O baile do glamour dourado

O evento anual para arrecadação de fundos para o “Costume Institute” do museu Metropolitan, em Nova York, volta à sua programação normal repleto de convidados fashionistas

Por Sarah Oliveira 

 

Entrada da exposição desse ano, In America: A Lexicon Of Fashion./ Foto: The Metropolitan Museum Of Art/Divulgação

 

AS ORIGENS

Em 1915, as irmãs Irene e Alice Lewisohn tiveram a ideia de criar um teatro multiartístico chamado “Neighborhood Playhouse”, onde além de aulas e oficinas artísticas, eram feitos trajes para as obras produzidas ali e em 1937, Irene inaugurou o “Museum Of Costume Art” (Museu de Figurinos) em Nova York.

Após a sua morte, membros da indústria da moda fizeram com que o museu de Lewisohn fosse inserido como um dos institutos pertencentes ao “Metropolitan Museum Of Art” (Museu Metropolitano de Arte), sendo uma curadoria.

Criado em 1948 por Eleanor Lambert, grande relações públicas da moda e idealizadora dos eventos mais icônicos e importantes da indústria fashion – como o New York Fashion Week -, ela inaugurou o ‘The Costume Institute Benefit’, um baile de caráter itinerante de arrecadação de fundos para a manutenção do agora chamado “The Costume Institute”. O evento era sempre marcado no mês de Dezembro à meia-noite e somente membros da alta sociedade nova-iorquina conseguiam o concorrido ingresso, que na época custava 50 dólares.

AS CURADORAS

Diana Vreeland e Anna Wintour, editoras da Vogue US./ Foto: Getty Images

Durante toda a sua existência, o Met teve duas grandes mulheres por trás de sua organização: Diana Vreeland e Anna Wintour.

Recém saída do cargo de editora da Vogue americana, Diana Vreeland – conhecida por sua personalidade extravagante – assumiu a curadoria do instituto em 1973 e realizou uma das maiores mudanças do evento:

Checklist Anna Wintour

Depois de Vreeland, o comando foi para as mãos da editora-chefe da Vogue dos Estados Unidos, Anna Wintour, que assumiu a presidência do instituto em 1995. Trazendo consigo todos os recursos e domínio da maior revista de moda do mundo, Anna também deixou seu legado no Met:

Nos últimos anos, a editora também conseguiu fechar acordos com diversas  marcas como a joalheria Cartier e a empresa de celulares Motorola, para patrocinar o evento, trazendo mais dinheiro para o museu. Além disso, Wintour fez com que todas as plataformas da Vogue fossem usadas para a divulgação e cobertura do baile e também para torná-lo mais próximo e interativo com os admiradores da moda e dos convidados através das redes sociais com seus milhões de seguidores.

Checklist Diana Vreeland

A influência de Wintour é tão grande que o Metropolitan Museum rebatizou o instituto como “The Anna Wintour Costume Center” – em português, ‘Centro de Trajes Anna Wintour’.

O BAILE DE 2022

Assim como todo e qualquer evento nos últimos 2 anos, o Met Gala sofreu com o impacto da pandemia da Covis-19. Para que pudesse ser feito no ano de 2021, Wintour abriu uma exceção e o evento aconteceu no segundo domingo do mês de Setembro, com o tema “America: A Lexicon Of Fashion” – América: Um Léxico da Moda, em tradução livre – que celebrava o país norte-americano e a sua moda através dos anos.

Em 2022, já de volta a data tradicional, o tema foi uma segunda parte do ano anterior com “In America: An Anthology Of Fashion – Gilded Glamour, White Tie” (Na América: Uma Antologia da Moda – Glamour Dourado, Gravata Branca”), que referencia a “Era Dourada” dos Estados Unidos, que aconteceu entre 1870 e 1900, e foi um período de grande e rápido crescimento econômico e industrial do país, que resultou em um grande contraste na população norte-americana, onde a elite se tornava cada vez mais rica e a classe trabalhadora e pobre se afundava ainda mais na miséria. Porém, além dos fatores sociais, a era também foi marcada por ser uma época em que os excessos materialistas se tornaram super-valorizados, tendo uma de suas maiores expressões através da arquitetura e da moda.

Como de costume, todos os convidados do Met Gala seguem o dress code à risca, porém à sua maneira, e esse ano não foi diferente. Aqui estão alguns convidados do baile mais esperado da indústria da moda que serviram tanto no visual quanto no referencial histórico.

BLAKE LIVELY

Blake Lively em seu vestido duplo Versace./ Foto: Getty Images

Na “Era Dourada”, o estilo de vida extravagante era ostentado por toda a extensão dos Estados Unidos, porém a sua capital exemplo foi a grande Cidade de Nova York, no norte do país – e foi inspirada nela que a atriz Blake Lively entregou o visual mais lindo da noite.

Além de ser conhecida por seu papel como a fashionista Serena van der Woodsen na série ‘Gossip Girl’, Lively também é um ícone da moda. Sempre confirmada na lista do evento e presente nas listas como uma das mais bem vestidas da noite, a atriz serviu mais um momento fashion no tapete vermelho, azul e branco do MET, usando um vestido feito sob medida pelo Atelier Versace – selo de alta costura da marca Versace – em um tom acobreado com detalhes metálicos com um grande laço bronze incorporado à cintura, formando a cauda do vestido.

No primeiro momento, o vestido apresentava uma cor rosé acobreada, mas após alguns minutos, com a ajuda de sua equipe, Blake desfaz o laço e revela que por dentro dele havia uma cauda de cor verde oxidada com delicados bordados feitos à mão. Quando questionada sobre a origem do visual, Lively diz que se inspirou na arquitetura de Nova York – sede do evento e um dos maiores polos da ‘Gilded Age’ – a estrutura do vestido foi inspirada na arquitetura do Empire State Building, as 12 constelações na cauda são as mesmas pintadas no teto da Grand Central Station e as cores foram derivadas da Estátua da Liberdade – presente dos franceses aos norte-americanos em 1886, a estátua inicialmente era uma grande obra feita em bronze, mas que com o processo de oxidação, hoje está verde.

SARAH JESSICA PARKER

Conhecida por interpretar personagens que possuem momentos fashionistas na televisão e cinema norte-americana, a atriz Sarah Jessica Parker investiu em uma figura histórica da moda americana para o seu visual. Ela homenageou a ativista, escritora e estilista Elizabeth Hobbs Keckley – a primeira mulher negra a ser a modista responsável pelas roupas de uma primeira-dama dos EUA. 

Elizabeth era filha de Agnes Hobbs e Armistead Burwell, uma mulher escravizada e seu senhorio, e nasceu como uma pessoa escravizada, sendo o seu pai biológico o seu proprietário. Keckley aprendeu a costurar com a sua mãe, que produzia peças para mais de 80 pessoas que viviam na mesma propriedade que elas.

Durante a sua vida como escrava, Elizabeth passou por diversas situações desumanas e cruéis nas mãos de seus meio-irmãos e conhecidos da família Burwell, até que 15 de Novembro de 1855, ela pagou pela sua alforria e a de seu filho George. Ao ser uma mulher livre, ela se mudou para Washington a fim de começar a sua carreira como modista e costureira profissional e lá conseguiu uma clientela de mulheres ricas e importantes que lhe pagavam até mais que o combinado devido a qualidade e o caimento perfeito que Elizabeth e suas costureiras tinham em suas peças.

Em 1861, Elizabeth foi escolhida pela esposa do então presidente Abraham Lincoln, Mary Todd Lincoln, para ser sua designer e estilista pessoal, mas que com o passar dos anos também se tornou uma grande amiga sua.

Sarah Jessica Parker escolheu um design feito por Christopher John Rogers, que referencia um dos modelos mais icônicos feitos por Elizabeth. Para completar o looks, Parker optou por um glamuroso chapéu ornamentado, da mesma maneira que as socialites do século XIX.

SJP em Christopher John Rogers e o famoso vestido quadriculado de Elizabeth Hobbs Keckley./ Foto:Getty Images/Chicago History Museum

ASHTON SANDERS

O ator Ashton Sanders optou por um visual completamente jeans em referência a uma das mais revolucionárias criações da moda no período durante a ‘Era Dourada’ nos Estados Unidos, pelo alfaiate Jacob Davis e Levi Strauss, dono de uma fábrica de tecidos e o criador da primeira marca de jeans – a Levi’s.

A empresa foi estabelecida pelo empresário teuto-americano após se mudar para a Califórnia devido à “Corrida do Ouro” no estado – que se tornou de conhecimento geral quando os jornais da cidade de São Francisco anunciaram a descoberta de minas de ouro, atraindo milhares de pessoas para a região. Nessa mesma cidade, Strauss abriu a sua loja de roupas e tecidos sob o nome de “Levi Strauss & Company”. Em 1872, o alfaiate vindo diretamente de Reno, no estado de Nevada, Jacob Davis propôs a Strauss que as costuras das calças dos mineiros deveriam ser reforçadas com rebites feitos de brim de algodão castanho e ganga azul. 

O sucesso foi iminente e a dupla logo patenteou a sua criação em Novembro de 1873, um ano após a sua invenção.

Ashton Sanders vestindo Casablanca./ Foto: Mike Coppola/Getty Images

 

Sanders também trouxe um toque vampiresco para o tapete vermelho com suas lentes de contato brancas e próteses pontiagudas nos dentes, referenciando a grande popularidade do ser sobrenatural no século XIX, graças a obras de escritores como Bram Stoker em seu livro “Drácula”, de 1897.

Desenhado pela marca Casablanca, Ashton veste uma jaqueta que referencia os corsets e a gola alta presentes nos trajes femininos, acompanhado de um binóculo em uma das mãos, Sanders também dá um toque moderno usando luvas de motoqueiro douradas e óculos escuros estilo aviador.

 

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