Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos e o Indo-Pacífico por Glauco Winkel

Os Estados Unidos lançaram a sua Estratégia Nacional de Segurança para o governo do presidente Donald Trump. Alguns pontos do relatório merecem uma atenção especial, sobretudo em relação à região do Indo-Pacífico, dada a sua relevância geopolítica e geoeconômica no mundo.

O National Security Strategy (NSS) é um documento oficial americano que expressa a interpretação e a prática de segurança do representante vigente naquele momento. O último documento em questão reforça que os Estados Unidos deverão adotar um “realismo flexível”, uma política que busca relações pacíficas e comerciais com nações de diferentes sistemas de governo, focando no que é realista e desejável para os interesses americanos, nas relações internacionais com outros países (Estados Unidos, 2025, p. 9).

Essa retórica contrasta com as tarifas agressivas usadas para confrontar a perda de competitividade dos Estados Unidos dentro da economia internacional e as ameaças de intervenção em regimes distintos, como a Venezuela, evidenciando uma contradição entre a doutrina e a prática. Contudo, essa análise em específico focará na perspectiva dos Estados Unidos para o âmbito regional dentro do Indo-Pacífico.

Em relação a essa região, o texto é direto: é necessário “vencer o futuro econômico e prevenir a confrontação militar” (Estados Unidos, 2025, p. 23). Essa é uma perspectiva bastante interessante, dada a vigente guerra comercial e tarifária dos americanos contra os chineses e, mais recentemente, os gestos do governo japonês sobre Taiwan, que irritaram os chineses e suscitaram uma crise na qual Trump chegou a ligar para a primeira-ministra japonesa e pedir para que ela “baixasse o som” (Douglas et. al., 2025).

A abordagem em questão é pragmática: os EUA reconhecem o protagonismo econômico e comercial dos chineses no cenário global nos últimos tempos e buscam reequilibrar a relação econômica com o principal país da região, a China. Para isso, priorizarão, segundo o relatório, a “reciprocidade e justiça” para restaurar a alegada “independência econômica americana” (Estados Unidos, 2025, p. 20). A questão em particular é que, hoje, os americanos enfrentam um déficit comercial nas relações com os chineses, além de possuírem alguns milhões de dólares em títulos comprados por credores chineses. A ambição, portanto, é grande e a prática será de difícil realização em meio a uma evidente dependência americana, nesses setores, dos chineses.

Taiwan, por óbvio, reaparece. A prioridade americana é deter um conflito sobre a Ilha. Os motivos são variados: não se trata apenas de evitar um confronto direto com os chineses em uma possível intervenção, mas de se distanciar da possibilidade de interromper as cadeias globais de semicondutores, pois a Ilha controla 90% da produção de chips de processamento mais avançados do mundo (G1, 2024). Desse modo, é perceptível que os Estados Unidos precisam de Taiwan e, para isso, não é necessariamente obrigatória a independência do país, dadas as firmes reações chinesas, mas apenas que o país continue da forma como está. Mais uma vez, isso reflete uma certa cautela de Trump em relação ao assunto de Taipé.

Ressalta-se ainda que o presidente retoma constantemente o discurso de que os americanos gastam muito de seu orçamento com apoio bélico-militar a outros países. No caso da ilhota, em específico, o retorno é baixo, dado que a autonomia existe, apesar das ameaças chinesas de anexação e o risco é alto pela real possibilidade de uma invasão, caso os investimentos continuem ou interfiram na proposta de uma China unificada.

Outra região não muito longe de Taiwan que é pauta do relatório é a chamada first island chain (Cadeia de Primeiras Ilhas), que se refere mais especificamente às ilhas do Sudeste Asiático (Cicho, 2025). A aposta na região é um pouco maior, dado que inúmeros países possuem litígios com os chineses no Mar do Sul da China, o que gera uma suspeita desses países em relação ao “dragão asiático”. 

As perspectivas variam, mas os americanos têm trabalhado em relações diplomáticas e bélico-militares com países da região há algum tempo. É o caso do Diálogo de Segurança Quadrilateral (QUAD), grupo composto por Austrália, Coreia do Sul, Índia e Japão, também objeto de discussão no texto em questão. A proposta americana continuará sendo promover a securitização do Indo-Pacífico a partir do grupo, sob o molde da ideia de uma região “aberta e livre”, reconhecida pelo principal instrumento regional, a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), enquanto incentiva os indianos o apoio a esse projeto (Estados Unidos, 2025, p. 21).

Em suma, a Estratégia de Segurança Nacional de Donald Trump para o Indo-Pacífico configura-se como um esforço complexo de equilibrar a defesa dos interesses americanos com uma abordagem pragmática em relação à China. A prioridade de “vencer o futuro econômico” expressa a tentativa de reverter o déficit comercial e reduzir a dependência financeira em relação a Beijing, evidenciando, ao mesmo tempo, sinais da perda relativa de poder dos Estados Unidos no sistema internacional do século XXI.

A ênfase no aprofundamento das parcerias regionais revela o desafio de recalibrar a inserção geopolítica americana, destacando-se o papel da Índia — rival natural da China em termos econômicos, populacionais e territoriais. Apesar de sua política externa pendular, Nova Délhi desponta como parceira estratégica no discurso de um Indo-Pacífico “livre e aberto”.

Nesse contexto, a estratégia norte-americana busca equilibrar a retórica agressiva de Trump — marcada por blefes e linguagem confrontacional — com ações práticas mais moderadas, de modo a evitar confrontos diretos em temas sensíveis. Espera-se, entretanto, que Washington continue a exercer pressão econômica sobre a China, embora mantenha cautela em relação a ações militares diretas, dadas as vulnerabilidades internas da economia americana e os potenciais impactos negativos de um conflito aberto.

REFERÊNCIAS

CICHO, Frederick Andy. Learn from the Fall of the Philippines: Prepare the Third Island Chain. Washington: U.S. Naval Institute, dez. 2024. Disponível em: https://www.usni.org/magazines/proceedings/2024/december/learn-fall-philippines-prepare-third-island-chain. Acesso em: 10 dez. 2025.

DOUGLAS, Jason et. al. Trump, After Call With China’s Xi, Told Tokyo to Lower the Volume on Taiwan. Washington: The Wall Street Journal, 2025. Disponível em: https://www.wsj.com/politics/national-security/trump-after-call-with-chinas-xi-told-japan-to-lower-the-volume-on-taiwan-3af795d6. Acesso em: 10 dez. 2025.

ESTADOS UNIDOS. National Security Strategy: November, 2025. Washington: The White House, 2025. Disponível em: https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2025/12/2025-National-Security-Strategy.pdf. Acesso em: 10 dez. 2025.

G1. Por que Taiwan é tão importante no mercado de chips e como uma interrupção na produção poderia afetar o mundo. Rio de Janeiro: G1, 4 abr. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/tecnologia/noticia/2024/04/04/por-que-taiwan-e-tao-importante-no-mercado-de-chips-e-como-uma-interrupcao-na-producao-poderia-afetar-o-mundo.ghtml. Acesso em: 10 dez. 2025.

JOSEPH, Biyon Sony. India and the Indo-Pacific in Trump’s Second-term Strategy. Washington: The Diplomat, 10 dez. 2025. Disponível em: https://thediplomat.com/2025/12/india-and-the-indo-pacific-in-trumps-second-term-strategy/. Acesso em: 10 dez. 2025.

Glauco Winkel é pesquisador sobre China e Sudeste Asiático no Laboratório de Geopolítica, Relações Internacionais e Movimentos Antissistêmicos (LabGRIMA) e pesquisador associado no Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (CENEGRI).

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