A moda como cultura: narrativas que vestem, resistem e pertencem

Roupas vêm sendo símbolos de poder e posicionamentos sociais, tendo a tendência de reaproveitamento de materiais como uma proposta política     

Por Amanda Marin       

Ao longo da história, a moda nunca se limitou ao universo superficial da estética ou do consumo. Ela é, essencialmente, ferramenta de comunicação, capaz de refletir contextos sociais, manifestar ideologias e impulsionar transformações políticas e culturais. Vestir-se sempre foi, e segue sendo, uma manifestação simbólica, que fala sobre quem somos, de onde viemos e quais histórias queremos contar ao mundo. Desta forma o reaproveitamento de materiais vem sendo uma proposta que vai bem além de um estilo, tendo algo a dizer para o momento que se vive hoje.

A relação entre moda e política remonta à Antiguidade, quando vestimentas eram símbolo de poder, status e organização social. No Egito Antigo, por exemplo, as roupas, os adornos em ouro e as coroas dos faraós reforçavam a hierarquia social e o controle político. Na Roma Antiga, a toga púrpura era restrita aos senadores e imperadores, uma vez que o pigmento de cor púrpura era raro, caro e, portanto, símbolo de autoridade e prestígio. Vestir-se de forma inadequada, inclusive, poderia ser entendido como afronta ao Estado ou aos costumes da época.

Durante a Idade Média e o Renascimento, a moda seguiu como instrumento de diferenciação social e controle. Leis suntuárias foram criadas em diversos reinos europeus para regular quem podia usar certos tipos de tecidos, cores e adornos, geralmente reservados à nobreza e ao clero. Ao mesmo tempo, entre as classes populares, o reaproveitamento de roupas era uma prática comum e necessária: peças eram ajustadas, transformadas ou repassadas entre gerações, e mercados de roupas usadas, “embriões” dos brechós atuais, circulavam nas cidades medievais. Assim, enquanto os trajes das elites funcionavam como extensão das estruturas de poder, para as camadas mais pobres, a moda também era uma questão de resistência, criatividade e adaptação dentro das limitações impostas pela própria hierarquia social.

Vestir-se, portanto, é um ato carregado de significado, que atravessa questões de classe, gênero, identidade, resistência e pertencimento.

 

Thays Zimermann gosta de criar novos significados para roupas e suas memórias

 

Movimento upcycling

Essa perspectiva da moda segue mais viva do que nunca, especialmente em um cenário marcado pelo consumo acelerado, pela produção em massa e pelo descarte desenfreado. É justamente nesse contexto que surgem movimentos como o upcycling, o reaproveitamento criativo de materiais e peças que, antes, seriam descartadas. Práticas que dialogam com o resgate cultural, memória afetiva e contra-narrativas aos modelos industriais da moda hegemônica.

É a partir dessa premissa que nasce a Access, marca idealizada por Thays Zimermann, que enxerga no ato de ressignificar roupas uma forma de gerar impacto. “Eu trabalho com upcycling e patchwork justamente porque gosto de ressignificar materiais e memórias. Cada tecido já teve um passado, e ao recriar essas peças, consigo contar novas histórias e provocar reflexões sobre consumo, identidade e pertencimento”, explica.

Thays propõe, através de seu trabalho, um olhar desacelerado para a moda, pelo qual vestir-se deixa de ser uma ação meramente estética e se transforma em um ato consciente, afetivo e, sobretudo, político. “A Access nasce justamente como uma resposta a esse modelo de consumo acelerado e descartável. Eu acredito que se vestir vai muito além de seguir tendências ou acumular roupas, é sobre se expressar, se conectar e respeitar o tempo das coisas. Minha proposta é resgatar o valor do feito à mão, do único, do afetivo. Ao reutilizar materiais e criar peças exclusivas, eu proponho um novo olhar para o vestir: mais consciente, mais respeitoso com a história dos objetos e das pessoas, e mais conectado com quem somos de verdade”, defende.

Ruptura com padrões de massa

Quando escolhe trabalhar com peças únicas, materiais reaproveitados e técnicas artesanais, Thays rompe com os padrões da produção em massa, e resgata práticas esquecidas em meio à lógica da fast fashion. Ela lembra que, no Brasil, essa prática carrega um significado ainda mais potente, considerando os desafios socioeconômicos e ambientais que marcam o país. “Além disso, a realidade socioeconômica e ambiental do Brasil reforça a importância do upcycling e da sustentabilidade na moda, […] Quando escolho trabalhar com upcycling, com peças únicas e com a valorização de técnicas artesanais, estou propondo uma ruptura com a lógica da produção em massa, da padronização e do descartável. É um posicionamento cultural, ambiental e social”, completa.

E se moda é também território de disputa simbólica, os brechós, por sua vez, funcionam como espaços de contracultura urbana, tanto para quem empreende quanto para quem consome. São palcos de memórias, garimpos afetivos e resistência ao ritmo opressor da indústria.

É o que acredita Lucas Moura, fundador do brechó Marginale 053, que observa que o público de brechó carrega uma preocupação que vai além do vestir. “Quem consome fast fashion é diferente de quem consome de brechó. O público que consome brechó tem uma preocupação com o meio ambiente, com a desigualdade social, com direitos trabalhistas que são descartados, que são revogados. Como que seja uma moda circular, onde a gente compreenda que não é porque é uma peça de segunda mão que é uma peça descartável ou que está em mau estado”, pontua.

Para Lucas, mais do que uma escolha econômica, consumir de brechó é um ato de resistência, de cuidado com o planeta e, também, de construção de identidade. E ele não está sozinho nessa percepção, já que a indústria da moda é hoje uma das que mais impactam negativamente o meio ambiente. Segundo a ONU Meio Ambiente, o setor é responsável por cerca de 10% das emissões globais de carbono e 20% da poluição das águas no mundo, principalmente por conta dos processos industriais, tingimentos e descarte de resíduos. Além disso, a cada segundo, o equivalente a um caminhão de lixo têxtil é descartado no planeta.

Diante desse cenário, alternativas como os brechós deixam de ser tendências e passam a ser uma necessidade. “Acredito que as roupas de brechó também têm uma cara autêntica. São peças únicas que muitas vezes ninguém vai ter, de fato. São peças que já não são mais fabricadas, né? E que também já trazem essa identidade mais apropriada a quem está vestindo. Ter esse entendimento social, ambiental, é superimportante, super necessário. Em meio ao que a gente vive de mundo, em meio à crise climática, ao aquecimento global, o pouco que a gente puder fazer para diminuir [essa destruição] é super necessário, é essencial, é básico.”

Cultura periférica

Lucas também reforça que seu interesse pela moda surgiu a partir das culturas periféricas e urbanas — especialmente do hip-hop e do skate — que, historicamente, são movimentos que constroem tendências no mundo da moda, embora raramente sejam reconhecidos como protagonistas nesse processo. “São meios marginalizados, culturas marginalizadas, que, muitas vezes, estão aparentes em desfiles de moda ou como influência na moda, mas não sendo protagonizadas por quem, de fato, faz parte dessas culturas. Subverter esses espaços de elite para onde esses movimentos não são bem quistos é algo que precisa ser feito da forma que conseguir realizar”, defende Lucas.

Na outra ponta desse movimento está quem consome, não apenas por estética, mas por consciência, afeto e identidade. É o caso de Nicolas Moreira, que vê na moda uma poderosa ferramenta de autoexpressão.

Seu interesse começou ainda na infância, quando sofreu críticas por se vestir fora dos padrões. “Com o tempo, fui percebendo que aquelas roupas não eram feias, elas só eram diferentes das que as pessoas ao meu redor estavam acostumadas a ver. Naquele contexto, aquilo era visto como ‘errado’. Só que conforme eu fui conhecendo outras pessoas, outros lugares, e me permitindo experimentar mais, entendi que na real eu me vestia de uma forma que tinha a ver comigo, com o que eu gostava e com quem eu era. Era a minha forma de me expressar. Isso me fez perceber que eu não me vestia mal, eu me vestia de forma autêntica e que isso tinha valor”, conta.

E esse desejo de autenticidade não é isolado. Ele ecoa uma busca coletiva, especialmente entre juventudes periféricas, negras, LGBTQIA+ e urbanas, um movimento que dialoga com o consumo consciente e sustentabilidade, mas, sobretudo, com a valorização das próprias narrativas, das ancestralidades e das histórias que, historicamente, foram marginalizadas.

Para Nicolas, vestir roupas de brechó, peças com história ou feitas artesanalmente, muda completamente a relação com o vestir. “Tem um peso diferente. Tu pensas que alguém já viveu momentos especiais com aquela roupa antes de ti, e agora tu estás criando novas histórias com ela. Isso por si só já carrega significado”, afirma. E não é apenas sobre peças comuns: algumas delas se tornaram verdadeiros marcos na sua trajetória. “A camisa azul de botão, que achei em um brechó, virou uma espécie de amuleto pra mim. Customizei, cortei as mangas, dei uma nova cara pra ela. Foi a primeira vez que senti que estava acertando na minha linguagem de estilo, e até rendeu trampo: me chamaram pra uma publicidade por conta dessa camisa. Ela me fez entender, de forma prática, que o que eu visto pode ser uma extensão da minha voz, do meu lugar no mundo.”

 

Nicolas Moreira vê na moda uma forma de expressão identitária

 

Esse entendimento, no entanto, não acontece de forma isolada. As redes sociais desempenham um papel fundamental na construção de novas narrativas dentro da moda. Hoje, plataformas como TikTok e Instagram são espaços onde criadores independentes, produtores de conteúdo e pequenos empreendedores conseguem furar a bolha da moda tradicional, alcançando públicos que, há alguns anos, estariam restritos a quem tinha acesso aos circuitos elitizados do setor.

O impacto das redes nesse processo é inegável: “Elas são uma vitrine pra quem não está no circuito tradicional da moda. Hoje, pessoas que fazem sua própria roupa, que garimpam brechó, que pensam moda de um jeito mais consciente, estão sendo vistas e valorizadas. Olha o Will Cypriano, por exemplo, que começou postando peças feitas à mão e hoje tá fazendo collab com a Adidas. Isso só foi possível por conta da internet, que abriu espaço pra gente que está na margem, que cria fora da lógica das grandes grifes”, observa Nicolas.

A força desse movimento, inclusive, se reflete nos números. De acordo com um levantamento da ThredUp, plataforma global de revenda, o mercado de segunda mão deve crescer 85% até 2030, enquanto o varejo tradicional de moda avança em ritmos bem mais lentos. Isso sinaliza uma transformação cultural profunda, onde consumir de brechó, apoiar marcas locais e investir em peças com história deixa de ser uma prática de nicho para se consolidar como um novo paradigma de consumo: mais ético, mais consciente e, sobretudo, mais sociocultural.

Sendo assim, para além da estética, Nicolas reforça que se vestir é, antes de tudo, uma escolha carregada de intenção. “Eu gosto de usar a roupa como uma forma de contar algo, seja algo histórico, cultural, político ou até pessoal. Cada peça, cada acessório que eu escolho, carrega uma intenção. Eu tento sempre remeter a alguma coisa com o que eu visto, mesmo que seja sutil. Gosto muito de carregar referências da cultura negra, de usar elementos que falem sobre isso. Isso me fortalece, me posiciona, me lembra de quem eu sou e de onde eu venho”.

 

Nicolas: “há um propósito na forma de se vestir”

 

Para finalizar fica a sugestão do pesquisador Renzo Telles Júnior: a forma como nos vestimos reflete diretamente nossas crenças, convicções e posicionamentos sociais. “A moda atua como um espelho da sociedade e, muitas vezes, como um catalisador de mudanças”, afirma. E é exatamente isso que se desenha quando olhamos para movimentos como o upcycling, os brechós e a moda independente: um resgate de memórias, uma reconfiguração de valores e, principalmente, um ato de resistência estética, cultural e social em meio ao colapso ambiental do nosso tempo.

Afinal, a roupa é, antes de tudo, uma declaração silenciosa (ou nem tanto) de existência e pertencimento no mundo.

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Nossa parabéns, eu adorei muito, se saiu muito bem nas fotos ❤️continua assim e mais uma vez parabéns Nicolas 😘

Thaina mallet

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“Cassino” é indicado ao Prêmio Grande Otelo e leva litoral gaúcho às telas

Gravado em Rio Grande, com equipe majoritariamente gaúcha, o filme curta-metragem transforma paisagem afetiva em cinema      

Por Martha Cristina Melo       

 

Cartaz oficial de divulgação do curta-metragem para 27ª Mostra de Cinema de Tiradentes

 

Dirigido pelo rio-grandino Gianluca Cozza, o curta-metragem Cassino foi indicado à categoria “ficção” do Prêmio Grande Otelo, uma das maiores premiações do cinema nacional. Produzido no Balneário Cassino, localizado no município gaúcho de Rio Grande, a obra marca uma conquista artística para a região, além de um avanço simbólico para as produções de fora dos polos hegemônicos.

A cerimônia do Prêmio Grande Otelo será realizada no Rio de Janeiro no dia 30 de julho, na Cidade das Artes. Sua 24ª edição tem como tema o destaque que o cinema brasileiro vem tendo no exterior. É uma promoção da Academia Brasileira de Cinema, que contou com 345 inscrições entre longas-metragens, curtas e séries, um número recorde nesses 24 anos. Todos os títulos registrados podem ser conferidos no site da Academia Brasileira de Cinema

Votado por profissionais das mais diversas áreas do setor, o Prêmio Grande Otelo vem passando por atualizações desde que foi criado, sempre acompanhando as mudanças do mercado audiovisual. Desde a última edição, a cerimônia conta com 30 prêmios no total, sendo 29 produções escolhidas pelo amplo júri formado por profissionais associados à Academia Brasileira de Cinema, e o disputado Grande Otelo de Melhor Filme pelo Júri Popular, escolhido pelo público por meio de votação aberta realizada no site da Academia.

A produção de Cassino

O curta que, segundo Gianluca, envolveu aproximadamente 30 profissionais e voluntários em sua produção — entre eles, familiares, amigos próximos e vizinhos do diretor —, também contou com o apoio do Núcleo de Produção Audiovisual OfCine/IFRS, que contribuiu com o empréstimo de equipamentos e viabilizou a produção com orçamento reduzido.

Nascido da ideia de um plano (trecho de um filme), o cenário escolhido para dar vida ao curta não foi por acaso. As locações envolveram a região em que Gianluca cresceu, mais precisamente na quadra em que viveu durante grande parte da vida. Os cenários incluem sua própria residência, assim como o Colégio Peixoto Primo, localizado ao lado da casa do cineasta. “Imagino que para decupar [organizar o roteiro em cenas] um filme, é preciso entender o lugar que está sendo filmado”, afirmou o diretor.

Com roteiro assinado por André Berzagui, Eleonora Loner e o próprio Gianluca Cozza, Cassino é uma produção Saturno Filmes, e acompanha três amigos que, durante o inverno, passam a invadir casas de veranistas temporariamente desocupadas. Entre conversas sobre amor, cotidianos e desejos, o curta propõe uma reflexão subjetiva sobre os motivos que os levam a agir dessa forma. O filme teve sua estreia na 27º Mostra de Cinema de Tiradentes, passou pelo 52º Festival de Cinema de Gramado e, agora, se prepara para disputar o Grande Otelo, cuja 24ª edição acontece no dia 30 de julho, no Rio de Janeiro.

OfCine e a manutenção da cultura audiovisual em Rio Grande

Ao falar sobre a proposta pedagógica do OfCine — projeto no qual o diretor Gianluca participou enquanto um dos fundadores e realizador dos primeiros encontros, ele destacou que as oficinas de cinema surgem como uma grande ferramenta de conhecimento em um meio que, além de pouco acessível, é elitizado. “Tem muito conhecimento que você só adquire na prática. Existe muito no ‘fazer artístico’ que não existe um manual que explique, e as oficinas são uma proposta de realização e prática”, afirmou. Para ele, além de um contexto que reúne pessoas com interesses em comum, os encontros também fazem parte da construção de uma cultura cinematográfica mais presente na cidade de Rio Grande.

Cassino já está disponível no Porta Curtas, Cozza site de exibição de curtas-metragens nacionais. A produção planeja disponibilizá-lo futuramente no YouTube.

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Moda indígena: quando vestir é também resistir

Em um país cuja história oficial tentou apagar os povos originários, a moda indígena surge como um grito de resistência    

Por Vanessa Oliveira         

 

Ana Paula Tenhfú da Silva e Kellen Kamin da Silva vestem os grafismos do povo Mehinako e Ariadiny Kaingang está usando as roupas com grafismos de sua cultura de origem

 

Quando pensamos ou ouvimos falar em moda, a primeira coisa que imaginamos é, look do dia, tendências, grifes, desfiles e afins. A moda vai muito além disso, ela também é expressão, resistência e identidade.  É nesse universo da moda como ferramenta de expressão e resistência que nasce a coleção “ÉG | AITSU | NÓS”, da marca gaúcha Moldô Moda Autoral e Arte.

 

Carolina Biberg Maia contou com artistas indígenas para criar coleção de roupas    Foto: Fábio Alt

 

Fundada pela gestora cultural Carolina Biberg Maia, em colaboração com artistas indígenas como Ontxa Mehinako e Ariadny Kaingang, a coleção une ancestralidade, arte e economia criativa. Mais do que roupas, as peças carregam histórias, saberes e símbolos dos territórios e povos que representam.

“Essa ideia nasceu do desejo de apresentar e valorizar a arte indígena do Rio Grande do Sul e do Brasil, mas também com um olhar muito atento ao impacto social e ao fortalecimento da economia criativa local”, explica Carolina. Com formação em Artes Visuais e especialização em Patrimônio Cultural, Carolina é uma referência no fomento aos chamados “territórios criativos”, espaços nos quais tradição, inovação e empreendedorismo se encontram para transformar a realidade.

A ideia da coleção surgiu a partir das experiências de Carolina como gestora pública no Programa RS Criativo, iniciativa com objetivo de ampliar a visibilidade e as oportunidades para empreendedores criativos pretos, pardos, indígenas, quilombolas, ciganos, pessoas trans e com deficiência. Hoje com a Moldô, ela promove um movimento cultural, que conecta artistas visuais, artesãos e designers em criações autorais que respeitam os saberes tradicionais.

O lançamento da coleção ocorreu no mês de fevereiro no espaço cultural Casa Baka, em Porto Alegre, com apoio da Escola Fluxo e da marca Regis Duarte. Participaram também artesãs locais como Rita Zanfra com suas aquarelas; Mara Roxo e seus crochês; e Juciara Dantas com perfumes inspirados na natureza.

 

Lançamento da Coleção ÉG | AITSU | NÓS no dia 25 de fevereiro em Porto Alegre  Foto: Fábio Alt

 

“Me senti muito emocionada e honrada ao ver os grafismos do meu povo representados na moda. É uma sensação difícil de explicar, mas que enche meu coração de orgulho. Cada traço carrega história, identidade e sabedoria dos nossos ancestrais, então ver isso ganhando visibilidade é muito importante e especial”, relata Ariadny Kaingang, de 19 anos, assistente administrativa e uma das artistas participantes da coleção. Ela acredita que compartilhar a cultura Kaingang por meio da arte é uma forma de resistência e conexão. “É mostrar que estamos presentes, que temos voz, e que a nossa cultura tem beleza, força e significado. É manter viva a memória do meu povo e fazer com que outras pessoas conheçam e respeitem o que somos.”

 

Ariadny Kaingang participou da criação artística  da coleção    Foto Fábio Alt

 

O povo Kaingang é um dos maiores povos indígenas da região sul do Brasil, com presença significativa nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Falam a língua Kaingang e mantém uma forte relação com a natureza, a ancestralidade e os saberes tradicionais. Os grafismos do povo Kaingang, por exemplo, carregam significados ligados à dualidade sagrada entre o sol e a lua. Elementos fundamentais da cosmologia do povo.

O artista Ontxa Mehinako, de 34 anos, da etnia Mehinako do Alto Xingu (MT), é estudante de Administração de Sistemas e Serviços em Saúde na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul. Para ele, ver os traços de sua cultura ganharem espaço no vestuário é motivo de orgulho. “A moda é uma forma poderosa de expressão. “Ver grafismos e elementos culturais ganhando espaço nesse universo é uma maneira incrível de contar histórias visuais e manter tradições vivas e poder compartilhar a cultura do meu povo através da arte significa conectar gerações, transmitir valores e mostrar ao mundo a riqueza das influências que moldam nossa identidade.”

 

Ontxa Mehinako vê com entusiasmo grafismos do seu povo no design de moda   Foto: Fábio Alt

 

O povo Mehinako vive na região do Alto Xingu, no estado do Mato Grosso, e faz parte do Parque Indígena do Xingu. Sua cultura é marcada por rituais tradicionais e por uma rica produção artística que inclui cerâmicas, grafismos corporais e cantos sagrados.

Iniciativas como a ÉG | AITSU | NÓS mostram que moda também é território. Um território onde o tecido vira memória e onde vestir-se é, antes de tudo, uma forma de existir – com orgulho, beleza e identidade. Para conhecer mais sobre a marca e os artistas, acesse @moldoarte no Instagram. 

 

Grafismos da cultura Mehinako estão presentes nas peças

 

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Acho incrível o colorido da Arte Indígena. Parabéns Carolina!

Paulo Fernando Macluf Biberg

 

 

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“Pelotas Mal-assombrada” apresenta palestra sobre cemitérios na sexta-feira 13

Encontro no 4 Galeria de Arte e Café levará público para uma viagem no tempo, explorando as sepulturas antigas e seus ritos fúnebres     

Por Bruna Farias       

 

           Nikolas Corrêa apresenta os jazigos e suas histórias em “Os Cemitérios de Pelotas” Foto: Divulgação

 

Explorando ainda mais os mistérios da cidade, a palestra “Os Cemitérios de Pelotas”, apresentada por Nikolas Corrêa, que coordena os passeios “Pelotas Mal-Assombrada”, chega no 4 Galeria de Arte e Café, localizado na rua Doutor Amarante, nº 608, na sexta-feira, dia 13 de junho, às 18h30. Visando despertar um novo olhar do público diante a esses espaços, a palestra propõe uma imersão nos terrenos que já foram cemitérios em Pelotas e nos antigos ritos fúnebres, destacando o valor simbólico e cultural desses lugares para o município.

Considerados museus a céu aberto, os cemitérios sempre foram muito importantes para a cidade, e se transformaram em documentos históricos. O palestrante Nikolas Corrêa, que trabalha com a história de Pelotas há mais de 10 anos e com a caminhada “Pelotas Mal-Assombrada” desde 2023, fala que a ideia da palestra surgiu com o pensamento de que podemos entender muito sobre um município por meio de seus lugares para as sepulturas. “Nós sempre tivemos esse interesse de tentar apresentar os cemitérios de uma forma diferente para as pessoas, justamente tentando compreender esses espaços não só como dor e luto, mas como pontos de reflexão, observando o lado histórico, artístico e cultural”, explica Nikolas.

Com classificação indicativa de 14 anos, os ingressos estão disponíveis para compra no Sympla por R$ 35,00. Mais informações sobre a palestra podem ser encontradas nas redes sociais do “Pelotas Mal Assombrada”, @pelmalassombrada ou do 4 Galeria de Arte e Café @4galeria.co.

Memórias da cidade

Criado pelos professores de história Nikolas Corrêa e Lizandra Pinheiro em 2023, o projeto “Pelotas Mal-Assombrada” tem o objetivo de entrar na memória coletiva da cidade por meio de uma caminhada por locais que unem lendas, histórias obscuras e questionamentos sobre a construção da identidade pelotense.

A caminhada é uma extensão do projeto “Porto Alegre Mal-Assombrada”, mas é resultado de mais de dez anos de pesquisa sobre a história de Pelotas realizados por Nikolas. Ao longo das quase três horas de caminhada pelas ruas da cidade, o passeio apresenta um conjunto de histórias que vão além das tradicionais já contadas em livros e arquivos. São lendas urbanas, relatos de crimes e desigualdades sociais que foram, por muito tempo, esquecidos pela sociedade.

Mais do que um simples passeio, “Pelotas Mal-Assombrada” é um convite à reflexão sobre o passado e o presente da cidade. O tour não somente revela o passado oculto da cidade, mas também nos leva a refletir sobre quais narrativas escolhemos preservar e quais deixamos que se percam no tempo.

Evento: Palestra ‘Os Cemitérios de Pelotas’

Dia: 13 de junho de 2025

Horário: 18h30

Local: 4 Galeria de Arte e Café, rua Doutor Amarante, nº 608

Ingressos: R$ 35,00

Onde comprar: Plataforma Online Sympla

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Arte transforma educação em expressividade

Projeto escolar transforma criações de alunos em publicação literária e conquista espaço na Feira do Livro de Pelotas  

Por João Pedro Goulart   

 

Primeira edição teve participação de somente uma escola   Fotos: Divulgação

 

No cenário plural da cultura sul-rio-grandense, uma iniciativa valoriza a expressão artística dos estudantes e ganha destaque. O “Caderno Literário Escrito a Giz…” é um modelo inspirador de união entre a arte e a educação. Trata-se de um projeto que tem origem no ambiente escolar e se expandiu para a Feira do Livro de Pelotas. Desenvolvido por professores apaixonados por explorar a criatividade dos alunos, o projeto transforma desenhos, fotografias e textos literários em uma publicação vibrante e cheia de inventividade.

 

 

Professores Marta Bottini  e Ronaldo Campello tiveram ideia ao constatarem criatividade dos alunos

 

Idealizado pelos professores Marta Bottini e Ronaldo Campello, o projeto surgiu da observação do talento espontâneo e expressivo dos alunos. Enquanto Marta, professora de artes, sempre trabalhou o universo da criatividade em sala de aula, Ronaldo, que leciona na área das exatas, percebeu a criatividade dos estudantes se manifestando nos rabiscos feitos entre as atividades matemáticas. A junção de olhares impulsionou a criação do “Caderno”, um espaço para dar visibilidade a essas produções.

“Sempre notei que, após realizarem as atividades, muitos alunos faziam desenhos como forma de expressão, revelando seus sentimentos”, descreve Ronaldo, sobre a primeira percepção do potencial artístico dos alunos. Com duas edições já publicadas, o trabalho tem um repertório variado; conta com desenhos, poesias, contos, fotografias, entre outros. O projeto é aberto a alunos, professores, funcionários e à comunidade escolar.

 

Estudantes fazem releituras de obras consagradas da história da arte

 

Criatividade, inspiração e protagonismo

A arte é fundamental no desenvolvimento dos alunos, pontua Marta. Para ela, os desenhos proporcionam experiências para além da sala de aula, e convida os estudantes ao cuidado de si, à construção de novas possibilidades e ao despertar dos sentidos para enxergar o mundo de maneira mais sensível. “Não se limita ao que está estabelecido como certo ou errado; pelo contrário, permite a liberdade de expressão, dá voz à individualidade e incentiva a criação sem amarras”, observa.

 

Participação na Feira do Livro de Pelotas foi um momento de encontro com a comunidade

 

Arte para superar desafios

A construção do “Caderno Literário” acontece em várias etapas, e cada uma delas apresenta desafios específicos, que começam já no início do ano letivo. O primeiro obstáculo é ministrar os conteúdos teóricos que embasam as produções dos alunos, como releitura, sombra e luz, ponto e linha, além de noções básicas de fotografia. Depois, acontece a fase prática, quando os alunos aplicam esses conhecimentos.

 

Frida Kahlo foi uma das artistas homenageadas

 

Para Marta, um dos maiores desafios foi fazer com que os alunos compreendessem seu papel na sociedade e reconhecessem seu próprio potencial. Para isso, foi essencial criar um vínculo de confiança e proximidade entre professor e aluno, permitindo um espaço de troca verdadeira com respeito à individualidade de cada um. Além disso, outro aprendizado foi oferecer aos alunos a possibilidade de errar e aprender com os erros.

“Trabalhar a arte exige sair da zona de conforto, lidar com conflitos internos e superar limitações. Muitas vezes, é preciso ‘deixar o pote de tinta cair no chão’, desacomodar pensamentos e repensar ideias”, diz a professora de artes.

 

Ronaldo e Marta pensam no projeto como uma forma de conscientização dos estudantes sobre os seus papéis sociais

 

Sessão de autógrafos e ascensão

Ao longo dos anos, o Escrito a Giz não só revelou talentos dentro das escolas, mas também ganhou palco fora delas. As participações mais recentes na Feira do Livro de Pelotas (49ª e 50ª edições) o consolidou como uma vitrine da produção artística estudantil, e permitiu que os alunos vivenciassem a experiência de autografar suas próprias obras. O crescimento do projeto, que passou de uma escola integrante, em 2023, para três, em 2024, refletiu o engajamento dos estudantes na aproximação da educação com a arte.

 

Estudantes autografaram seus trabalhos no lançamento da edição na festa dos livros

 

Para o professor Campello, a participação nas duas últimas edições da Feira foi fundamental para fortalecer a proposta do projeto. “Na edição de 2023, apenas uma escola participou: a Escola Areal. Já em 2024, conseguimos ampliar a participação para três escolas – Escola Areal, Escola Fernando Treptow e Colégio Municipal Pelotense – e mais de 25 alunos estiveram na sessão de autógrafos”, compara.

 

No ano passado, edição teve a participação de três escolas

 

Dever cumprido

Participar do “Caderno Literário Escrito a Giz” é uma experiência marcante para os alunos que dedicam tempo e criatividade para produzir seus trabalhos. Atualmente no ensino médio, o aluno Luís Gustavo da Rosa, de 15 anos, lembra de cada aula envolvida no projeto como um momento de aprimoramento, em busca do melhor resultado possível. Ao ver sua produção finalizada e publicada, o ex-aluno da Escola Fernando Treptow sentiu a satisfação por contribuir para uma obra coletiva de expressão artística dentro do colégio.

 

Aspectos do cotidiano ganham visão nova de acordo com sensibilidade e expressão dos estudantes

 

Além do reconhecimento, o projeto também despertou no jovem um novo olhar sobre suas próprias capacidades criativas. A oportunidade de transformar ideias em textos e imagens mostrou que a imaginação é um campo fértil de possibilidades, bastando incentivo e dedicação para explorar todo o seu potencial. “Vi que minha mente era capaz de produzir muitos trabalhos e textos de qualidade. Isso dá uma motivação para realizar outros trabalhos agora e futuramente”, assegura Luís.

Para os professores, é um privilégio desenvolver um projeto que ultrapassa os muros da escola e vai para o mundo. Mas independentemente do lugar que estiverem, há algo que não muda: Marta e Ronaldo seguirão acreditando na arte como um meio poderoso de expressão, capaz de transformar tanto os alunos-artistas quanto os que vivenciam suas criações.

Confira as edições

1º Caderno Literário Escrito A Giz

2º Caderno Literário Escrito A Giz

 

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Mostra gratuita de filmes latino-americanos e espanhóis até novembro

CineUFPel exibe toda sexta-feira obras independentes e de diretores consagrados  

Por Manuella Centeno  

 

Filme “O Banheiro do Papa” retrata cotidiano de pequena cidade uruguaia próxima da fronteira       Fotos: Divulgação

 

Começou  no dia 16 de maio,  a  mostra  de  longas-metragens latino-americanos e espanhóis promovida pelo CineUFPel. As exibições acontecem todas as sextas-feiras, às 19h, na sala do CineUFPel, localizada na rua Lobo da Costa, 447, no prédio da Agência de Desenvolvimento da Lagoa Mirim. A programação vai até o mês de novembro, com entrada gratuita e sessões seguidas de debate com convidados.

O Ciclo de Cinema Latino-Americano e Espanhol é fruto de uma parceria entre a Secretaria de Cultura (Secult), a Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a Prefeitura de Pelotas e o Centro de Estudios en Lengua Española.

Segundo o coordenador do CineUFPel, Roberto Cotta, o Ciclo busca valorizar o cinema falado em língua espanhola, com filmes de cineastas renomados, como Pedro Almodóvar, e também produções menos conhecidas ou resgatadas. “As obras escolhidas trazem esse caráter de cinema inventivo e independente, com uma vontade de desafiar as condições de produção de cada país. A ideia é ampliar os conhecimentos sobre o cinema latino-americano”, explica.

Na estreia, foi exibido o longa “El Baño del Papa” (O Banheiro do Papa), coprodução franco-uruguaio-brasileira dirigida por César Charlone. O filme se passa em uma pequena cidade do Uruguai, onde a visita do Papa João Paulo II, em 1988, inspira Melo, um homem humilde, a construir um banheiro para atender os peregrinos que chegam ao local. A trama mistura ficção com fatos reais e reflete sobre as condições de vida da população local.

O professor Juan Pablo Berasain, também organizador da mostra, ressalta a importância do projeto. “O ciclo trata do que a gente entende como universo do cinema latino-americano e espanhol. Tem o propósito de levar ao público o que há de melhor nessa produção audiovisual”, afirma.

A programação inclui filmes do Uruguai, Argentina, Chile, México e também da Espanha, dentro do chamado Ciclo de Cinema Espanhol. A entrada é gratuita e aberta ao público em geral.

 

Melo tem ideia de construir banheiro que seria útil para o grande número de visitantes

 

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Horroroso, mas nem tanto: o olhar de Rafael Sica para a urbanidade

Com traço expressivo e humor mordaz, quadrinista pelotense lança guia ilustrado de uma cidade fictícia que espelha a realidade        

 Por Larissa Duarte           

 

Capa do livro que será lançado nesta sexta-feira em Pelotas     Imagens: Divulgação

 

Em março deste ano, o quadrinista pelotense Rafael Sica lançou nacionalmente sua nova obra: “Estive em Horroroso e lembrei de você”, publicada pelo selo Quadrinhos na Cia. Um livro que mais parece um guia turístico de um lugar inexistente, ou pior, de um lugar que existe demais. Com seu traço inconfundível e um humor afiado, Sica nos leva a passear por Horroroso, uma cidade fictícia, melancólica, cínica e, por vezes, assustadoramente familiar.

Após realizar o lançamento do livro em São Paulo, Rafael Sica agora se prepara para trazer Horroroso de volta para casa. O lançamento em Pelotas acontece no dia 16 de maio, sexta-feira, das 17h30 às 20h, na Livraria Vanguarda (Rua Gonçalves Chaves, 374 – bairro Centro), com entrada gratuita. Já no dia 17 de maio, o autor ministra a aula aberta “Escola Horrorense de Desenho: Oficina de desenho horroroso”, das 10h às 12h, também na livraria. Para participar, basta que os interessados levem o seu material de desenho.

Onde fica Horroroso?

A cidade, criada a partir da imaginação do artista, surge sem mapas, sem registros, sem história oficial. “Era como se o município de Horroroso fosse um destino evitado”, diz Sica. “Um dia percebi que estava andando por Horroroso. Passei a voltar lá frequentemente para registrar o que acontecia por ali”.

Com cerca de cem desenhos, o livro assume a forma de cartões-postais, uma escolha que pode parecer curiosa à primeira vista, mas que logo se revela estratégica. Ao brincar com a estética turística, Sica cria uma crítica ao discurso de exaltação que geralmente acompanha esses materiais.

O ilustrador e quadrinista reconhece que há uma intenção de motivar questionamentos. Diz que isso é “principalmente uma provocação sobre o que é exatamente um lugar turístico”. Nota que há uma discrepância entre as imagens que são criadas para vender uma ideia de turismo e, por outro lado, o que realmente acontece nos destinos. Há que se pensar sobre o que é vendável e o que é escondido em cada município.

Além dessa crítica visual e simbólica, “Estive em Horroroso e lembrei de você” também provoca o leitor por meio do silêncio e do absurdo. Não há falas e nem diálogos, e isso é proposital. “Acredito que o silêncio, ou mais especificamente a falta de balões, deixa o quadrinho mais sugestivo e aberto a interpretações”, explica Rafael. “É como se a linguagem fosse de alguma forma subvertida. O absurdo é uma questão de olhar para a realidade. Poderia dizer que é apenas a realidade se manifestando, que não há muita intenção de inventar coisas. A própria realidade já manifesta o absurdo”, diz.

Trecho do livro   

 

A obra levou cerca de três anos para ser construída. Um processo gradual, quase como se o autor tivesse sido engolido pelo universo que criou. A busca por Horroroso não teve regras fixas: podia começar com uma fotografia, um lugar visitado, uma conversa ou até uma pessoa observada na rua. Para Sica, o estilo próprio do desenho nasce do erro e das limitações, e estar em paz com isso é parte essencial do seu fazer artístico.

E se Horroroso é um reflexo da realidade, talvez todos nós sejamos seus habitantes. Nos rostos deformados, nos prédios decadentes, na paisagem sem horizonte, Sica desenha uma cidade que parece sempre estar prestes a ruir — ou que já ruiu, mas finge seguir em pé. A provocação está feita. Cabe ao leitor decidir se envia, ou não, um cartão-postal de volta.

 

Trecho do livro  

 

Quem é Rafael Sica?

 

O quadrinista e ilustrador pelotense é conhecido por seus livros e exposições

 

Rafael Sica nasceu na cidade de Pelotas, em 1979. Publicou “Ordinário” (Companhia das Letras, 2011, com nova edição em 2023), “Tobogã” (Narval, 2013), “Novela” (BebelBooks, 2014), “FIM – Fácil e Ilustrado Manifesto” (Beleléu, 2014) e “Meu mundo versus Marta”, com o escritor Paulo Scott (Companhia das Letras, 2021). A exposição individual “O Ordinário Rafael Sica” percorreu as unidades da Caixa Cultural de Fortaleza, Rio de Janeiro e Curitiba durante o ano de 2018. É autor também de “Fachadas” (2017), “Triste” (2019), ambos editados pela Lote 42, “Brasil” (Caderno Listrado, 2020), “Ninguém dormia” (ÔZé, 2022) e “A Última Enciclopédia” (Caderno Listrado, 2023).

Serviço


Livro: “Estive em Horroroso e lembrei de você”

Autor: Rafael Sica

Selo: Quadrinhos na Cia

Páginas: 128

Lançamento em Pelotas: Dia 16 de maio, sexta-feira, na Livraria Vanguarda.

 

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Zudizilla: O poeta pelotense do rap brasileiro

Com toques do jazz, soul e boom bap, músico combina rimas, referências filosóficas e histórias da cultura negra e das periferias    

Por João Miguel Rico Donini     

 

Autenticidade e sofisticação combinam muito bem na música de Zudizilla    Fotos: Divulgação

 

Nos últimos anos, o rap brasileiro tem se expandido e diversificado, trazendo novos nomes que desafiam padrões e exploram sonoridades únicas. Entre esses artistas, o pelotense Zudizilla se destaca como uma das vozes mais autênticas e sofisticadas da cena. Com influências do jazz, soul e boom bap, o rapper combina rimas afiadas, referências filosóficas e narrativas que exaltam a cultura negra e as experiências periféricas. No final de semana passado, ele se apresentou no festival internacional de música alternativa Lollapalooza, em São Paulo. 

 

Zulu: Quarta Parede, Vol.3

 

Natural de Pelotas, Zudizilla deu seus primeiros passos na música através do hip-hop, vendo nele um canal para expressar ideias e resistir. Zudi, ou Zulu, iniciou sua jornada no Banca CNR, grupo de rap local. Sob a tutela de Guido CNR, ele começou a se sobressair, projetando seu nome no cenário independente, graças ao talento com as palavras e à forma única de criar histórias densas e tocantes. Com o passar do tempo, firmou um estilo único, bebendo da fonte de ícones do rap do Brasil e do mundo, sem deixar de lado o jazz e o blues.

 

Guido CNR foi parceiro de Zudizilla no  grupo de rap Banca CNR

 

A musicalidade de Zudizilla é marcada por batidas sofisticadas e uma abordagem poética única. Seu álbum “Zulu Vol. 1: De Onde Eu Possa Alcançar o Céu Sem Deixar o Chão” é um dos mais elogiados da sua carreira, trazendo reflexões sobre identidade, ancestralidade e superação. Suas letras abordam temas como a valorização da cultura negra, racismo estrutural e a luta diária da população periférica.

 

Zudizilla faz um rap diferenciado com elementos do jazz e do soul      Foto: Caio Henrique/Divulgação

 

Suas canções, carregadas de sensibilidade, ora abordam questões sociais, ora revelam seus sentimentos, gerando grande identificação. Ademais, a influência do jazz e do soul em seu som singulariza sua obra no rap, inspirando aqueles que almejam trilhar caminhos distintos do mainstream.

 

Zudizilla em um dos seus shows na cidade de Pelotas

 

Mais do que um rapper, Zudizilla se destaca como um intelectual de nossos tempos, que emprega sua arte como um meio de suscitar debates e amplificar as preocupações cruciais da nossa comunidade. Sua influência na cena musical personifica o poder da cultura hip-hop como um motor de mudança social e um ato de oposição. Um dos pontos altos de sua trajetória foi a sua recente atuação no Lollapalooza de 2025, com apresentação no sábado, dia 29 de março. Ao se apresentar em um dos maiores eventos globais de música alternativa, Zudizilla reiterou a relevância do rap feito no Brasil e das histórias das comunidades marginalizadas no contexto dominante. Sua performance vigorosa e repleta de mensagens impactantes solidificou ainda mais sua importância artística, comprovando que sua música rompe fronteiras e ressoa com uma variedade de pessoas. O evento significou não só uma validação de seu talento, mas também um avanço crucial para o reforço do rap brasileiro em grandes festivais de nível internacional.

 

Zudizilla se apresentou  no festival Lollapalooza no dia 29 de março, em São Paulo

 

Sempre trilhando um caminho de inovação, Zudizilla não para de criar e descobrir caminhos inéditos no universo do rap. Seus próximos trabalhos devem manter o nível elevado, com a mesma intensidade e autenticidade que definem sua jornada. Se depender do dom e do esforço do rapper, os fãs podem aguardar letras marcantes e melodias cativantes no futuro.

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Jornada pela cultura germânica

Trajes históricos e danças fazem parte do resgate das origens da imigração realizado pelo Grupo Bauernkreis de Canguçu    

Por Chaiane Römer e Amanda Leitzke      

 

Grupo Bauernkreins cultiva as tradições e atrai jovens para o estudo das bases culturais      Fotos:  Divulgação

 

O Bauernkreis, grupo de danças folclóricas de Canguçu, foi fundado em 7 de julho de 2022. A ideia, que surgiu numa conversa de amigos, hoje conta com um grupo de 72 integrantes que buscam preservar as tradições culturais germânicas por meio de danças e trajes históricos, oferecendo aos jovens um espaço para a prática cultural fora do horário escolar.

A cultura germânica, com sua rica história de tradições e costumes, encontra no Grupo Bauernkreis uma expressão autêntica de preservação e celebração. Através de seus trajes, o grupo transmite a profundidade da tradição folclórica que carrega consigo. Cada peça do vestuário utilizada nas apresentações do grupo não é apenas um adereço, mas uma representação viva da herança cultural, cuidadosamente selecionada e confeccionada para manter a autenticidade dos costumes.

A história dos trajes começa junto à fundação do grupo, em julho de 2022. Giales Rai, instrutor e coordenador, conta que o Bauernkreis nasceu em sua casa. “O grupo nasceu na sala da minha casa quando um casal de amigos e eu estávamos conversando, e eu lancei a ideia de começarmos um grupo de danças em Canguçu. Perguntei: ‘Vocês dançariam juntos?’ Eles prontamente aceitaram o convite e, hoje, continuam fazendo parte do grupo”, afirma. Ele conta que a ideia surgiu justamente da necessidade de ter um espaço, uma entidade no município, onde os jovens e as crianças, após o período escolar, pudessem participar, fomentando assim as raízes e a cultura.

O grupo iniciou com 20 integrantes, apenas com a categoria adulta. Hoje, o grupo possui três categorias e 72 participantes. Giales conta que, além de ter triplicado o tamanho do grupo em número nesses quase três anos, também foram muitas as conquistas alcançadas, a começar pela formação de mais duas categorias.

Falando sobre os trajes, ele destaca que são um resgate histórico. Há vestimentas para todas as categorias. A categoria adulta está prestes a estrear um novo traje histórico. Há ainda um para a juvenil e outro para a categoria infantojuvenil, que começou neste ano e será estreada com um traje histórico também. “Isso, no âmbito do folclore, significa muito, porque, geralmente, quando se começa um grupo, faz-se um Trachtenmodel (ou traje de moda), que é um traje de festa mais comum. Mas nós começamos todas as categorias com um traje histórico. Isso reflete o trabalho do grupo e mostra também a nossa preocupação com a autenticidade e com a propriedade ao fazer folclore, buscando sempre ser o mais fiel possível ao que era utilizado pelos nossos antepassados, ainda na terra natal, na Pomerânia, na Alemanha”, destaca o instrutor.

No Bauernkreis, cada detalhe de cada traje tem um significado, e cada peça é uma conexão direta com as tradições passadas e os costumes do município. Giales conta que a categoria adulta hoje possui um traje austríaco, intitulado Kaltenleutgebene-Festracht, que provém da região de uma pequena cidade chamada Kaltenleutgebene, situada aos pés das montanhas da Floresta de Viena, na Áustria. É uma cidade de veraneio, bem pequena, e esse é um traje festivo. Ele era utilizado para ir à igreja, para festas de kërbi e para eventos solenes também. Portanto, não é um traje de trabalho.

 “Se compararmos com os trajes pomeranos, a grande maioria dos trajes pomeranos são trajes de trabalho. Mas nós optamos por fazer um traje austríaco devido à estética do traje e à sua forte ligação com a religião. Isso nos aproxima, pois, no município de Canguçu, nós, pomeranos, também somos muito religiosos. Então, essas pequenas características e semelhanças nos motivaram a escolher tais trajes para o grupo de danças”, reitera.

 

A categoria adulta do Bauernkreins vem usando um traje  que provém de uma pequena cidade austríaca nas montanhas

 

O traje juvenil Elstele Tracht, originário do Vale de Eutz, na Floresta Negra, Alemanha, foi escolhido tanto por sua estética quanto pela semelhança de cores com a categoria adulta do Bauernkreis. Além de sua relevância histórica e cultural, o traje ainda é usado na região de origem. A mais recente conquista do grupo foi o chapéu de veludo branco, adornado com flores vermelhas e fitas pretas de cetim, remetendo ao tradicional bolo Floresta Negra. Finalmente, a categoria infanto-juvenil estreará também um traje novo no dia 5 de abril: o Bayerische Tracht, proveniente da região da Baviera, na Alemanha. Esse traje é mais simples, mas também tem grande significado histórico. A apresentação com a nova vestimenta será no 3º Encontro de Grupos de Danças Folclóricas na Sede Campeira do CTG Sinuelo, a partir das 18h30min.

No dia 5 de abril, será estreado também um novo traje histórico da categoria adulta, que foi adquirido por cerca de 85 mil reais. O traje foi confeccionado por um alfaiate folclórico da região da Serra Gaúcha, mais precisamente da cidade de Imigrante. Ele é um traje mais sóbrio e formal, predominando as cores escuras. Os rapazes usam um sobretudo preto, colete verde-escuro brocado com botões em grupos de três, calça de veludo preto, uma gola alta com uma fita grossa amarrada formando um laço vistoso, chapéu grande e chamativo, meias azuis e botas pretas de couro de cano alto até o joelho.

O novo traje feminino é composto por um vestido verde-escuro, com galão detalhado na barra da saia. O avental é um verde mais claro, que harmoniza com o vestido. O decote do vestido é em forma de U, e há um xale bordado com flores vermelhas e uma gola separada, presa com pedrarias e muitas rendas. Acompanhando o traje, há uma pequena touca preta com fitas e um laço preso abaixo do pescoço.

O que se destaca em todos esses trajes é a importância da autenticidade. Ao contrário de muitos grupos folclóricos que começam com trajes modernos e depois tentam adaptá-los para modelos históricos, o Bauernkreis optou por iniciar suas atividades com trajes que carregam toda a tradição germânica.

O Grupo Bauernkreis, que nasceu de uma conversa na casa de Giales Rai, tornou-se uma ponte de referência cultural no município. As duas últimas festas de aniversário da cidade, realizadas junto ao Festcap (Festival da Cultura Alemã e Pomerana), foram organizadas pela Prefeitura de Canguçu e pelo grupo, consolidando ainda mais sua importância na preservação da cultura local.

 

A categoria Juvenil  e as demais do Grupo Bauernkreis participam do 3º Encontro de Grupos de Danças Folclóricas dia 5 de abril

 

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Artistas mães podem se inscrever para residência artística no com bolsa de R$ 7 mil

Projeto Ressoar abre edital para três artistas visuais gaúchas ou residentes no Rio Grande do Sul, com inscrições até 27 de abril

 

    Artistas selecionadas no Projeto Ressoar viverão imersão artística em comunidades tradicionais do Rio Grande do Sul           Foto: Alumiar Casa de Arte

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O coletivo e casa de arte Alumiar, em parceria com a Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul, lança o Programa de Residência Artística Ressoar – 1ª edição: artistas mães. A iniciativa busca selecionar três artistas mães para uma imersão artística de seis dias em territórios tradicionais gaúchos. Cada selecionada receberá uma bolsa de incentivo de R$ 7 mil para desenvolver pesquisas no âmbito das artes visuais e contemporâneas, em diálogo com o território, seu meio ambiente e os conhecimentos tradicionais

Podem se inscrever artistas mães nascidas no Rio Grande do Sul ou que residem há pelo menos dois anos no Estado. O edital reserva uma vaga para uma artista negra, uma para uma artista indígena e uma de livre concorrência. A seleção será feita por meio da análise de portfólio e carta de interesse.

Vivências e aprendizado em territórios tradicionais

A residência ocorrerá de 28 de julho a 3 de agosto, no Recanto Carahá, em São Lourenço do Sul. Durante o período, as artistas visitarão três comunidades tradicionais: a aldeia Mbyá Guarani Tekoá Tavaí e a família Gonçalves da Pecuária Garupa, ambas em Cristal; e o ponto de memória Quilombo Maria Lina, em São Lourenço do Sul. O objetivo é fomentar trocas entre as artistas e os contextos culturais locais, ampliando suas pesquisas e práticas artísticas.

A proponente do projeto, Ana Flor, destaca que a experiência visa valorizar saberes populares e descentralizar a produção artística. “É uma formação não acadêmica, trazendo assim uma perspectiva de que o saber popular é valioso, pode e deve enriquecer as nossas perspectivas de mundo. E isso impacta no trabalho de quem está fazendo uma produção artística: a nossa produção não pode ser desconectada com a realidade do mundo que a gente vive e das questões que são caras a serem debatidas nesse sentido”, afirma.

Ana Flor explica que a ideia para a realização da Residência Ressoar é coletiva e surgiu quando ela e o companheiro, Fábio Abbud – ambos pais, artistas visuais e produtores culturais – receberam uma Bolsa de Mobilidade Artística da Fundação Nacional de Artes (Funarte) em 2023. Na oportunidade, o casal precisou se deslocar até Santa Fé, na Argentina, para realização das atividades que integravam a Bolsa de Mobilidade. Nesta ocasião, afirma que vieram à tona reflexões sobre os lugares que ocupa (ou não) uma artista mãe no campo da arte.

 

Vivências de Ana Flor e Fábio Abbud como pais e artistas visuais contribuíram para  a ideia da Residência

 

Processo formativo e inscrição

A residência contará com a formação “Desfloración: do corpo poético ao corpo em resistência”, ministrada pela artista Catiuscia Dotto. Ao longo da imersão, as participantes serão acompanhadas pela curadora Ana Flor e realizarão uma roda de conversa ao final do processo.

As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até o dia 27 de abril no portal Mapa da Cultura. Neste mesmo link, está disponível o edital completo com todas as informações sobre a seleção.

Ao final do período, as residentes realizarão uma roda de conversa com artistas locais e farão um relatório das atividades desenvolvidas, cuja divulgação ocorrerá virtualmente nas redes sociais Instagram  e Facebook e no site do Alumiar. O objetivo, com a roda de conversa, é estimular visões, modos de fazer e de pensar a arte entre artistas locais e artistas que estão vindo de outras localidades.

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