O estado de guerra sem território: ciberespaço e a busca por poder e soberania por Victória de Aquino

A Japan Cyber Defense criou  primeira plataforma soberana de cibersegurança do país.

A Japan Cyber Defense, mediante financiamento inicial de ¥1 bilhão proveniente de fundos privados do Incubate Fund, MPower Partners e DBJ Capital, lançou a MIJXDR — Made in Japan Extended Detection and Response, primeira plataforma soberana de cibersegurança do país, desenvolvida em conformidade com as diretrizes governamentais de proteção da infraestrutura crítica e da segurança econômica nacional (PR Times, 2025; Kyodo News PR Wire, 2025; IT Business Today, 2025). Integrando monitoramento contínuo e automação por IA, o sistema permite detecção e resposta imediata a incidentes, fortalecendo a governança e a soberania tecnológica japonesa.

Em razão da intensificação das operações cibernéticas ofensivas por Coreia do Norte, Rússia e China, e da militarização do ciberespaço como domínio de conflito, o Japão vem reorientando sua política de defesa e ampliando investimentos em capacidades autônomas, como drones e tecnologias emergentes.

De fato, estima-se que entre 90% e 95% das ferramentas de cibersegurança empregadas no Japão sejam importadas, predominantemente dos Estados Unidos e de Israel (ISIC Japan, 2025; JETRO, 2025). Essa forte dependência tecnológica externa tem sido motivo de preocupação estratégica e jurídica para o governo japonês, sobretudo no contexto da sua nova Estratégia de Segurança Nacional (2022) e da Lei de Promoção da Segurança Econômica (2022) (METI, 2024).

No plano internacional, cumpre destacar que, em pronunciamento proferido em Singapura, em maio, o Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, exortou os aliados asiáticos, incluindo o Japão, a elevar os investimentos em defesa para 5% do PIB, enfatizando a necessidade de compartilhamento de encargos em consonância com a política de segurança regional dos EUA (Hegseth, 2025).

Em consonância com tal orientação estratégica, o Governo do Japão alocou ¥312,8 bilhões para o aperfeiçoamento das capacidades defensivas baseadas em ativos não tripulados, dos quais ¥128,7 bilhões destinam-se ao desenvolvimento do sistema costeiro SHIELD (Synchronized, Hybrid, Integrated and Enhanced Littoral Defence), que integra operações multidomínio, incluindo cibernética, espaço e vigilância costeira (Ministry of Defense of Japan, 2025a; The Diplomat, 2025). O objetivo consiste em estabelecer, até o exercício fiscal de 2027, um sistema de defesa costeira em múltiplas camadas, sustentado por drones de baixo custo e produção em massa, compatível com os padrões tecnológicos internacionais.

Outrossim, em virtude da limitação da capacidade produtiva doméstica, o Japão prevê a importação de sistemas aéreos não tripulados estrangeiros, estratégia que se articula com esforços de cooperação tecnológica e transferência industrial (Ministry of Defense of Japan, 2025b). Nesse contexto, o Ministro da Defesa, Gen Nakatani, realizou visita oficial à Turquia, inspecionando instalações de fabricação de drones, com vistas à avaliação de parcerias estratégicas e potencial de produção tecnológica compartilhada (The Japan Times, 2025).

Em 2022, o Japão consolidou a infraestrutura institucional de defesa cibernética mediante a criação da Unidade de Defesa Cibernética das Forças de Autodefesa, incumbida de centralizar as contramedidas digitais militares, e da Divisão de Gerenciamento de Segurança de Equipamentos, vinculada à Agência de Aquisição, Tecnologia e Logística, responsável pela proteção cibernética de equipamentos e contratados. Paralelamente, o orçamento dedicado à cibersegurança registrou um incremento expressivo, passando de ¥34,2 bilhões em 2022 para ¥264,3 bilhões em 2023, reiterando a prioridade estratégica crescente.

Entre 2022 e 2023, o número de incidentes de “acesso suspeito à Internet” cresceu de 7.708 para 9.144, afetando infraestruturas críticas — portos, companhias aéreas, sistemas hospitalares e redes bancárias —, evidenciando a fragilidade estrutural diante da sofisticação das ameaças (National Center of Incident Readiness and Strategy for Cybersecurity [NISC], 2024). A crescente integração da inteligência artificial em ofensivas digitais e a condição de aliado estratégico dos Estados Unidos em um possível conflito envolvendo Taiwan e China acentuam a complexidade do cenário.

Dada sua posição geopolítica sensível entre China, Rússia e Coreia do Norte, o Japão tem sido compelido a reformular sua política de defesa e a ampliar os investimentos em segurança, sobretudo no domínio cibernético. Contudo, em virtude da doutrina Yoshida e da Constituição pacifista, que veda o uso ofensivo da força, o país permanece juridicamente limitado quanto à adoção de medidas de natureza ativa.

Nos últimos anos, o país tem sido alvo de ataques cibernéticos de natureza diversa — desde operações de espionagem e sabotagem de infraestrutura até incidentes de ransomware e subtração de criptoativos (National Center of Incident Readiness and Strategy for Cybersecurity [NISC], 2024). Tais restrições constitucionais, ademais, restringiram a amplitude de sua cooperação com aliados em matéria de segurança cibernética e em operações de caráter multidomínio. Ainda que a recente Lei de Defesa Cibernética Ativa (Active Cyber Defense, ACD) tenha autorizado a coleta de dados de ameaças, a neutralização remota e a intensificação da cooperação público-privada, a consolidação de uma postura proativa continua circunscrita por barreiras constitucionais, culturais e regulatórias, o que restringe a plena eficácia operacional das Forças de Autodefesa (Ministry of Defense of Japan, 2025c). Consigna-se ainda que a nova previsão autoriza a coleta de dados de fontes estrangeiras, ampliando o compartilhamento de informações entre aliados e fortalecendo o potencial de cooperação dissuasória com os Estados Unidos (Cabinet Secretariat, Government of Japan, 2023).

A médio prazo, a integração tecnológica com os Estados Unidos e aliados do Indo-Pacífico — especialmente Índia, Coreia do Sul e membros da OTAN e AUKUS — deverá expandir o espectro de cooperação cibernética multilateral, inaugurando um sistema de dissuasão digital cooperativa sustentado por inteligência artificial, computação quântica e redes de nuvem soberanas.

Prevê-se, ademais, a criação de centros regionais de excelência cibernética sob liderança japonesa, voltados à formação e retenção de talentos, ao desenvolvimento de algoritmos de defesa adaptativa e à construção de capacidades autônomas de ciberinteligência. Essa evolução tecnológica deverá transformar o Japão em um polo normativo e técnico de referência em segurança cibernética no Indo-Pacífico, capaz de equilibrar a influência digital da China e mitigar a ofensiva russa e norte-coreana no domínio informacional. Por fim, a consolidação de um modelo híbrido de defesa, combinando instrumentos jurídicos, tecnológicos e diplomáticos, tende a inaugurar uma nova era de soberania cibernética japonesa, marcada pela superação das restrições constitucionais herdadas do pós-guerra e pela afirmação de uma estratégia tecnológica proativa, alinhada às exigências de segurança do século XXI.

 

REFERÊNCIAS

IT BUSINESS TODAY. Japan Cyber Defense Raises ¥1B in Seed Funding Round. 12 nov. 2025. Disponível em: https://itbusinesstoday.com/tech/cybersecurity/japan-cyber-defense-raises-%C2%A51b-in-seed-funding-round/. Acesso em: 13 nov. 2025.

KYODO NEWS PR WIRE. Japan Cyber Defense Launches “MIJXDR,” Japan’s First Sovereign Cybersecurity Platform. 11 nov. 2025. Disponível em: https://www.kyodo.co.jp/pr/2025-11-11_3973616/. Acesso em: 13 nov. 2025.

PR TIMES. 日本サイバーディフェンス株式会社、シリーズA資金調達完了および「MIJXDR」発表 ― 日本初のソブリン・サイバーセキュリティ・プラットフォーム. 11 nov. 2025. Disponível em: https://prtimes.jp/main/html/rd/p/000000008.000160651.html. Acesso em: 13 nov. 2025.

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METI — MINISTRY OF ECONOMY, TRADE AND INDUSTRY. サイバーセキュリティ強化に向けた産業政策の現状と課題. 5 mar. 2024. Disponível em: https://www.meti.go.jp/press/2024/03/20250305001/20250305001.html. Acesso em: 13 nov. 2025.

MARUBENI CORPORATION. Marubeni and CyberGym Partner to Expand Cybersecurity Training Solutions in Japan and Asia. 10 jan. 2022. Disponível em: https://www.marubeni.com/en/news/2022/release/00094.html. Acesso em: 13 nov. 2025.

JETRO — JAPAN EXTERNAL TRADE ORGANIZATION. Cybersecurity and Technology Cooperation between Israel and Japan. 2025. Disponível em: https://israeru.jp/business/cybertechnology/. Acesso em: 13 nov. 2025.

ISIC JAPAN — ISRAEL STARTUP INNOVATION CENTER. Israel Cyber Delegation to Japan 2025. 24 mar. 2025. Disponível em: https://isic-japan.org/israel-cyber-delegation-to-japan/

HEGSETH, Pete. Remarks by Secretary of Defense Pete Hegseth at the 2025 Shangri‑La Dialogue in Singapore (as delivered). Singapura, 31 maio 2025. U.S. Department of Defense. Disponível em: https://www.war.gov/News/Speeches/Speech/Article/4202494/remarks-by-secretary-of-defense-pete-hegseth-at-the-2025-shangri-la-dialogue-in/

CABINET SECRETARIAT, Government of Japan. Cybersecurity Policy of Japan 2023: Multidomain Operations and Alliances. Tokyo, 2023. Disponível em: https://www.cas.go.jp/jp/seisaku/cybersecurity2023.pdf. Acesso em: 14 nov. 2025.

MINISTRY OF DEFENSE OF JAPAN. Active Cyber Defense (ACD) Implementation Plan FY2025. Tokyo, 2025. Disponível em: https://www.mod.go.jp/en/d_act/d_cyber/ACD_plan_fy2025.pdf. Acesso em: 14 nov. 2025.

NATIONAL CENTER OF INCIDENT READINESS AND STRATEGY FOR CYBERSECURITY (NISC). Annual Cyber Threat Report 2024. Tokyo, 2024. Disponível em: https://www.nisc.go.jp/en/publications/annual2024.pdf

*Victória de Aquino é pesquisadora do LabGRIMA.

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