Ensino Integral: um modelo em expansão
Mais horas na escola, mais oportunidades de aprendizado: o ensino médio integral cresce no Brasil e no Rio Grande do Sul, inspirado em modelos históricos que transformaram a escola em espaço de formação cidadã e permanência estudantil.
Por Érika Retzlaf / Em Pauta
A adoção do ensino médio em tempo integral tem sido apresentada por governos como uma aposta na melhoria da qualidade da educação pública no Brasil. O modelo amplia a permanência dos estudantes na escola, com jornadas que podem ultrapassar nove horas diárias, e propõe uma formação mais abrangente, incluindo disciplinas eletivas, projetos de vida e atividades extracurriculares.
No plano legal, a política federal de fomento ao ensino médio integral foi instituída em 2016, com a Medida Provisória nº 746, convertida em 2017 na Lei nº 13.415, conhecida como Reforma do Ensino Médio. A legislação alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e estabeleceu a ampliação gradual da jornada escolar como diretriz nacional. Antes disso, iniciativas como o Programa Ensino Médio Inovador (ProEMI), criado em 2009, já buscavam apoiar propostas curriculares diferenciadas, mas sem a institucionalização em larga escala do tempo integral.

Escola Estadual de Ensino Médio Professor Carlos Loréa Pinto começou a ofertar o ensino médio em tempo integral em 2019. Foto: ÉRIKA Retzla / Em Pauta
O governo federal intensificou os investimentos na educação básica nos últimos anos, incluindo cerca de $4 bilhões destinados à expansão do “Programa Escola em Tempo Integral”, com o objetivo de fomentar matrículas em jornada ampliada e cumprir metas do Plano Nacional de Educação.
Segundo o Censo Escolar mais recente, o Brasil registrou aproximadamente 47,1 milhões de matrículas na educação básica, distribuídas em cerca de 179 mil unidades escolares, refletindo leves oscilações ano a ano na composição destes dados em redes públicas e privadas.
No momento que a escola vira espaço de vida, a educação toma forma como algo essencial na formação cidadã. É no instante em que o tempo deixa de ser apenas passagem e vira aprendizado, matéria-prima de tudo o que se constrói entre salas, corredores e encontros.
A Coragem dos Precursores: E. E. E. M. CARLOS LORÉA PINTO
No Rio Grande do Sul, a oferta formal do ensino médio em tempo integral nas escolas estaduais teve início em 2018, com a adesão das primeiras unidades ao novo regime. Desde então, o número de escolas com jornada ampliada vem crescendo, acompanhando a priorização da política pela rede estadual de ensino.
A Escola Estadual de Ensino Médio Professor Carlos Loréa Pinto começou a ofertar o ensino médio em tempo integral em 2019. A partir de 10 de Março do mesmo ano, os estudantes do primeiro ano passaram a ter a modalidade de ensino integral com jornada ampliada, com aulas e atividades que se estendem por cerca de sete horas por dia.
A escola foi a primeira do município de Rio Grande a aderir ao ensino integral, oferecendo aos estudantes uma formação mais completa e diversificada. Com cerca de 550 alunos matriculados, a instituição busca promover um ambiente de aprendizado que combine excelência acadêmica, atividades extracurriculares e desenvolvimento pessoal, preparando os jovens para os desafios do futuro enquanto fortalece sua participação na comunidade local.
Além disso, o Loréa Pinto mantém uma equipe de professores qualificados e dedicados, que buscam constantemente novas metodologias para tornar o aprendizado mais dinâmico e significativo. A escola também promove eventos culturais, feiras de ciência e projetos comunitários, consolidando seu papel como um espaço de formação acadêmica, cidadã e cidadã comprometida com o futuro de Rio Grande.
A vice-diretora Gabrielly Butierres acompanhou todo o processo de implantação do modelo integral no município. Segundo ela, a mudança exigiu reorganização administrativa, adequações na estrutura da escola e planejamento por parte da equipe pedagógica para atender à nova carga horária e às diretrizes estabelecidas. Gabrielly explica que, desde 2019, a escola vem trabalhando para ajustar rotinas e consolidar o formato, mantendo o foco no cumprimento das orientações da rede e no atendimento às necessidades dos alunos.
“O principal benefício é o tempo de qualidade dentro da escola. Com a ampliação da jornada, conseguimos reforçar conteúdos, desenvolver projetos interdisciplinares e acompanhar mais de perto cada aluno. Isso impacta diretamente no aprendizado e também na formação pessoal”, afirma a vice-diretora.
Em regiões marcadas por vulnerabilidades econômicas e sociais, a escola muitas vezes se torna o principal espaço de acesso ao conhecimento, à cultura e a perspectivas de futuro. Além de contribuir para a formação acadêmica, a educação fortalece a cidadania, amplia horizontes profissionais e ajuda a romper ciclos históricos de desigualdade. Investir na qualidade do ensino nessas comunidades significa oferecer condições mais justas de desenvolvimento, valorizando talentos locais e promovendo inclusão social por meio do aprendizado.
Para obter sucesso na jornada integral durante o ensino médio, é preciso contar com investimentos contínuos, formação adequada dos docentes e políticas públicas sensíveis às desigualdades regionais. Sem essas condições, o modelo corre o risco de aprofundar exclusões e afastar justamente os estudantes que mais necessitam da escola como espaço de acolhimento e transformação social.
Segundo a coordenadora pedagógica da escola, Profª. Drª. Camila de Castro Guerreiro, “todo o projeto pedagógico é direcionado ao projeto de vida do estudante”. Nesse contexto, a estrutura escolar precisa ser modificada para atender as necessidades dos alunos, incluindo refeições diárias e apoios psicossociais, como acompanhamento individual, orientação educacional e diálogo constante com as famílias. Essas medidas fortalecem o vínculo do estudante com a escola, auxiliam na superação de dificuldades e promovem uma formação mais completa e inclusiva.
Neste espaço, aprender deixa de caber no horário e o tempo passa a render futuro. Quanto mais horas, mais caminhos os alunos percorrem entre as dependências da escola, descobrindo que a educação mora o dia todo.

