Mercado de arroz da Zona Sul observa desdobramentos da crise na Venezuela por Charles Pennaforte | Hora do Sul

Especialistas analisam possíveis reflexos econômicos da instabilidade política no país vizinho

A crise política na Venezuela, marcada pela ação militar dos Estados Unidos e a mudança no comando do governo, deve diretamente relacionado ao Sul do Rio Grande do Sul chama atenção: a Venezuela é um dos maiores importadores de arroz brasileiro em casca.

De acordo com o presidente da Federarroz, Denis Nunes,   é de queda de 15% na produção brasileira de arroz em 2025, ficando abaixo de 11 milhões de toneladas e mais próxima do consumo interno. “É fundamental para evitar a ampliação dos estoques, que já estão elevados”, afirma. Sobre a situação venezuelana, ele diz que ainda não é possível antecipar desdobramentos, mas acredita que o setor não será prejudicado. “Precisamos de estabilidade política e segurança jurídica, mas acreditamos que o fluxo continuará e, quem sabe,até possa melhorar”.

Para o professor de Geopolítica do curso de Relações Internacionais da UFPel, Charles Pennaforte, os impactos sobrea economia brasileira decorrem, sobretudo, das consequências da atuação dos Estados Unidos no cenário internacional.Segundo ele, a ofensiva norte-americana tende a gerar instabilidade global, com reflexos nos mercados. “Isso inevitavelmente pode gerar elevação no preço do barril do petróleo, aumento do dólar e fuga de capitais para ativos considerados mais seguros, como o ouro”, afirmou.

No contexto brasileiro, e especialmente do Rio Grande do Sul, Pennaforte alerta para a vulnerabilidade decorrente da dependência de produtos primários. “Assim como o Brasil, o Rio Grande do Sul tem uma economia fortemente baseada no agro e, por isso, fica suscetível a essas alterações”, afirma. Ele cita, como exemplo, a importância da Venezuela como parceira comercial, especialmente na importação de arroz. “Quando tem um mercado muito concentrado em poucos compradores, qualquer fator externo gera problemas”, observa.

Petróleo e transição energética

Para Pennaforte, a localização da Venezuela é estratégica por estar próxima ao Golfo do México. Ele também ressalta que o petróleo venezuelano não é de boa qualidade e só consegue ser processado de forma mais eficiente em refinarias dos Estados Unidos, o que torna a exploração mais voltada à economia americana.
Ao abordar a transição energética, Pennaforte afirma que o processo não será rápido. “Plásticos e inúmeros produtos do nosso cotidiano são derivados do petróleo”, explica. Mesmo com redução no uso para transporte, o petróleo deverá seguir central na economia mundial por décadas. O professor avalia que os Estados Unidos dificilmente liderarão uma transição profunda, já que a economia do país é baseada nessa matéria-prima há mais de 100 anos, especialmente por conta da indústria automobilística – e manter a gasolina barata é essencial para esse modelo.

O professor também lembra que a disputa por petróleo está historicamente associada a intervenções internacionais. “Todos os países que têm grandes reservas já sofreram algum tipo de intervenção: Iraque, Líbia, Síria e, agora, Venezuela. O Irã tende a ser o próximo”, avalia. Ainda, ele afirma que o cenário tende a se intensificar nos próximos anos. “Mesmo que Trump não concorra a um terceiro mandato, se conseguir emplacar alguém com a mesma linha de pensamento, teremos um período ainda mais conturbado daqui para frente”, conclui.

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