BOYHOOD – Da Infância à Adolescência

Por Graça Vignolo de Siqueira

Sinopse:

“O filme começa com a história de dois jovens, Mason (Ethan Hawke) e Olivia (Patricia Arquette) que têm um casal de filhos, mas não suportam mais viver juntos. Eles se separam e podemos ver a dificuldade que a mãe tem em lidar com essa responsabilidade. Mason (Ellar Coltrane) e Samantha (Lorelei Linklater) crescem em meio às dificuldades de sua mãe e seus vários relacionamentos. Essa narrativa percorre a vida de todos durante o período de doze anos, da infância à juventude dos filhos, analisando relação familiar e amadurecimento.”

O diretor e roteirista Richard Linklater começou as filmagens no verão de 2002. Ficou combinado que todos se encontrariam uma vez ao ano, durante 12 anos, para gravar o filme. O objetivo? Acompanhar o crescimento e amadurecimento do garoto Mason que começa o filme aos seis anos.

O filme nos prende de tal maneira, que mal vimos passar suas quase três horas de duração. Embora não se detenha em um fato específico, pois nos mostra as relações humanas e familiares, tudo é feito num tom de verdade, como um parente nos contando uma história.

É diálogo todo o tempo, mas sem ser maçante. São aqueles instantes que vivemos na escola, com os amigos, no quarto, numa festa, num acampamento ou até na janta a volta da mesa.

Linklater nos presenteou com a presença de sua filha, que também cresceu frente às câmeras, naturalmente. Não vemos nem nela, nem nos atores, ou no próprio Ellar em sua estreia, qualquer atuação forçada.
Ellar ainda apareceu em outro filme de Linklater, Nação Fast Food (2006), mas Lorelei só participou desse, até o momento.

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Durante o filme podemos perceber Ellar, ator e personagem, crescer, mudar a voz, ter o cabelo claro, curto, comprido, mais escuro, a voz que muda, o caminhar, as expressões. Lorelei também tem inúmeras mudanças, passando de gordinha a uma jovem magra, cabelos coloridos, com franja, mais compridos. As rugas surgem na face de Ethan e Patricia tem cabelos compridos, depois engorda, corta o cabelo, emagrece e o cabelo fica curtinho.

Todas essas mudanças são bem importantes em se tratando de cinema. É um novo jeito de continuar uma história? E mesmo que o diretor não quisesse entrar em discussão de questões existenciais, a experiência de acompanhar a todos nesse espaço de tempo foi corajosa e criativa.

Um dos pontos importantes é jogar na cara dos pais suas responsabilidades. Não pode ter filhos? Não os tenha. Afinal, Mason Jr. e Samantha sofrem as consequências das atitudes de seus pais.

As separações da mãe e suas escolhas erradas, o amadurecimento tardio do pai, as várias mudanças de casas e os amigos que ficaram para trás são marcas na personalidade de cada um dos filhos que jamais serão apagadas.

Além disso, o roteiro não ignora que adolescentes conhecem bebidas e drogas com seus melhores amigos e que religião e Deus devem ser ensinados desde cedo pela família.

Todos esses 12 anos vão passando sem aviso algum. Você só os percebe pela mudança física, da tecnologia, das formaturas, da ida à faculdade e do ninho vazio.

Já se encaminhando para o final há uma lição velada, quando mãe e filhos estão em um restaurante e reencontram um rapaz imigrante que há algum tempo fez um serviço de encanamento na casa deles e ouviu o conselho de Olivia de que largasse tudo e fosse estudar, pois precisava pensar no futuro.

Ele agradece muito e diz que a mãe deles é especial e que deveriam prestar mais atenção no que ela diz. Afinal, ele fez faculdade e hoje gerencia o grande restaurante.

Pais e mães não recebem um manual de instruções quando têm filhos e mesmo errando tentam acertar. E é por essa razão, que mesmo com todos os problemas enfrentados, Mason e Samatha são jovens que buscam melhorar intelectualmente. E vão para a faculdade atrás de seus sonhos.

Filmar durante 12 anos e manter quase em segredo foram desafios que Linklater encarou e saiu vencedor. Além disso, como poderia imaginar que daria certo? Mas é uma excelente obra, graças à naturalidade de tudo. Pessoas comuns, vidas comuns com dramas comuns.

Embora concorrendo a cinco estatuetas, Boyhood levou apenas a de Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette. Injustiça total. O roteiro e a direção exigiram muito mais de Linklater do que de Alejandro Iñárritu em seu Birdman.

E a trilha sonora? Maravilhosa. Acompanha o tempo passando, mas muito além de termos Coldplay, Britney Spears e Lady Gaga, Linklater nos brinda com Wings, Bob Dylan e The Beatles. Mágica pura.

Boyhood nos faz entender, conforme as palavras de Mason na cena final, de que somos o resultado de uma coleção de instantes mais ou menos memoráveis. A felicidade está em vivê-los intensamente acompanhando essas mudanças.

Uma obra prima. Nota dez por tudo.

Link para o trailer:

 

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