Wellness: entre o autocuidado e os excessos

Wellness é um estilo de vida que pensa no equilíbrio do ser humano. Fonte: pikisuperstar/Freepik / Em Pauta

Como as redes sociais transformaram a relação com a saúde, os riscos da desinformação, da busca pela perfeição estética e do consumo desenfreado de conteúdos sobre saúde e nutrição

Bruna Palharini / Em Pauta

A busca por uma vida mais saudável nunca esteve tão presente no cotidiano das pessoas. Alimentação equilibrada, prática de exercícios físicos, cuidados com a saúde mental e hábitos de autocuidado passaram a ocupar espaço central nas redes sociais, impulsionando o chamado movimento denominado wellness, Para a Organização Mundial de Saúde, wellness é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de doença ou enfermidade. Mais do que uma tendência, o conceito se consolidou como um estilo de vida que influencia comportamentos, decisões de consumo e até mesmo a forma como as pessoas enxergam seus corpos.

Para a nutricionista Laís Raquel Schapuiz, essa transformação trouxe aspectos positivos ao estimular uma maior preocupação com a saúde e o bem-estar. “A ideia de wellness deixou de ser apenas um conceito e passou a fazer parte do estilo de vida de muitas pessoas, o que considero algo bastante positivo. Hoje entendemos melhor que qualidade de vida não depende apenas da ausência de doenças, mas também de fatores como alimentação, sono, atividade física, saúde mental, relacionamentos e propósito”.

Mas aponta também: “Por outro lado, acredito que existe uma armadilha nesse movimento. Muitas vezes o discurso da qualidade de vida é utilizado como uma forma mais aceitável de buscar exclusivamente um padrão estético. Não há problema em querer melhorar a aparência, mas quando a estética se torna o objetivo principal, algumas pessoas acabam adotando estratégias extremas ou pouco sustentáveis, que podem trazer consequências negativas para a saúde física e emocional.

Também percebo que as gerações mais jovens têm demonstrado uma preocupação maior com hábitos saudáveis. Acredito que isso seja resultado de uma maior disponibilidade de informação, da evolução do pensamento sobre saúde e da observação das experiências das gerações anteriores, especialmente em relação ao envelhecimento e às doenças crônicas. No entanto, é importante lembrar que wellness de verdade não significa buscar perfeição. Significa construir hábitos que promovam saúde, bem-estar e qualidade de vida de forma sustentável ao longo do tempo.”, explica.

Nutricionista Laís Raquel Schapuiz alerta para a disseminação de mitos alimentares na rede. Foto: Arquivo pessoal / em PAuta

No entanto, embora a proposta de uma vida saudável seja benéfica, a realidade está longe de ser acessível para todos. Rotinas de exercícios diários, consultas frequentes com profissionais especializados, suplementos e alimentos considerados saudáveis nem sempre cabem no orçamento ou na rotina da população.

Segundo a especialista, o grande volume de conteúdos relacionados ao wellness pode criar expectativas irreais sobre saúde e qualidade de vida. “A ideia de um estilo de vida mais saudável e ativo é extremamente positiva. Ao mesmo tempo, acredito que as redes sociais também fizeram com que perdêssemos um pouco a noção do que realmente representa a vida do brasileiro médio. A maior parte da população ainda não pratica atividade física de forma regular, e muitas pessoas acreditam que é necessário gastar muito dinheiro para ter hábitos saudáveis. Na prática, embora existam situações em que a condição financeira seja um obstáculo real, o maior desafio para a maioria das pessoas costuma ser a gestão do tempo.” continua.

As redes sociais também revolucionaram a forma como as informações sobre alimentação e nutrição circulam. Hoje, qualquer usuário pode produzir conteúdo e compartilhar dicas alimentares para milhares de pessoas em poucos segundos. Nesse cenário, distinguir informações confiáveis de orientações sem embasamento científico tornou-se um desafio.

Para evitar a desinformação, a nutricionista destaca que os usuários precisam desenvolver um olhar mais crítico sobre os conteúdos consumidos. “Eu entendo que, para quem não é da área, pode ser muito difícil diferenciar uma informação baseada em ciência de algo que é apenas uma opinião ou até mesmo uma estratégia de marketing. A nutrição acabou se tornando um dos assuntos mais populares das redes sociais, e isso faz com que informações corretas e incorretas convivam lado a lado o tempo todo.

Por isso, quando o assunto é saúde, o ideal é buscar orientação de um profissional qualificado, que trabalhe com base em evidências científicas e que consiga interpretar as informações dentro da sua realidade individual. Informação isolada raramente é suficiente para tomar boas decisões.

Para quem gosta de se informar pelas redes sociais, vale observar também quem está produzindo aquele conteúdo. Procure acompanhar nutricionistas com registro profissional ativo, que apresentem informações de forma responsável e sem promessas milagrosas. Desconfie de soluções rápidas, dietas extremas e recomendações que parecem boas demais para ser verdade. As redes sociais podem ser uma excelente ferramenta de educação, mas elas não substituem a orientação profissional. Informação de qualidade não é necessariamente a que tem mais curtidas ou visualizações, e sim aquela que se sustenta na ciência e na prática clínica.”, afirma.

A facilidade de compartilhamento de conteúdos também contribui para a disseminação de mitos alimentares, dietas restritivas e recomendações sem comprovação científica. Muitas dessas informações são reproduzidas por influenciadores digitais e acabam ganhando credibilidade apenas pelo alcance nas redes.

“Na minha visão, esse é um problema de saúde pública. A disseminação de informações falsas sobre saúde pode levar pessoas a abandonarem tratamentos eficazes, atrasarem diagnósticos ou adotarem comportamentos prejudiciais acreditando que estão fazendo o melhor para si. Vivemos em uma época em que soluções rápidas costumam ser mais atraentes do que mudanças de hábitos consistentes. Muitas pessoas querem acreditar que um suplemento, um medicamento ou uma estratégia da moda será capaz de resolver problemas complexos sem exigir esforço ou mudança de comportamento.

Além disso, a quantidade de desinformação é tão grande que, em alguns casos, as pessoas passam a desconfiar até mesmo de instituições científicas, sociedades médicas e profissionais qualificados.”, ressalta a profissional ao comentar os impactos que a desinformação pode causar na alimentação e na saúde da população.

Outro fenômeno que preocupa especialistas é o retorno da valorização da magreza extrema, impulsionada principalmente por tendências virais e padrões estéticos difundidos nas plataformas digitais. Imagens editadas, corpos considerados ideais e promessas de emagrecimento rápido acabam influenciando especialmente adolescentes e jovens adultos. De acordo com a nutricionista, combater essa mentalidade exige mudanças coletivas. “A volta da magreza extrema me preocupa porque ela não surge do nada. Na minha visão, ela está muito ligada a uma necessidade de controle que vemos cada vez mais presente na sociedade atual. Em muitos casos, também está associada a sofrimento emocional, inseguranças e uma relação pouco saudável com o próprio corpo.

O que chama atenção é que, há pouco tempo, estávamos vivendo um momento em que começávamos a aceitar mais os corpos reais e a diversidade corporal, inclusive em espaços que historicamente valorizavam apenas um padrão, como a moda e as passarelas. Mas a história mostra que avanços sociais nem sempre acontecem em linha reta. Muitas vezes, após períodos de maior aceitação e transformação, surgem movimentos de retrocesso. Na minha opinião, é exatamente isso que estamos vivendo agora: um retrocesso momentâneo. Acredito que, com o tempo, voltaremos a colocar em pauta a valorização dos corpos reais e uma visão mais ampla de saúde. E tenho certeza de que as próprias redes sociais, que hoje ajudam a disseminar certos padrões, também terão um papel importante nessa mudança.

O que precisamos fazer é aprender a enxergar o corpo e a vida de uma forma diferente. O corpo não nasceu apenas para ser “bonito”. Antes de tudo, ele precisa ser saudável, funcional e capaz de trazer boa qualidade de vida. Quando a busca pela magreza se torna extrema, muitas vezes ela vem acompanhada de fragilidade física, restrições excessivas e prejuízos para a saúde.

E eu deixo uma reflexão, especialmente para as mulheres que estão lendo esta matéria: por que vocês acham que, de tempos em tempos, o corpo feminino volta a ser colocado dentro dessa caixinha de fragilidade e vulnerabilidade? Talvez a discussão seja muito maior do que apenas peso ou estética. No fim das contas, um corpo extremamente magro não é apenas um corpo extremamente magro. Ele também pode ser um reflexo dos valores, das inseguranças e das pressões que existem na sociedade em que vivemos.”, pontua.

O consumo excessivo de conteúdos sobre alimentação, exercícios e estética também pode trazer consequências negativas. Em alguns casos, a busca incessante por hábitos considerados perfeitos gera ansiedade, culpa e uma relação pouco saudável com a comida e com o próprio corpo.

“O principal perigo é a padronização das pessoas. Homens devem ter um determinado tipo de corpo, mulheres, outro, e acabamos esquecendo que cada indivíduo possui uma genética, uma rotina, uma história e necessidades completamente diferentes. Quando tentamos encaixar todo mundo no mesmo padrão, anulamos muitas das nossas potencialidades individuais.

O consumo desenfreado desse tipo de conteúdo também contribui para um aumento da baixa autoestima e da insatisfação corporal. As pessoas passam a acreditar que existe apenas uma forma correta de ser saudável ou atraente, e qualquer coisa fora desse padrão passa a ser vista como inadequada.

Além disso, observamos consequências importantes para a saúde mental. Ansiedade, culpa ao comer, obsessão com a aparência, isolamento social e uma relação cada vez mais conflituosa com o próprio corpo são situações que aparecem com frequência. Em casos mais extremos, isso pode contribuir para transtornos alimentares e outros problemas psicológicos.

Talvez o mais preocupante seja que as pessoas acabam gastando uma enorme quantidade de energia tentando se tornar uma versão idealizada de si mesmas, quando poderiam estar investindo esse esforço em construir uma vida mais saudável, equilibrada e compatível com a sua própria realidade. Saúde não deveria ser sobre parecer igual aos outros, mas sim sobre desenvolver o melhor potencial que cada pessoa possui.”, alerta a especialista.

Além disso, os padrões impostos pelas redes costumam afetar homens e mulheres de formas diferentes. Enquanto muitas mulheres ainda enfrentam a pressão pela magreza e recorrem a dietas extremamente restritivas, homens são frequentemente incentivados a buscar corpos musculosos e volumosos, muitas vezes inspirados em fisiculturistas e influenciadores fitness.

Nesse contexto, o uso de esteróides anabolizantes continua sendo frequentemente normalizado nas redes sociais, apesar dos diversos riscos à saúde. Para a nutricionista, é fundamental ampliar o debate sobre os impactos dessas substâncias e fortalecer ações de educação em saúde. “Como nutricionista, vejo que parte do meu papel é justamente alertar, conscientizar e ajudar as pessoas a tomarem decisões mais informadas. Mas existe algo que cada um pode fazer por conta própria: ter muito cuidado com o conteúdo que consome. As pessoas que você segue influenciam a forma como você enxerga seu corpo, sua saúde e seus objetivos. Por isso, vale a pena escolher com atenção quem está moldando essas referências.”, conclui Laís.

Diante de tantas informações disponíveis, especialistas reforçam que a construção de hábitos saudáveis deve priorizar equilíbrio, individualidade e acompanhamento profissional. Mais do que seguir tendências ou padrões estéticos, o verdadeiro bem-estar está relacionado à saúde física e mental, respeitando as diferentes realidades e necessidades de cada pessoa.

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