A era da “Eugência”: a exaustão oculta dos profissionais que precisam ser criadores de conteúdo
De arquitetos a médicos e empresários, a pressão para manter redes sociais ativas diariamente gera uma epidemia silenciosa de burnout e dismorfia de produtividade.
Por Pedro de Almeida / Em Pauta
Tu estuda anos para se formar em Arquitetura, Odontologia ou Psicologia. Ou, então, investe todas as economias para abrir o próprio negócio. No entanto, o mercado atual manda um recado implacável: ser excelente na sua área técnica já não é suficiente. Hoje, o profissional moderno foi empurrado para a era da “eugência” — o fenômeno de se tornar uma agência de comunicação de uma pessoa só.
A regra parece clara: quem não é visto nos Stories ou não entra nas tendências de vídeos curtos, perde espaço. Contudo, a necessidade de gravar, editar, gerenciar comunidades e, simultaneamente, atender clientes tem cobrado um preço alto na saúde mental desses trabalhadores.
Para a arquiteta Taine, a exigência de dominar a comunicação digital além da própria profissão se transformou em um peso na rotina. “Me sinto muito frustrada”, desabafa. “O que frustra é ter que estar o tempo inteiro mostrando e criar uma narrativa para que as pessoas entendam o valor. Muitas vezes isso acaba nos tirando o tempo de estar estudando a nossa própria área.”
Dismorfia de produtividade e adoecimento
O cansaço relatado por profissionais como Taine tem nome: Dismorfia de Produtividade. É a sensação constante de que, não importa o volume de clientes atendidos no dia, o trabalho não foi feito se não houve postagem nas redes sociais.
Os números confirmam o esgotamento. Pesquisas focadas na Economia de Criadores apontam que cerca de 90% dos produtores de conteúdo já relataram sintomas de Burnout. O quadro se torna ainda mais grave no Brasil, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), possui a maior taxa de transtornos de ansiedade do mundo. Colocar uma população já vulnerável sob o regime de exposição diária e aprovação algorítmica criou a tempestade perfeita.

Empresária N[ívea Saraiva afirma que as pessoas se conectam com pessoas e o meu negócio precisava dessa personificação;
Fugir dessa realidade, porém, raramente é uma opção para quem empreende. A empresária Nívea Saraiva confessa que a transição para se tornar a “cara” de seu negócio esteve longe de ser confortável. “Eu sempre fui muito dos bastidores, da gestão. Me expor e virar o rosto da marca era algo que eu não gostava de fazer”, relata. “Foi um desafio enorme, uma barreira que eu tive que quebrar na marra, porque eu entendi que as pessoas se conectam com pessoas e o meu negócio precisava dessa personificação.”
Como equilibrar a balança?
Para especialistas do mercado digital, o grande erro de profissionais liberais e empreendedores é tentar competir pela atenção do público como se fossem influenciadores em tempo integral.
O foco exagerado e exclusivo no Instagram é uma das armadilhas. Especialistas em marketing ressaltam a necessidade de descentralizar a estratégia, utilizando o ambiente digital como um todo — incluindo sites otimizados, avaliações no Google e uso de tráfego pago.
A recomendação é clara: a tecnologia deve trabalhar para o profissional, seja através de automações ou anúncios, para que o conteúdo não vire um fardo infinito e a pessoa possa voltar a focar naquilo que realmente domina.



