Já vivemos em Black Mirror

Na sexta temporada da série, o episódio Loch Henry se afasta da premissa distópica e mostra como a sociedade é prejudicada pelas tecnologias do presente.

Por Isabela Spieker / Agência Em Pauta

Pôster de divulgação do episódio. Imagem: Divulgação/Netflix.

O mês de junho foi muito aguardado pelos “seriadores” de plantão. Após quatro anos de espera, Black Mirror retorna à Netflix em sua sexta temporada. O que os telespectadores não imaginavam, era a virada de chave na trama da série, que deixa de focar nas distopias e passa a criticar o comportamento da sociedade atual.

Intitulado Loch Henry, o segundo episódio da série acompanha a história de Davis (Samuel Blenkin) e Pia (Myha’la Herrold), casal de cineastas que retornam à cidade natal de Davis para a gravação de um documentário sobre um homem que protege ovos do comércio ilegal. No entanto, após descobrir sobre a existência de Iain Adair, serial killer que assombrou a cidade nos anos 1990, Pia decide mudar a temática do filme, transformando-o em uma história de true crime sobre os assassinatos da localidade.

Diferente das outras temporadas, o capítulo não apresenta grandes futurismos. Episódios famosos como Be Right Back, Arkangel e Hang the DJ se destacam pela presença de tecnologias que embora pareçam próximas, ainda não existem no mundo atual. Enquanto isso, Loch Henry se concentra sobre uma premissa mais simples, mostrando a problemática de aparelhos que já fazem parte de nosso cotidiano.

A principal influência da tecnologia nesse episódio está relacionada ao uso de câmeras filmadoras. Tanto o casal se apoiou sobre esse instrumento para a gravação de seu documentário, quanto os criminosos utilizaram o artefato para registrar seus atos de tortura em fitas VHS. Loch Henry critica a necessidade humana de registrar e compartilhar todos os momentos da vida, expondo as consequências irreversíveis desse hábito.

Davis em meio às gravações do documentário. Imagem: Nick Wall/Netflix.

O ponto alto do capítulo está centrado na banalização do crime como forma de entretenimento. Quando Pia abandona a pauta do colecionador de ovos para produzir uma obra criminal, ela relata que a temática cativaria o público por ter “detalhes tão horríveis que a tornam irresistível”. Errada ela não estava. O documentário é comprado pelo streaming Streamberry, conquista um prêmio Bafta e leva os turistas de volta à cidade.

O modo como a série critica os fãs de true crime também se destaca. Ao final da produção vemos vários figurantes se vestindo de forma semelhante aos assassinos, demonstrando a obsessão e falta de empatia das pessoas, que parecem esquecer dos familiares das vítimas.

“Sempre houve fascinação por crimes, eles são mesmo interessantes. Mas temos visto cada vez mais obras tratando isso como se fosse um grande espetáculo. Estamos falando de pessoas reais, não de personagens” – Charlie Brooker, criador e roteirista de Black Mirror.

Turistas usam máscaras semelhantes aos assassinos. Imagem: Reprodução/Netflix.

Em alguns momentos pude sentir a Netflix não só fazendo críticas ao gênero de true crime, mas às suas próprias produções. Em setembro do ano passado, o streaming lançou a minissérie “Dahmer: Um Canibal Americano”, que narra a história e os crimes cometidos pelo assassino Jeffrey Dahmer. Embora a obra tivesse o intuito de dar voz e eternizar as vítimas, o resultado obtido foi diferente. O primo de Errol Lindsey, morto aos 19 anos pelo americano, revelou que a série serviu apenas para “retraumatizar” sua família. Mesmo com todas as críticas, o título se tornou um dos maiores sucessos da plataforma, vencendo um Globo de Ouro e diversas indicações ao Emmy.

Loch Henry retrata os fatos de forma semelhante à Dahmer. Por mais que o documentário de Davis e Pia tenha sido um grande sucesso, chegando às premiações internacionais, o garoto acaba com um enorme vazio emocional por ter de reviver aqueles fatos diariamente. É um produto de questionamento sobre o preço da fama e do sucesso no cenário de true crime.

Por se tratar de Black Mirror, às vezes criamos expectativas altas demais. Embora o episódio tenha críticas bem-feitas, bela cenografia e uma reviravolta interessante, seu roteiro não é dos mais inovadores. Apesar de tudo, ele cumpre a proposta de expor o lado feio das tecnologias e prova que vivemos em uma sociedade mais “Black Mirror” do que pensávamos.

 

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