Ir ao cinema na era do streaming

Entrevista de gerente de marketing do CineArt destaca as diferenças que permanecem ao ver os filmes na tela grande       

Por Enrique Carvalho       

 

O hábito de frequentar as salas de cinema tem seu sentido renovado na era digital

 

Atualmente, na era do streaming, a cultura cinematográfica mudou muito, mas a experiência completa de ver um filme continua sendo a ida a uma sala de exibição. A gerente de marketing do CineArt de Pelotas, Gabriela Isquierdo, fala sobre as estratégias que estão sendo criadas e como é o relacionamento do público local com este cinema, que atualmente conta com quatro salas.

A arte do cinema, nascida em 1896 com o clip “A Chegada do Trem na Estação” dos irmãos Lumière, passou por transformações ao longo dos séculos. Desde ser considerada, principalmente pelas elites do começo do século XX, uma simulação menos prestigiosa do teatro e ser relegada para a classe trabalhadora mais desprivilegiada, até ser consolidada como uma linguagem artística base de uma indústria que em 2024 teve seu recorde de 30 bilhões de dólares de faturamento conforme informa o site americano Deadline.

Nos anos pós-pandêmicos, contudo, há uma instabilidade em relação à frequência de espectadores indo às salas de cinema. Os números de ingressos vendidos foram de mais de 11 bilhões em 2019 para menos de 2,5 bilhões em 2020. A queda expressiva dá-se por conta do lockdown global, mas mesmo após a normalização da situação sanitária, o cinema não tem performado a mesmo ritmo de escalada que estava tendo desde 2004. Pode-se claramente ver esse desempenho no gráfico ao lado retirado do site The Numbers.

Ao contrário das telonas, os serviços de streaming, como a Netflix, nunca pararam de ter seus números de assinantes subindo a cada ano, chegando a mais 300 milhões em 2024, como vemos no gráfico de assinantes ao lado retirado do site Statista.

 

 

Para entendermos mais sobre o cenário local do cinema, conversamos com Gabriela Isquierdo, gerente de marketing do CineArt, cinema já consolidado da cidade de Pelotas. Aberto em 2001, o CineArt tem ao longo do tempo modernizando-se e ampliando seu espaço para acomodar mais telespectadores. Em 2004, teve sua primeira ampliação para três salas. Em 2014, mudou o sistema de exibição para ter suas salas cem por cento digitais. Já, em 2018, é ampliado novamente para ter quatro salas.

Arte no Sul – Qual é a estratégia do cinema para atrair o público?

Gabriela Isquierdo – Aqui no CineArt, nós trabalhamos com bastante promoções, temos o valor bastante acessível. Além disso, nós buscamos ter uma rede-social bem ativa e promovemos bastantes anúncios; eu acredito que a gente precise instigar as pessoas a ir ao cinema. Antigamente, para saber as programações dos filmes, as pessoas deveriam sair de casa e ir na frente do cinema saber os horários. As salas, hoje em dia, com as redes-sociais, podem estimular que as pessoas acessem isso de uma maneira muito mais fácil. Precisamos trabalhar um bom marketing, não apenas em torno do que já é feito pelas distribuidoras, Disney e  Warner, por exemplo.

Arte no Sul – De que maneira o cinema pode oferecer uma experiência única e imersiva que supere a experiência de assistir a um filme em casa?

Gabriela Isquierdo – Pra mim, pessoalmente, assistir a um filme no cinema é uma experiência totalmente diferente de ver um filme em casa. Você não terá uma tela gigante como tem no cinema, não terá o som do cinema, é uma outra experiência. Até a pipoca que tu comes. É uma experiência muito diferente de você ver um filme em casa.

 

O CineArt está localizado no Centro da cidade de Pelotas   Foto: Divulgação 

 

Arte no Sul – Como a sua equipe lida com as mudanças nos hábitos de consumo de entretenimento e como elas impactam a programação e marketing do cinema?

Gabriela Isquierdo – A gente [equipe do CineArt] comenta muito sobre a diferença de você pedir uma comida em casa e você ir em um restaurante. Quando você está indo ao cinema, você não está indo só assistir a um filme, as pessoas colocam muito isso na cabeça. Mas, não, quando você está indo no cinema, está indo fazer uma programação. Tu estás saindo de casa, tu estás indo ver outras pessoas. Tem gente que vai no cinema sozinho, mas está numa sala junto de outras pessoas. É uma experiência de você rir em conjunto, ficar com medo em conjunto. É diferente de você assistir ao filme em casa.

Arte no Sul – Quais são as principais vantagens que o cinema oferece em relação às plataformas de streaming e como elas são comunicadas ao público?

Gabriela Isquierdo – Uma das principais diferenças, e tomara que ainda siga bastante tempo assim, é que as estreias a gente ainda confere só no cinema. Então, primeiro a estreia é lançada no cinema. Isso é a principal diferença, além de todos os fatores já citados.

Arte no Sul – Como a sua equipe trabalha para criar uma comunidade em torno do cinema, com eventos especiais, exibições temáticas ou parcerias com influenciadores locais?

Gabriela Isquierdo – Desde que assumimos a administração do cinema em 2014, não sei se você sabe, mas o CineArt é uma empresa local, desde então tivemos uma rede-social bem ativa, desde o tempo do Facebook, com um engajamento altíssimo. Hoje, até temos um engajamento legal no Instagram, mas no Facebook era bem forte. E também temos clientes bem engajados, eles conhecem a gente, quem são os donos do cinema.

As pessoas que realmente vão no cinema são bem assíduas, nos conhecemos pelo nome. Isso é a construção de uma comunidade, muito mais que uma rede-social ou chamar um influencer.

Sobre eventos, um dos mais legais que fazemos é o Doação de Cinema, quando trocamos cartazes do cinema por alimentos. Já tivemos três edições e logo teremos a quarta. As pessoas nos procuravam para pegar os cartazes dos filmes e pensamos por que não juntar tudo isso e fazer uma doação em um dia só, tudo em troca de um alimento?

 

Laços através do cinema

O ato de ir ao cinema não é apenas meramente um entretenimento, mas sim uma construção de um evento coletivo. Podemos avaliá-lo como a criação de laços dentre uma comunidade. A própria UFPel tem o Cine Ufpel, projeto que visa promover o acesso à cultura por meio de obras do audiovisual, em especial os filmes brasileiros e latino-americanos. Localizado na rua Lobo da Costa, 447, no centro de Pelotas, promove sessões nas quintas e sextas-feiras. Para acompanhar a programação, pode-se acessar o Instagram do Cine UFPel e acompanhar as divulgações de horários. 

 Os filmes, como podemos ver com a repercussão de “Ainda Estou Aqui”, mantém a memória viva de um recorte temporal de nossa história. Acompanhar o cinema é estudar o passado e aprender com ele, é buscar novas perspectivas de vida ou encarar realidades fantásticas que cativam o espírito. Assistir a um filme pode ser um ato de resistência, de amor, de medo, de coragem. Isso acarreta diversos propósitos e fazer esse ato em comunidade, indo ao local, enriquece ainda mais o senso de pertencer a um grupo social, uma comunidade, um país.

Com a ascensão dos streamings, assistir a uma obra audiovisual torna-se uma ação cada dia mais insipida em relação à experiência comunitária que poderia ser. Isso pode fazer parte de um movimento de atomização da sociedade, no qual o indivíduo se distancia dos outros com cada vez mais frequência e perde-se o senso de pertencer a um universo mais amplo e compartilhado com seus semelhantes. Ir ao cinema é manter parte de uma cultura viva.

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‘’O Tempo e o Vento’’ reflete sobre a história gaúcha

Filme de 2013 segue atuando como fonte de compreensão dos conflitos e tensões sociais no Brasil     

Por Clarissa Ribeiro           

 

                  A família Cambará tem início com o relacionamento de Pedro Missioneiro (Martin Rodriguez) e Ana Terra (Cleo Pires)          Fotos: Divulgação

 

O filme O Tempo e o Vento, dirigido por Jayme Monjardim, baseado na obra de Érico Veríssimo e estrelado por Cléo Pires, Fernanda Montenegro, Marjorie Estiano e Thiago Lacerda, é uma adaptação cinematográfica que busca capturar a complexidade da história do Rio Grande do Sul. Com seus elementos culturais e sociais bem-marcados, a obra retrata desde o período colonial até o início da Revolução Farroupilha, em 1835. A família Cambará é a protagonista, e se destaca ao retratar seu drama pessoal e luta pela sobrevivência no contexto de guerra.

As Missões

O filme começa com o nascimento do personagem que muito marca a trama: Pedro (Martín Rodriguez). O patriarca da família era filho de uma índia com um europeu, e carregava consigo a origem do povo brasileiro, suas dores e angústias. É avô de Bibiana, vivida por Fernanda Montenegro na maturidade e quem narra toda a história durante a obra.

Tendo sua mãe morrido no parto, Pedro recebeu atenção e educação dos padres jesuítas, sendo parte deste outro momento histórico do país: as missões jesuítas. Após sobreviver a um ataque espanhol em seu vilarejo, Pedro é socorrido por Ana Terra, com quem vem a ter um filho, o que motiva, no entanto, uma reação violenta do pai dela.

A força feminina

Ana Terra (Cléo Pires), esposa de Pedro Missioneiro, se destaca como exemplo de coragem feminina. Após lutar por seu relacionamento e vir a perder seu marido, Ana foge com seu pequeno filho e sobrevive como parteira da sua nova cidade, sempre tentando manter o legado da família vivo e honrá-lo. Com o tempo, seu filho cresce e se torna pai de Bibiana, vivida em diferentes fases de sua vida, por Janaína Kremer, Marjorie Estiano e Fernanda Montenegro. A neta de Ana Terra é outro exemplo de garra feminina em seu contexto de luta pelo seu matrimônio com o Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) e sua rotina com a maternidade.

A guerra e sua reflexão

O principal fato histórico por detrás da obra é, sem dúvida, a Revolução Farroupilha, e é ela que nos auxilia a entender o Estado Brasileiro atual e a fragilidade das instituições. A guerra afeta as relações pessoais, potencializa a força feminina e intensifica o ódio contra a miscigenação, pontos citados anteriormente. Além disso, estimula as disputas por poder entre os povos também dentro dos contextos das cidades, como, por exemplo, a guerra findada entre as famílias Terra-Cambará e Amaral.

O filme revela um olhar sobre o passado que dialoga com o presente, ao destacar a luta pela terra, o embate entre diferentes visões políticas e o contraste entre os interesses das elites e as lutas do povo. Ele sugere que, embora as circunstâncias históricas mudem, muitos dos dilemas enfrentados pelas gerações passadas continuam vivos nos dias de hoje.

 

Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) luta por seu amor por Bibiana e também se envolve na Guerra dos Farrapos

 

‘’O Tempo e o Vento’’ se aprofunda nos relacionamentos e sentimentos afetados em uma guerra, e em cada ponto que a violência tem influência. Combinando arte e garra, passado e presente, a obra se faz essencial para compreendermos nossa identidade e a continuidade de pequenas guerras, tensões sociais e desavenças que, ainda hoje, se fazem presentes. O filme nos convida a refletir quais aspectos passados ainda ressoam em nossa sociedade contemporânea, especialmente na relação do Sul com o resto do país e suas raízes políticas.

 

Ficha técnica do filme:

Classificação: 14 anos 

Duração: 127 minutos

Direção: Jayme Monjardim

Roteiro: Érico Veríssimo, Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas

Gênero: Drama, Guerra, Romance

Ano: 2013

País de origem: Brasil

Elenco:

Fernanda Montenegro – Bibiana Terra Cambará

Thiago Lacerda – Capitão Rodrigo Cambará

Marjorie Estiano – Bibiana Terra Cambará

Cléo Pires – Ana Terra

Suzana Pires – Ana Terra

Janaína Kremer – Bibiana Terra Cambará

Martin Rodriguez – Pedro Missioneiro

Vanessa Lóes – Maria Valéria

Rafael Cardoso – Florêncio

Igor Rickli – Bolívar Cambará

Mayana Moura – Luzia Silva

Cacá Amaral e Rafael Tombini – Pedro Terra

José de Abreu – Coronel Ricardo Amaral

Leonardo Medeiros – Bento Amaral

Paulo Goulart – Coronel Ricardo Amaral Neto

Leonardo Machado – Marciano Bezerra

Zé Adão Barbosa – Padre Lara

César Troncoso – Padre Alonzo

Cyria Coentro – Henriqueta Terra

Luiz Carlos Vasconcellos – Maneco Terra

José Henrique Ligabue – Antônio Terra

JN Canabarro e Cris Pereira – Juvenal Terra

Luiza Ollé e Áurea Baptista – Arminda Terra

Luis Franke – Nicolau

Fernanda Carvalho Leite – Paula.

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Com arte e ciência juntas, exposição “Ilustre Pampa” conscientiza sobre bioma gaúcho

Aberta à visitação no Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter, mostra apresenta ilustrações científicas que retratam espécies nativas da região      

Por Murilo Schurt Alves       

 

Abertura da exposição “Ilustre Pampa” aconteceu no dia 17 de fevereiro                      Fotos: Murilo Schurt Alves

 

Constituído por uma imensa diversidade de espécies e paisagens, o bioma Pampa encanta, mas também desperta constante preocupação. Com a crescente degradação ambiental, é importante pensar em práticas visando a divulgação e a valorização desse conjunto de ecossistemas que ocupa grande parte da região sul do território gaúcho. Nesse contexto, surge a exposição “Ilustre Pampa”, em cartaz no Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter (MCNCR) até 17 de abril.

A mostra reúne ilustrações do concurso homônimo, realizado no segundo semestre do ano passado pelo Núcleo de Ilustração Científica do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A iniciativa faz parte do projeto Pampa Singular, um programa multidisciplinar da universidade que busca envolver a comunidade e estudantes na construção coletiva de conhecimentos e práticas sobre ecoturismo e conservação da biodiversidade desse bioma.

A abertura da exposição, que aconteceu em 17 de fevereiro, contou com a presença do professor João Iganci, coordenador do Núcleo de Ilustração Científica. Segundo ele, o concurso fez parte de um conjunto de três ações realizadas na 21ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “A primeira atividade era um circuito de ações de extensão, visitamos escolas do ensino básico no interior do Rio Grande do Sul, levando atividades de botânica. A segunda foi um workshop de ilustração científica e, a terceira, é essa exposição. São formas de falar sobre a biodiversidade do bioma Pampa que é tão rica e, ao mesmo tempo, tão ameaçada”, explica.

 

Professor de Ilustração Científica João Iganci (ao centro) fala sobre ações do projeto Pampa Singular na abertura da exposição

 

Artistas de Pelotas, Novo Hamburgo, Porto Alegre e Osório compõem a exposição. Entre eles, a ilustradora Júlia de Moraes Brandalise retratou as espécies Phyllomedusa iheringii (conhecida popularmente como perereca-macaca), Erythrina crista-galli (corticeira-do-banhado) e Bipinnula montana (orquídea-terrestre). Ao falar sobre os seus desenhos, produzidos com lápis de cor, Júlia conta sobre a sua proximidade com as espécies retratadas: “Eu particularmente busco desenhar espécies nativas que eu já tenha visto em campo e que, de alguma forma, me impactaram e marcaram. É uma maneira de eternizar esse sentimento com espécies tão importantes e impressionantes. A ideia é que os desenhos tenham o mesmo impacto a qualquer um que os veja, assim como aconteceu quando eu as vi em campo”.

A ilustradora Eduarda Acosta Oyarzabal, por sua vez, retratou a espécie Fuchsia regia (brinco-de-princesa), feita inteiramente em grafite. Ela relembra que começou a aprender os fundamentos do desenho aos 13 anos, mas aprimorou suas técnicas por meio da disciplina optativa de Ilustração Científica, ministrada pelo professor João Iganci. Ao refletir sobre a relevância dessa área, Eduarda enxerga três aspectos complementares: “Há o lado científico, como participar da documentação de diversas espécies de plantas e animais, [essas ilustrações são muito utilizadas em artigos científicos, revistas do meio, etc.]. Também há o lado para fins educacionais [desde ilustrações de livros didáticos para o ensino básico de crianças até desenhos mais detalhados para o nível de graduação, por exemplo]. E, ainda, o lado artístico, porque a arte no geral chama a atenção do público, e a ilustração científica consegue tornar diversos assuntos técnicos mais acessíveis às pessoas, fazendo com que elas se conscientizem sobre diversos temas, como, por exemplo, a importância da preservação das espécies do bioma Pampa”, destaca.

 

Ilustrações foram produzidas por artistas de Pelotas e outras cidades do Rio Grande do Sul

 

O concurso contou com prêmios aquisição, garantindo que as ilustrações vencedoras, escolhidas por uma comissão técnica, passassem a fazer parte do acervo do Núcleo de Ilustração Científica da UFPel. Entre as vencedoras está Gabrieli Silveira, que desenhou as espécies Coprophanaeus milon (besouro) e Eumops bonariensis (morcego-de-orelhas-largas). Segundo ela, esse tipo de incentivo gera impacto e incentiva a continuidade da sua produção. Para seu trabalho, Gabrieli utilizou lápis de cor aquarelável sobre papel pólen em suas ilustrações e explica que “o papel poroso ajuda a absorver o pigmento, e esse tipo de lápis contém bastante pigmento, tornando as cores do desenho bem vivas. Para o meu tipo de desenho, considero mais fácil controlar os tons dessa forma, quando são mais vibrantes”.

Para ver as obras de Júlia, Eduarda, Gabrieli e de tantos outros talentosos artistas, a exposição “Ilustre Pampa” está em cartaz no Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter (MCNCR), localizado na Praça Coronel Pedro Osório, 01, no Centro de Pelotas. O Museu funciona de segunda a sábado, das 13h às 18h30, com entrada gratuita.

 

O Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter está localizado na Praça Coronel Pedro Osório, 01

 

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Compromisso e obsessão: O jornalismo em “Zodíaco”

Filme fala sobre alguns pontos das atividades de imprensa, principalmente a reportagem investigativa     

Por Antonio Berndt       

 

               Jornalistas Paul Avery (Robert Downey Jr.) e Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal) investigam assassino autor de  cartas                                         Foto; Divulgação

 

Lançado em 2007 e sob a direção de David Fincher, “Zodíaco” é um suspense psicológico fundamentado em acontecimentos verídicos e inspirado nas obras de Robert Graysmith, que estudou o caso do famoso assassino do Zodíaco, que ficou conhecido com esse nome por escrever cartas aos jornais com essa assinatura, com ameaças de novas matanças e atentados. O filme explora a incessante busca de jornalistas e agentes da lei para descobrir a identidade do criminoso que assolou a Califórnia nas décadas de 1960 e 1970. É evitado o sensacionalismo e cenas de violência explícita, dando prioridade à tensão psicológica e à investigação detalhada.

O roteiro, de autoria de James Vanderbilt, é fundamentado em documentos autênticos e descreve as pistas, cartas cifradas e os enigmas que o assassino enviava aos jornais, bem como as várias teorias acerca de sua identidade.

Um dos principais tema do filme é a obsessão na resolução de crimes, especialmente observada nas figuras do cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal) e do jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr.). Ambos se comprometem intensamente com a investigação da identidade do Zodíaco, com Graysmith investindo anos em sua busca, o que acaba impactando negativamente sua família e sua saúde mental. A obra retrata como essa atividade investigativa pode dominar os profissionais envolvidos, fazendo com que eles deixem de lado outras áreas de suas vidas.

Outra questão é a responsabilidade enquanto ser jornalista e sua ética. O Chronicle e outros veículos de comunicação se deparam com um dilema em relação à publicação das cartas do Zodíaco. Caso decidam publicar, podem acabar estimulando o criminoso; por outro lado, se optarem por não divulgar, podem ser responsabilizados por eventuais novos assassinatos. Esse dilema destaca um debate clássico no jornalismo: até onde a imprensa deve ir na divulgação de informações que podem ter repercussões imprevisíveis?

A escolha de divulgar, retratada no filme, representa a influência que a mídia pode exercer em investigações criminais, muitas vezes assumindo um papel quase tão significativo quanto o da polícia. Além disso, isso evidencia a relação tensa entre jornalistas e autoridades, uma vez que nem sempre a polícia deseja que certos detalhes sejam expostos ao público.

Outro ponto importante que o filme traz acerca do jornalismo investigativo é a questão de o jornalista adentrar ainda mais nas investigações e agir como detetive, e como tudo isso afeta a questão psicológica do jornalista.  Paul Avery e, acima de tudo, Robert Graysmith se transformam em quase detetives durante a investigação. Graysmith, embora não seja um repórter, aplica suas competências analíticas para unir pistas e progredir na caçada ao assassino. Isso enfatiza como o jornalismo investigativo pode servir como uma extensão das investigações oficiais, frequentemente trazendo à tona informações que as autoridades não conseguem ou não desejam compartilhar.

E isso consome a vida de um jornalista. Avery cai no vício do álcool e observa sua trajetória profissional ruir, ao passo que Graysmith se afasta de seus entes queridos por causa da sua fixação pelo caso. Isso evidencia a carga psicológica e o sacrifício emocional que jornalistas de investigação enfrentam ao tratar de assuntos angustiantes.

Por fim, um último e importante tema é a questão da veracidade das informações no jornalismo, principalmente relacionadas a questões históricas. É adotado uma dedicação intensa à exatidão dos acontecimentos históricos, um aspecto crucial para qualquer projeto com um elemento jornalístico significativo. O roteiro, fundamentado na obra de Graysmith, recria conversas, reportagens e até características linguísticas das correspondências do criminoso. A metodologia cuidadosa enfatiza a relevância do jornalismo fundamentado em dados concretos e na verificação minuciosa dos fatos.

“Zodíaco” é um dos filmes que mais exemplificam a investigação jornalística no mundo do cinema. Ele não só mostra a batalha para identificar o criminoso, mas também aborda temas relacionados à ética, obrigações, efeitos psicológicos e a obsessão pelo ofício. Este filme evidencia tanto a potência quanto as fragilidades do jornalismo ao lidar com delitos que desafiam a realidade e a justiça. 

 

Trailer oficial:

 

Ficha técnica:

Gênero: Crime, Drama, Mistério

Direção: David Fincher

Roteiro: James Vanderbilt

Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch, Richmond Arquette, Bob Stephenson, John Lacy, Chloë Sevigny, Ed Setrakian, John Getz, John Terry, Candy Clark, Elias Koteas

Produção: Ceán Chaffin, Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer, Louis Phillips, James Vanderbilt

Duração: 147 min.

Ano: 2007

País: Estados Unidos

Classificação: 16 anos

Onde assistir: Pela assinatura da HBO Max ou alugando o filme por R$ 7,90 no Prime Vídeo

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A Coisinha: um espaço de arte, resistência e pertencimento

Edição mais recente aconteceu no dia 22 de fevereiro e a próxima está programada para 13 abril       

Por Vitória Scheffer e Arthur Rezer     

 

Edição recente aconteceu no Kilombo Urbano Canto de Conexão Foto: Amanda de Abreu

Entre pulsações de batidas eletrônicas e entrelaçar de corpos em meio à pista de dança, A Coisinha toma forma como um espaço onde arte e resistência caminham juntas. Não é apenas um evento, mas um território onde grupos historicamente marginalizados podem existir sem concessões. Em Pelotas, mesmo que a cena underground ainda enfrente barreiras a respeito da visibilidade e acesso, a Coisinha age como um ato político: Representa um manifesto de liberdade e pertencimento.

No dia 22 de fevereiro, mais uma edição reuniu música, performances e artes visuais no Kilombo Urbano Canto de Conexão. E a próxima já tem data: dia 13 de abril, na Praça Darci Pinho (Bairro Balsa), às 16h. Mas o que faz esse evento ser mais do que uma festa? Para entender sua força, é preciso olhar para quem o constrói e para a história que ele carrega.

Uma arte que se move e se reinventa

A Coisinha não surgiu de um plano estruturado, mas de necessidades urgentes e de um impulso criativo incontrolável. Amanda de Abreu, artista e produtora, mestranda em Artes Visuais pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas), começou a explorar performances como forma de dialogar com o espaço que ocupava e, ao mesmo tempo, criar uma forma de sustento. Suas exposições sempre declararam uma manifestação, um ato de resistência política em meio à desigualdade econômica e social que observa.

O evento nasceu como um meio de subsistência, transformando-se gradualmente em um espaço de criação coletiva, no qual diferentes formas de arte passaram a coexistir. A festa cresceu, expandiu-se para outros territórios e consolidou-se como um refúgio para quem, muitas vezes, não encontra espaço dentro das estruturas tradicionais da cultura.

 

A artista visual e produtora Amanda de Abreu foi a criadora de A Coisinha         Foto: Vitória Scheffer

 

A música eletrônica, que pertence à identidade da Coisinha, também carrega essa marca de ressignificação. Por muito tempo, foi apropriada por setores elitizados que apagaram suas origens. Mas a história é outra: a música eletrônica nasceu da comunidade negra, periférica e queer. É dessa história que a Coisinha se apropria. “Para resgatar isso, para nos reeducarmos, para entender que isso também é nosso, que isso também é popular, que a música eletrônica é negra”, enfatiza Tom Nunes, DJ residente, uma das vozes que constroem o evento.

Música como ato político

Na Coisinha, cada batida é um manifesto. A pista não é apenas um local de entretenimento, mas um espaço onde a existência de corpos dissidentes se impõe. Marmo, DJ residente, viu sua trajetória artística transformada pelo evento. Vinda de um som mais experimental e ruidoso, encontrou na festa um território para mesclar essas influências com o techno e outras sonoridades periféricas. Para ela, a música não pode ser desvinculada das vivências e dos corpos que a constroem.

“A produção de arte e cultura no Brasil é historicamente tratada como algo descartável”, explica Marmo. “Manter um evento como a Coisinha é garantir que corpos dissidentes tenham onde criar e sobreviver”. Ela ressalta que o futuro da música eletrônica passa pela presença trans e pela inovação que emerge das margens da cena.

Hell, também DJ residente, vê a sua presença na Coisinha como parte de um ciclo de construção e pertencimento. “Ser DJ residente é mais do que tocar. É criar uma identidade sonora, manter a energia da pista e fortalecer a cena underground”, diz. Para ela, ser residente significa não apenas garantir uma continuidade musical e evoluir junto com a festa, mas também educar, experimentar e fortalecer a cultura local. “No fim das contas, ser residente é ser a alma sonora do evento, um guardião da sua identidade e um elo entre a música e a comunidade”, reflete.

 

Ideia é tratar diferenças ideológicas com arte        Imagem: Reprodução:Arueira

 

Mais do que isso, Hell percebe que sua participação na Coisinha é uma via de mão dupla: enquanto a festa se transforma e consolida identidade do evento, ela também sente a própria identidade artística e pessoal se modificando. “É uma relação de retroalimentação extremamente potente. Isso diz muito sobre o impacto que a Coisinha causa, não só na vida daqueles que a experienciam na pista, mas também naqueles que estão por trás, fazendo com que ela aconteça”, completa. Para ela, no fim das contas, a essência do evento está em manter viva essa experiência que faz as pessoas voltarem a cada edição.

E essa conexão se amplia a cada edição. Ryan, que tocou na Coisinha pela primeira vez, sentiu essa entrega. Escolher as músicas certas para abrir a noite foi um desafio, mas, ao ver o público responder, soube que estava no lugar certo.

Para além da pista: arte e comunidade

Se a pista de dança é o coração da Coisinha, a comunidade é sua alma. A festa não existe isolada – ela se conecta a diferentes expressões culturais e sociais. Niara é criadora da marca independente Front, e encontrou no evento um espaço para expandir seu trabalho, tal qual dialogar diretamente com outras formas de arte. Essa troca, que vai além da música, faz da Coisinha um território de construção coletiva de arte.

 

Festa se articula com diferentes expressões culturais e sociais              Foto/Reprodução: Vitória Scheffer

 

O impacto do evento, no entanto, vai além das expressões artísticas e culturais, abrangendo também ações que fortalecem a rede de apoio local. Durante a Coisinha, a Ocupa Canto de Conexão tem a oportunidade de montar bar e cozinha no evento, gerando uma renda extra para suas próprias iniciativas. Além disso, a arrecadação de alimentos contribui diretamente para a cozinha solidária do Kilombo Urbano, que oferece refeições para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Sônia, voluntária da cozinha, vê na Coisinha uma rede de suporte que transcende a festa. “Ela movimenta o povo, traz gente, traz arte. Mas também fortalece nossa cozinha, garantindo que possamos continuar alimentando quem mais precisa”, explica.

A cozinha aceita doações diretamente no Kilombo Urbano, reforçando a importância de um circuito alternativo que se sustenta coletivamente. A Coisinha não apenas ocupa espaços, mas redistribui recursos, fortalecendo iniciativas que existem à margem das políticas públicas.

 

O A Coisinha visa criar espaços de expressão em locais diversos            Foto: Vitória Scheffer

 

Resistir é criar

Manter um evento independente como a Coisinha é um ato de resistência. O financiamento é sempre um desafio, e a estrutura da cidade impõe barreiras para eventos alternativos. Ainda assim, a Coisinha segue se reinventando. Editais como a Lei Paulo Gustavo e o Procultura têm ajudado a viabilizar algumas edições, mas o desejo é que esse espaço se mantenha vivo independentemente de apoios institucionais.

“A arte não precisa estar aprisionada em galerias. O underground sempre vai encontrar um jeito de existir”, afirma Amanda.

 

Evento promove encontro entre música, moda, artesanato e artes visuais       Foto: Vitória Scheffer

 

E a Coisinha segue pulsando. A cada edição, se fortalece como um espaço onde a arte não precisa pedir licença para existir. Onde corpos dissidentes não apenas ocupam, mas transformam. Onde a música, a dança e o underground andam juntos, garantindo que esse território não se apague. Enquanto houver quem acredite nisso, ela seguirá existindo.

 

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Kendrick Lamar conquista Grammys com música criticando Drake

Músico norte-americano faz história no Grammy: ‘Not Like Us’ vence em três categorias, incluindo Melhor Música de Rap       

Por Vinícius Heidemann        

 

Vitória nas premiações estabelece ponto final na disputa de Kendrick Lamar com Drake, por enquanto…

 

Kendrick Lamar reforçou seu status de número um no hip-hop ao conquistar três prêmios no Grammy 2025 com “Not Like Us”, uma diss track (música que tem como objetivo atacar verbalmente alguém) direcionada ao artista canadense Drake. Com essa vitória, a faixa consolidou sua posição como um dos momentos mais marcantes da cultura hip-hop nos últimos anos, levando os prêmios de Música de Rap do Ano, Melhor Clipe do Ano e Melhor Performance de Rap.

Desde seu lançamento, “Not Like Us” gerou impacto na cena do rap no mundo inteiro, causando intensas discussões nas redes sociais sobre dois dos artistas mais relevantes do gênero e da música, movimentando a indústria e reafirmando a presença do hip-hop nos fones de ouvidos do mundo inteiro. A faixa é uma resposta direta a Drake, com menção de nomes do artista e de seus aliados, inserindo-se na rivalidade entre os dois artistas e colocando ponto final na disputa por enquanto. Essa rivalidade foi debatida durante meses nas redes sociais pelos fãs dos artistas e foi comentado sobre as falas afiadas de Kendrick Lamar e ausência de respostas à altura por Drake.

Quando subiu no palco para aceitar o prêmio de Música de Rap do Ano, Kendrick afirmou novamente sua vitória na batalha e mostrou que as diss tracks nunca perderam sua relevância dentro do cenário do hip-hop. O Grammy reconheceu a importância da faixa para os críticos, ao premiá-la diversas vezes e, para o público, no momento que Kendrick, ao receber sua estatueta, é recebido por uma plateia eufórica cantando um dos trechos mais controversos da música.

Além da música, seus visuais também foram premiados, trazendo para casa o prêmio de Melhor Clipe do Ano. O vídeo traz visuais impactantes, mostrando diversas camadas da cultura de Los Angeles, terra natal de Kendrick Lamar. O clipe, além de mostrar as raízes de Kendrick em sua cidade, reafirma pontos importantes que foram trazidos pelos argumentos da faixa disparada contra Drake. Com esse prêmio, Kendrick conseguiu passar sua mensagem de forma visual e sonora, expressando por meio de metáforas alfinetadas em seu rival de anos.

 

O artista canadense Drake foi alvo da disputa, como é comum acontecer com as diss tracks

 

Enquanto Kendrick dava uma das mais documentadas voltas olímpicas da história, Drake continua em disputa com a Universal Music Group (UMG). Enquanto estava em live com o streamer Adin Ross, Drake acusou a UMG de dar vantagens ilegais para Kendrick durante o confronto dos artistas. “Qualquer um de vocês que acha que pode me derrubar, desde um homem até a maior corporação, vocês nunca vão conseguir. Estão loucos? A força mais poderosa que vocês já viram na vida, eu e ela juntos, podemos acabar com qualquer um de vocês. Confie em mim.”

Além de conquistar as demais categorias, Kendrick Lamar também trouxe para casa o prêmio de Melhor Performance de Rap. O artista provou o apoio de Los Angeles ao apresentar-se com “Not Like Us” cinco vezes no mesmo show, trazendo diversas personalidades famosas e importantes da história da cidade. Não apenas atacando Drake, mas também vangloriando-se de sua superioridade artística, o rapper californiano apenas reforçou que sua reputação dentro do rap é conquistada e construída ao longo de anos, firmando-se como o mais potente artista da geração.

A faixa tornou-se imediatamente um sucesso mundial e foi a música de rap mais reproduzida no ano de 2024. Além do sucesso nas críticas, o público consumiu “Not Like Us” mais vezes que qualquer outra diss track da história em menos de um ano, superando o clássico do hip-hop “Hit ‘Em Up”, de Tupac, direcionado ao Notorious B.I.G.

Apesar de uma conquista enorme para a carreira de Kendrick Lamar, é importante destacar o quanto esta também é uma vitória para toda a cultura do rap e do hip-hop. Depois de muitas derrotas controversas, que levantaram debates sociais e raciais ao longo dos anos (inclusive a derrota do próprio Kendrick em 2012 para Macklemore), parece que finalmente a justiça foi feita em relação ao gênero. Uma diss track ser tão aclamada por uma premiação, que foi questionada tantas vezes ao longo dos anos, reforça a posição do Kendrick dentro do rap e do hip-hop no mundo, além da importância de disputas e rivalidades no gênero

 

Grammy de Melhor Clip do Ano foi para “Not Like Us”

 

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Fim de semana com Carnaval anima Canguçu

Evento com diversas atrações musicais marcou o primeiro evento cultural da nova gestão municipal         

Por Chaiane Romer e Amanda Leitzke         

 

Multidão canguçuense e turistas aproveitaram a festa no Centro da cidade          Foto: Prefeitura de Canguçu

 

Nos dias 8 e 9 de março, Canguçu foi palco de muita animação, música e visitantes durante o Carnaval realizado pela Prefeitura. Com diversas atrações musicais, o evento marcou também a primeira grande programação cultural da nova gestão do município.

O Carnaval de Canguçu 2025 trouxe alegria para os moradores e atraiu turistas de outras cidades. A gestão municipal anterior decidiu retomar o Carnaval fora de época no ano passado, iniciando a volta dessa tradição que havia ficado ausente por muitos anos. E a edição deste ano marcou a segunda vez consecutiva em que a festividade foi realizada após um longo intervalo.

A Prefeitura estima que cerca de 4 mil pessoas passaram pelo evento a cada noite, refletindo o grande sucesso e a adesão do público local e dos visitantes. O evento foi organizado por meio da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Indústria e Comércio, e teve um papel fundamental na movimentação cultural da cidade.

Para o Secretário de Cultura, Ubiratan Rodrigues, a realização do Carnaval representou um grande desafio no início da gestão, uma vez que a Secretaria de Cultura foi recém-criada. “No início do governo, nem a Secretaria de Cultura estava formada. Ela foi estabelecida este ano, e, por isso, o processo foi um pouco atribulado. No entanto, atendendo às orientações do Prefeito Arion Braga, conseguimos organizar o Carnaval que ele idealizou para a cidade”, explicou o secretário.

Rodrigues também ressaltou a principal intenção do evento: atender à comunidade local, especialmente aqueles que não podem viajar para outras cidades para aproveitar as festas carnavalescas. “Buscamos realizar algo que contemplasse nossa comunidade, permitindo que aqueles que não tinham oportunidade de sair de Canguçu, e, até mesmo, os que retornaram de outros lugares, pudessem prestigiar a festa. Queríamos agregar e unir a população na grande celebração popular que é o Carnaval”, completou.

Atrações

O evento aconteceu em frente à Prefeitura e contou com uma programação animada nos dois dias de festa. No sábado, 8 de março, às 20h, o Trio Elétrico deu início à festa, desfilando pela rua principal da cidade até os próximos pontos de atração. A programação seguiu com a banda Virou Maniah, que levou muito samba e pagode para o público. O DJ Adriano também marcou presença animando as pessoas, e o cantor Sapatinho encerrou a noite com uma performance cheia de energia.

No domingo, dia 9 de março, a festa começou mais cedo, às 18h, com o Trio Elétrico novamente percorrendo as ruas. A banda Nova Geração subiu ao palco em seguida, trazendo os maiores sucessos do momento, enquanto o DJ Adriano voltou a agitar os foliões. Para fechar o evento com chave de ouro, a Escola de Samba Kibandaço e a Hawaii Show Band subiram ao palco, levando todos ao delírio com seus ritmos vibrantes.

Harmonia e diversão

Refletindo sobre o sucesso do evento, o Secretário Ubiratan Rodrigues destacou a importância da segurança e da colaboração do tempo para garantir que o Carnaval transcorresse de forma tranquila e sem incidentes. “Tivemos a sorte de o tempo colaborar, e durante as duas noites não enfrentamos problemas. O Carnaval, muitas vezes, é associado a brigas e confusão, mas conseguimos evitar isso graças ao apoio da Brigada Militar e dos seguranças. Não tivemos nenhuma ocorrência. Isso mostra que o povo de Canguçu entendeu a proposta, se divertiu e brincou de maneira tranquila”, afirmou.

Rodrigues também enfatizou que a integração entre moradores e turistas foi um dos grandes destaques do evento. “Quando o evento é bom, as pessoas se concentram na diversão. Vimos muitos turistas se juntando aos canguçuenses, aproveitando a festa, e isso fez com que o Carnaval fosse realmente especial”, concluiu o secretário.

O Carnaval de Canguçu 2025 ficou marcado pela união da comunidade, pela alegria dos foliões e pela segurança proporcionada aos participantes. Superando as expectativas, a festa se consolidou como um evento que tem tudo para se repetir nos próximos anos, trazendo mais visibilidade para a cidade e fortalecendo a cultura local.

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Arte, movimento e inclusão na trajetória de projeto de dança-teatro

A professora Maria Falkembach fala sobre os desafios, as conquistas e expressão artística do Grupo Tatá, projeto de extensão da UFPel   

Por Priscila Fagundes     

 

Maria Falkembach destaca como a expressão da dança pode pensar questões contemporâneas             Foto: Reprodução/Internet

 

A professora do curso de Dança – Licenciatura da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Maria Falkembach, é uma das principais referências no desenvolvimento do Grupo Tatá, projeto de extensão que une dança e teatro em produções artísticas e ações comunitárias. Criado em 2009, o grupo surgiu como um espaço de experimentação e aproximação entre a Universidade e a comunidade, tendo como primeiro espetáculo uma releitura da lenda do Boitatá. Ao longo dos anos, os desafios estruturais, consolidaram sua identidade e expandiram seu alcance, com apresentações em teatros renomados e escolas públicas. Nesta entrevista, Falkembach compartilha a história do projeto, os desafios enfrentados, o processo criativo das montagens e a importância da fusão entre dança e teatro na construção de uma arte acessível e provocativa.

Arte no Sul – Conte como o Grupo Tatá surgiu, por que e quando. O que motivou a criação e quais eram suas expectativas iniciais?

Maria Falkembach – O Grupo Tatá surgiu em 2009 como o primeiro projeto de extensão do Curso de Dança – Licenciatura da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). O núcleo nasceu da necessidade de aproximação da Universidade com a comunidade, utilizando a dança-teatro como meio de expressão e formação de público. Sua primeira experimentação cênica foi inspirada na lenda “M’Boitatá”, transcrita por Simões Lopes Neto, o que ajudou a consolidar a identidade do grupo e sua conexão com a cultura local​.

Arte no Sul – Ao longo desses anos, quais foram os principais desafios enfrentados pelo grupo? Algum momento foi especialmente marcante?

Maria Falkembach – O grupo enfrentou desafios estruturais, como a falta de um espaço cênico adequado na cidade, especialmente com o Teatro Sete de Abril fechado. Isso nos levou a buscar alternativas, incluindo apresentações no Theatro São Pedro, em Porto Alegre​. Um momento marcante foi a realização de uma mostra especial comemorativa dos 15 anos do grupo, que permitiu uma retrospectiva de suas produções e reafirmou a importância das temporadas em Pelotas. Além disso, as apresentações nas escolas foram impactantes, pois proporcionaram interações emocionantes com alunos e professores​.

Arte no Sul – De onde vem o nome do grupo Tatá? Como esse conceito se manifesta na identidade e nas produções do grupo?

Maria Falkembach – O nome “Tatá” significa “fogo” em Tupi-Guarani e foi escolhido porque o primeiro trabalho do grupo foi baseado na lenda do Boitatá. A ideia do fogo remete à energia e à conexão entre os integrantes e o público. Esse conceito se manifesta nas produções do grupo por meio da intensidade das performances e do envolvimento do espectador nas apresentações​.

 

A professora Maria Falkembach em cena, incorporando a expressividade e a fusão entre dança e teatro, marcas do Grupo Tatá

 

Arte no Sul – Como funciona o processo criativo nas montagens do Tatá?

Maria Falkembach – O processo criativo do Tatá varia conforme o tema e as pessoas envolvidas, sendo baseado em improvisação e preparação corporal específica para cada espetáculo. No espetáculo “Quando Você Me Toca”, por exemplo, a preparação envolveu o uso do Kung Fu para trabalhar força e diferentes formas de toque. Já em “Inservíveis”, foram utilizadas práticas como yoga e samba, [de acordo com a] proposta do espetáculo.

Arte no Sul – Qual a maior característica do grupo? E como isso influencia na criação e recepção das obras?

Maria Falkembach – O Tatá se destaca pelo seu trabalho coletivo e pela fusão entre dança e teatro. O grupo valoriza a singularidade dos intérpretes, evitando a homogeneização dos movimentos e buscando formas únicas de expressão. Essa abordagem resulta em espetáculos que instigam e provocam o público, gerando reflexões e promovendo um diálogo horizontal entre artistas e espectadores.

Arte no Sul – Como vocês escolhem os temas para serem trabalhados?

Maria Falkembach – Os temas são escolhidos a partir de inquietações artísticas e sociais do grupo. Questões como identidade, pertencimento e relações humanas frequentemente aparecem nos espetáculos. “Terra de Muitos Chegares”, por exemplo, abordou multiculturalismo e migração, refletindo sobre as diferentes trajetórias dos integrantes do grupo. Já “Quando Você Me Toca” partiu de uma pesquisa sobre toque e gênero no ambiente escolar.

Arte no Sul – Quais os principais lugares que o Grupo Tatá já se apresentou? Como o público reage às performances nesses diferentes contextos?

Maria Falkembach – O grupo já foi apresentado em diversas cidades do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, incluindo espaços acadêmicos, festivais e teatros importantes, como o Theatro São Pedro. No entanto, as apresentações em escolas são um grande destaque, pois promovem um impacto direto no público jovem, estimulando diálogos e reflexões sobre os temas envolvidos. Essas experiências são enriquecidas por momentos de conversa e mediação após os espetáculos, criando um espaço de escuta e troca de vivências​.

 

Integrantes do Grupo Tatá em uma de suas montagens cênicas, explorando o corpo, o movimento e a interação com o público

 

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Carnaval “guerreiro” de Arroio Grande atrai milhares de visitantes

Blocos conseguem ultrapassar dificuldades e manter tradição      

Por Luís Esteves Garcez        

O carnaval arroio-grandense, conhecido regionalmente pela frase “O Melhor Carnaval da Zona Sul”, é o evento cultural mais importante de Arroio Grande, recebendo milhares de visitantes ao longo dos dias de festa. O professor e historiador Lizandro Araújo, que atuou como carnavalesco da escola de samba arroio-grandense Samba no Pé por 25 anos e, atualmente, é secretário adjunto de Educação no município vizinho de Herval, afirma que o Carnaval de Arroio Grande é grandioso devido à população e às escolas de samba, não às políticas públicas, pois, de acordo com ele, diversos governos quase terminaram com a festa. Ele também admira o Carnaval da cidade por ser “guerreiro” como nenhum outro do Rio Grande do Sul, pois há 35 anos mantem sua essência e suas características intactas, mesmo passando por períodos de muita dificuldade, como a pandemia de COVID-19.

Origem do Carnaval

A origem da cultura dos blocos de Carnaval remonta às tradições populares europeias, especialmente às festas de rua que ocorriam em Portugal, que chegou ao Brasil no período colonial. Essas manifestações foram se misturando com elementos das culturas africana e indígena, dando origem a uma celebração única. No século XIX, os blocos de Carnaval começaram a se organizar de forma mais estruturada, com grupos de pessoas se reunindo para desfilar pelas ruas com músicas, danças e fantasias.

Os cordões e ranchos, precursores dos blocos modernos, ganharam força no Brasil no início do século XX, incorporando samba e outros ritmos. Na década de 1920, encontra-se diversos registros de blocos de Carnaval através do País, devido à difusão dessa cultura, muito influenciada pelos eventos carnavalescos do Rio de Janeiro. Não foi diferente na cidade de Arroio Grande, município ao sul de Pelotas, há alguns quilômetros da fronteira com o Uruguai.

“Em 35 anos, a gente só deixou de desfilar nos dois anos da pandemia, e, mesmo assim, o Carnaval aconteceu. Tínhamos lives de rodas de samba e documentários feitos pelas escolas de samba sobre suas histórias. Ali, todo mundo achou que o nosso Carnaval ia morrer, mas, na volta, em 2023, foi um absurdo. Toda aquela saudade e aquela ânsia de festejar, que se acumulou durante dois anos nas pessoas, fez todo mundo ir para as ruas e foi um dos maiores carnavais que já tivemos. O Carnaval de Arroio Grande tem 35 anos, e claro, nós tivemos altos e baixos, mas as escolas nunca perderam a grandiosidade e o brilho,” diz Araújo.

 

Professor Lizandro Araújo foi  carnavalesco da escola de samba arroio-grandense Samba no Pé por 25 anos

 

Araújo também comenta sobre como muitas cidades do Rio Grande do Sul sofreram prejuízos na qualidade de seus carnavais com o passar dos últimos anos, como o de Jaguarão, de Pelotas e até de Porto Alegre. De fato, muitas cidades sul rio-grandenses perderam suas escolas de samba e hoje se resumem a blocos, enquanto outras comemoram o Carnaval em datas fora de época. Lizandro diz que nada explica melhor o Carnaval arroio-grandense como o famoso slogan “O Melhor Carnaval da Zona Sul”.

Mesmo que nos últimos 35 anos a essência da festa na cidade tenha se mantido a mesma, ela definitivamente mudou muito quando comparada a 1872, data em que Arroio Grande foi emancipada de Jaguarão. A cidade tinha em torno de 4.000 habitantes, desses, quase metade eram negros descendentes de africanos escravizados. Apesar de totalizarem quase metade dos habitantes da cidade, essa parcela da população era impedida de celebrar o Carnaval junto da elite local – branca, rica e pecuarista – que frequentava o Clube Instrução Recreio (que mais tarde veio a se chamar Clube do Comércio), um clube social que impedia a entrada de negros.

O povo negro arroio-grandense, sem ter um espaço para festejar nem manifestar sua cultura, foi para a rua Doutor Monteiro (a rua principal do Carnaval na cidade) com blocos, cordões carnavalescos e instrumentos, para fazer sua festa. No Carnaval de 1913, encontra-se o primeiro registro de um bloco arroio-grandense, chamado “Bloco dos Africanos”. O “Troveja, Mas Não Chove” e o “Sempre Reinando” também fazem parte dos primeiros blocos oficiais da cidade e foram fundados por cidadãos negros. Em 1920, o povo negro do Arroio Grande tinha uma necessidade por um espaço adequado para poder se reunir e festejar. Foi nesse contexto que um grupo de amigos fundou o primeiro e único clube social negro de Arroio Grande, o Clube Guarani.

Araújo comenta que, em torno de 25 anos atrás, ainda se via características de segregação nos blocos sociais, que continuavam se reunindo nesses mesmos clubes depois que as escolas de samba passavam. “Podemos dizer que, no ano 2000, ainda havia essa separação com esses blocos ligados ao Clube do Comércio, onde não se via pessoas negras ou de baixa renda. Tinha uma camada um pouco mais popular que ia para o Clube Caixeiral, e o povo negro ia para o Clube Guarani. Nos anos mais recentes, isso já não é mais visto, até por que o Carnaval de salão de Arroio Grande terminou em 2014. Hoje em dia, vemos pessoas de todas as manifestações culturais misturadas nos blocos, com classes sociais, cores de pele e orientações sexuais diferentes. O Carnaval de Arroio Grande está muito aberto a toda diversidade da nossa sociedade”.

Confusão e morte

Além da Pandemia do COVID-19, outras duas situações extremamente complicadas prejudicaram o Carnaval de Arroio Grande e, mais especificamente, os blocos da cidade, nos últimos anos. No Carnaval de 1995, os chamados blocos burlescos (blocos de mascarados e homens travestidos de mulher) se envolveram em uma confusão em torno da Praça Maneca Maciel, principal praça da cidade, culminando no óbito de um jovem.

Anos depois, em 2012, um integrante do bloco “Comando Gambá”, um dos maiores da cidade até então, contando com quase 500 integrantes, desentendeu-se com outros membros e, em um ataque indiscriminado, esfaqueou oito pessoas. Felizmente, nenhuma morte ocorreu naquela noite, mas o bloco não conseguiu sobreviver.

Apesar desses dois eventos trágicos, a cultura de blocos na cidade nunca parou de crescer. O modelo de bloco carnavalesco atual que se conhece, com membros usando camisetas iguais, também chamadas de abadás, surgiu na cidade a partir dos anos 2000 e, de acordo com Araújo, em 2005, as escolas de samba de Arroio Grande já enfrentavam certas dificuldades ao conseguir componentes. O arroio-grandense passou a preferir fazer parte do bloco, por uma questão de mais tempo livre, e de poder aproveitar mais o Carnaval, sem restrições de bebida e horário.

Importância dos blocos

Hoje, os blocos de Carnaval têm uma enorme participação nas festas momescas da cidade. Em 2019, foi criada a Liga dos Blocos de Arroio Grande (LIBAG), uma coalisão de blocos com o objetivo de regularizar as agremiações integrantes e regularizar o desfile de blocos que acontece logo após o desfile das escolas. A Liga fiscaliza horários, carros de som, material e todos outros fatores importantes para tornar a experiência divertida e segura tanto para os integrantes quanto para os espectadores na hora do desfile. Além disso, atualmente, uma das cinco rainhas da corte do Carnaval da cidade é a Rainha da Liga dos Blocos, dando ainda mais visibilidade e importância a essa faceta do Carnaval arroio-grandense.

“A cada Carnaval se cria dois ou três blocos novos, desde os menores até os maiores. Existem blocos tradicionais que permanecem durante anos, como o Bloco da Serafina, ligado à família fundadora da escola Samba no Pé, o Bloco das Luluzinhas, que tem 45 anos, o Bloco das Venenosas, de 15 anos. Mas há também aqueles pequenos blocos que surgem pontualmente em algum Carnaval, blocos de amigos, blocos dissidentes de blocos maiores, etc. Mas claro, muitos blocos também não dão certo e deixam de existir, como o Comando Gambá,” observa Araújo.

Apesar de que o exemplo do bloco que deixou de existir é um caso isolado, há outros inúmeros blocos que não vingam, que não têm continuidade. Quanto a isso, o professor considera: “O maior fator que faz um bloco não vingar é a questão da organização, também, às vezes, por troca de diretoria. Muitos não aceitam as novas ideias e o bloco não sobrevive. Dois blocos que deixaram muita saudade, pelo tamanho que eles tinham e pela expectativa que eles deixavam, eram o Bloco Cirrose o Bloco da turma dos 70”.

 

 

Integrantes do Bloco Boêmios, em frente à sede da agremiação, na noite de 4 de março
Foto: Hércules Plantikow Araújo

 

Bloco Boêmios

Durante o Carnaval desse ano, alguns diretores de blocos conhecidos puderam ser entrevistados nas ruas de Arroio Grande, nas noites de festa. O diretor desde 2020 do Bloco Boêmios, Leandro Figueiredo dos Santos, interrompeu a folia por alguns minutos para responder algumas perguntas. Ele lembra que o Boêmios surgiu em setembro de 2012, como bloco dissidente do anteriormente citado Comando Gambá. Inicialmente, o plano era formar um bloco apenas com amigos próximos, para que não se separassem após a tragédia do antigo bloco.

Quando questionado sobre a questão do preço para participar do bloco, Leandro esclarece que o Boêmios tem diversos pacotes com preços que variam, alguns mais caros, com mais benefícios (mais noites, bebida liberada, etc.), e outros mais baratos e acessíveis, para que todos tenham a oportunidade de se divertir. “O melhor de fazer parte da diretoria é ver acontecer do jeito que tu planejaste. A gente dorme no máximo três ou quatro horas por dia no Carnaval, se alimenta mal, está sempre na correria, e, mesmo assim, vale cada momento, vale cada sorriso.” diz ele, com um sorriso no rosto.

Não se pode afirmar se o Carnaval de Arroio Grande foi, em 2025, realmente “O Melhor Carnaval da Zona Sul”, mas, com certeza, a festa vale a pena. Além da beleza dos desfiles realizados pelas quatro grandes escolas de samba que desfilaram de segunda à terça, os blocos da cidade trazem uma opção alternativa de diversão, que se prolonga muito além dos desfiles, com boa companhia, muita bebida e música alta até o sol raiar.

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Todo Dia a Mesma noite

 A tragédia na Boate Kiss pelos olhos de Daniela Arbex      

Por Mariana Pereira      

 

Obra relata uma das maiores tragédias do Brasil Imagem: Divulgação

 

O livro “Todo Dia a Mesma Noite”, escrito pela jornalista Daniela Arbex, aborda a trágica história do incêndio na Boate Kiss, ocorrido em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 27 de janeiro de 2013. A obra é um relato emocionante e detalhado da maior tragédia do Brasil em termos de número de mortes em um evento público. Com uma abordagem profunda e sensível, Arbex traz à tona não apenas os detalhes do incêndio, mas também as consequências desse evento devastador para as vítimas e suas famílias, além de analisar as falhas do poder público e da sociedade que contribuíram para essa catástrofe.

A história do incêndio é contada de forma intensa e humana. A autora começa retratando a noite da tragédia, quando a Boate Kiss, que estava lotada de jovens celebrando a noite, foi tomada por um incêndio causado por um sinalizador usado durante um show da banda Gurizada Fandangueira. Em poucos minutos, o fogo se espalhou e a boate, com saídas de emergência inadequadas e uma grande quantidade de pessoas em um espaço apertado, se tornou uma armadilha mortal. O trágico resultado foi de 242 mortos e centenas de feridos.

O livro se torna uma reflexão sobre a memória e a busca por justiça. A autora, por meio de entrevistas, pesquisas e relatos pessoais, questiona como a sociedade lida com as tragédias e como a justiça é muitas vezes lenta e falha. Enquanto as famílias das vítimas buscam respostas e a dor da perda continua a fazer parte da rotina de muitas pessoas, os responsáveis pela tragédia ainda não foram totalmente punidos.

A obra levanta a questão de como eventos como o incêndio na Boate Kiss podem ser esquecidos ou minimizados com o tempo, sendo que as vítimas merecem ser lembradas, e suas famílias, justiça. Arbex nos lembra que, mesmo após anos, a dor e as consequências ainda marcam a vida daqueles que vivenciaram esse evento de perto.

O que mais chamou a atenção do público foi a forma como Daniela retratou esse dia tão triste e marcante para tantas famílias. Ela vai além da descrição do evento em si. Ela narra as histórias das vítimas e de seus familiares, mostrando o impacto da tragédia na vida das pessoas. Para cada vítima, existe uma história, um sonho interrompido, uma família dilacerada pela perda. A obra humaniza a dor e o sofrimento, dando voz aos que perderam seus entes queridos e aos sobreviventes, que carregam as cicatrizes tanto físicas quanto emocionais do que viveram naquela noite infernal.

Falhas e descaso

Em “Todo Dia a Mesma Noite”, a autora também dedica uma parte significativa do livro para discutir as falhas do sistema de segurança e fiscalização que contribuíram para que o incêndio acontecesse de forma tão devastadora. Daniela Arbex denuncia a negligência das autoridades locais, que permitiram que a boate funcionasse sem a devida fiscalização e sem as condições mínimas de segurança exigidas por lei. A boate Kiss possuía saídas de emergência bloqueadas, a acústica do local favorecia o pânico e a falta de equipamentos adequados de combate ao fogo aumentaram a tragédia. A autora ainda destaca a falta de responsabilidade das empresas envolvidas, como a fabricante do sinalizador que provocou o incêndio. Ela também critica a omissão das autoridades em cuidar da segurança dos cidadãos, que são os principais responsáveis por garantir que espaços de lazer públicos e privados sejam seguros para todos. A sensação de impunidade e a sensação de que a vida das pessoas não vale o suficiente são recorrentes ao longo da leitura.

 

Os livros de Daniela Arbex abordam violência e história recente do Brasil        Foto: Divulgação

 

Sobre a autora

Daniela Arbex é uma jornalista brasileira, conhecida principalmente pelo seu trabalho como repórter investigativa. Antes de se tornar escritora, Daniela trabalhou como repórter em veículos como o jornal O Globo e a revista Veja. Ela tem uma carreira marcada pela apuração rigorosa e pelo seu comprometimento em dar voz às vítimas de grandes tragédias e injustiças sociais. Daniela é autora de livros que abordam temas fortes e impactantes, com uma escrita que busca não só informar, mas também emocionar e provocar reflexão sobre questões fundamentais da sociedade.

Além da obra “Todo Dia a Mesma Noite”, Daniela Arbex também é autora de outros livros que discutem temas como violência e história recente do Brasil, sempre com um olhar atento à busca por justiça e pela preservação da memória histórica. A autora é admirada por sua dedicação em revelar histórias que muitas vezes são ignoradas pela mídia tradicional, com uma abordagem profunda e sensível que emociona e provoca reflexão.

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