O Brasil avançou em sua agenda de defesa com a publicação, em 19 de novembro, do Decreto nº 12.725/2025, por meio do qual se aprova a nova Política Nacional de Defesa (PND), a Estratégia Nacional de Defesa (END) e o Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN).
O Brasil avançou em sua agenda de defesa com a publicação, em 19 de novembro, do Decreto nº 12.725/2025, por meio do qual se aprova a nova Política Nacional de Defesa (PND), a Estratégia Nacional de Defesa (END) e o Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN), os quais passam a orientar o planejamento diante de um cenário internacional marcado pela multipolaridade, pela evolução tecnológica acelerada e por ameaças emergentes, buscando-se, dessa forma, maior alinhamento entre defesa, diplomacia e desenvolvimento (BRASIL, 2025a).
A PND, enquanto principal documento do setor, define os Objetivos Nacionais de Defesa com base na análise dos ambientes interno e externo, enfatizando que defesa e desenvolvimento constituem dimensões interdependentes e, por conseguinte, devem integrar políticas públicas mais amplas, fomentando, ademais, a participação social. Outrossim, o Entorno Estratégico permanece como área prioritária, abrangendo a América do Sul, o Atlântico Sul, os países africanos lindeiros, o espaço aéreo sobrejacente ao território nacional e a Antártica. (BRASIL, 2025b; REVISTA FÓRUM, 2025).
A revisão e atualização da PND, da END e do Livro Branco de Defesa Nacional (LBDN) foram conduzidas sob a direção institucional do Ministério da Defesa, mediante a constituição de Grupo de Trabalho Interministerial, ao qual competiu a sistematização de contribuições oriundas da comunidade acadêmica e de entidades especializadas. A PND estabelece oito objetivos estruturantes, quais sejam: garantir soberania, patrimônio e integridade territorial; assegurar capacidade compatível com a estatura geopolítica do país; promover desenvolvimento tecnológico e produtivo; preservar coesão e direitos constitucionais; proteger cidadãos no exterior; ampliar o envolvimento social nos temas de defesa; contribuir para estabilidade regional e paz internacional; e fortalecer a projeção global do Brasil (BRASIL, 2025a).
O presente projeto nacional visa consolidar o Brasil como polo internacional de excelência em inteligência artificial (IA), mediante a formação qualificada de profissionais em todos os níveis educacionais, de modo a tornar o País referência na difusão e utilização da IA, especialmente para nações em desenvolvimento. Nesse contexto, pretende-se reverter o fluxo de “fuga de cérebros”, estabelecendo um ambiente propício à atração e retenção de talentos. Com o lançamento da Nova Indústria Brasil (NIB), em 2024, estruturada em seis missões de desenvolvimento industrial, a IA passou a integrar a Missão 4, voltada à transformação digital da indústria, atuando ainda como vetor catalisador do avanço tecnológico nos demais setores contemplados pela iniciativa.
Denota-se que o Brasil apresenta elevado potencial na economia de dados e dispõe de ecossistema de inovação em expansão, evidenciado pela captação de US$ 17,6 bilhões por startups nacionais entre 2019 e 2023, equivalentes a 30% das Deep Techs latino-americanas, das quais 16% são voltadas à IA (Google for Startups, 2024). Observa-se, ainda, expressiva conectividade: 91% das empresas possuem acesso à Internet por fibra óptica e 85% da população conta com cobertura 5G. Todavia, persistem obstáculos de ordem estrutural, tanto na apropriação dos benefícios da economia de dados quanto na adoção massiva de IA, considerando que o País ocupa apenas a 13ª posição mundial em número de data centers (168 unidades), frente aos mais de 5.000 existentes nos Estados Unidos. Igualmente, apenas 13% das empresas utilizam IA, especialmente em setores tradicionais como agricultura e manufatura. Embora os investimentos nacionais em IA estejam em crescimento, permanecem inferiores aos dos países líderes, e o País carece de cadeia produtiva consolidada (ABES, 2024; Cetic.br, 2023c).
No âmbito do Desenvolvimento de IA para Cibersegurança no Governo, prevê-se a criação de sistemas de IA destinados a aprimorar a detecção e a resposta a incidentes de segurança cibernética. O desafio consiste em ampliar a capacidade de resposta a ataques cibernéticos por meio do uso de ferramentas de IA. As metas estabelecem a capacitação das equipes dos órgãos setoriais do Sistema de Administração dos Recursos de Tecnologia da Informação (Sisp) até 2026, bem como a implantação de módulos de detecção e resposta a ameaças em 100% dos órgãos setoriais até 2027. Entre os impactos esperados estão o aumento da capacidade de análise rápida de grandes quantidades de dados, a identificação de comportamentos anormais e a detecção de atividades maliciosas. Os recursos previstos para o período 2024-2028 somam R$ 72 milhões, a cargo do MGI e do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República.
O Brasil dispõe de base inicial de capacidade de processamento de alta performance para o desenvolvimento de IA. Essa infraestrutura abrange os seis supercomputadores da Petrobras, notadamente o Pégaso, com 42 PFlop/s, o mais potente da América Latina e o 56º no ranking mundial. Todos os computadores da empresa figuram entre os 100 mais eficientes segundo o ranking Green500 (TOP500, 2024). Outrossim, o País conta com o supercomputador Santos Dumont do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), cuja capacidade combinada atinge 5,1 PFlop/s, além de outros dois supercomputadores situados entre os 300 mais potentes do mundo (TOP500, 2024). O Sistema Nacional de Processamento de Alto Desempenho (Sinapad) fornece infraestrutura computacional para ensino e pesquisa, totalizando aproximadamente 6,2 PFlop/s. Paralelamente, o País conta com centros de excelência em pesquisa de IA, especialmente em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, bem como com o Portal Brasileiro de Dados Abertos, que disponibiliza mais de 13 mil bases de 264 organizações (Brasil, 2025).
Diante desse cenário, projeta-se que o Brasil se torne líder global em adoção e desenvolvimento de IA para inovação empresarial, referência em setores como agricultura de precisão, indústria 4.0 e serviços financeiros, consolidando-se ainda como polo global de data centers mediante aproveitamento de suas vantagens competitivas com ênfase prioritária na afirmação da soberania digital e na redução gradual da dependência de provedores estrangeiros, em correlação com as iniciativas estratégicas do BRICS orientadas à cooperação tecnológica, ao fortalecimento de infraestruturas digitais autônomas e ao desenvolvimento soberano de tecnologias avançadas.
Referências:
BRASIL. Presidência da República. Governo do Brasil aprova nova Política Nacional de Defesa, Estratégia Nacional de Defesa e Livro Branco de Defesa Nacional. Brasília: Planalto, 19 nov. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/planalto/pt-br/acompanhe-o-planalto/noticias/2025/11/governo-do-brasil-aprova-nova-politica-e-estrategia-de-defesa-nacional.
BRASIL. Ministério da Defesa. Política e Estratégia Nacional de Defesa e o LBDN são aprovadas. Brasília: Ministério da Defesa, 2025. Disponível em: https://www.gov.br/defesa/pt-br/centrais-de-conteudo/noticias/politica-e-estrategia-nacional-de-defesa-e-o-lbdn-sao-aprovadas.
REVISTA FÓRUM. Nova doutrina militar brasileira coloca potências dos BRICS no centro do debate de defesa. 27 nov. 2025. Disponível em: https://revistaforum.com.br/global/2025/11/27/nova-doutrina-militar-brasileira-coloca-potncias-dos-brics-no-centro-do-debate-de-defesa-193061.html.
CYBERPEACE INSTITUTE. Nexus cyberattacks and disinformation. [S.l.]: CyberPeace Institute, 2024. Disponível em: https://cyberpeaceinstitute.org/nexus-cyberattacks-and-disinformation/.
CYBERPEACE INSTITUTE. Understanding Nexus operations: Where Cyberattacks and Disinformation converge. [S.l.]: CyberPeace Institute, 2025. Disponível em: https://cyberpeaceinstitute.org/news/understanding-nexus-operations-where-cyberattacks-and-disinformation-converge/.
Victória Camargo de Aquino Augusto é pesquisadora do LabGRIMA
