Corrida presidencial evidencia problemas no sistema eleitoral

Por Gabriel Bresque

O debate realizado pela Globo apresentou todos os problemas, feridas e dificuldades enfrentados pelo nosso sistema político em 2014. Mostrou também o quão pouco definidas estão as vias – direita, centro, esquerda, neo liberal, etc. – no cenário nacional. Com as falas parecidas, defesas constantes e falhas de argumentação, os principais candidatos se mostraram parecidos nos ataques e nas defesas e apresentaram pouca coisa nova.

Dilma, Marina e Aécio trocaram várias farpas. Foto: Reprodução (http://goo.gl/qCm4Y7)

Dilma, Marina e Aécio trocaram várias farpas. Foto: Reprodução (http://goo.gl/qCm4Y7)

Talvez o principal problema do debate tenha sido o modelo. Evidenciando a desproporcionalidade de chances entre os candidatos que existiu durante toda a corrida eleitoral. O excesso de presidenciáveis, entre eles dois praticamente nulos, impossibilitou uma divisão igual de perguntas e respostas. Depois do primeiro bloco, 3 candidatos estavam em 6 das 7 discussões de cada bloco. O resultado foi que, como em toda a campanha, os bons Eduardo Jorge e Luciana Genro mais assistiram do que falaram. Dilma Roussef, Aécio Neves e Marina Silva tiveram o palco para trocarem farpas, acusações e pouco transmitirem em termos de propostas factuais.

Novamente, Levy Fidelix e Pastor Everaldo se demonstraram grandes caricaturas de candidatos e representantes de uma parte da população que é cada vez menor no Brasil e que não corresponde com as ideias modernas que vão se instalando aos poucos por aqui. A favor deles, apenas o fato de se estabelecerem com uma opinião concreta, diferente dos 3 principais.

Levy Fidelix e Pastor Everaldo possuem ideias semelhantes. Foto: Reprodução (http://goo.gl/d5YB3o)

Levy Fidelix e Pastor Everaldo possuem ideias semelhantes. Foto: Reprodução (http://goo.gl/d5YB3o)

O debate foi induzido pelas pesquisas recentes. Caminho lógico se considerarmos a vantagem do terceiro colocado, Aécio Neves, para a quarta, Luciana Genro. Porém, é um defeito em um ambiente que procura a discussão de ideias e trabalha com a possibilidade de mudanças de opinião. Com isso, o grande buraco do nosso sistema aparece: o resultado se dá muito mais por popularidade do que por questões políticas. Apenas os candidatos considerados “azarões” trataram de temas polêmicos como o aborto e a legalização das drogas. Os principais, não precisam da polêmica que discutir esses temas podia trazer para eles. Assim, se mostraram efetivamente distantes delas e mais preocupados com os votos

Falando isoladamente de cada um, Dilma aparentou estar estressada e impaciente durante toda noite. Se defendeu dos ataques sofridos com palavras ríspidas e colocou Aécio Neves, seu principal concorrente no debate, em questionamento sobre os problemas de seu partido, o PSDB. O mineiro, fez o ataque a Petista sua principal pauta da noite. Até quando conversava com outros candidatos, fazia questão de pontuar os defeitos da atual administração. Seu objetivo era claro – queria se firmar como o único candidato contra o Partido dos Trabalhadores. Essa posição pode lhe garantir um lugar no segundo turno, conseguindo o apoio de última hora dos indecisos na luta contra o governo. Enquanto isso, Marina Silva foi mais uma vez passiva e demonstrou não conhecer seu próprio programa de governo. Trocou agressões com Luciana Genro quando foi questionada sobre suas convicções. Ao ficar frente a frente com seus 2 principais concorrentes enfraqueceu. Não teve coragem para enfrentar Aécio e teve apenas um momento com Dilma, quando questionou a experiência politica da atual presidente. Porém, na resposta seguinte, a Petista tratou de rechaçar qualquer dúvida.

Segundo a última pesquisa do Datafolha, Aécio Neves passa Marina Silva e é principal concorrente de Dilma Rousseff. Foto: Reprodução (http://goo.gl/jeRcV7)

Segundo a última pesquisa do Datafolha, Aécio Neves passa Marina Silva e é principal concorrente de Dilma Rousseff. Foto: Reprodução (http://goo.gl/jeRcV7)

Um destaque especial precisa ser feita para Luciana Genro. Desde o primeiro momento do debate demonstrou sua posição. Atacou a Globo e o sistema eleitoral por permitir a defasagem de cobertura que alguns candidatos, como ela, receberam nos últimos meses. Questionou o posicionamento de Aécio Neves em relação às denúncias de corrupção de seu partido e fez Dilma se perder em resposta sobre a crise na Petrobras, ainda na primeira parte do debate. Com Marina, apontou todas suas mudanças de opinião, especialmente no tratamento dos LGBT em seu programa de governo, modificado menos de 24 horas depois de ter sido liberado. Ainda no tópico dos direitos dos homossexuais, mais uma vez apontou os comentários absurdos de Levy Fidelix sobre essa questão. Quando o candidato do PSC acusou a Gaúcha de fazer apologia ao uso das drogas e ao aborto, ela pontuou sabiamente a questão social traçadas nessas questões e como a luta às drogas e aos direitos da mulher têm se mostrado falhos. Assim como Luciana, Eduardo Jorge do PV se mostrou incomodado com as ações de Levy, requisitando inclusive que ele pedisse desculpas ao povo brasileiro. Porém, mais tímido que nos debates anteriores e menos acionado que os principais, Eduardo teve poucos momentos de destaque na discussão.

Levy Fidelix passou o debate todo transtornado. Teve suas defesas derrubadas logo em sua primeira participação com Eduardo Jorge, e depois não conseguiu se recompor. Já Pastor Everaldo foi omisso, errou questões e, quando as acertou, criou debates sem nenhum ponto novo.

Muito se falou que o debate de ontem não apresentou nada novo e não passou de briga de egos. Mas acima de tudo ele apontou importantes questões sobre o nosso sistema eleitoral. Impossível falar desse debate sem pontuar a participação de Luciana Genro e Eduardo Jorge na disputa. Nanicos nas pesquisas, enormes nos debates. Ontem na Globo os dois foram os únicos que saíram do jogo de perguntas programadas para respostas programadas. A certeza de que eles não chegarão ao segundo turno apesar das boas performances nos debates, levanta a dúvida sobre a forma como a imprensa trata o período eleitoral. Apesar de seu valor em termos de interesse midiático, a cobertura precisa passar disso.

Para a população brasileira o domingo será uma nova oportunidade de exercer a cidadania e decidir os candidatos que irão para o segundo e vão ter a chance de, em uma disputa direta, mostrarem mais de seus planos de governos e conhecimento sobre os verdadeiros problemas da sociedade brasileira.

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