Feiras: espaços de convivência, cultura e desenvolvimento 

A união entre artesãos, produtores e poder público impulsiona melhorias na infraestrutura e reforça o papel das Feiras de Artesanato em fortalecer a economia local, preservar tradições e impulsionar pequenos empreendedores em Rio Grande

 Carolina Mattos / Em Pauta

As feiras valorizam o trabalho dos pequenos empreendedores e aproximam a comunidade de quem produz localmente. Imagem: Helen Brandão especial/ Em Pauta

Muito além da comercialização de produtos, as feiras de artesanato desempenham um papel fundamental na valorização da economia local, da cultura e das relações comunitárias. São espaços onde criatividade, empreendedorismo e tradição se encontram, aproximando quem produz de quem consome e transformando histórias de vida em oportunidades de geração de renda.

Em Rio Grande, esse movimento ganha um novo capítulo com a qualificação do Recinto de Feiras do Cassino, um investimento de R$ 396 mil, viabilizado por meio de emenda parlamentar, que irá ampliar o espaço, melhorar a acessibilidade, instalar nova iluminação e criar novas bancas para atender o crescimento dos empreendedores locais.

A conquista representa um marco para dezenas de artesãos e pequenos produtores que encontraram nas feiras uma forma de sustento, inclusão social e fortalecimento da economia popular.

Espaços que movimentam a economia e aproximam pessoas

As feiras livres são uma das formas mais antigas de comércio e continuam sendo essenciais para o desenvolvimento das cidades. Mais do que um local de compra e venda, elas criam vínculos entre produtores e consumidores, preservam tradições e incentivam o consumo de produtos locais.

Para os pequenos empreendedores, esses eventos significam uma oportunidade de apresentar seus produtos diretamente ao público, sem intermediários, reduzindo custos e permitindo que o valor investido permaneça circulando na própria comunidade.

Ao mesmo tempo, quem visita as feiras encontra alimentos frescos, produtos artesanais exclusivos, peças produzidas manualmente e uma experiência que vai muito além da simples aquisição de mercadorias. O contato direto entre feirante e consumidor cria relações de confiança e valoriza o trabalho desenvolvido por famílias que transformaram o artesanato em profissão.

Em uma época em que o comércio eletrônico cresce cada vez mais, as feiras mantêm vivo o atendimento personalizado, a conversa, a troca de experiências e o reconhecimento do trabalho manual como patrimônio cultural.

Uma conquista construída coletivamente

O projeto de revitalização do Recinto de Feiras do Cassino representa uma conquista importante para a Associação dos Feirantes da Feira da Alegria (AFFA), entidade que hoje reúne 78 artesãos e pequenos empreendedores, sendo aproximadamente 80% mulheres, muitas delas responsáveis pela principal fonte de renda de suas famílias.

Segundo a chefe do Gabinete de Projetos e Programas Especiais, Giovana Trindade, o projeto está sendo desenvolvido em diálogo com quem utiliza diariamente o espaço.”O cronograma previsto de obras é de 6 meses. Apresentamos o projeto para os feirantes no dia 25/05 e eles solicitaram algumas alterações. Nesse momento estamos trabalhando nessas alterações, que devem ser submetidas novamente a eles.”

A proposta prevê melhorias que vão além da estrutura física. O investimento contempla a ampliação do recinto, a criação de novas bancas, melhorias na iluminação e obras de acessibilidade, tornando o espaço mais confortável e inclusivo para trabalhadores e visitantes. Mais do que uma obra, o projeto simboliza o reconhecimento de um trabalho que vem sendo construído coletivamente pelos feirantes e a valorização de um setor que movimenta a economia criativa do município.

Mais do que uma nova estrutura, a conquista representa um passo importante para fortalecer pequenos negócios e valorizar quem produz no município. Foto: Helen Brandão

 

Da “Feira dos Excluídos” à Feira da Alegria

A história da AFFA é marcada pela união e pela persistência de seus integrantes. Tudo começou quando um grupo de 18 artesãos e pequenos empreendedores precisou deixar o espaço tradicional utilizado no canteiro central da Avenida Atlântica para dar lugar à Feira do Produtor Rural. Embora reconhecessem a importância do evento, os artesãos não aceitavam perder o único local onde podiam expor seus produtos.

Foi então que decidiram montar suas barracas no entorno da feira, criando um movimento que ficou conhecido como “Feira dos Excluídos”. A iniciativa chamou a atenção do poder público e abriu espaço para o diálogo. Como resultado, os empreendedores passaram a ocupar a Praça da Alegria, localizada entre as ruas Montevidéu e Rio de Janeiro, no Cassino, dando origem à atual Feira da Alegria.

Desde dezembro de 2024, o grupo realiza exposições todos os sábados pela manhã, reunindo artesanato, gastronomia, produtos coloniais, confecções, marcenaria, cutelaria, crochê, tricô e diversas outras manifestações da economia criativa.

O crescimento também transformou a própria associação. De um pequeno grupo de 18 expositores, a AFFA passou a reunir 78 associados, consolidando-se como uma organização voltada ao fortalecimento do empreendedorismo local e do empoderamento feminino.

Fortalecimento da economia popular

Para o presidente da Associação dos Feirantes da Feira da Alegria, Nelson Gonçalves Silva, o impacto das feiras vai muito além da geração de renda. Ele destaca que a AFFA se tornou um espaço de fortalecimento da economia popular, especialmente para mulheres que encontraram no empreendedorismo uma oportunidade de conquistar autonomia financeira.”Ao redor de oitenta por cento são mulheres, cerca de metade delas em situação de vulnerabilidade econômica. O estatuto da Associação tem um capítulo que exige da entidade uma posição forte em relação ao empoderamento da mulher. Observe que não se pode falar em poder feminino se você tem a vulnerabilidade econômica pressionando a mulher.”

Segundo Nelson, a convivência entre os feirantes também cria uma rede de apoio que beneficia todo o coletivo. Além de comercializarem seus próprios produtos, os empreendedores passam a conhecer, consumir e divulgar o trabalho uns dos outros, fortalecendo a economia solidária e ampliando as oportunidades de negócios.”A interação social que a economia popular e solidária traz para esse grupo proporciona que haja vendas entre feirantes, uns compram dos outros e, por consequência, conhecem e divulgam os produtos do coletivo.”

O presidente atribui ainda o crescimento da associação à diversidade de experiências dos próprios integrantes, que contribuem para a organização e o desenvolvimento de novos projetos.”Por trás de cada feirante existe uma pessoa com múltiplas experiências e profissões, temos dois jornalistas, designer, professoras, enfermeiras, estudantes de pós-graduação e até formandas em Direito. Com esse time multidisciplinar tem sido possível construir caminhos novos, criar uma comunicação atraente, gerar soluções práticas ricas em simplicidade e ao mesmo tempo eficientes.”

Para ele, a futura revitalização do Recinto de Feiras do Cassino simboliza o reconhecimento de uma trajetória construída coletivamente e marcada pelo diálogo entre poder público e feirantes.”Nós feirantes nos sentimos respeitados e prestigiados com a iniciativa. Além do sentimento de acolhida que a Prefeita nos traz, tem o fator do diálogo, pois o projeto está sendo discutido com aqueles que estarão fazendo uso dos equipamentos. Isso é relevante, isso é democrático.”

Artesanato que atravessa gerações

Entre os participantes das feiras de rua está a artesã Nilva, que aos 83 anos continua produzindo e expondo seus trabalhos, mostrando que a criatividade não tem idade. A paixão pelos trabalhos manuais nasceu ainda na infância, em um ambiente onde o artesanato fazia parte da rotina da família. Filha de uma costureira e neta de uma doceira, ela cresceu cercada por mulheres que transformavam habilidades manuais em arte e, desde cedo, passou a aprender os primeiros pontos de bordado.

Mesmo conciliando trabalho, estudos e a criação dos três filhos, Nilva nunca abandonou o artesanato, mantendo viva uma tradição que hoje compartilha com colegas e visitantes da feira.

Ela conta que a produção artesanal sempre foi um espaço de liberdade e criatividade, onde cada peça ganha uma identidade própria e reflete a personalidade de quem a produz. “Isso sempre me estimula, porque cada um faz o seu tempo. Se quer parar, para; depois recomeça. E, a cada nova peça, a gente vai imaginando mais coisas, criando e buscando fazer algo diferente do que já viu. É uma criatividade sem fim, muito pessoal.”

Aos 83 anos, Nilva mantém viva a paixão pelos trabalhos manuais e compartilha sua arte com quem passa pela Feira da Alegria. Foto: Carolina Mattos/ Em Pauta

Além da oportunidade de expor e comercializar seus trabalhos, Nilva destaca que as feiras proporcionam algo igualmente valioso: o encontro entre pessoas que compartilham conhecimentos e experiências.”Eu sempre gostei, e continuo gostando até hoje. Lá você faz muitas amizades, você troca sabedoria, você troca maneiras de fazer as coisas, fica conhecendo as pessoas através do seu trabalho.”

Para ela, manter-se ativa por meio do artesanato também é uma forma de estimular a memória, a imaginação e a qualidade de vida.”Isso ajuda você a não envelhecer demais, a ter ideias, a poder passar ideias, a mostrar o que você faz através das exposições.”

Apaixonada pelo tricô, crochê e, especialmente, pela técnica do tear de pente, Nilva acredita que cada trabalho é único e nasce da criatividade de quem o produz. Inspirada por linhas, tecidos e até materiais reaproveitados, ela transforma simples elementos em novas peças, sempre guiada pela imaginação. Sua presença na Feira da Alegria é um exemplo de como o artesanato atravessa gerações, preserva memórias afetivas e fortalece laços comunitários, inspirando outras pessoas a descobrirem seus próprios talentos e mostrando que a arte pode acompanhar toda uma vida.

Espaços que fortalecem a comunidade

Além de impulsionar pequenos negócios, a Feira da Alegria tornou-se um ponto de encontro para moradores e visitantes do Cassino. O espaço frequentemente recebe ações de saúde, atividades culturais e serviços públicos, transformando as manhãs de sábado em um ambiente de convivência, lazer e integração comunitária.

Com a futura ampliação do Recinto de Feiras, a expectativa é que mais empreendedores possam ocupar o local, ampliando as oportunidades de geração de renda e consolidando as feiras como importantes instrumentos de desenvolvimento econômico, valorização cultural e fortalecimento dos pequenos negócios em Rio Grande. Além de preservar tradições, esses espaços seguem incentivando a criatividade, promovendo inclusão social e demonstrando que o comércio local continua sendo um dos principais motores da comunidade.

 

Comentários

comments

Você pode gostar...