Jovem de Rio Grande vence concurso nacional de literatura em Libras promovido pela UFPel

Em sua primeira edição, concurso nacional incentiva protagonismo de estudantes surdos e fortalece a literatura em Libras no Brasil

Cerimônia oficial celebrou os vencedores do concurso nacional voltado à literatura em Língua Brasileira de Sinais. Foto: Divulgação/ Em Pauta

Carolina Mattos / Em Pauta

A Universidade Federal de Pelotas (UFPel), com apoio do Ministério da Educação e da Diretoria de Educação Bilíngue de Surdos, promoveu pela primeira vez o Concurso Nacional de Literatura Surda: Narrando histórias em Língua de Sinais/Libras. A cerimônia de premiação ocorreu na última sexta-feira, 10 de abril, em Pelotas, reunindo estudantes de todo o país, entre eles Weslley Martins Conceição, de Rio Grande, que representou a região Sul ao conquistar o primeiro lugar em sua categoria dentre todos os participantes do Brasil.

A iniciativa teve como objetivo incentivar a produção literária em Libras, valorizando a cultura, a língua e a identidade surda, além de ampliar a visibilidade das narrativas produzidas por estudantes surdos em âmbito nacional. O concurso também buscou fortalecer a literatura surda no contexto da educação bilíngue e reconhecer o protagonismo desses jovens nas escolas brasileiras.

Voltado a estudantes PAEBS, regularmente matriculados no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, em classes bilíngues de surdos, escolas bilíngues e demais instituições da educação básica, o concurso convidou os participantes a criarem narrativas autorais em Libras. As produções, enviadas em formato de vídeo com duração entre 1 e 3 minutos, contemplaram diferentes gêneros, como ficção, relatos autobiográficos, memórias familiares e lendas locais, sempre com expressão integral em língua de sinais.

Promovido pela UFPel, por meio do Projeto de Extensão Concurso Nacional de Literatura Surda, o certame é coordenado pelo Dr. Fabiano Souto Rosa e pela Dra. Bruna da Silva Branco. A iniciativa contou com parceria da Diretoria de Políticas de Educação Bilíngue de Surdos (DIPEBS/SECADI/MEC), ampliando o alcance da ação em todo o país e reforçando seu alinhamento com políticas públicas voltadas à educação bilíngue de surdos.

Fabiano Souto Rosa destacou que o surgimento do concurso surgiu da a partir da necessidade de valorizar a produção literária em Língua Brasileira de Sinais (Libras), reconhecendo a importância da autoria de pessoas surdas e das práticas culturais visuais. “A motivação principal foi criar um espaço de protagonismo para estudantes surdos, especialmente no contexto da educação bilíngue, incentivando a expressão por meio da contação de histórias em língua de sinais.”, compartilhou.

Ao abordar o impacto da iniciativa no fortalecimento da cultura surda, o coordenador ressaltou o papel do concurso como ferramenta de reconhecimento e visibilidade:
“O concurso atua como um instrumento de valorização da cultura surda ao reconhecer a Libras como língua de criação artística, promovendo visibilidade às narrativas produzidas por estudantes e fortalecendo a identidade cultural surda no ambiente escolar e acadêmico.”

Para Fabiano e os demais avaliadores, o resultado dos trabalhos foi surpreendente, de maneira muito positiva. “ O que mais se destaca é o protagonismo dos estudantes surdos na criação e apresentação das narrativas em Libras. Observamos produções com forte expressividade, criatividade e domínio da narrativa visual, evidenciando a capacidade dos estudantes de construir histórias significativas em sua própria língua.”

Além disso,  Fabiano destacou o envolvimento dos docentes orientadores, que acompanharam e incentivaram esse processo, contribuindo diretamente para o fortalecimento de práticas pedagógicas alinhadas à Literatura Surda e à educação bilíngue.

Os estudantes classificados em cada categoria receberam reconhecimento institucional, incluindo troféus e certificados. Os primeiros colocados participaram da cerimônia presencial no Festival Nacional de Sinalizantes, enquanto os demais premiados receberam suas premiações em suas regiões.

A avaliação foi realizada por uma comissão composta por pessoas surdas de diferentes regiões do Brasil, com trajetórias diversas nas áreas artística, educacional, acadêmica e cultural, incluindo docentes, artistas, representantes da comunidade surda e militantes, com representatividade de pessoas surdas negras e indígenas — garantindo um olhar plural e sensível às especificidades da comunidade surda.

A realização do concurso contou com apoio institucional e financiamento por meio da parceria com o DIPEBS/MEC, possibilitando a execução das ações e a valorização da produção cultural em Libras em nível nacional. A expectativa, segundo a coordenação, é consolidar o concurso como uma ação permanente, ampliando seu alcance e fortalecendo a Literatura Surda no Brasil.

Destaque regional

Concurso busca se tornar como uma ação permanente, ampliando seu alcance e fortalecendo a Literatura Surda no Brasil

Entre os premiados, o destaque ficou para o jovem Weslley Martins Conceição, de 19 anos, morador de Rio Grande, vencedor da Categoria 2 (6º ao 9º ano). Representando a região sul e a Escola Municipal de Ensino Bilíngue Prof.ª Carmen Regina Teixeira Baldino, o estudante teve sua conquista divulgada no dia 20 de fevereiro e participou da cerimônia de premiação em Pelotas.

Aluno do 9º ano do Ensino Fundamental e morador do bairro Cidade de Águeda, Weslley conquistou o primeiro lugar com a obra “A liberdade que nasce nas mãos”, apresentada integralmente em Libras. Com expressividade e domínio da narrativa visual, o jovem emocionou a comunidade escolar ao se destacar em uma competição de abrangência nacional.

A conquista foi celebrada pela escola como um marco importante. A direção destacou o empenho conjunto entre o estudante e o professor de Libras, Anderson Barbosa, cuja parceria foi fundamental para transformar a narrativa em uma produção potente do ponto de vista artístico e cultural.

A instituição ressaltou ainda que o prêmio representa não apenas a conquista individual de Weslley, mas também a projeção nacional da escola e o reconhecimento do trabalho desenvolvido com a comunidade surda de Rio Grande.

Ao celebrar a conquista do estudante e a projeção alcançada pela comunidade escolar, a diretora Dora Terra destacou a importância da Libras no processo de aprendizagem e inclusão dos estudantes surdos:
“Para nós foi uma grata surpresa, saber que nosso estudante foi premiado nacionalmente. O vídeo produzido sob a orientação do Instrutor surdo apresenta a liberdade que a Libras proporciona ao surdo, de compreender e interagir na sociedade. Faz toda a diferença pra nossa escola termos instrutores surdos, na disciplina de Libras, oferecida na grade curricular.”

A Escola Municipal de Ensino Bilíngue Prof.ª Carmen Regina Teixeira Baldino, localizada em Rio Grande, é uma das primeiras escolas bilíngues públicas do país, criada para atender estudantes surdos. A instituição foi inaugurada oficialmente em 5 de fevereiro de 2015 e se consolidou como referência na educação bilíngue e na valorização da Libras.

Produção vencedora de Weslley Martins Conceição, intitulada “A liberdade que nasce nas mãos”, apresentada durante a cerimônia do concurso nacional em Pelotas. Foto: Divulgação/ Em Pauta

 

 

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