencimento social. É um conflito que não tem resolução fácil — nem nas telas do cinema, nem nas salas de aula brasileiras.

Carolina tem uma estratégia própria. “Regulei o tempo e, principalmente, o que ele está vendo”, conta sobre o filho. Na casa dela, YouTube está vetado. A escolha recai sobre streaming com curadoria: Disney, Netflix, Amazon. “Eu já tenho por hábito criar um momento com ele. Eu sento e vejo aquilo com ele.”

O filme segue em cartaz em julho. Imagem: arquivo pessoal / Em Pauta.

É um luxo que nem todos os pais têm. E é a questão que o filme levanta e deixa, propositalmente, sem resposta. Como uma sociedade que exige cada vez mais das famílias pode, ao mesmo tempo, cobrar que essas famílias protejam o tempo de brincar dos filhos?

Costa tem uma resposta que aponta para além das quatro paredes do quarto de Bonnie. “Como podemos construir uma relação saudável com as telas? Isso envolve as famílias, claro, também as escolas, mas principalmente as políticas públicas. Precisamos pensar de forma coletiva nas crianças”, finaliza.

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