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Informe Nº 02

Neste segundo Informe, contatamos diversos representantes de organizações de agricultores familiares. Eis os resultados das conversas que tivemos com eles.

Introdução

O segundo informe pretende apresentar alguns resultados obtidos a partir de entrevistas realizadas com representantes das seguintes entidades: Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-RS), Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Cooperativa dos Apicultores e Fruticultores da Zona Sul (Cafsul), Cooperativa União de Canguçu, Centro de Apoio e Promoção da Agroecologia (Capa), Fórum da Agricultura Familiar da Região Sul do RS, Associação Regional dos Produtores Agroecologistas da Região Sul (ArpaSul), Cooperativa de Agricultores Familiares Sul Ecológica, Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), a Aura Verde Alimentos e a Associação Bem da Terra.

Atenção à saúde

De acordo com as informações levantadas, a questão da atenção à saúde, relacionada ao coronavírus, permanece, ainda, pouco evidenciada como uma preocupação dentre as organizações e atores consultados, o que pode estar associado a falta de informações recebidas dos órgãos públicos ou pela baixa percepção da gravidade do contexto imposto pela disseminação crescente do coronavírus, o qual tem se manifestado em maior gravidade nos centros urbanos. O fato é que os atores pesquisados não têm apontado a crise sanitária atual como um empecilho para a reprodução de suas atividades produtivas.

A questão da produção

A dimensão da produção, nesse contexto, tem sido afetada, de modo imediato, pela situação de seca enfrentada por muitos dos agricultores da região sul. Há relatos de dificuldades para compra de sementes e perdas significativas do volume produzido em algumas culturas, notadamente em relação à safra de milho. Em que pese as dificuldades e o baixo volume de políticas públicas e recursos direcionados frente esse problema, algumas iniciativas de distribuição e acesso à água para produção e consumo animal e humano – assim como construção de reservatórios para armazenagem – seguem em andamento, estimuladas por parte da Emater/RS. Todavia, reforça-se a necessidade de atuação concreta do governo Estadual no que diz respeito às consequências da estiagem, algo que tem sido negligenciado e pode ser um agravante frente ao contexto de rápida disseminação do Covid-19.

A comercialização

Com relação à comercialização, verifica-se um conjunto de ações para o enfrentamento das crises (sanitária e estiagem) que estão sendo desenvolvidas pelos atores e associações consultadas. Abaixo, elencamos algumas dessas iniciativas:

Feira Virtual da Agricultura Familiar
A Emater disponibilizou um canal para conectar os produtores aos consumidores, a Feira Virtual da Agricultura Familiar [https://bit.ly/2XtLndL]. O objetivo não é a comercialização de produtos, mas sim, permitir aos consumidores consultar produtores que se encontram em áreas próximas de suas residências e quais os produtos disponíveis para a venda;
Cooperativa Sul Ecológica
A Cooperativa Sul Ecológica está com pedidos via telefone ou WhatsApp e fechou uma parceria com a 220 Bike Entregas para a entrega dos produtos da Agricultura Familiar na casa dos clientes, priorizando uma logística sustentável;
Aura Verde Alimentos
A Aura Verde Alimentos, juntamente com a Cooperativa dos Produtores Agrícolas do Monte Bonito (Coopamb) e a Cooperativa Sul Ecológica, com apoio da Emater/RS criaram a Feira em Casa [www.minhafeiraemcasa.com], que corresponde a uma caixa de assinatura para que durante o isolamento social, o consumidor continue recebendo sua feira semanal, com produtos da agricultura familiar, de maneira segura;
Arpa-Sul
A Arpa-Sul permaneceu garantindo o funcionamento regular das feiras ecológicas, emitindo uma cartilha com dicas para uma feira segura e também disponibilizou os contatos dos produtores que estão com entregas à domicílio;
Vida a Granel / Cafsul
A Vida a Granel produtos coloniais juntamente com a Cafsul está disponibilizando, via WhatsApp, a entrega de duas modalidades de cestas agroecológicas (pequena e grande), conforme necessidades do consumidor;
Movimento dos Pequenos Agricultores
O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), dentre outras iniciativas, tem atuado no desenvolvimento e na proposição da criação do Programa Estadual de Compra de Alimentos da Agricultura Familiar: um plano de emergência para a pandemia de Covid19, o qual vem sendo gestado e construído coletivamente no escopo das discussões do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional do estado (CONSEA/RS).
PRAE/UFPel
A UFPel está organizando cestas de hortifruti, juntamente com a Emater, para distribuição aos estudantes bolsistas integrais. A ideia é adquirir e distribuir 500 cestas por semana para esses alunos, a partir da entrega de produtos pelas Cooperativas que foram homologadas no edital da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE/UFPel), credenciadas a venderem para a empresa do Restaurante Universitário (RU).
Fórum de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional
O Fórum de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional organizou uma Campanha de arrecadação para o combate à fome e em defesa da soberania alimentar, para garantir alimentação às famílias em situação de vulnerabilidade social. Na primeira entrega foram doados 400 quilos de arroz ecológico orgânico e cem quilos de leite integral em pó pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). Quem tiver interesse de doar qualquer valor em dinheiro, os dados são os seguintes: Banco Banrisul, Agência: 0320, Conta: 06.113347.0-6, Associação dos Docentes da UCPel, CNPJ: 03447696/0001-97. O comprovante pode ser enviado pelo WhatsApp para: (53) 99904-6530.
Feiras da Agricultura Familiar
Com relação às feiras da agricultura familiar, há especificidades em cada município da região:

Pelotas
Em Pelotas, o decreto municipal não afetou o funcionamento das feiras, porém, houve uma pequena queda no movimento e nas vendas, e aumento do serviço de entregas à domicílio. Nas feiras, as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), preconizam, por exemplo: distanciamento entre as bancas, o uso de álcool gel, máscara e higienização e embalagem dos produtos. Estas práticas estão sendo seguidas. Alguns produtores não estão participando da feira por fazerem parte do grupo de risco ou estarem com a saúde debilitada, porém, seus produtos estão sendo vendidos pelos demais produtores.
Canguçu
Já no município de Canguçu, devido a um decreto emitido em 18 de março, as feiras estavam suspensas, com previsão de retorno para o dia 15 de abril, a partir de um novo decreto, com algumas especificidades, seguindo normas da OMS. No município, os produtores seguiram com entregas à domicílio para os clientes durante esse período de suspensão das feiras.
São Lourenço do Sul
Em São Lourenço do Sul, as feiras ficaram suspensas de 18 a 31 de março. Durante esse período foram organizadas a entrega de cestas de alimentos articuladas pelo CAPA junto a grupos de consumidores. A partir do dia 31 de março as feiras foram liberadas, com uma leve queda no fluxo de consumidores, seguindo as recomendações da OMS, e as entregas a domicílio também seguem sendo realizadas.
Cerro Grande do Sul
Em Cerro Grande do Sul a feira não estava sendo realizada. As vendas estão sendo feitas nas propriedades, e entregas semanais na cidade.
Concluindo

Esse conjunto de iniciativas de enfrentamento das crises de saúde e de falta de chuvas que os agricultores familiares vêm enfrentando, demonstram a capacidade organizativa e associativa do tecido social rural da região sul. Apesar dos limites impostos a ação social pela baixa presença do Estado – que tem atuado de maneira insuficiente para a mitigação dos efeitos principalmente da estiagem – verifica-se um esforço coletivo na manutenção da produção e comercialização dos produtos da agricultura familiar, seja na proposição de políticas públicas de abastecimento, na forma de entregas a domicílio, seja na manutenção das feiras, levando-se em conta os devidos cuidados sanitários que já vem sendo tomados, conforme relato dos envolvidos.

Nesse sentido, reiteramos a necessidade de uma maior articulação das entidades e organizações da agricultura familiar, a exemplo do que já ocorria anteriormente com o Fórum da Agricultura Familiar. De um lado, faz-se necessária maior conexão entre as iniciativas apresentadas para que se criem e se fortaleçam redes de apoio aos agricultores familiares. Por outro, reivindica-se presença mais expressiva do Estado, até então inerte, no desenvolvimento de políticas públicas relativas à problemática da seca e à pandemia do Covid-19 para a região sul e rural gaúcha.

Você pode acessar e baixar o Informe Nº 2 em PDF .

Pelotas, 20 de abril de 2020.

Observatório da Problemática da Seca e do Covid-19 na Agricultura Familiar da Região Sul do Rio Grande do Sul – Grupo de Professores do Departamento de Ciências Sociais Agrárias (DCSA) da Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel (FAEM) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e convidados Abel Cassol (UFPel); Gabrielito Rauter Menezes (UFPel); Henrique Andrade Furtado de Mendonça (UFPel); Letícia Paludo Vargas (UFPel); Lúcio André de Oliveira Fernandes (UFPel); Marcelo Dias (UFPel); Mário Conill Gomes (UFPel); Mário Duarte Canever (UFPel) e Patrícia Martins da Silva – Universidade Federal Fluminense (UFF).