Abril Laranja convida à reflexão contra a violência aos animais

Maria Eduarda Lopes / Em Pauta

No mês de abril, é tempo de refletir sobre a violência em seus diversos aspectos e a perversidade humana infligida às criaturas que dividem os espaços conosco, em nossos lares e nas ruas

Entende-se por “maus-tratos” o ato de submeter alguém a tratamento cruel, trabalhos forçados e/ou privação de alimentos ou cuidados. No Brasil, de acordo com a Lei nº 9.605, é crime “praticar ato de abuso, maus-tratos, ferir ou mutilar animais silvestres, domésticos ou domesticados, nativos ou exóticos”. Infelizmente, na maioria dos casos, sequer existem denúncias, pois a violência contra os animais se encontra profundamente banalizada dentro da sociedade, seja por sua constante ocorrência, ou pelos diversos aspectos culturais e econômicos já enraizados. Os cientistas sociais encaram essas práticas como um grave problema humano, que relaciona-se diretamente à violência doméstica, abusos contra crianças, idosos e outras infrações violentas.

No âmbito cultural, é possível identificar algumas práticas abusivas: a tourada espanhola, os rodeios ou festas de peões, o treinamento impróprio em prol do entretenimento, usado em circos e parques e as rinhas assassinas. Levando em consideração o Rio Grande do Sul, a cultura gaúcha é recheada de pontos em que o martírio é transformado em tradição, que consiste de atos bárbaros e desnecessários utilizados para o divertimento do público, que também compactua com tais feitos. O apoio a esses eventos, muitas vezes assegurado pelo próprio governo, busca garantir a maior circulação de dinheiro possível, onde apostas milionárias movimentam rinhas.

Já a venda de animais em estabelecimentos pode parecer inofensiva à primeira vista, mas por trás das vitrines e gaiolas, existe uma exploração sistemática e cruel de procriação e tráfico. A busca de uma parcela da comunidade por animais de raça pura contribuiu para a construção de um comércio impiedoso e infame.

A problemática também está envolvida intimamente com a pobreza. A miséria vivida por muitas famílias faz com que práticas ultrapassadas ainda se perpetuem, como o exemplo marcante do uso de cavalos para carga dentro dos centros urbanos. Os carroceiros utilizam as forças destes animais de maneira inclemente e insensível, deixando-os trabalhar 24 horas sem água ou comida, como se fossem apenas máquinas para servir. Uma pesquisa realizada em Pelotas revelou que as principais alterações encontradas em cavalos de carroça são decorrentes do manejo inadequado e descuidado. Ao mesmo tempo, os carroceiros são incapazes de buscar sustento para suas famílias de outra forma.

O Abril Laranja surge, então, como uma campanha para conscientizar a população contra os maus-tratos aos animais, alertando para a importância da proteção aos nossos companheiros e incentivando a denúncia em casos de abuso, negligência e crueldade. A iniciativa é feita no Brasil por diversas organizações de proteção animal, como ONGs, associações e grupos voluntários.

Este ano, a Prefeitura de Pelotas, em parceria com a Secretaria de Qualidade Ambiental (SQA) e o Comitê Municipal de Proteção Animal (Comupa), realizam atividades alusivas no dia 5 de abril (quarta-feira). O Parque da Baronesa será palco para a programação, que dura das 14h30 até às 17h, e conta com diversas atividades, como cadastro de castrações, adoções responsáveis e oficinas.

Aqui na cidade, o programa de castração gratuita para gatos e cachorros, também realizado pela Prefeitura, já atendeu mais de mil animais desde agosto de 2022.

Um novo lar para o Pirata

O número de animais abandonados cresce no período que antecede as festas de fim de ano e as férias escolares, quando as famílias não têm onde deixar o animal para ir viajar. Pode ocorrer também pela gravidez indesejada das fêmeas, muitas vezes negligenciadas a ter um devido atendimento de castração. O abandono acaba gerando uma superpopulação de cães e gatos errantes vivendo nas cidades.

A região da Praia do Cassino é conhecida por ser uma área assim, onde muitas pessoas descartam animais e contribuem para o crescimento do problema. Foi exatamente isto que aconteceu com a família de Pirata. Sua mãe, grávida, foi abandonada pelo tutor e deu luz à seis filhotes, que viveram seus primeiros meses de vida nas ruas da praia, abrigados num terreno baldio abaixo de uma antena televisiva. Pirata e seus irmãos enfrentaram a desnutrição, a infestação de pulgas e o perigo constante dos carros e caminhões que transitavam pela passagem. Eventualmente, sua mãe rejeitou os filhotes e os deixou desamparados.

É o que relata Maristela Corrêa, nova tutora do cão: “O Pirata, como eu gosto de dizer, não foi adotado. Ele nos adotou. Eu e minha família tiramos alguns dias na praia, e nos deparamos com a cachorra e seus seis filhotes dormindo na rua, no meio da sujeira e sem comer direito, se não fosse pelos vizinhos ajudando como podiam. Quando aconteceu um acidente com um de seus irmãos, que foi atropelado por um caminhão, entrei em desespero e peguei o Pirata. Eu tive vontade de adotar todos, mas infelizmente não havia espaço na minha casa. Salvei o que pude”.

Completa, ainda: “Hoje não sabemos o que aconteceu com a mãe. Três dos cachorros ficaram e acabaram morrendo atropelados. Me arrependo amargamente até hoje de não ter trazido todos”.

Em inúmeras visitas ao veterinário, Pirata precisou realizar tratamentos contra pulgas, carrapatos e outros parasitas, assim como completar as vacinações necessárias. “Precisamos de mais conscientização. Tem que haver a castração, para evitar a adoção dos animais e posteriormente o abandono. A mãe do Pirata era extremamente inocente. O que mais tem por aí são animais que são colocados fora e acabam tendo crias lá onde ela estava. São vidas que precisam ser cuidadas”, conclui Maristela.

Hoje em dia Pirata vive feliz e saudável com sua nova família, usufruindo de um lar cheio de amor com seus outros companheiros caninos e felinos, também adotados.

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Como denunciar?

Para denunciar maus-tratos na cidade de Pelotas, a denúncia deve ser feita pelo telefone 156 (Ouvidoria) ou de maneira presencial no prédio da Secretaria de Qualidade Ambiental, localizado na Avenida Domingos de Almeida, número 1490. Na acusação, deve constar o tipo de animal e cor da pelagem, tipos de maus-tratos praticados pelo tutor, quantidade de animais, endereço completo e horário em que é possível encontrar o tutor no local.

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