Após dois anos de conflitos no Sudão, as Forças Armadas Sudanesas (SAF) encontram-se em um impasse político-militar e financeiro com as Forças de Apoio Rápido (RSF), devido à continuidade da guerra.
A guerra civil é custosa para as SAF, que vêm perdendo território e recursos gradualmente para as RSF, o que dificulta o financiamento da campanha militar. Inicialmente, as SAF já haviam perdido a maior parte do ouro de Darfur e do oeste do Sudão para as RSF, diminuindo sua área de influência e cedendo maior controle aos seguidores de Hemedti (líder das RSF).
Essa situação se agravou na última semana, quando as Forças de Apoio Rápido conseguiram tomar o campo petrolífero de Heglig, o último grande pilar econômico do país. O local é a instalação petrolífera mais importante, sendo estratégico nos níveis militar, econômico e geopolítico. Militarmente, a retirada das forças governamentais sudanesas altera a balança de poder da região, cedendo influência às RSF. Economicamente, o campo era responsável por produzir diariamente mais de 80 mil barris de petróleo para o Sudão e o Sudão do Sul, representando uma perda gigantesca aos recursos financeiros do país. Geopoliticamente, a região era sensível em relação ao Sudão do Sul, o que aumenta as tensões não só entre os antagonistas sudaneses, mas também em relação ao governo do Sudão do Sul e seus aliados (Al Jazeera, 2025).
Apesar dos fatores indicarem um desgaste iminente do exército sudanês, não há perspectiva de que ele encerre o conflito, mesmo com a escalada cada vez mais grave das questões humanitárias. As SAF esperam contar com apoio e financiamento externo de aliados para contornar a situação. Esse não é um posicionamento ingênuo, pelo contrário, visto que diversas organizações internacionais, como a Anistia Internacional, já relataram interferência e vendas de armas de países estrangeiros no conflito, como os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita e o Egito, apesar da negativa desses países. Al-Anani, da Universidade de Georgetown nos Estados Unidos, afirmou que não existe um ator neutro no conflito sudanês, e que cada parte busca atingir seus próprios interesses, visto que controlar o Sudão é exercer influência sobre toda a África Subsaariana (CNN Brasil, 2025).
Um uso interessante a favor das SAF desses interesses estratégicos são as recentes negociações entre o Sudão e a Rússia para a construção de uma base naval no Mar Vermelho. Visando receber armas a preços mais acessíveis e sistemas antiaéreos avançados, o governo sudanês ofereceu à Rússia um acordo de 25 anos para a construção da primeira base naval do país no continente africano, o que daria vantagens estratégicas militares e econômicas a Moscou na área. A negociação não foi bem recebida por Washington, que teme a expansão da influência russa no continente africano, visto que a construção da base no Porto Sudão permitiria acesso livre russo ao Canal de Suez, por onde passam cerca de 12% de todo o comércio mundial (A Referência, 2025).
Logo, apesar das vantagens atuais da RSF na dominação do território, as SAF possuem estratégias externas para tentar contornar o atual quadro do país. Além disso, ressalta-se como a guerra civil ultrapassa os interesses nacionais, estando profundamente conectada a interesses geopolíticos dos Estados, todos extremamente conscientes dos desdobramentos do conflito para expandir suas respectivas influências e preencher seus interesses. Dessa maneira, cabe aguardar os resultados dessas negociações e observar se os Estados Unidos se posicionarão mais diretamente para impedir um aumento da influência russa na área.
Referências:
Al Jazeera. “What’s changed in Sudan after the Rapid Support Forces’ control of Heglig?” 09 dez 2025. Disponível em: <https://www.aljazeera.com/news/2025/12/9/whats-changed-in-sudan-after-the-rapid-support-forces-control-of-heglig>. Acesso em: 09 dez. 2025.
A Referência. “Sudão oferece base naval estratégica à Rússia no Mar Vermelho em acordo de 25 anos” 03 dez. 2025. Disponível em: <https://areferencia.com/africa/sudao-oferece-base-naval-estrategica-a-russia-no-mar-vermelho-em-acordo-de-25-anos/>. Acesso em: 03 dez. 2025.
CNN Brasil. “Entenda a influência de países estrangeiros no conflito do Sudão” 09 nov. 2025. Disponível em: <https://www.cnnbrasil.com.br/internacional/o-que-se-sabe-sobre-a-influencia-estrangeira-no-conflito-do-sudao/> Acesso em: 09 dez. 2025.
*Maria Eduarda Motta é pesquisadora do LabGRIMA.
