Brasil-ASEAN: diversificação de parcerias e cooperação tecnológicas em tempos de disputas globais por Glauco Winkel

Nos últimos dias, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva participou da 47ª Cúpula da ASEAN, realizada em Kuala Lumpur, na Malásia, a convite do presidente da cúpula e primeiro-ministro malaio, Anwar Ibrahim. Essa foi a primeira vez que um presidente brasileiro participou do encontro (Brasil, 2025a).

Antes da visita ao país, o chefe de Estado brasileiro esteve na Indonésia, país-membro do BRICS+, que aderiu ao grupo durante a presidência brasileira (2025–2026) do arranjo de países do Sul Global. Na ocasião, foram assinados diversos acordos e celebrado o aniversário de 80 anos de Lula, comemorado conjuntamente com o presidente Prabowo Subianto, que também aniversaria em outubro. O clima da viagem foi marcado por leveza e cordialidade, refletindo uma clara aproximação entre ambos os líderes.

Posteriormente, em visita à Malásia, Lula firmou novos acordos bilaterais com o primeiro-ministro Anwar Ibrahim. O presidente foi novamente recebido com uma festa de aniversário oficial, reforçando o tom amistoso e simbólico da visita.

Na Indonésia, destacou-se o Fórum Empresarial Brasil–Indonésia, realizado em Jacarta, que promoveu discussões sobre uma série de acordos estratégicos, principalmente voltados ao agronegócio brasileiro. Durante o encontro, os presidentes assinaram um Memorando de Entendimento sobre Medidas Sanitárias e Fitossanitárias, abrindo espaço para novas exportações agrícolas, como a carne bovina (Brasil, 2025b). 

Outro ponto relevante da visita foi o compromisso mútuo de resolver rapidamente a disputa na Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a importação de produtos avícolas, considerando o forte protecionismo indonésio nesse setor — uma controvérsia que remonta a 2014, quando o Brasil acionou a Indonésia na OMC por barreiras sanitárias e fitossanitárias que impediam a entrada do frango brasileiro, mesmo após missões técnicas e decisões favoráveis ao país (Brasil, 2019).

Também foi assinado um Memorando de Entendimento para Cooperação em Minerais Críticos, Energia Limpa e Cadeias de Suprimento de Transição Energética (Brasil, 2025b). A Indonésia, que responde por mais da metade da produção mundial e detém as maiores reservas conhecidas de níquel — mineral essencial para baterias de veículos elétricos —, consolidou sua posição global ao restringir exportações brutas e priorizar o processamento interno do metal, prática conhecida como downstream processing (ou processamento a jusante), dentro de uma política de forte caráter protecionista (Zarur, 2025). 

O Brasil, por sua vez, possui o segundo maior volume de terras raras do planeta (U.S. Geological Survey, 2025). Nesse contexto, o memorando abre espaço para um maior diálogo bilateral voltado ao desenvolvimento tecnológico e à transferência de conhecimento, especialmente relevante diante do cenário protecionista indonésio, que, embora busque fortalecer a soberania nacional sobre recursos estratégicos, pode também limitar o avanço prático da cooperação internacional nesse setor.

Lula e Subianto compartilharam, ainda, duas pautas de convergência relevantes. A primeira é a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, iniciativa fundada por ambos os países, cujas políticas de alimentação escolar indonésias foram inspiradas em programas brasileiros. A segunda diz respeito ao apoio da Indonésia à Declaração de Belém sobre Fome, Pobreza e Ação Climática, incluindo o comprometimento com a COP30 em Belém, o Fundo das Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) e o Chamado à Ação para a Gestão Integrada do Fogo (Brasil, 2025b). 

Brasil, Indonésia e República Democrática do Congo concentram a maior parte das florestas tropicais do planeta e, desde 2022, discutem a formação de uma aliança estratégica — informalmente chamada de “Opep das Florestas Tropicais” — voltada à coordenação de políticas de conservação e financiamento climático (Greenfield, 2022). Esse alinhamento reforça o caráter estratégico e ambientalmente cooperativo das relações entre Brasil e Indonésia, ampliando sua relevância no debate global sobre desmatamento e transição ecológica.

No caso da Malásia, a visita teve caráter histórico, por ser a primeira de um presidente brasileiro ao país desde 1995. Lula recebeu o título de Doutor Honoris Causa em Desenvolvimento Internacional e Sul Global pela Universidade Nacional da Malásia e firmou uma série de acordos estratégicos nas áreas de ciência, tecnologia e inovação, semicondutores, tecnologia da informação e cooperação acadêmica (Brasil, 2025c). 

Destaca-se, ainda, a negociação em curso para a criação de uma joint venture entre a empresa brasileira Tellescom e uma parceira malaia no setor de semicondutores — iniciativa que busca fortalecer a indústria de chips e reduzir a dependência tecnológica externa. Segundo a ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, o projeto está em fase de construção e envolve cooperação com o MIMOS (Centro Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento da Malásia), uma das instituições participantes dos acordos firmados durante a visita presidencial (Fernandes, 2025). A parceria integra o contexto de retomada do Ceitec, estatal brasileira reativada para impulsionar a produção nacional de semicondutores e ampliar a soberania tecnológica do país.

Esse cenário é particularmente relevante, pois, embora os acordos comerciais ainda privilegiem commodities agrícolas e minerais — cruciais ao Brasil diante das recentes sanções tarifárias norte-americanas —, observa-se uma ênfase inédita na cooperação tecnológica. Tal movimento é estratégico tanto para o Brasil quanto para o Sudeste Asiático, região que busca reduzir sua dependência em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e avançar em tecnologias de ponta, como os semicondutores, fundamentais para a inteligência artificial e outras inovações emergentes.

Dado o exposto, percebe-se que, por um lado, as relações com a Indonésia, embora ainda revelem a presença significativa do agronegócio nas exportações brasileiras, passam também a incorporar novos eixos de cooperação, especialmente nos campos tecnológico e energético. Essa ampliação reflete o esforço do Brasil em diversificar suas parcerias internacionais, aproximando-se de países do Sul Global, como a Indonésia, que, tal como a ASEAN, busca igualmente expandir suas alianças estratégicas em meio a um contexto de confrontos tarifários e tensões geoeconômicas — especialmente após as tarifas impostas pelos Estados Unidos durante o governo Trump, que também afetaram as economias do Sudeste Asiático.

Ressalta-se, contudo, que essa aproximação não representa um afastamento do Brasil em relação aos Estados Unidos, mas sim a consolidação de uma estratégia dual de política externa: diversificar parcerias, sobretudo no eixo asiático, sem comprometer o diálogo com Washington. A presença simultânea de Lula e Donald Trump na Cúpula da ASEAN ilustra essa lógica de equilíbrio e pragmatismo diplomático, na qual o Brasil busca maximizar ganhos tecnológicos e econômicos por meio da cooperação com múltiplos polos de poder. 

Nesse sentido, o atual movimento de reaproximação com a ASEAN constitui um passo positivo, e sua continuidade mostra-se essencial mesmo diante de um eventual refluxo das tensões tarifárias e de uma melhora nas relações com os Estados Unidos, tendo em vista o potencial de ganhos tecnológicos e estratégicos mútuos para o Brasil e seus parceiros.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Brasil recorre à OMC contra barreira da Indonésia ao frango brasileiro. Brasília: Ministério da Agricultura e Pecuária, 14 jun. 2019. Disponível em: https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/noticias/brasil-recorre-a-omc-contra-barreira-da-indonesia-ao-frango-brasileiro. Acesso em: 30 out. 2025.

BRASIL. Comunicado Conjunto – Progresso da Parceria Estratégica Brasil-Indonésia. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 23 out. 2025b. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/comunicado-conjunto-progresso-da-parceria-estrategica-brasil2013indonesia. Acesso em: 30 out. 2025.

BRASIL. “Estar aqui é reafirmar a importância das relações do Brasil com o Sudeste Asiático”, diz Lula sobre participação na Cúpula da ASEAN. Brasília: Gov.Br, 26 out. 2025a. Disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2025/10/201cestar-aqui-e-reafirmar-a-importancia-das-relacoes-do-brasil-com-o-sudeste-asiatico201d-diz-lula-sobre-participacao-na-cupula-da-asean. Acesso em: 30 out. 2025.

BRASIL. Visita do Senhor Presidente da República à Malásia. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 24 out. 2025c. Disponível em: https://www.gov.br/mre/pt-br/canais_atendimento/imprensa/notas-a-imprensa/visita-do-senhor-presidente-da-republica-a-malasia. Acesso em: 30 out. 2025.

FERNANDES, Marco. Brasil e Malásia planejam criar empresa conjunta para a produção de chips. São Paulo: Brasil de Fato, 27 out. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/10/27/brasil-e-malasia-planejam-criar-empresa-conjunta-para-producao-de-chips/. Acesso em: 30 out. 2025.

GREENFIELD, Patrick. Brazil, Indonesia and DRC in talks to form “Opec of rainforest”. Londres: The Guardian, 5 nov. 2022. Disponível em: https://www.theguardian.com/environment/2022/nov/05/brazil-indonesia-drc-cop27-conservation-opec-rainforests-aoe. Acesso em: 30 out. 2025.

U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Mineral Commodity Summaries 2025: Version 1.2, March 2025. Virginia: USGS, mar. 2025. Disponível em: https://pubs.usgs.gov/periodicals/mcs2025/mcs2025.pdf. Acesso em: 30 out. 2025.

ZARUR, Camila. How Indonesia became the world’s nickel powerhouse. Nova Iorque: Valor International, 7 set. 2025. Disponível em: https://valorinternational.globo.com/business/news/2025/07/09/how-indonesia-became-the-worlds-nickel-powerhouse.ghtml. Acesso em: 30 out. 2025.

* Glauco Winkel é pesquisador sobre China e Sudeste Asiático no Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA) e pesquisador associado no Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI).

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