Os desafios enfrentados pelos atores em formação do Teatro Escola de Pelotas

Integrantes do Teatro Escola. Imagem: Daniela Mello/Divulgação

“Ouse! Atreva-se! Inspire-se! Você pode ser o que quiser…” é o lema do TEP.

Por Daniela Mello*

O Teatro Escola de Pelotas é o mais antigo grupo teatral em funcionamento do Brasil. O grupo, em atividade desde 1914, conta com vários espetáculos de sucesso como “O Circo de Bonecos” e “Don Leandro ou os Sendeiros do Sangue”, além de diversos prêmios. Foi no TEP que o primeiro curso de teatro de Pelotas surgiu.

Em 2004, a atriz, diretora, maquiadora e figurinista, Barthira Franco, assumiu a direção do TEP, se tornando a primeira mulher a administrar o grupo. Atualmente, o Teatro Escola oferece cursos de interpretação que são divididos de acordo com a idade e módulo do estudante.

De acordo com os atores em formação do módulo avançado do curso de Interpretação para Adultos, as aulas, que acontecem uma vez por semana com a diretora, Barthira Franco, são sempre inovadoras. “Cada aula tem um tema diferente, como, por exemplo, teatro infantil” explica a estudante de 15 anos, Rafaela Fonseca. Além disso, os alunos aprendem variadas técnicas necessárias para se apresentarem no palco “exercícios vocais e de respiração estão sempre presentes em nossas aulas” diz Analice Garcia, estudante de 18 anos.

O curso voltado para a capacidade de interpretar conta com cenas improvisadas, segundo a professora de 57 anos, Graça Pinto, a preparação não é nada simples e afirma “Precisamos lidar com o corpo, com os sentimentos, com o tipo de plano em que vamos atuar e a forma como nos colocamos no palco”.

Algo geralmente visto na sociedade quando o assunto é teatro, é a desvalorização do estudo de um ator. Pessoas que não estão ligadas com o aprendizado da arte de atuar, acham que a atividade é extremamente simples. Costumam não dar mérito ao esforço do ator. “As pessoas acham que o teatro é fácil, que qualquer um pode atuar, é só chegar ali e interpretar, mas não, há varias técnicas que são necessárias para desenvolver um bom trabalho. Não basta chegar no palco com a fala na ‘ponta da língua’ e com expressões, são vários detalhes que são vistos em cada aula” diz Rafaela.

Para que um espetáculo seja excelente, um profundo envolvimento dos atores é totalmente necessário. A existência de uma paixão pela arte é um dos motivos principais de Isis Marques, estudante de 18 anos, para ter procurado o curso “Sonho em ser atriz desde pequena, já pensei em desistir do teatro, mas não vejo nenhuma outra área que me interesse”. Rafaela também sempre sonhou com a carreira de atriz, e o TEP é o seu primeiro contato com o teatro depois de uma experiência no colégio, “Desde muito nova assistia Video Show e queria ser atriz, quero muito continuar fazendo o que eu gosto”. Já para Analice e Graça, a razão pela qual começaram o curso foi diferente. Não sonhavam em ser atrizes. Procuraram no TEP novas experiências, “tentar me soltar mais, me conhecer melhor, é algo difícil de explicar” diz Analice. Graça queria encontrar situações novas em sua vida, “nunca atuei, nem acho que vou atuar, mas decidi me envolver com o teatro para entender um pouco o mundo artístico, expandir meus horizontes”.

Lázaro Rutz de Oliveira, micro empresário de 29 anos, também está no módulo avançado e teve contato anteriormente com a música, porém estava parado, “decidi tentar algo diferente e descobrir um novo lado meu, posso dizer que me encontrei aqui”. Embora não saiba se vai seguir a carreira de ator, tem certeza de que quer trabalhar no ramo artístico.

Inúmeros são os desafios para um estudante de teatro, “lidar com a timidez continua sendo um problema para mim” diz Hakeen Mhucale, ator e dançarino de 27 anos. Muitas pessoas que dedicam um tempo ao teatro procuram se comunicar melhor e perder a vergonha, esse foi o motivo de Marcela dos Santos Dode, estudante de 24 anos, para começar o curso. Segundo Lázaro e Analice, a autocrítica é muito presente, costumam se cobrar muito.

Pelotas é uma cidade que possui muito talento, porém os alunos do módulo avançado do TEP acreditam que isso não seja tão reconhecido como deveria. “Como uma frequentadora da cultura de Pelotas, não é uma das piores cidades, mas com certeza não explora a potencialidade que a cidade tem, turística, cultural…” afirma Graça. A falta de divulgação para o público que não é ligado ao mundo artístico acontece porque, segundo Bartihra Franco, falta espaço para a realização de um espetáculo. “Então se tu faz uma grande divulgação, quando tu não tem 600 lugares para vender o ingresso, como tu monta a apresentação? Tem que buscar patrocínio. Como se busca? Através de um projeto. Acaba dependendo da aprovação do projeto e não se produz o que quer”, diz Barthira. O público então se torna menor e restrito a quem faz arte. “As pessoas de fora que costumavam lotar o Theatro 7 de Abril para assistir os espetáculos do TEP não têm mais acesso”, explica a diretora.
A alternativa encontrada para a realização de peças pelo grupo são as apresentações em praças, no entanto, apenas quem estiver passando no momento irá assistir. Novamente a falta de um espaço e a desvalorização do artista acontece, pois a profissão do ator é vista como algo sem importância pela sociedade, “é muito bonito essa visão do artista, de vamos democratizar a arte, é lindo e a gente faz, mas a gente também precisa se manter, não temos outra profissão além dessa” afirma Barthira.

O resultado é notável hoje em dia, o teatro é visto apenas como um hobby, pois é difícil buscar sustento se não há lugar para acomodar um público, “se quiser dar uma qualidade media, há um gasto, e esse gasto precisa ser ressarcido” diz a diretora do TEP.

Esses fatores fazem com que as pessoas migrem para outras profissões. No entanto, a realização como artista está presente em cada ator do TEP, fazendo com que lutem por um espaço e não desistam de alcançar o público. O projeto de MiniTeatro, criado para atender o público de escolas de Educação Infantil, possui peças de curta duração que buscam a interação e o uso da criatividade das crianças.

“Faffy e a Fofoca na Fazenda” será a primeira peça do projeto, está sendo desenvolvida pelos alunos do TEP e conta com a diretora Barthira Franco. O enredo, ideal para os jovens, traz mensagens sobre perdão, generosidade, amizade, justiça e colaboração, abordando de forma leve um tema importante: o bullying. É um projeto contínuo, com previsão de dois a três espetáculos, ainda sem datas, por ano.

E você, sonha em ser ator? Se sim, não deixe os desafios de uma boa formação te atrapalharem. Com muita dedicação, não só em seu trabalho, mas também em seu espaço, a profissão é incrível e realizadora.

Caso queira saber um pouco mais sobre os cursos e espetáculos, você pode entrar em contato com O Teatro Escola de Pelotas através de sua página no Facebook “TEP – Teatro Escola de Pelotas”. O novo local das aulas de interpretação ainda está sendo ajustado pelo grupo.

*Notícia produzida para a disciplina de Produção da Notícia especial para o Em Pauta.

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