Um operário na luta!
Ativista gaúcho, que estaria completando 103 anos, é referência política e evidência do problema da falta de memória histórica na sociedade. Conheça Álvaro Ayala e seus legados para o Brasil
Por: Marco Ayala / Em Pauta
“Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada da memória
Das nossas novas gerações
Dormia
A nossa pátria-mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais”
Trecho da música “Vai Passar”,
do cantor e compositor Chico Buarque
Álvaro Leonardi Ayala (1923-1999), filho de André Jerônimo Ayala e Rosa Leonardi Ayala, era um operário – no setor eletricitário – que viveu até o fim de sua vida em função de lutas contra a desigualdade social. Era um homem que adorava dialogar, conscientizar e a população do que estava acontecendo no Brasil.
No século XX, dentre tantos momentos históricos atípicos e obstáculos para a formação de uma civilização harmoniosa – tanto no Brasil, quanto no mundo – surgem diversos grupos de diferentes ideologias políticas e sociais. E é nos movimentos das camadas mais populares e dos trabalhadores que surge Ayala, provocando impacto na construção da história do Rio Grande do Sul e da nação brasileira.
Segundo o advogado Victor Nuñez, Ayala era muito habilidoso para tratar as pessoas, bom argumentador, não brigava, não era radical no trato das pessoas. Mesmo assim, conforme Lucy Ayala, uma das filhas de Álvaro, ele era alguém que não era convencível e, sim, convencedor. Era um homem que priorizava o bem-estar social acima de tudo, sem supervalorizar interesses individuais.
“Se você é capaz de se indignar cada vez que uma injustiça é cometida no mundo, então somos companheiros. É o que importa”
Bertold Brecht, dramaturgo e poeta alemão
Ayala se comprometeu na maior parte da sua vida com lutar em prol das melhores condições de vida dos seres humanos, além de se dedicar à classe popular e proletária, por meio de sua participação no sindicalismo gaúcho e brasileiro.
“Vivemos arrochados por uma política econômica internacional que impede nossos avanços políticos […]. Assim como Jango, sentimos também saudade de um líder autêntico e democrático de nossa categoria profissional. Ayala foi nosso companheiro, que veio do Rio Grande do Sul trazendo uma bagagem de conhecimento, lutas, honradez, dignidade […]. Encontramos no companheiro Ayala a disposição de luta e todo apoio moral.”
Clodsmidt Riani, ex-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria (CNTI)

Caricatura de Álvaro Leonardi Ayala, produzida por “Plath”, cartunista de rua, em 1962. Imagem: reprodução livro “Tchê! Companheiro e Amigo Ayala”
A VIDA POLÍTICA DE AYALA
É necessário entender o contexto anterior e durante o período de ativismo de Álvaro para compreender seu legado.
A política na família Ayala começa antes dele. Seu pai era anarquista de origem uruguaia. Ele migra para Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, antes de Álvaro nascer. André Ayala acreditava que “o proletariado só será livre no dia em que o último burguês for enforcado com as tripas do último padre”. Então, Ayala* foi muito influenciado por seu pai para seguir uma vida com um posicionamento político voltado para a classe operária
*(outros parentes de Álvaro, como os já citados, André e Rosa, além de seus filhos que ainda serão citados, terão seus nomes citados junto ao sobrenome. Ao usar apenas o sobrenome “Ayala” ou o nome “Álvaro” referem-se ao Álvaro Leonardi Ayala).
Em 1941, Ayala se junta ao PCB (Partido Comunista do Brasil), onde passou a atuar nas lutas populares e na conscientização da população sob orientação do partido.
“[…] ele [Ayala] tinha uma visão, apesar de ser muito direcionada à União Soviética, ao comunismo, que era o processo ideológico dele, mas uma visão de mundo extremamente crítica, sabe? Ele conseguia entender o que estava acontecendo em todos os demais setores e entender que […] a postura dele estava ajudando na construção de um mundo diferente. Ele realmente acreditava que essa compreensão através do comunismo levaria as pessoas a uma sociedade melhor e lutava diariamente com isso. Isso é muito evidente no trabalho dele”
Suéllen De Medeiros Cortes, historiadora, professora de História, mestrada em História na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e influenciadora digital
Em 1944, após alguns anos trabalhando na Cia. Estadual de Energia Elétrica (CEEE), se juntou ao sindicato dos eletricitários. A sua participação política, a partir de então, começa a crescer e ser cada vez mais valorizada.
“E, o Ayala, eu acho que pra quem foi contemporâneo dele, viveu na mesma época, tinha uma consciência da liderança sindical, da liderança política que ele era. Tanto que, na documentação, fica muito claro que ele foi extremamente consultado. As pessoas procuravam ele pra saber o que ele achava das coisas. Então, ele era uma referência. E é curioso como a história, as vezes, vai criando as suas narrativas e vai contando algumas coisas que, quando a gente cruza entrevistas que foram dadas pelo Ayala com as situações que estavam acontecendo naquela época, a gente não percebe, ou melhor, percebe pouco né, que ele tinha uma narrativa daquele assunto. Vou te dar um exemplo; quando o Brizola fez os ‘batalhões da legalidade’, tudo que a gente tem de produção intelectual diz que o Brizola foi a liderança dos batalhões da legalidade. O Ayala, ele dava algumas entrevistas dizendo assim: ‘Não, foram os movimentos sociais e os movimentos sindicais, que se uniram pelos batalhões da legalidade. Nós treinávamos pra pegar em armas e fazer uma revolução’. Então, não foi tão bonitinho quanto essa visão do Brizola como se construiu, foi muito mais radical como a visão que eles tinham.”
Suéllen De Medeiros Cortes
Nas décadas de 50 a 60, Ayala realizou diversos feitos. Com seu amigo – também ativista – Jorge Campezatto, comandou o sindicato dos eletricitários (Álvaro como secretário executivo, e seu parceiro como presidente). Posteriormente, Ayala se manteve na área sindical, enquanto Campezatto se direcionou para a atuação política partidária.
Além disso, Álvaro foi presidente do Conselho Estadual de Trabalhadores do Rio Grande do Sul; fundador do Comando Sindical de Porto Alegre, que unia todos os sindicatos da cidade; delegado da CNTI e representante do Rio Grande do Sul no Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) a comando do presidente Clodsmidt Riani.
Durante seu auge como um político e ativista, ele teve oportunidades de viajar para fora do país para participar de reuniões e congressos, com destaque para a Conferência da OEA – em Montevideo, Uruguai – e o Congresso Sindical Mundial na União Soviética, em 1963.

A reputação e a competência de Ayala (à direita da foto) resultaram em um convite para a participação do Congresso Sindical Mundial na União Soviética (URSS) e a comemoração do Dia do Trabalhador no mesmo país, em 1963. Imagem: reprodução livro “Tchê! Companheiro e Amigo Ayala”
Ayala foi preso durante a ditadura militar em 1967. Após ser solto, anistiado e readmitido no sindicato no final do regime, ele retorna às lutas sociais. Mesmo sendo mais velho, continuou viajando pelo país em prol dos movimentos populares buscando uma nação mais justa. Porém, teve uma atuação não tão presente como no período entre as ditaduras do Brasil. Seu legado se apagou ao longo do tempo pela perda de documentação e evidências durante a ditadura, e falta de memória histórica.
Considerando que Ayala começou a participar dos movimentos estudantis, sindicatos e partidos desde os 18 anos, Ayala militou desde o fim do Estado Novo de Getúlio Vargas até a fase de Nova Ordem Mundial, no final do milênio. Muitos episódios históricos e a tensão social marcaram esse período.
O BRASIL QUE AYALA ESTEVE INSERIDO – DO ESTADO NOVO À JOÃO GOULART
“Não era só aqui no Rio Grande do Sul, tchê. Em todo o país, a origem do movimento sindical está no anarquismo, mais precisamente na corrente anarco-sindicalista, que chegou através da imigração de italianos, espanhóis e portugueses. Foram eles os primeiros a trazer, junto com a pequena bagagem, o idealismo da organização dos trabalhadores. Até então, o movimento operário era um caso de polícia. As respostas às reivindicações eram as prisões e os espancamentos. Com a influência dos anarco-sindicalistas surgem os sindicatos dos trabalhadores em Chapéus, dos Trabalhadores no Comércio, dos Pedreiros, até que, na década de 30, começam a se formar as chamadas Uniões Sindicais.
Mas as origens do movimento sindical são bem anteriores. Em 1918 os trabalhadores de São Paulo fizeram uma greve geral que paralisou São Paulo. A maior metrópole do sul do país, tchê, esteve nas mãos dos trabalhadores e, como na época a influência dos anarquistas era muito grande, não havia, infelizmente, a necessária compreensão política. Hoje, se conseguíssemos com uma greve dominar uma cidade como São Paulo, o fato nos levaria imediatamente a buscar o poder político. E os anarquistas em 17, 18, não quiseram o poder político. Queriam o poder econômico. Não foram para o palácio do governo, foram distribuir comida para o povo. As classes dominantes, organizadas, passando o revés, sacudiram a poeira e tomaram conta da situação”
Ayala

Ayala foi membro do Partido Comunista do Brasil (PCB) desde o fim do Estado Novo (a partir de 1941) até a Nova Ordem Mundial após a ditadura civil-militar (década de 90); onde sua militância também foi marcante, além dos movimentos sindicais. Imagem: reprodução livro “Tchê! Companheiro e Amigo Ayala”
No começo de sua vida política – 1941 – Ayala presenciou a ditadura de Getúlio Vargas e a 2º Guerra Mundial. No Brasil, o então ditador havia posturas similares ao nazifascismo e quadros simpatizantes com Adolf Hitler. Em 1940, o próprio Getúlio, a bordo de Minas Gerais, fez um discurso favorável ao Fascismo. Os atos públicos da época eram intensos para forçar Vargas a tomar iniciativas contra o eixo. Então, em 1942, o Brasil rompe relações diplomáticas com Alemanha e Itália, além de declarar guerra.
Com o fim do Estado Novo, surgiram os governos populistas. Esse caráter de liderança consistia em, basicamente, um apelo ao povo, em que o crucial era ter a população do seu lado (“eu, como presidente, não preciso ter o apoio de políticos, parlamentares e partidos; tendo os cidadãos é o que importa”). Assim, de grosso modo, os líderes populistas não resolviam todos os empecilhos sociais, mas buscavam medidas para ter a credibilidade do povo e se manter no poder.
Mesmo com a queda do autoritarismo de Vargas e o trabalho de redemocratização, algumas pessoas queriam Getúlio de volta à posse por medo de perder direitos para trabalhadores concebidos por ele no período ditatorial (movimento conhecido como Queremismo). Depois da queda do Estado Novo, Eurico Gaspar Dutra é eleito presidente do país. Porém, ele busca barrar e impedir os movimentos sociais e sindicais, mantém posturas e opressões que remetem ao nazifascismo. Dutra cassa os registros e mandatos dos 15 parlamentares eleitos pelo PCB – 1 senador e 14 deputados federais. Além disso, com apoio de pressão reacionária, o então presidente faz o Partido Comunista cair na clandestinidade, assim como a Confederação dos Trabalhadores do Brasil (entre outros feitos contra a classe operária). O período de liderança de Dutra foi marcado pelos serviços públicos fundamentais – como energia, gás, telefone e transportes – estarem nas mãos de empresas multinacionais privatizadas.
A seguir, Getúlio Vargas (na sua versão constitucionalista) propõe liberdades políticas e ações anti-imperialistas, levando um certo agrado ao povo – tanto que o suicídio de Vargas agitou ainda mais a população para as lutas sociais.
Juscelino Kubitscheck, sucessor de Getúlio, propõe um plano de “50 anos em 5” para a evolução da infraestrutura da civilização brasileira. Assim, surgem grandes forças industrialistas e progressistas, fugindo de tradicionalismos e agradando a classe trabalhadora.
Ou seja, nos governos de Vargas e Juscelino, há o levante popular, do sindicalismo, de forças progressistas e da luta contra o peleguismo (essa última será explicada posteriormente).
Depois de Juscelino Kubitscheck, Jânio Quadros é eleito presidente do Brasil em 1961.
“A reação encontrou Jânio Quadros, um líder populista de alto carisma e com grande capacidade de chamar o povo pra si […] contra o candidato do movimento sindical e dos movimentos progressistas e nacionalistas. General Lott, que, apesar de reacionário e conservador, tinha um compromisso com as forças populares. […] Jânio faz um governo com os maiores absurdos: proíbe rinha de galo e maiô de duas peças. Por outro lado, condecora Che Guevara com a Ordem Superior da Medalha do Cruzeiro do Sul”
Ayala
No governo de Jânio e, alguns meses depois, de João Goulart (Jango), foi um momento em que todas as políticas de esquerda e forças nacionalistas se uniram, segundo Ayala. Foi uma fase de alta conscientização da população tanto urbana e rural (onde era mais difícil de chegar informações por estarem longe dos grandes centros dos municípios). Também se percebeu aumento do número de greves e manifestações, reivindicando reformas agrárias – redistribuição de terras – e de infraestrutura nos centros urbanos – melhores condições de vida para os trabalhadores.
Um episódio curioso que demonstra as ótimas oportunidades concebidas à Ayala teve foi justamente nesse governo controverso de 1961. Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, é encaminhado por Jânio Quadros para a Conferência de Ministros das Relações Exteriores, em Montevideo, e leva Ayala – o então delegado da CNTI, presidente e fundador do Comando Sindical de Porto Alegre – junto a ele. E lá, estiveram em contato com diversas pessoas, manifestações, discursos e políticos importantes – com destaque para Che Guevara.
A partir dessa pronúncia, Ayala chegou à seguinte conclusão:
“Se houve ali uma coisa que o imperialismo entendeu como lição foi: ou eles acabavam com a liberdade na América Latina, ou seriam derrubados. A força do discurso de Che foi fantástica”
Ayala
Assim como previsto nessa afirmação, o que Álvaro supôs, aconteceu.
O BRASIL QUE AYALA ESTEVE INSERIDO – DITADURA CIVIL-MILITAR E INFLUÊNCIA DA GUERRA FRIA
Em 1964, se inicia a ditadura civil-militar. O golpe de Estado e a promulgação do primeiro Ato Institucional (AI 1) viria a mudar completamente o rumo da história da nação. O AI 1 previu a exclusão de 441 civis das vias públicas; a suspensão de direitos políticos de 102 cidadãos; cassação de mandatos legislativos; a permissão para Castello Branco prender indivíduos considerados perigosos à pátria por ele e pelos militares; a exoneração e aposentadoria às forças de alguns funcionários públicos; e o aumento dos poderes dos ditadores.
“O que eles não conseguiram em 51 e em 61, eles conseguiram em 64. E usaram técnicas muito avançadas, já com especialistas do Serviço Secreto Norte-Americano trabalhando aqui”
Ayala
O golpe foi uma atitude tomada por conta do medo causado pelas iniciativas do ex-presidente João Goulart. As reformas de base – que previam mudanças agrárias, educacionais, tributárias, administrativas e urbanas – de Jango foram muito apoiados pelos movimentos sociais e operários. Para evitar a aplicação desse plano que poderia contribuir para a evolução das classes populares e dos trabalhadores, além do medo de um possível avanço do Comunismo, realizou-se o golpe militar.
O contexto de Guerra Fria também auxiliou na formação do novo contexto, não só no Brasil, mas também na América do Sul. Os movimentos pró-socialismo cresceram com a influência da União Soviética (URSS), assim como os próprios sindicatos, manifestações jovens e estudantis. O medo dessa expansão, por parte do outro lado da Guerra Fria, o capitalista (Estados Unidos), culminou nesse “imperialismo” – segundo palavras do Ayala – a tomar uma atitude para mantê-lo. Logo, as ditaduras na América tiveram um pesado investimento dos interesses estadunidenses.
“A intenção dos militares era muito mais evitar os movimentos reformistas em vez de ter o próprio poder”
Lucy Ayala, jornalista aposentada e filha de Álvaro Ayala
Mesmo que a civilização harmoniosa ficou claramente mais distante de ser alcançada, haviam divisões nos cidadãos entre quem era pró e contra a ditadura. Embora a classe popular, de um modo geral, estava contente com a presidência de João Goulart, houveram indivíduos, sejam elitistas ou não, que aprovaram o golpe. Além disso, de acordo com Lucy Ayala, os grandes meios de comunicação de massa também eram divididos, e, em Porto Alegre, os mais influentes eram o “Última Hora”, atual “Zero Hora” – que agradava as classes marginalizadas, e que, com a ditadura, tiveram suas atividades proibidas – e o Correio do Povo. Posto isso, haviam registros polarização e distinções nas opiniões perante ao caos social enfrentado no século até então.
Sob esse cenário, a opressão era presença marcante. Os sindicatos e movimentos operários eram perseguidos. A instituição dos demais Atos Institucionais permitiu a prisão e tortura de pessoas, que ia além de políticos: qualquer um que fosse considerado uma ameaça à pátria e se posicionasse de maneira oposta ao regime, estaria sujeito à dominação. Todos os civis perderam grande parte de seus direitos. Ayala e outros sindicalistas, ativistas, trabalhadores e amigos foram capturados. As famílias de detentos também eram pressionadas em meio à essas circunstâncias. Muitos foram mortos e desaparecidos. Ayala, por exemplo, foi preso algumas vezes, mas só foi anistiado em 1979 e readmitido no seu emprego e sindicato em 1981.
O BRASIL QUE AYALA ESTEVE INSERIDO – A BATALHA CONTRA O PELEGUISMO
O “pelego” era o líder sindical que mediava interesses entre sindicato e governo, indo contra os princípios de origem de uma atuação sindical. Ele permite a atuação de governantes no sindicato ou tendo atitudes e posturas que vão mais de acordo com tais autoridades.
O pelego é o traidor da atuação sindical, uma vez que tais movimentos surgem justamente como manifestações questionando e contestando quem conduz o país, estado ou município. Por exemplo, era comum que uma assembleia sindical, com tudo pronto para acontecer, fosse interrompida pelo Ministério, simplesmente chegando e proibindo o seguimento da reunião. As reuniões das categorias fundamentais eram as mais afetadas. Segundo Ayala, vencer o peleguismo não foi uma tarefa fácil.
Greves, o combate aos pelegos e autoridades que queriam fechar movimentos sindicais se tornaram muito fortes e comuns. Uma das ações anti-peleguismo foi a resistência contra o plano de Carlos Lacerda – considerado traidor do PCB e comandante de reações contra o comunismo – de cercar a sede da CNTI. Outro exemplo é que, durante reunião no próprio Congresso Nacional dos Trabalhadores da Indústria, em 1960, houve a ideia de criar o Comando Geral dos Trabalhadores (CGT) como uma central sindical no RJ. Holanda Cavalcanti, maior pelego do país, sabendo que perderia influência, se demite da presidência da CNTI na esperança de que o Congresso fechasse. Mas, posteriormente, o CGT foi criado pelo novo presidente Clodsmidt Riani e o CNTI não encerrou suas atividades. É a partir da indicação de Clodsmidt que Ayala se torna delegado do Congresso e representante do Rio Grande do Sul no CGT.
“A solidariedade no movimento sindical gaúcho sempre foi muito mais forte. O resto do país só aprendeu a ser solidário depois de 53, em consequência da greve dos metalúrgicos de São Paulo, violentamente reprimida e com mortes”
Jorge Campezatto, ex-vereador de Porto Alegre e ex-presidente do Sindicato dos Eletricitários de Porto Alegre
“Mergulho no tempo e me vejo nos anos 60, juntamente com Clodsmidt Riani, tentando derrubar uma ditadura sindical que, por 16 anos, se instalara na maior entidade sindical brasileira, a CNTI. Em todos os estados contávamos com o apoio de valorosos companheiros. Todavia, merece um destaque especial o apoio que tivemos no Rio Grande do Sul através de Ayala. Sóbrio, fiel, idealista e autêntico líder, soube, com bastante sabedoria, conquistar para o nosso lado alguns votos que jamais pensamos em conseguir. […] Hoje, sem sua presença, sentimos a necessidade de transmitir aos mais jovens as qualidades desse sindicalista”
Francisco de Chagas, 1º presidente da Federação dos Trabalhadores da Indústria do Rio Grande do Norte e ex-diretor da CNTI
Ou seja, aos poucos e com muitos anos de luta, o peleguismo era enfrentado com sucesso e se tornava um obstáculo melhor. No entanto, com o golpe de 1964, as classes dominantes e autoridades governamentais voltaram a ter os sindicatos em suas mãos; fator que só veio a se encerrar a partir do fim do regime militar.
O BRASIL QUE AYALA ESTEVE INSERIDO – REDEMOCRATIZAÇÃO E NOVA ORDEM MUNDIAL
Com a decadência da ditadura, surge um novo processo de redemocratização do Brasil: a Constituição de 1988 é elaborada e os cidadãos tiveram direitos retomados. Por outro lado, pessoas ainda estavam desaparecidas e traumas persistiram – até os dias de hoje.
Já no mundo, a Guerra Fria estava se encerrando. Acontece a fragmentação da URSS, a queda do Muro de Berlim, e as guerras civis entre os povos da antiga Iugoslávia que culminaram na separação do antigo país. O socialismo causava impressão de derrotado, mesmo que não tenha deixado de existir. A partir daí, surge a Nova Ordem Mundial e o neoliberalismo como uma vertente política e econômica similar ao capitalismo predominante no planeta.

Nessa época, Ayala já era anistiado, readmitido no seu trabalho e militante presente nas batalhas pelos direitos dos trabalhadores. Nessa foto, consta o 9º Congresso Nacional dos Trabalhadores, em 1985
A ideologia neoliberal chega no Brasil e é presente na condução do trabalho primeiros presidentes eleitos pós queda da ditadura civil-militar, provocando uma mudança no funcionamento do trabalho. A busca pela menor participação do Estado nas relações econômicas e pela privatização das empresas gera maior livre comércio, menor taxa de impostos, maior competitividade de mercado, redução de fronteiras, predominância da autonomia do indivíduo, e a globalização. Todas as áreas são afetadas por esses fatores: a economia, política, culturas, corporações (que se tornam multinacionais), tecnologias, entre outros quesitos. As relações sociais, de poder e de consumo são densamente transformadas.
Entretanto, conforme Ayala, o neoliberalismo tem pontos negativos que trazem um abismo maior para a solução de desigualdades e obstáculos para o bem-estar social. Ayala aponta questões dos modelos neoliberais, com destaque para o desemprego e dos operários:
“Pequenos empresários, quer da indústria, quer do comércio, quer de serviços, estão sendo massacrados pelo capital especulativo […]. Por exemplo: num determinado bairro, tem 20, 30, 40 lojas do pequeno comércio […]. Vem o supermercado, o shopping, e cria, através da publicidade, uma expectativa de compra muito grande, numa perspectiva de que o consumidor vai ser beneficiado. E o consumidor deixa a lojinha da esquina, e vai para o supermercado, onde, além do preço da mercadoria, ele vai pagar o preço da publicidade. Se esse supermercado conseguiu emprego para 10 pessoas, as 30 ou 40 lojinhas que ele fechou, que tinham 3 ou 4 empregados cada uma, que dá um total de 100, extinguiram 100 postos de trabalho. Precisamos investir na luta contra o livre comércio, contra as privatizações e contra a desregulamentação dos países que vão favorecer a ALCA (Área de Livre Comércio da América). Vai facilitar as privatizações, que não passarão mais pelos órgãos diretivos dos países. […] o presidente tem sido muito sensível aos apelos americanos. E esses apelos se renovarão. Ayala, em entrevista na rádio “Ligação Direta do Guaíba”, em Porto Alegre
Álvaro também pontua a separação e desunião de trabalhadores, que se torna inevitável com o neoliberalismo, além de apontar uma razão para a redução da força dos movimentos sindicais na década de 90 em diante.
“Se o número crescente de greves no início da década caiu cerca de 50% foi em virtude da política econômica do governo e também por causa da política internacional do trabalho. A globalização vem introduzindo o capital especulativo na nossa economia, vem afogando, vem massacrando a indústria nacional. E a indústria nacional, num desespero pra sobreviver, dispensa trabalhadores, fecha frentes de serviço, o que nos leva ao quadro de um trabalhador desesperado que todos os dias, quando volta pra casa, tem medo de, no outro dia estar desempregado. Um trabalho com esse desespero, com o mercado cada vez diminuindo mais, só pode baixar o número de greves […]. Já não se reivindica mais; pelo contrário, se luta desesperadamente para manter o emprego. […] Tanto que, nas assembleias, hoje, cada vez é maior o número de aposentados. […] Esses trabalhadores, que estão vendo a situação como está, não tem coragem de sequer assumir uma posição reivindicatória, porque ela precisa sustentar a família […]. Com as privatizações [globalização] foram postos para rua uma barbaridade de trabalhadores. […] E o que mais preocupa o movimento sindical é que o capital está se unindo, o capital se organiza cada vez mais. A gente vê na imprensa que até as grandes potências financeiras internacionais estão se unindo, está havendo fusão de grandes bancos. Então, no momento que o capital se une, se fortifica, nós vamos dividir os trabalhadores da base? […] Esse projeto sempre foi prejudicial porque traz a desunião dos trabalhadores e não representa nenhuma solução para os problemas vividos pela classe trabalhadora”
Ayala
Dessa maneira, a Nova Ordem Mundial é composta majoritariamente pelo capitalismo e neoliberalismo, em um mundo globalizado nos seus mais variados sentidos, mais tecnológico e digital, com as relações diplomáticas e econômicas mais amplas; características que trazem pontos positivos e negativos.
O QUE DAVA TANTO PODER À AYALA?
Como já mencionado, Ayala teve uma grande repercussão por conta da sua própria personalidade, liderança e representatividade sem querer privilegiar seus desejos individuais – sendo alguém, segundo a historiadora Suéllen, alguém muito consultado.
Além disso, há outra questão que o próprio Ayala afirma que dava poder para algumas pessoas como ele:
“Se o serviço de energia elétrica para, para o Parque Industrial e o comércio. O serviço telefônico paralisado deixa o país sem comunicação. Tínhamos o poder de paralisar cidades de porte.”
Considerando o cenário tecnológico e o comércio no início e metade do século XX, as áreas citadas, mais o transporte e do gás, eram indispensáveis para o funcionamento dos perímetros urbanos e do Brasil. Se os Ministérios quisessem calar, proibir reuniões e manifestações de trabalhadores; esses setores poderiam fazer greves, parar suas atividades por um determinado tempo, causando empecilhos no funcionamento de todo o país e para o governo (e fizeram, constantemente). Então, mesmo que houvesse uma tentativa de reduzir a expressão das áreas fundamentais, havia um limite justamente para que não houvesse uma crise nacional com a falta delas.
Assim, não só Ayala, mas também outros ativistas e os sindicatos desses setores, tinham muito poder político e presença na luta pela igualdade social. Esse aspecto também foi muito positivo para o combate ao peleguismo, sendo forte influência e conscientização para os outros movimentos sindicais e para a população brasileira.
FAMÍLIA AYALA, DA MARGINALIZAÇÃO À SUPERAÇÃO
Ayala morava com sua esposa – Zillah – e os filhos: Lúcia, Lucy, André – que morreu aos 12 anos, em 1964, antes do nascimento da próxima criança – e Álvaro (filho que tinha o mesmo nome e os sobrenomes iguais também: Álvaro Leonardi Ayala Filho). Posteriormente, o casal adotaria uma menina, a Isabel. Era uma família que passava dificuldades financeiras e lidava com pressões consequentes da reação contra o ativismo de Ayala.
Como já visto, Ayala já era contestado, procurado e reconhecido antes mesmo da ditadura de 1964. No entanto, a perseguição contra ele e seus parentes foi mais intensa durante o regime.
Com a instituição do AI 1, não só Ayala, como outros políticos, foram presos, tiveram suas casas invadidas para procurar documentos, fotos, papéis ou outras coisas que pudessem indicar outras pessoas, lugares, ou os próprios artefatos; considerados como “perigosos para a nação”.
Há relatos dele e da família sobre a perseguição. Por exemplo, algumas vezes, militares passavam na frente da sua residência e ligavam lanternas em direção à janela, assustando quem vivia com Ayala. Às vezes, enquanto ele não estava em casa ou estava escondido nos fundos da moradia, eles entravam e vasculhavam os pertences dele, da esposa e das filhas – até mesmo roupas íntimas. Bagunçavam a moradia à procura de algo escondido, algum artefato que pudesse ser “perigoso”. Sob esse caos, Álvaro buscou formas de mitigar essa pressão constante, mas que foram fracassadas e que contaram com trágicos momentos.
“[…] o chefe da polícia tinha dito que ia nos liquidar. Ele tinha uma relação muito longe de parentesco com a minha mãe e disse que ia me liquidar. Mas cometeu um crime terrível comigo: minha mãe – ele sabia – sofria do coração. Ao lado da casa da minha mãe tinha um bar. Então ele botou uns policiais a conversar informando que tinham me matado na prisão […]. Minha mãe teve um ataque às 3 horas da tarde e morreu às 6”
Ayala
Com a pressão psicológica sob todos, Ayala se “exila” em sua casa de praia, em Cidreira, também no Rio Grande do Sul. Assim, reduziria riscos de perseguição, não estaria tão longe dos familiares, e seria mais fácil de receber informações sobre os parentes e o que estava acontecendo no país. Ainda assim, os contatos com a família eram precários. Além disso, de meia em meia hora, os parentes eram questionados pelo exército se Ayala se encontrava na residência em Porto Alegre.
Por conseguinte, como a opressão e a humilhação seguiam presentes mesmo com Ayala não estando na capital. Assim, ele decide se entregar aos militares em 1967. Ayala se rende, também, para garantir integridade e segurança física como uma forma de evitar uma tortura maior, desaparecimento ou a morte.
O fato de Ayala ter viajado para a União Soviética foi uma “justificativa” para o aumento da repressão e tortura contra o ativista. Considerado “formado em Moscou”, foi acusado de querer mudar o poder do Brasil à força – quando não era bem assim.
Ayala foi detido junto com Campezatto. Na prisão, tinham que dormir de luz acesa, não podiam ler jornal, ouvir rádio, nem sair da cela. O estalecimento era precário: só tinha grades, uma rampa que descia água e querosene de lavagem de veículos, provocando cheiros desagradáveis e tosse.
Após pressão de familiares e amigos, Ayala e Campezatto foram transferidos para a penitenciária estadual, separados dos presos comuns e com trabalhos.
Enquanto isso, Zillah trabalhou um tempo vendendo livros e, depois, criou um aviário no fundo da casa para sustentar a família. Se não bastasse todo o contexto intimidador, a família também teve que aturar a tragédia da morte de André, apenas com 12 anos, em um acidente de bicicleta. A criação do último filho biológico, Álvaro, foi um tanto traumática, não só por conta do contexto, mas também considerando que André morreu enquanto Zillah estava grávida, em 1964. Álvaro Leonardi Ayala Filho nasceu em junho de 1965.
“Eu não tenho muita lembrança […]. A minha consciência sobre esses atos todos, veio muito depois. […] Eu, pessoalmente, sentia ausência da mãe, a mãe tinha que trabalhar e eu ficava com uma empregada doméstica, ou em alguns momentos em final de tarde eu ficava sozinho em casa. Eu sentia um pouco a ausência da mãe e também do pai quando ele trabalhava, assim que solto, e preso também. No período que o pai tava preso, tem muitas fotos minhas na penitenciária com o pai, mas não tenho lembrança desses dias.”

Álvaro Leonardi Ayala Filho, professor de física da UFPEL e filho de Ayala criado em meio à ditadura militar. Ayala, com seu filho, Álvaro Ayala Filho, na penitenciária, em fevereiro de 1967. Imagem: acervo familiar
Enquanto Ayala estava na penitenciária, haviam medos do desaparecimento e da morte dele sem que sua esposa e seus filhos soubessem.
Além disso, existem histórias que aconteciam que até hoje não se sabe ao certo como foi, ou que cada pessoa envolvida tenha uma versão de tal história. Essa é uma consequência da falta de memória histórica, sendo forçada pelo regime militar para evitar a existência de ideologias opostas.
Um exemplo de ruído muito curioso é na própria família. Ayala menciona em relato registrado na homenagem em forma de livro “Tchê! Companheiro e Amigo Ayala” que tinha uma fotografia com Che Guevara, Leonel Brizola e Santiago Dantas tirada em Montevideo, que foi queimada ou jogada fora pelos militares. Por outro lado, não foi bem isso o que aconteceu. Em entrevista, Lucy Ayala afirma que quem arruinou esse e outros pertences dele foi a própria esposa e a outra filha, a Lúcia, com o objetivo de evitar expor eles a perigos maiores.
Ainda conforme Lucy, a repressão era presente em todos os níveis. Não era viável sair em público por medo de violência e agressão. Houve um dia, por exemplo, que as filhas não podiam ir para a escola porque o exército já estava situado na frente de casa. A rotina da família estava totalmente afetada. Eles eram muito vigiados pelos mecanismos de pressão sob o Ayala.
Mesmo submetido à muita fiscalização por parte dos militares, Álvaro seguiu agindo de modo carismático e empático em meio à população carcerária. Na penitenciária, ele era querido e procurado por diversos detentos. Ayala escrevia e lia cartas para os presos que não tinham tais habilidades ou que não eram alfabetizados. Era comum que muitos deles tivessem ido do interior do estado à Porto Alegre e foram detidos na capital – famílias pensavam que esses sujeitos estavam desaparecidos ou mortos.
Além disso, Álvaro conseguiu Habeas Corpus para carcerários que o tempo de pena já havia sido ultrapassado, mas que não eram soltos por falta de documentação (ele tinha essa habilidade porque lia livros sobre direito e redigia petições à mão). Ayala também auxiliava outros presos para que fossem levados para a Fazenda da Brigada para trabalhar como caseiros, onde teriam alimentação e uma porção de terra, mesmo que ainda fossem submetidos e monitorados pela polícia – Ayala buscava melhores condições para os detentos.
Desse modo, Álvaro sempre foi bem tratado e reconhecido dentro da penitenciária. Há relatos de que detentos choravam ao descobrir o momento que Ayala seria liberado da prisão.

Ayala era tão respeitado na prisão, que a permissão da celebração de aniversário de 2 anos do filho Álvaro Leonardi Ayala Filho foi liberada. Na imagem, constam – da esquerda pra direita – Lucia Ayala (irmã), Zillah Ayala (mãe, carregando Ayala Filho no colo), Lucy Ayala (irmã) e Álvaro Ayala; comemorando a vida do caçula. Imagem: acervo familiar e Livro “Tchê! Companheiro e Amigo Ayala”
Sob esse viés, esse período foi marcado pela história batalhadora e de superação da família Ayala, que, juntos, reuniram forças para resolver os desconfortos em meio à opressão política.
“[…] a mãe foi criada no campo, e ela era alguém com muito recurso, ela ia lá e dava um jeito. O Claudio era sobrinho da mãe e a mãe dele morreu no parto. Ele foi lá pra casa com 7 dias e ela arranjou uma cabra pra dar leite para o Claudio. E ela tinha essa coisa de criar bicho. […] ela batalhava pela família e trabalhava, costurava, criou uma escola de costura, e foi criando opções do que chamamos hoje de empreendedorismo pra bancar a família. Na real, a mãe foi muito batalhadora! A gente sempre teve a certeza que estava do lado certo da força! A ditadura que tava errada, os bandidos estavam do lado de lá, um dia eles cairiam! A história tava do nosso lado! Nós éramos vítimas! A gente não abaixava a cabeça! A mãe era porreta, era muito forte! O que nos manteve de pé foi a personalidade da Zillah.”
Lucy Ayala
POR QUE MUITAS PESSOAS NÃO SABEM SOBRE AYALA ATUALMENTE?
Existem algumas explicações para que a história de Ayala seja esquecida por alguns e desconhecida por outros, principalmente em comparação a outros sujeitos históricos que são de conhecimento dos cidadãos brasileiros.
Como já mencionado, Ayala teve uma participação política pelo Rio Grande do Sul e pelo Brasil muito mais intensa entre os anos finais do Estado Novo e a sua prisão em 1967. Após a anistia e a redemocratização, ele volta a militar ativamente, sendo um pouco mais moderado. Ayala era muito consultado antes da ditadura civil-militar, o que continuou depois do regime, mesmo que fosse em menor frequência. Após a morte, a memória sobre sua pessoa se apaga aos poucos. Hoje em dia, se sabe menos sobre Álvaro comparando com 30, 40, principalmente 60, 70 anos atrás. Dessa maneira, a própria trajetória e a forma como se desenharam os rumos de Ayala e da história do Brasil podem explicar, em parte, esse esquecimento.
“[…] apesar da gente ter noção de que o Ayala era uma figura de liderança emblemática, a prisão e a ditadura traumatizam, né? Silenciam, fazem com que as pessoas tenham medo daquilo que aconteceu se repita. Então, eu acho que até por conta do que possa vir a acontecer com a própria família, as pessoas se tornam mais discretas. […] Até a redemocratização isso impera nas pessoas. Então eu acho que muito desse silenciamento é devido a isso; uma escolha que ele fez de, talvez, ser mais discreto, sabe? Ele nunca deixou de militar, mas com a ideia de tomar cuidado porque era perigoso. […] Ninguém sabe o que houve de verdade, ninguém sabe a intensidade disso. […], isso é bem claro, não só com ele, mas com outras pessoas também”
Suéllen De Medeiros Cortes
Por outro ponto de vista, as próprias posturas reacionárias contra os movimentos populares fazem histórias serem esquecidas, apagadas, e não serem passadas adiante:
“A ditadura militar fez retroceder este momento histórico de independência econômica e fez retroagir isso, fez também que grandes figuras e lideranças dessa época fossem propositalmente esquecidas. […] a história do Brasil sempre teve um movimento para ser esquecida. O movimento sindical e os próprios movimentos de lideranças de João Goulart viveram um momento histórico onde esses personagens trabalhavam com popularidade pra criar um país cada vez mais independente e foram expulsos da cena pública pela ditadura militar”
Álvaro Leonardi Ayala Filho
Assim, esses são alguns dos contextos que frearam a passagem do legado de Ayala adiante.
POR QUE NÃO TEMOS CONHECIMENTO SOBRE CERTOS EPISÓDIOS HISTÓRICOS E PESSOAS IMPORTANTES, COMO AYALA? – O DISCURSO COMO CENTRO DE CONSTRUÇÃO DA HUMANIDADE
Com a afirmação do professor Ayala Filho, é perceptível que a ditadura civil-militar foi registrada com o intuito de excluir outras visões, vivências e momentos da sociedade, mesmo sabendo que esses “lados” excluídos existiram no contexto. Ou seja, optaram por registrar uma posição em detrimento das outras.
O processo de escolhas narrativas para a escrita da História é natural e inevitável. A historiografia não é neutra: ela sempre consiste em escolher como registrar o caminhar da humanidade, quais recursos e fatos usar, quais técnicas e linguagens se apropriar, entre outros fatores. O problema disso é quando “passam batido” ou se deletam – propositalmente ou não – questões que mudam ou trazem um sentido incompleto ao que se descreve.
Essa questão ética nas formas de relatar é muito complexa em todos os seus meios possíveis, como em meios de comunicação de massa, jornais, livros, até mesmo no próprio diálogo entre humanos. Como histórias são feitas de narrativas, se prioriza uma ou a soma de algumas (processo, esse, que, por vezes, é inconsciente, enganoso, ou proposital). Entretanto, deve existir uma obrigação de apresentar tudo o que está envolvido em vez de negar ou não dar atenção à uma parte específica. Isso é necessário para uma análise melhor do passado, do presente e para a construção do futuro.
Existem diversos métodos comunicacionais e técnicas para a historiografia. Um deles, que predomina por muito tempo, é o Positivismo. Essa corrente tem como seu lema principal considerar verídico tudo o que é documentado e comprovado cientificamente ou empiricamente, tornando essa tal verdade imutável até que um outro estudo possa substituir. Seguindo esse modelo, há três fases para o desenvolvimento: teológico, metafísico e o positivo (que vai da crença em particularidades ou mitos, passa pela racionalidade, e vai até onde se adquire, de fato, o conhecimento; por meio da experiência). Consequentemente, valorizam-se mais ciências exatas em comparação às humanas (“não-exatas”, subjetivas, que exigem maior interpretação), documentos escritos e oficiais, mais o empirismo. Por conseguinte (e que também passa a ser um princípio), essa vertente é extremamente usada para valorizar o “macro”. Ou seja, estuda-se um grupo, uma comunidade, um país, um líder, para entender o próprio grupo, os seus componentes individuais – o “micro” – e registrar o contexto. Assim, priorizam-se também grandes acontecimentos, números, datas e pessoas mais renomadas com legados maiores – como um presidente, reis, políticos, alguém que seja ou foi famoso por dada razão, governos, filósofos, elitistas, cientistas, pesquisadores e especialistas em tal área.
No entanto, o Positivismo traz um problema na maior parte das suas escolhas narrativas:
“[…] a gente tem um problema na História que fala muito a respeito dos sujeitos históricos, que é quem conta a história. Como a História sempre tem uma narrativa dos vencedores, a gente esquece, às vezes, de olhar pra volta e entender o que as pessoas estavam fazendo; as pessoas comuns, o que elas estavam atuando e de que maneira elas estavam fazendo isso. […] como a História é feita de narrativas, se optou por uma narrativa. Mas, a gente tem a obrigação de apresentar outras coisas, sabe? A gente tem que trazer!”
Suéllen De Medeiros Cortes
Muitas vezes, o ser humano prefere acreditar no oficial e no profissional. Isso é normal, e, algumas vezes, inevitável (até porque são fontes mais fidedignas e capacitadas). Porém, o erro consiste em não consultar as falas e depoimentos – fontes orais – além de fontes materiais e indivíduos que também sejam testemunhas, embora subjetivas.
Sob esse viés, conclui-se que o uso do Positivismo evita descrever profundamente o cidadão e/ou o povo que não seja “macro”, que não produza fontes escritas, ou que não foram ensinados e alfabetizados para possuir capacidades maiores.
Em contrapartida, no período entre as duas guerras mundiais, surge a micro-história italiana como alternativa de contestar e superar esse obstáculo.
Como já diz o próprio nome, “micro-história”, há um realce no “micro” ao invés do “macro”, ou seja, analisar o indivíduo para entender o todo – desde o cidadão comum até um ser de renome; com a mesma metodologia, mas com resultados distintos, pois cada pessoa é uma pessoa com suas particularidades
Esse modelo evidencia que, uma única pessoa, um uníco grupo seleto, ou um líder/referência, não define tudo. Então, é a soma dos “micros” que resulta na composição do “macro”, em vez da validação de [apenas] grandes nomes para o registro tanto do “micro” quanto do “macro”.
Dessa maneira, consideram-se outros materiais para a historiografia. Além da escrita e do documento oficial, fontes concretas, abstratas e orais também são meios para o estudo da História.
Contudo, há um obstáculo para a realização da micro-história: a carga e o esforço. Para sua aplicação, é necessário, idealmente, analisar sujeito por sujeito. É um trabalho a longo prazo que precisa de uma considerável quantidade de historiadores, estudantes e sujeitos interessados. Por exemplo, um professor das ciências humanas, em uma aula de Ensino Fundamental ou Médio, que queira usufruir esse modelo para a explicação das matérias da escola, teria de estimular os alunos a aproveitarem um tempo para pesquisar, refletir, apresentar um personagem para tentar representar uma situação, fora que já existem conteúdos que precisam ser ensinados pelas leis educacionais para concluir as obrigações com os materiais didáticos.
Então, é estreitamente relacionado às doutrinas historiográficas que surge o problema que responde à pergunta sobre não aprendermos sobre histórias e certos personagens importantes para a humanidade: o perigoso ciclo vicioso que circunda a questão da (des)valorização da reflexão antropológica como reflexo das relações de poder, que se expõe de diversas maneiras, sendo a logística das vertentes de registro histórico apenas uma delas. Essa é a principal das razões do esquecimento de Ayala: os “grandes heróis” ditaram a historiografia do Brasil apagando “micros”, como ele, Campezatto, Clodsmidt Riani e demais ativistas que caíram em um esquecimento forçado. Por outro lado, com a proposta da micro-história, classes populares e marginalizadas tendem a ganhar um novo valor e há mais recursos para a escrita.
POR QUE NÃO TEMOS CONHECIMENTO SOBRE CERTOS EPISÓDIOS HISTÓRICOS E PESSOAS IMPORTANTES, COMO AYALA? – DESDOBRAMENTOS DOS DISCURSOS NARRATIVOS NA EDUCAÇÃO
O discurso e a historiografia (altamente influenciada pelas relações de poder nas escolhas narrativas) são o núcleo para entender a composição do mundo como ele é. E, como visto, por vezes, produzem consequências negativas em outros setores da vida humana.
É pertinente começar discorrendo a manifestação mais simples desse ponto para seguir explicando-o: o pouco tempo disponibilizado para disciplinas de estudo do homem (História, Geografia, Filosofia, Sociologia) nas escolas não motiva suficientemente os jovens para trabalha-las. Desse modo, cria-se uma criança, adolescente e/ou um adulto desinteressado em refletir o que ocorre à sua volta, no mundo e em seu dia-a-dia, sendo um perigo tanto para a sobrevivência individual, quanto à civilização harmoniosa.
A falta de estímulo e investimento na educação também se mostra como um obstáculo – seja um incentivo financeiro, seja na carga horária da disciplina escolar, seja a aplicação de conhecimentos de tais assuntos, seja projetos que abram a mente dos alunos. Assim, considera-se o trato das ciências antropológicas como obsoletas.
“Acho que não há interesse, tem desconhecimento, até por parte da esquerda, […]. A história do país e qualquer movimento social deveriam ser estudados na escola. Por isso que chegamos num congresso com muitos corruptos. E também é impossível estudar tudo que tiver na história em poucas horas semanais, é difícil ter todo o conhecimento universal e saber da tua história local. E ainda assim, tem muito desinteresse e individualismo.”
Lucy Ayala“O primeiro ano do Ensino Médio, por exemplo, eu tô levando eles pra uma saída de campo na Biblioteca Pública, com o objetivo de ver fontes históricas. Então eles vão levar luva, máscara, manusear jornais antigos, documentos antigos, pesquisar lá pra ter essa experiência, que a maioria [dos estudantes] não tem. E sabe que é interessante que a maioria não sabe que pode? Eles não sabem que podem entrar lá e usar, que qualquer pessoa pode usar, que é só tu pedir autorização. Então esse tipo de coisa é algo que tu precisa estar constantemente reafirmando, sabe? Então, pra quebrar um pouco do paradigma dos alunos, a gente vai na biblioteca e depois eu vou levar eles na prefeitura e a gente vai entrar nos gabinetes. […] e eu falei que nós íamos entrar e eles ficaram assim: ‘pode?!’. Eles acham que esses lugares não são acessíveis. Então, […] é um começo de dar uma formação histórica mais crítica, entende?”
Suéllen De Medeiros Cortes
Além da questão de falta de apoios e desinteresse; o Positivismo compromete a educação – de escolas, instituições de base, em alguns cursos e até mesmo em ambiente familiar – aprofundamentos sobre ocorridos históricos, o dia a dia em tempos atuais e sujeitos que deveriam ser considerados imprescindíveis para a História. Ao promover a ideia de que a ciência é imutável até o surgimento de algo oficial que a substitua, deixa-se de desenvolver competências que também são importantes, como o senso crítico individual. A corrente positivista está amplamente relacionada à escolha de narrativas a partir de relações de poder e intencionalidades se apropriando do princípio da restrição do que são conhecimentos verídicos.
POR QUE NÃO TEMOS CONHECIMENTO SOBRE CERTOS EPISÓDIOS HISTÓRICOS E PESSOAS IMPORTANTES, COMO AYALA? – CONHECIMENTOS NÃO SÃO DEFINITIVOS PARA SEMPRE
Antes de continuar interpretando as más consequências do Positivismo – as outras além da desconsideração de falas, materiais, escritas e personalidades – é preciso considerar o seguinte instinto do ser humano. O indivíduo, enquanto não é autônomo, busca, por natureza, usufruir como base de suas ações as vivências do início de sua vida, que vêm de influência de amigos, escola, colegas, família e, principalmente, da mãe (ou de alguém responsável de exercer a “função-mãe”). Conforme o filósofo contratualista John Locke, o humano nasce como uma “folha em branco” que é preenchida com suas experiências – quanto mais em branco a folha está, menos independente o ser é, precisando se espelhar nos sujeitos em suas proximidades até desenvolver uma autonomia para prencher essa “folha”.
Nesse sentido, se o meio de educação baseado em posturas positivistas for adotado – seja por um professor, um especialista, seja até pela “função-mãe” – o sujeito levará essa ideologia adiante para sua vida e para suas próximas gerações.
Mesmo que, em alguns casos, propósitos do Positivismo são inevitáveis, essa forma de análise pode ser perigosa, pois não estimula à reflexão e dúvidas do tipo: “Por quê?”, “Como?”, “Para quê?”, “E então?”, “Isso é certo?”, “Isso sempre foi assim?”, “Como isso me afeta?”, “Quando, onde, e em que contexto se tornou a ser assim?”, “Antes de ser assim, como era?”. Tal corrente historiográfica tem como consequência a naturalização de conceitos, posturas e atitudes no indivíduo, já que a doutrina propõe que as coisas “são porque são” ou “são por causa disso aqui, até que seja provado o contrário”.
Sendo assim, a falta de espaços para questionamentos se torna um empecilho na formação de seres humanos, principalmente na antropologia, em outros estudos não exatos, subjetivos, que podem ser capazes de alterar o que já era assegurado como certo ou errado – nem tudo será sempre igual: fenômenos, descobertas, mudanças súbitas e crises das mais variadas maneiras ocorrem.
É com essa interpretação e imposição positivista de mundo – além de outros motivos – que as fake news, generalizações apressadas e o negacionismo científico acontecem. As pessoas, por meio dessa postura, acreditam que o que aprenderam pelos seus principais educadores – a escola e a “função-mãe” – é o que sempre será verídico, não dando abertura ou chances para novidades. Para esses cidadãos, comprovações que vêm de fontes novas são “materiais inventados”. Então, as ciências humanas estariam “fabricando verdades”.
Entretanto, não é assim. A História não tem como objetivo dar um conceito legítimo único ao passado e ao presente; e sim, analisar as evidências, relatos, materiais e documentos que surgem, podendo modificar ou acrescentar algo em um registro já feito. É um erro entender o estudo da história como a denominar de algo e “ponto final”. Sempre que se encontram novas fontes e se dá atenção a algo ou alguém que testemunhe tal contexto, esse contexto será reinterpretado, acrescentado ou reescrito.
Essa afirmação pode ser representada por alguns exemplos. Em uma reportagem do filósofo Michel Foucault feita no Irã (“O que está acontecendo em nosso presente que não chega até nós?”), ele afirma que é se contrapondo aos fundamentos do Positivismo que reportagens e livros de repórter surgem: investigando, questionando e dando um novo significado a histórias e conceitos. Um outro exemplo é a escrita da obra literária “Todo Dia a Mesma Noite”, de Daniela Arbex.
De acordo com o artigo “Narrar uma tragédia do presente: transgressões ao regime de práticas em Todo Dia a Mesma Noite de Daniela Arbex”, há um relato da autora que, ao ser convidada para viver em Santa Maria e cobrir os desdobramentos do caso da Boate Kiss 5 anos depois, primeiramente, ela não pensava em ir pois alegava que já se havia conhecimento sobre a tragédia. Porém, quando ela foi mais estimulada e decidiu trabalhar na cobertura, se chocou e se emocionou com os relatos, depoimentos, experiências e empecilhos que estavam por trás das notícias sobre o incidente. Portanto, ao publicar o livro com os detalhes descobertos, Daniela acrescentou muito ao registro do caso Kiss, alterando o ensinamento e interpretação do caso, mesmo que minimamente. Arbex sai de pensamento positivista de “por que apurar sobre algo que todo mundo sabe?” para uma conduta da micro-história de acrescentar muitas coisas ao conhecimento da tragédia que não haveriam se não fosse essa iniciativa – histórias nunca são terminadas nelas mesmas, e nunca serão acabadas!
Sob esse viés, a trajetória de Ayala e a obra “Tchê! Companheiro e Amigo Ayala” (livro que fala da vida do ativista) são fontes que acrescentam na história do Brasil e do Rio Grande do Sul, e que deve ser relembrada como uma parcela importante para a memória, desenvolvimento e infraestrutura da humanidade – quebram-se, mais uma vez, os pressupostos positivistas.
Não só a História, a ciência como um todo desempenha essa função de renovação. Alguns exemplos são as teorias da evolução: as leis do uso e desuso e a lei dos caracteres adquiridos de Lamarck foram analisadas e majoritariamente refutadas por Darwin, que elaborou os estudos que são aceitos como verdade hoje. As postulações de Lamarck são exemplos do que, eram conceitos confirmados por um certo período, até chegar uma referência oficial que os trocassem. Nesse sentido, é possível que surja outro cientista que mude ou acrescente os conceitos de evolução dos seres vivos. Outro exemplo é o Iluminismo, que veio a combater ideologias do Absolutismo, mas que falhou em considerar a razão e não abordar a existência do inconsciente, que posteriormente foi estudado por Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud.
Teorias são recicláveis, conhecimentos são reformuláveis, mas isso não quer dizer que um trabalho substituído seja obsoleto ou inútil. Produções científicas atualmente aceitas e as mais antigas são de extrema necessidade de continuarem sendo estudadas justamente para o progresso e aprender com erros do passado. Porém, precisa-se de cuidado e atenção para não citar afirmações infundadas, insuficientes ou até mesmo criminais – a exemplo de obras que defendam ou neguem o (neo)nazismo e o darwinismo social.
POR QUE NÃO TEMOS CONHECIMENTO SOBRE CERTOS EPISÓDIOS HISTÓRICOS E PESSOAS IMPORTANTES, COMO AYALA? – SOLO FÉRTIL PARA O CAPITALISMO
Indo além, é possível compreender o Positivismo como um moldador e estabilizador do capitalismo (o que Ayala tanto batalhou contra). Também é preciso associá-lo à base curricular nacional.
Uma base educacional é o início da construção do ser humano em uma civilização, e também é consequência das posturas políticas e econômicas de um governo, e das escolhas narrativas historiográficas. Sendo assim, no atual contexto, a base curricular é voltada para formação de pessoas que funcionem em prol das necessidades da corrente sociopolítica vigente (no caso, o Capitalismo).
Uma vez que a BNCC – Base Nacional Comum Curricular – é produzida pelo Ministério da Educação, a transmissão das ideologias e ensinamentos do que é importante para o governo está em jogo, o que é um processo natural, independentemente dos propósitos políticos de tais líderes e tal partido. Portanto, em um país de modelo capitalista, a educação é voltada para a formação de cidadãos que trabalhem para a produção de capital e os seus outros fundamentos.
Entretanto, a base curricular se torna um obstáculo quando ela opta por narrativas que comprometam outras competências e parte do desenvolvimento do indivíduo (por exemplo, o não desenvolvimento do senso crítico com o que aconteça em sua volta e com os seus antepassados, causando a falta da memória histórica). Além disso, deixa-se de abordar questões que podem ir contra o próprio sistema:
“Não aprendemos [sobre os sindicatos e os movimentos populares] porque a educação no país é organizada pra que não conheçamos a verdadeira história do país e o papel dos movimentos sindicais na valorização e em tornar as classes trabalhadoras atores sociais importantes.”
Álvaro Leonardi Ayala Fliho
Voltando à micro-história, vale relembrar que ela surgiu mais ou menos na década de 1920/1930 e essa metodologia só foi possível de ser aplicada em território brasileiro após a ditadura civil-militar, considerando a história local.
Avaliando esses cenários e a BNCC, os materiais didáticos – até poucas décadas atrás – eram de caráter predominantemente positivista: se aprendia pouco profundamente e criticamente sobre as histórias em si, valorizando mais os grandes nomes, datas e números. Em contrapartida, desde a década de 90, ocorre – e ainda está em processo – uma metamorfose nos livros escolares e vestibulares, de um modo geral, mais voltada para uma análise mais interpretativa e lógica de acontecimentos e tudo o que possa estar envolvido, relacionando com questões que circundem a vida do ser humano, até mesmo nas ciências exatas. Isso pode ser visto, por exemplo, na prova do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que tem assumido um caráter mais interpretativo e menos “conteudista”, aproximando mais o questionário do estudante, o fazendo entender como um sujeito presente na tal situação e instigando a criticidade.
Entretanto, o capitalismo ainda tenta não expor ou deixar que os cidadãos enxerguem os seus erros, insucessos e tópicos que podem ir contra si mesmos. Para o modo de produção capitalista se manter ativo, aplicar o Positivismo como método científico e de ensino primordial potencializa a estabilidade do modelo político e econômico – fazendo com que o sujeito seja um proletário que apenas exerça sua função e não reflita sobre isso.
Com a aliança entre posturas capitalistas e positivistas nas escolas, além da falta de desenvolvimento de senso crítico e investimento, também não há presença de discussões e aulas de temas morais, de saúde física, mental, de segurança (tanto pessoal, quanto pública) e outras competências e habilidades. Isso também culmina em outros problemas sociais, como ansiedade, depressão, incertezas e incapacidade de um sujeito lidar com sua sobrevivência e experiências.
“[…] os nossos avós, eles estudaram História de uma maneira ‘decoreba’. Eles acreditavam que aquela forma de educação, principalmente no período de ditadura militar, dos nossos pais e tal, ele era muito limitador, ele não permitia tu ir além. Agora, na faculdade de História, tu estuda da maneira mais crítica, mais exigente. E quando tu sai pro mercado, se tu passar num concurso público, tu não consegue aplicar as coisas diferentes porque não tem recurso; se tu for pra uma escola particular, tu não vai fazer aquilo que tu acha melhor, e sim, qual é a orientação da escola. Cada escola tem uma orientação. Existem escolas religiosas aqui na cidade que trabalham criacionismo, tá? Principalmente em relação à evolucionismo. Então, depende muito de como que isso vai ser abordado, não é uma coisa muito simples de comandar”
Suéllen De Medeiros Cortes
POR QUE NÃO TEMOS CONHECIMENTO SOBRE CERTOS EPISÓDIOS HISTÓRICOS E PESSOAS IMPORTANTES, COMO AYALA? – O DISCURSO É A PEÇA PRIMORDIAL DA HUMANIDADE!
Desse modo, urge a necessidade de compreender a formação do ciclo vicioso que responde a dúvida sobre deixar de aprender sobre alguns episódios e sujeitos importantes para o entendimento da sociedade. Para tanto, é necessário interpretar e unir as teses anteriores em uma só: a comunicação precede todas elas.
“Uma crise não é nada mais que um problema de comunicação, e a solução de uma crise é a própria comunicação!”
Nikolas Sousa, estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas
Nesse sentido, o discurso é o precursor de tudo o que se conhece no mundo. Antes mesmo de ideologias, culturas, impulsos, estudos, ciências, questões financeiras; tais questões que rodeiam o ser humano precisam de todo o processo discursivo – aplicação de linguagem para a construção de significado dentro de um contexto – para que exista sentido.
Ou seja, os principais tópicos para o problema da memória histórica são a historiografia, a educação e um modelo de governo que limite comportamentos sociais. Porém, todos eles passam a existir a partir de discursos.
As comunicações mais impactantes são aquelas com o uso mais eficaz das ferramentas de linguagem, do contexto de diálogo e de todo o processo discursivo. A humanidade é regida pelos discursos mais fortes, predominantes e pertinentes na civilização – por mais que alguns sejam de caráter duvidoso.
Posto isso, necessita-se unir as noções de comunicação e retomar as teses discorridas anteriormente (sobre historiografia, educação e Estado) para chegar à conclusão:
Um governo busca, por natureza, expandir suas ideologias, promovendo o bem-estar social no local que lidera (ou deveria). O capitalismo, corrente vigente, aplica seus fundamentos. Entretanto – como má consequência e aproveitamento da propriedade privada, hierarquias sociais, visão voltada ao lucro e a meritocracia – há domínio e opressão de classes inferiorizadas financeiramente, indo contra os princípios da civilização humana (garantir direitos, deveres e sobrevivência para todos em conjunto, sendo um intermédio mais fácil para tanto do que uma guerra de cada um por si).
A História e a ciência – como meios de avaliação, pesquisa e estudo de acontecimentos e fenômenos – permitem que os cidadãos entendam o que está se passando com eles e ao redor deles, evidenciando ocorridos e consequências positivas e negativas.
Sabendo disso, há uma campanha entre as autoridades e elites capitalistas para “apagar” esse fator – um exemplo é o que o professor Ayala Filho comentou sobre o movimento para a história do Brasil ser esquecida.
Por conseguinte, reduz-se o investimento na educação e promoção das ciências e artes que possam abordar quesitos que sejam contra o modelo, diminuindo o interesse e o estímulo do aluno, além da carga horária do estudo (uma vez que algumas disciplinas são consideradas obrigatórias nas instituições de base, elas não podem ser descartadas completamente).
E, para manter o capitalismo ainda mais fortalecido e desenvolver indivíduos capacitados apenas para manter esse sistema, o Positivismo é apropriado como um “braço direito”, um “cão de guarda”, um “fantoche” que esconde interesses exarcebados e relações de poder. As propostas dessa doutrina historiográfica encaixam perfeitamente para esse intuito das pessoas não pensarem no que o modo de produção capitalista oferece que pode ser questionável e contestável, e que só façam as obrigações pré-estabelecidas, mantendo a dominância.
Dessa maneira, a criação de sujeitos influenciada pelo método positivista passará – ao exercer a “função-mãe”, ensinar um filho, parente, aluno e/ou jovem – essa tendência às próximas gerações. Assim que apreendido e educado nas fases iniciais da vida, se torna mais difícil mudar tais questões, que são absorvidas como essências do cidadão.
Logo, o tal ciclo vicioso e perigoso entre capitalismo, escolhas narrativas e educação está concretizado. Positivismo e a classe dominante são uma união antagônica da dupla micro-história e o setor popular, operário e/ou marginalizado.
“[o capitalismo infere que] nós temos que criar um indivíduo que tenha competências técnicas especificas, mas que não tenha uma visão crítica da sociedade. Assim, esquecer das lutas das classes populares na nossa história é parte do projeto de formação de indivíduos pouco críticos que possam cumprir as funções exigidas pelo capitalismo na forma atual.”
Álvaro Leonardi Ayala Filho
Logo, a pergunta do título dessa seção – “Por que deixamos de aprender sobre certos episódios históricos e pessoas importantes, como Ayala?” – está respondida: a causa é a desvalorização de reflexões antropológicas, que vem como consequência do ciclo vicioso explicado, que é antecedida por um discurso de interesse perigoso – mas que foi propagado de modo convincente; uma vez que sua estrutura o fez parecer legítimo.
Tais tópicos também são razão para outros empecilhos sociais. Alguns deles seriam a não conscientização; depressão; ansiedade; inseguranças; incertezas; falta de senso crítico; polarizações; desinformação e consequentes discursos de ódio.
QUAIS SÃO OS PRIMEIROS PASSOS PARA HAVER UM CONHECIMENTO HISTÓRICO MAIS AMPLO?
Sob as causas citadas, é perceptível que há estruturas que entregam polêmicas e feridas para a humanidade que, logo, precisam de soluções para a evolução do corpo social.
Adriana Cunha – mestrada em Linguística Aplicada na Universidade Católica de Pelotas (UCPel) e estudante de Jornalismo da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) – propõe a seguinte reflexão sobre processos discursivos e demais problemas sociais relacionados:
“A quem interessa que essa informação seja passada dessa forma?”
Adriana Cunha, em entrevista ao programa de podcasts “Educomunicação em Foco”, da UFPel
“[…] se o povo conhecesse a sua própria história, talvez o governo não conseguiria dominar o povo, não conseguiria porque eles seriam muito mais críticos. Então, trazer a verdade à tona gera o incômodo. Vou te dar um exemplo. Durante o governo da Dilma Rousseff foi feito trabalho de ‘memória, justiça e verdade’. Várias coisas vieram à tona. Inclusive, o filme ‘Ainda Estou Aqui’ só é possível por conta disso: porque os segredos da ditadura militar vieram à tona durante esse processo entre 2012 e 2014, e o que aconteceu ali pra trazer esses elementos. Quando esses elementos vieram, muitas pessoas entenderam e foram instigadas a saber: ‘ah, então era isso aqui o que acontecia’. Outras pessoas, negaram: ‘até agora aprendi assim; tão trazendo novas verdades e as novas verdades estão erradas; é verdade o que eu aprendi’. Então, esse é um movimento muito difícil. O próprio filme [Ainda Estou Aqui], quando foi lançado, muitas pessoas não aceitaram o filme, tá? Muitas pessoas negaram a verdade, que aquilo era uma fake news. O filme ganhou um Oscar, mas as pessoas continuam reafirmando isso. É muito complicado. Há um sistema maior que é difícil de romper; que a gente tá num processo de melhoria, mas que tá longe de resolver, sabe? Não estamos perto de resolução”
Suéllen De Medeiros Cortes
A própria obra “Ainda Estou Aqui” é um ótimo exemplo de análise do tipo micro-história. O filme, em vez de falar apenas do personagem que foi morto (Rubens Paiva), aborda toda a prisão e superação da esposa Eunice Paiva (que é o foco central), e o modo como cada filho lidou com ambos os pais desaparecidos e com o fato de que Rubens nunca mais voltou (sendo que os mais novos não sabiam o que estava acontecendo). Logo, em apenas uma produção cinematográfica, há a avaliação de vários “micros” individualmente – uns menos e outros mais – e somados para avaliar um “macro” – a família Rubens Paiva e outros cidadãos brasileiros que possam vir a se identificar com a história – realizando diversas críticas sociais contra a ditadura militar, o capitalismo e o regime autoritário.
Portanto, antes de buscar qualquer investimento para um conhecimento mais amplo da História, a substituição do Positivismo pela micro-história se torna imprescindível.
Ou seja, a solução primordial não está necessariamente na substituição da administração e da doutrina política vigente, está no intermédio para emprega-la!
Independentemente de qualquer contexto social, governo, população ou comunidade presente, o uso das ideologias e morais do modelo historiográfico italiano, mudaria a forma de entender, lidar e enfrentar questões da vida do ser humano. Os efeitos serão percebidos tanto para o próprio registro histórico, quanto para a educação, além do dia a dia e rotina dos indivíduos.
Ao aplicar a micro-história, a atenção nos estudos, pesquisas e relações sociais será dividida igualmente para a compreensão de todas as fontes de informações existentes, assim como as próprias pessoas. Como consequência, a interpretação, a constante reflexão e o senso crítico dos cidadãos estará em maior atividade para a construção histórica. Assim, também haverá mais discussões e combates mais efetivos sobre todos os demais obstáculos para o bem-estar social.
Desse modo, há a necessidade de reformulação desse modelo político vigente a partir da própria micro-história. Se sua aplicação no próprio capitalismo não for suficiente para eliminar as dominâncias de classes, a exclusão de partes da História, a meritocracia e os outros problemas, a doutrina deve ser substituída.
Ademais, são necessários investimentos na educação por meio da alteração na BNCC, incentivos financeiros, estímulos no interesse dos alunos, mudanças nas logísticas de aplicação das aulas nas escolas e na conscientização das pessoas para não passar para as próximas gerações os erros cometidos no passado e no presente. Para tanto, a micro-história também se fará presente.
Sob esse cenário, a historiografia do estudo do micro é o núcleo para todos os outros meios de aumentar o amplo conhecimento histórico, científico e sociocultural. É o caso do livro e homenagem “Tchê! Companheiro e Amigo Ayala!”, outro perfeito exemplo da aplicação de micro-história, que usa a análise do contexto histórico já registrado, falas e depoimentos de Ayala sobre a situação social e suas vivências, mais a expressão de outros sujeitos, companheiros, amigos e testemunhas que comentassem e acrescentassem na escrita sobre sua atuação, seus feitos, e visão de mundo.
A ESPERANÇA É A ÚLTIMA QUE MORRE!
“[…] o banco mundial disse que com 0,7% do PIB nacional nós liquidaríamos com a pobreza absoluta no país. Com 2 a 3% do PIB nacional, seria possível manter as crianças pobres na escola através do pagamento de uma renda mínima a seus familiares. E o banco diz mais: se pegássemos de 2 a 3% do PIB nacional nós teríamos condições de iniciar a grande reforma agrária que terminaria com o problema do desemprego no país. Para isto precisa duas coisas. Primeiro: o governo fixar prioridades. Segundo: ter uma vontade política de resolver os problemas que afligem o povo brasileiro. Acredito na luz no fim do túnel. […] O governo só ouve os aliados ele, até os protetores dele, desde que estes interesses não respinguem na área econômica. Quando é para atingir o povo, [..] os trabalhadores sem terra, […] as crianças sem comida, o governo não vê, não ouve e não quer resolver por uma questão muito simples: teria que botar o dedo nos grandes problemas nacionais. […] Não vamos esquecer o seguinte: se nós dermos terra para todos que querem trabalhar nela, […] os problemas começam a ser resolvidos. Vai aumentar a produção, vai aumentar a distribuição, vai aumentar a capacidade de compra do povo. Consequentemente, aumentam as forças comerciais, aumenta a questão da indústria e o dinheiro brasileiro começa a rolar e deixa de ficar parado na mão de meia dúzia de especuladores, quase todos eles representando capitais internacionais”
Ayala
Em meio às injustiças sociais, o contexto histórico, a influência de sua família anarquista e sua própria personalidade, Ayala encontra uma distribuição mais igualitária de recursos como o caminho para o propósito da civilização: todos os envolvidos terem sua sobrevivência e bem-estar social garantido, em que as pessoas possam ter o direito à liberdade e seus desejos garantidos, desde que não destrua ou ameace o direito do outro.
Sob esse cenário e partir desse trecho de fala de Álvaro, fica claro que, embora ele sempre foi contra as políticas e governos anticomunistas de sua época, a solução para o caos social está em uma boa administração de um modo geral – mesmo que não seja da corrente ideológica de sua preferência: o comunismo.
Moldar e proteger a civilização é o que gerência de uma cultura – líderes, autoridades, um governo de um povo, país, estado, cidade, do globo – precisa cumprir como comandantes. Em contrapartida, fica claro que a desigualdade social e aproveitamento desse poder de gerir para suprir apenas suas próprias vontades é questão de uma má administração, desonestidade e promoção da insegurança na sociedade.
Por outro lado, os cidadãos também não podem viver de qualquer jeito sabendo que tem seus direitos assegurados. Mesmo que, a partir da leitura de todo esse texto, o abuso de autoridade seja o mais comum entre os egocentrismos, a soma dos egoísmos entre todos os indivíduos culmina em uma bagunça maior, uma guerra de todos contra todos.
Assim, basta cada um fazer sua parte para cumprir os propósitos da civilização. Mesmo que tenham questões que sejam muito mais complexas – que envolvam competências, políticas e habilidades que, muitas vezes, não são de domínio de algumas pessoas – ainda há a possibilidade de tudo e todos viverem harmoniosamente sem desrespeitos a regras e agressões.
Bem como o próprio Ayala menciona: mesmo com toda a opressão, perseguição e traumas que sofreu, ele acredita na superação, no bem-estar social, na vitória contra o mal.
A esperança é a última que morre! Ainda há luz no fim do túnel! É possível, sim!
“Mas, se nós temos planos […]
Por que não pô-los logo em ação?
Tal seja agora a inauguração
Da nova nossa civilização
Tão singular igual ao nosso ão
E sejam belos, livres, luminosos
Os nossos sonhos de nação.”
Trecho da música “Ecos do Ão”, do compositor Lenine
A ARTE DE SER COMPANHEIRO – OBRIGADO, AYALA!
“Infelizmente não está mais entre nós o querido dirigente sindical Álvaro Leonardi Ayala, o mais antigo líder classista em atividade no Brasil. No último dia 24 de janeiro* [de 1999], sua família e seus companheiros e amigos do Sinergesul [Sindicato dos Trabalhadores em Energia Elétrica do Rio Grande do Sul] e do Partido Popular Socialista [PPS, para onde Ayala migrou após sair do PCB] dele se despediram em comovida homenagem que lhe foi prestada por ocasião do seu sepultamento. A ênfase dos oradores assinalou que, durante toda sua existência, o melhor de seus dias foi dedicado à defesa dos oprimidos. […] Quando faleceu, aos 75* anos de idade, ainda era diretor em seu sindicato de classe e, também, integrante do Diretório Municipal do PPS em Porto Alegre.”
João Aveline, jornalista e integrante da Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul
*na frase original de Aveline, foram mencionados dados errados que aqui foram corrigidos
“Ayala. Por mais que quiséssemos expressar o seu significado político, pessoal, humano, não seriam essas linhas suficientes para tal pretensão. De qualquer forma, é o que […] foi possível resgatar da sua emocionante história de vida. Mas, com certeza, é insuficiente para o que você representou e representa para nós urbanitários e, dentre nós ou irmanados a nós, especialmente para os comunistas, humanistas e democratas por excelência, além de sindicalistas de caráter eminentemente classista que tiveram em você dos melhores e mais significativos exemplos de vida e de coerência existencial – na vida familiar, na militância, na ética política e, por fim, no respeito a valores inexpugnáveis para o exercício da liderança política, sindical e partidária – que você, singularmente, nos legou. […] motivados pela admiração e saudade que você e a sua história nos inspira e provoca, fica, indelével, um signo especial da sua personalidade: a luta incessante pela construção da unidade dos setores progressistas dos movimentos sociais rumo ao socialismo com democracia, onde todos os homens e mulheres, velhos e crianças, possam ser solidários e felizes”
Luiz Gonzaga Ulhôa Tenório, Ex-Diretor-Presidente da Fundação Nacional dos Urbanitários da CUT, realizadora do livro “Tchê! Companheiro e Amigo Ayala”





