Nos últimos dias, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retomou o confronto tarifário com a China após uma breve trégua no início do ano.
O governo norte-americano anunciou a imposição de tarifas de 100% sobre produtos chineses a partir de 1º de novembro (G1, 2025a), em resposta às novas restrições impostas por Pequim às exportações de elementos de terras raras, de produtos derivados desses minerais e das tecnologias utilizadas em seu processamento (Ramos, 2025).
Importa destacar, contudo, que as medidas chinesas, embora direcionadas principalmente aos Estados Unidos, possuem alcance global e vêm sendo aplicadas desde abril deste ano (MOFCOM, 2025). Esse cenário ultrapassa as flutuações típicas das políticas tarifárias de Trump — conhecidas por seu caráter pendular — e recoloca as terras raras no centro do debate geoeconômico contemporâneo.
Na última semana, o Ministério do Comércio da China divulgou uma série de comunicados (No. 55, 56, 57, 58) detalhando as novas restrições à exportação de minerais estratégicos e tecnologias de refino. A China concentra cerca de 60% da produção mundial e 90% da capacidade global de refino desses insumos, fundamentais para a fabricação de equipamentos eletrônicos e produtos tecnológicos (Ramos, 2025).
Com a principal disputa tecnológica do século XXI girando em torno dos semicondutores, é natural que os países busquem controlar o acesso aos minerais essenciais à sua produção. Apesar do nome, as “terras raras” não são escassas por natureza, mas estão dispersas em pequenas concentrações ao redor do planeta, o que torna a extração economicamente viável apenas em locais específicos (Casemiro, 2025).
Atualmente, o uso mais relevante dessas substâncias encontra-se na fabricação de ímãs permanentes, empregados em turbinas eólicas, veículos elétricos e também em equipamentos militares (Casemiro, 2025). Além disso, esses minerais desempenham papel central na transição energética global, uma vez que são insumos essenciais para o desenvolvimento de tecnologias limpas e fontes renováveis de energia. Assim, o controle sobre tais recursos não envolve apenas uma disputa tecnológica, mas também questões energéticas e de segurança nacional.
Retornando à postura norte-americana, o comportamento de Trump segue um padrão já amplamente reconhecido. Seu estilo de negociação foi até mesmo sintetizado na expressão TACO Trade – Trump Always Chickens Out (“Trump sempre recua”), que descreve a tendência de anunciar tarifas explosivas, gerar tensão global e, em seguida, recuar — um equilíbrio entre impulsividade política e cálculo eleitoral (Vidal, 2025).
O movimento dos mercados após o anúncio ilustra esse padrão: na sexta-feira (10), as bolsas globais registraram forte queda diante da ameaça tarifária de 100% contra a China, refletindo o temor de uma escalada na disputa comercial. Já na segunda-feira (13), os índices se recuperaram, impulsionados pelo tom mais conciliador adotado por Trump e pelas declarações do secretário do Tesouro, Scott Bessent, que mencionou “comunicações substanciais” entre Washington e Beijing, confirmando a manutenção do encontro entre Trump e Xi Jinping, previsto para o fim de outubro, na Coreia do Sul (CNN Brasil, 2025). Esse jogo político evidencia a capacidade do presidente norte-americano em mobilizar o mercado como instrumento de pressão e comunicação estratégica.
Contudo, não se deve subestimar o papel do governo chinês. Apesar de menos midiático, o perfil prudente de Xi Jinping parece refletir uma estratégia silenciosa e de longo prazo, como observa Vidal (2025). As recentes medidas chinesas apontam para uma postura cautelosa, porém assertiva, que transcende a lógica de uma mera guerra comercial. Não se deve confundir, entretanto, essa conduta com passividade diante da situação, até porque, nos últimos anos, a China vem ampliando significativamente seu poder de barganha, impulsionada por sua ascensão econômica e política no sistema-mundo atual.
Paralelamente ao reinício do confronto tarifário, ainda que de forma temporária, China e Estados Unidos abriram um novo front no setor naval. Os EUA aplicaram taxas sobre navios chineses, sejam eles fabricados por empresas da China ou controlados por capital chinês, que atraquem em portos norte-americanos. Em resposta, Beijing adotou medida idêntica contra embarcações dos Estados Unidos (Carta Capital, 2025). Essa movimentação reflete a postura estratégica chinesa, segundo a qual “a China não busca o confronto, mas está preparada para ele”, caso o cenário assim o exija.
Diante desse cenário, é necessário observar como o Brasil pode vir a se beneficiar ou ser impactado por essa disputa. Os dados disponíveis indicam que o país figura entre as três maiores reservas conhecidas de terras raras do mundo, segundo estimativas do Ministério de Minas e Energia (MME) e de agências internacionais. Em alguns relatórios, como os divulgados por instituições norte-americanas — a exemplo do U.S. Geological Survey (2025, p. 144-145) —, o Brasil aparece em segundo lugar, o que reforça sua relevância geoeconômica nesse setor estratégico.
Em meio às recentes tensões entre Estados Unidos e Brasil, o governo norte-americano sinalizou a intenção de firmar acordos para acesso a minerais estratégicos, como as terras raras. O tema foi tratado em julho, durante encontro entre o encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, Gabriel Escobar, e representantes do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu de maneira assertiva, afirmando que “aqui ninguém põe a mão” em relação às terras raras do país (G1, 2025). Essa movimentação, que antecede o atual recrudescimento do confronto comercial entre Washington e Beijing, tende a ganhar força diante do agravamento da disputa sino-americana.
Em um contexto de reaproximação entre os governos brasileiro e norte-americano, e diante da proximidade do encontro entre os dois líderes — previsto para o fim de outubro, durante a Cúpula da ASEAN em Kuala Lumpur, na Malásia —, somado ao agravamento das tensões entre Estados Unidos e China, cresce a probabilidade de que os minerais estratégicos, especialmente as terras raras, se tornem tema central das conversações bilaterais. Assim, o Brasil ressurge como um ator relevante nesse novo tabuleiro geoeconômico, cuja configuração expõe não apenas a disputa entre as duas potências, mas também as oportunidades e desafios para países que buscam afirmar sua soberania sobre recursos estratégicos.
REFERÊNCIAS
CASEMIRO, Poliana. Terras raras: o que são, onde estão e por que os EUA se importam com elas. São Paulo: G1, 25 jul. 2025. Disponível em: https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2025/07/25/terras-raras-o-que-sao.ghtml. Acesso em: 14 out. 2025.
FONSECA, Nathalia. BdF Explica: O que são terras raras e por que despertam o interesse de Trump? São Paulo: Brasil de Fato, 12 set. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/09/12/bdf-explica-o-que-sao-terras-raras-e-por-que-despertam-o-interesse-de-trump/. Acesso em: 14 out. 2025.
G1. Trump anuncia tarifa de 100% contra a China, em novo escalada da guerra comercial. São Paulo: G1, 10 out. 2025a. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2025/10/10/trump-tarifa-china.ghtml. Acesso em: 14 out. 2025.
MINISTRY OF COMMERCE PEOPLE’S REPUBLIC OF CHINA (MOFCOM). Announcement No.18 of 2025 of The Ministry of Commerce and The General Administration of Customs of the People’s Republic of China Announcing the decision to implement export control on some medium and heavy rare earth related items. Beijing: MOFCOM, 4 abr. 2025. Disponível em: https://english.mofcom.gov.cn/Policies/AnnouncementsOrders/art/2025/art_0dd87cbee7b045bf93fabe6ab2faceee.html. Acesso em: 14 out. 2025.
OLIVEIRA, Débora. Análise: Como a China virou o jogo contra Trump com as terras raras. São Paulo: CNN Brasil, 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/debora-oliveira/economia/macroeconomia/analise-como-a-china-virou-o-jogo-contra-trump-com-as-terras-raras/. Acesso em: 14 out. 2025.
RAMOS, Mauro. China anuncia novas medidas para controle sobre terras raras e tecnologias avançadas; entenda o que isso significa. Brasil de Fato: São Paulo, 10 out. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/10/10/china-controles-exportacao-terras-raras-tecnologia/. Acesso em 14 out. 2025.
RFI. Guerra comercial entre China e EUA se intensifica com novas tarifas portuárias. São Paulo: Carta Capital, 14 out. 2025. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/mundo/guerra-comercial-entre-china-e-eua-se-intensifica-com-novas-tarifas-portuarias/. Acesso em: 14 out. 2025.
U.S. GEOLOGICAL SURVEY. Mineral Commodity Summaries 2025: Version 1.2, March 2025. Virginia: USGS, mar. 2025. Disponível em: https://pubs.usgs.gov/periodicals/mcs2025/mcs2025.pdf. Acesso em: 14 out. 2025.
VIDAL, Iara. Terras raras: China enfrenta Trump com estratégia e silêncio. São Paulo: Fórum, 13 out. 2025. Disponível em: https://revistaforum.com.br/global/chinaemfoco/2025/10/13/terras-raras-china-enfrenta-trump-com-estrategia-silncio-189671.html. Acesso em: 14 out.
Glauco Winkel é pesquisador sobre China e Sudeste Asiático no Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA) e pesquisador associado no Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI).
