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O filme “Para Sempre Medo” é um terror psicológico com direção de Osgood Perkins, mas fraco
Por Adilson Camargo Pereira

Tatiana Maslany e Rossif Sutherland fazem os personagens protagonistas da história Foto: Divulgação
Com estreia nos cinemas no dia 19 de fevereiro, a nova produção do diretor Osgood Perkins, “Para Sempre Medo” (2026), é mais um daqueles filmes com adaptações de histórias de quadrinhos. O jovem casal de namorados Malcolm (Rossif Sutherland) e Liz (Tatiana Maslany) comemoram um ano de namoro numa cabana isolada no meio do mato, pertencente à família de Malcolm. Um cenário lindo: ambiente amplo, vista para a cachoeira, janelas de vidros enormes. Mas tudo começa a mudar quando Liz percebe que não está sozinha com o seu namorado, e que ele tem muito a ver com o mal pressentimento que ela sente sobre o local.
Logo na primeira noite, o primo de Malcolm, Darren (Birkett Turton) e sua namorada Minka (Eden Weiss), jantam na cabana, o que acaba invadindo a privacidade do casal. Liz acaba experimentando um bolo de chocolate, incentivado por Minka. Ela se delícia pelo bolo misterioso, com um cheiro nojento, mas que come de uma maneira descontrolada. No dia seguinte, Malcolm, que é médico, acaba deixando Liz sozinha, sob a desculpa de que terá que atender uma emergência na cidade. Ela começa a conviver com seres sobrenaturais, pessoas humanoides, o que a deixa perplexa.
É uma história criativa, que aborda as relações entre casais e desperta a curiosidade do espectador com a apresentação do exotérico no uso das sombras, silhuetas e tensão das cenas. As revelações ao final do filme fazem com que os personagens sejam vistos como imortais que vivem por séculos e Liz aparece de forma ambígua, ora como vítima, ora como aliada. Os últimos minutos reservam cenas marcantes com o destino reservado a Malcolm.
O diretor Osgood Perkins é conhecido por seus filmes de terror. Seu título mais famoso é “Longlegs – Vínculo Mortal”, lançado em 2024, mas com uma pegada mais forte. Enfim, é um filme que vale a pena ser visto como mais uma criação de terror não tão extravagante para os amantes desse gênero. Uma produção sem muitos alardes. Com uma classificação indicativa para 16 anos, cenas de sexo não são apresentadas em nenhum momento. Um terror em família!
Ficha técnica
Título: “Para Sempre Medo” (“Keeper“)
Direção: Osgood Perkins
Roteiro: Nick Leopard
Elenco: Tatiana Maslany, Rossif Sutherland, Birkett Turton, Eden Weiss, Claire Friesen, Erin Boyes, Donald Sutherland
Gênero: Terror psicológico
Ano: 2026
Duração: 1h39min
País: Estados Unidos
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Processo criativo com raízes na cultura rio-grandense é marcado pela integração de compositores, melodistas, instrumentistas e cantores
Por Maikelly de Souza da Silva
Existe um momento preciso, invisível ao público e silencioso para o mundo, em que uma história deixa de pertencer apenas a quem a viveu e começa a existir como algo maior. É um instante que acontece antes do palco, antes das luzes e do microfone, antes mesmo de qualquer nota ser reproduzida. Acontece quando um poeta começa a escrever o que sente, o que vive ou o que observa. É ali, naquele gesto, que começa uma canção.
O que vem depois disso, porém, é um percurso que poucos enxergam: uma cadeia de mãos e sensibilidades que transformam aquela poesia em música, capaz de produzir sentimentos até para quem nunca viveu aquela história. É um processo coletivo, uma construção em camadas, no qual contribui cada pessoa (poetas, melodistas, instrumentistas, intérpretes) com uma parte de si para que a canção, ao final, fique pronta. Todo esse processo criativo é testemunhado pelo violonista Ricardo Silva, e pelos cantores Robledo Martins e Marina Dornelles, que participam ativamente desta tradição musical.

Instrumentos como a gaita dão lugar a processo que vai dos sentimentos íntimos à comunicação plena entre artistas e público Foto: Maikelly Silva
Quando a história começa
A música nativista gaúcha surgiu a partir dos anos 1970, em torno dos festivais que se espalharam pelo Rio Grande do Sul. Ela nunca foi apenas mero entretenimento regionalista. Desde sua origem, buscou narrar o mundo a partir do olhar do pampa. A canção nativista carrega letras com críticas sociais profundas, traduzidas com as linguagens e símbolos que fazem parte do imaginário do sul do Brasil.
Esse movimento não surgiu do nada. Ele se insere num contexto mais amplo de canção engajada na América Latina das décadas de 1960 e 1970. No Rio Grande do Sul, porém, esse impulso criativo encontrou um caminho próprio: artistas urbanos e universitários, muitos deles atravessados pelos debates da época, voltaram o olhar para o campo e para a fronteira, e ali encontraram uma matéria-prima rica e pouco explorada. Dali surgiu uma mistura sonora que mescla ritmos folclóricos gaúchos com experiências vocais, instrumentais e temáticas, criando algo genuinamente novo a partir de raízes antigas. Mas o que faz essa música resistir não é apenas o peso histórico ou a crítica social, é a capacidade de contar histórias que se parecem com a vida de quem escuta.
A palavra vem primeiro, e quase sempre, ela chega como fragmento. Às vezes, é uma frase que não sai da cabeça, às vezes, é uma cena que precisa ser nomeada. O poeta sabe que a emoção se esconde nos detalhes, e que o maior desafio não é escrever bem, mas ser verdadeiro no que escreve. Nessa fase, há uma solidão produtiva que define o processo criativo. Porém, a palavra que saiu de sua experiência (frequentemente íntima) vai ser lida, interpretada e moldada por outras pessoas. Cada uma com sua própria história, sensibilidade e visão daquilo que a letra está dizendo.
Quando a palavra encontra o ritmo
Se o poeta é quem planta a semente, quem começa com tudo, o melodista é quem faz brotar a raiz. Quem lê aquela letra e imagina qual nota combina com aquela sensação. Qual ritmo traduz aquele sentimento. Qual contorno melódico vai fazer aquela história respirar de uma maneira que talvez apenas as palavras não pudessem fazer.
A relação entre letra e melodia numa canção não é de hierarquia, mas de diálogo. A melodia não serve à letra, e vice-versa. Na verdade, ela a interpreta, às vezes concordando, às vezes criando tensão que enriquece o sentido. Uma melodia mais grave pode fazer uma letra nostálgica pesar ainda mais. Uma melodia sobre uma letra que fala de esperança pode transformar o verso de uma forma que nem o próprio poeta havia imaginado quando escreveu.
Esse diálogo do melodista exige uma sensibilidade dupla: honrar o que o poeta escreveu e trazer sua própria visão, sua escuta, sua experiência. É um equilíbrio delicado que nem sempre vai ser rápido. Nessa fase, algo fundamental acontece. A canção começa a ganhar identidade própria. Uma vez que a melodia certa é encontrada, tudo parece encaixar em seu lugar com uma naturalidade inexplicável.

A poesia vira som nas mãos dos instrumentistas que traduzem palavras em acordes Foto: Maikelly Silva
O som que veste a canção
Com a letra e a melodia em mãos, chega o momento da participação dos instrumentistas, que se integram com sua técnica e sensibilidade, criam a atmosfera que vai sustentar tudo o que até então foi construído.
Ricardo Silva começou a tocar violão aos oito anos, por influência familiar. Seus tios tocavam, seu pai tocava e toca até hoje. Nunca estudou música formalmente, aprendeu pelo que os músicos chamam de “tirar de ouvido”. Ao longo dos anos, ele acumulou uma trajetória diversificada, tendo tocado para públicos completamente diferentes, de bailes aos festivais nativistas, e explica que esse múltiplo percurso moldou uma compreensão particular sobre o que significa tocar. “Significa transmitir a mensagem poética das palavras através da sonoridade de uma melodia, através dos arranjos criados e da sua execução. Isso é tocar um instrumento: explorar a sua sonoridade”.

Para Ricardo Silva, tocar é a mensagem do poeta como uma extensão da alma através da sonoridade Foto: Maikelly Silva
Segundo o músico, a técnica é necessária, mas não suficiente. Ela é o meio, não o fim. O instrumentista que domina apenas a técnica consegue executar a música, mas não necessariamente passar o que ela precisa transmitir. Para isso, é preciso algo mais: sensibilidade para ler a letra, entender o que ela quer dizer, e escolher a sonoridade que vai potencializar isso.
“O instrumentista, além da técnica de tocar, tem que ter a sensibilidade de analisar a letra e tentar passar o que ela quer transmitir para quem está escutando a música. Então, naquele momento, tu tens que ter a sensibilidade para escolher entre uma melodia alegre ou triste, usar acordes que consigam transmitir alegria ou tristeza, ou ansiedade. Então, através dos acordes e melodia que tu vais escolher, tu consegues transmitir o que o poeta está querendo falar na letra”.
Esse processo de escolha acontece nos ensaios. A maior parte dos arranjos nascem em encontros entre os músicos, dos momentos em que um sugere algo e outro responde, em que uma frase musical surge do improviso e é reconhecida por todos como a solução que estavam buscando.
“A conversa entre todos durante a criação de uma música é muito produtiva, porque cada um tem um ponto de vista diferente e cada um tem uma ideia. Unindo todas as ideias e os pontos de vistas, sai uma melodia. Muito da música é criado no ensaio e nos momentos em que a gente está ensaiando e executando”.
Quando os instrumentos se juntam, a dinâmica muda. Tocar sozinho exige um tipo de concentração, mas tocar em grupo exige outra, mais complexa e mais generosa. No grupo, é preciso saber quando avançar e quando recuar, quando destacar o próprio instrumento e quando ceder espaço para os outros. A harmonia do conjunto só surge quando cada um entende que sua função não é individual, mas sim coletiva.
“Quando tu estás tocando com mais instrumentos, quando se juntam mais instrumentos, tu tens que ter essa sensibilidade e o cuidado para que todos os instrumentos apareçam e contribuam, cada um com a sua parte, para que se crie uma harmonia nessa melodia”.
Ricardo usa o termo “dinâmicas” para descrever os momentos em que o instrumento fala mais alto, os picos expressivos de uma música, as passagens onde a sonoridade é usada deliberadamente para destacar algo. São esses momentos que, quando bem colocados, podem mudar completamente o sentido de um verso, transformando-o em algo inesquecível.
O primeiro sentimento que ele menciona quando começa a tocar é gratidão. Gratidão por ter o dom, por ter a oportunidade, por estar sendo o instrumento pelo qual uma mensagem vai chegar até alguém.
Ricardo conta que, no 4º Legado da Canção Gaúcha em Santo Ângelo, o grupo executava uma canção sobre os indígenas e sua terra. Na plateia, havia um homem indígena. Ao final da apresentação, o homem subiu ao palco e agradeceu em lágrimas.
“A cada palmo da terra latina
Há um lamento ameríndio,
Segregando a realidade
Que escola conta dos índios.
[…]
Pois tudo que nos contaram
Sobre a colonização,
Não passa de uma mentira
Onde a verdade é invasão!”
“Sepulcro Caiado”, de Igor Silveira.
São esses momentos que ilustram o que a música nativista pode fazer: transformar uma história particular numa experiência que atravessa a barreira entre quem canta e quem ouve.
A voz que transmite
Ao final de todo esse percurso, há uma voz. O intérprete é o último elo de uma longa teia, e geralmente é o que o público mais percebe. É ele quem recebe uma obra que passou por várias mãos e precisa fazer com que tudo isso transborde em seu corpo e seu instrumento mais potente – a voz.

Robledo Martins: arte está em colocar a própria identidade a serviço da história que a canção quer contar Foto: Maikelly Silva
O músico Robledo Martins descobriu que queria cantar aos 17 anos, num anfiteatro de Pelotas, assistindo a um show de Noel Guarany. Antes disso, já tocava violão. Mas foi naquela noite que algo se confirmou, numa certeza silenciosa que ele descreve com precisão de quem sabe exatamente o quer dizer: é isso que eu quero, eu quero cantar. Desde então, nunca mais parou.
“É necessário, para um intérprete, entender o que o poeta quis expressar na sua escrita, para, assim, ser o instrumento de divulgação da obra. Através da interpretação, a música ganha asas, cor, nuances de vida, e de tantas coisas que acabam adjetivando o que a poesia pede”.
Para Robledo, o processo de dar vida a uma canção começa sempre pela letra. É a poesia que abre o caminho para a interpretação. Sem ela, aliada a uma melodia, não há como expressar o canto em sua plenitude.
“Para mim, é imprescindível a análise, se envolver com aquilo que foi escrito, que foi feito a melodia, estar perto dos compositores, é importante, pois cada compositor tem um estilo, um jeito de escrever e de musicar diferente dos demais, e isso é muito importante para a diversificação musical”.
Cada cantor tem, nas palavras de Robledo, a sua digital, uma forma de cantar que é irreproduzível, que carrega a soma de tudo que essa pessoa viveu, sentiu, perdeu e celebrou. Mas essa identidade não pode ser imposta à canção, ela precisa encontrar seu lugar dentro dela sem apagá-la. Por isso, a análise é imprescindível. O intérprete que não mergulha na obra que vai defender, corre o risco de colocar a si mesmo no lugar da história, quando deveria ser o contrário.
O que define o sucesso de uma apresentação, para ele, não é o aplauso. É o choro. O momento em que as pessoas na plateia estão com lágrimas nos olhos é o sinal de que chegou aonde todo o cantor quer chegar: no coração das pessoas. Mas o riso também conta, ele lembra. A alegria tem o mesmo peso.

Para Marina Dornelles, interpretar vai além da voz, o corpo inteiro fica entregue à narrativa Foto: Arquivo pessoal
A cantora Marina Dornelles cresceu cercada de música. Filha de músico, compositor, intérprete, violonista e pianista. A música não foi uma escolha de carreira, foi uma herança que ela fez sua.
“A música é meu refúgio. Quando tudo parece dar errado, é com ela que tudo faz sentido. Hoje em dia, estar no palco é uma grande realização pessoal”.
Interpretar vai muito além da voz. O gestual, a forma de vestir, o posicionamento no palco. Tudo isso faz parte da história que está sendo contada, continua Marina. É esse conjunto que transforma uma execução tecnicamente boa em algo que toca de verdade.
“É quando a poesia nasce, e me é mostrada… eu, particularmente, me emociono muito”.
Marina descreve uma situação como algo essencial sobre interpretar uma música: quando recebe uma composição que se encaixa perfeitamente no seu timbre, no seu tom, no seu estilo. É, segundo ela, o sentimento de vencer antes mesmo de subir no palco. A música parece ter sido feita para aquela voz.
“Não é só sobre cantar, é sobre viver e expressar a música por inteiro. Acredito que seja assim que a história realmente ganha forma e toca as pessoas, pelo menos é o que esperamos e tentamos fazer, com vontade e dedicação”.
Há ainda o reconhecimento mais íntimo: quando a letra fala sobre algo que ela mesma viveu, quando cantar não é interpretar uma história alheia, mas revisitar sua própria. Nesses momentos, a linha que separa o artista da canção desaparece.
“Com certeza. O que mais me faz sentir que a música lavou minha alma é a identificação. Cantar algo em que eu verdadeiramente acredito, sem tirar nem pôr, ou reviver uma história que já foi vivida por mim e está ali, contada na letra”.
Durante muito tempo, o campo da música nativista foi predominantemente masculino. Não por uma regra escrita, mas pelo acúmulo de convenções que foram se solidificando ao longo dos anos. Porém, nos últimos tempos, a presença feminina vem crescendo, ganhando força.
Levar uma canção ao palco é descrito por Marina como um respeito e uma responsabilidade sem igual. Há um trabalho inteiro por trás, toda uma construção coletiva que convergiu até ali. O intérprete é a voz que apresenta ao público o resultado desse trabalho.
“Eu percebo que a presença feminina no cenário nativista tem ganhado cada vez mais força. Particularmente, acredito que a voz feminina é especial, ela carrega sensibilidade… Quando uma canção é interpretada por uma mulher, sinto que a alma dela ganha outro sentido. A emoção vem de outro lugar, outro olhar”.
O caminho coletivo da música nativista, da palavra à interpretação
Existe uma pergunta que fica em todo esse processo: como algo que começou como uma experiência, em sua grande parte, particular, consegue se transformar em algo que todos reconhecem como seu?
A resposta, talvez, esteja justamente no caráter coletivo desse percurso. Cada mão por onde a canção passa adiciona um toque seu, sem deixar que a particularidade original suma. E quando finalmente chega ao público, a metamorfose se completa: a música passa a pertencer a todos.
Todo esse processo pode se resumir em um pouco do que o Robledo, a Marina e o Ricardo falam: é sobre pegar aquilo que muitas vezes não sabemos dizer e traduzir em voz, em nota, em entrega. É sobre a coragem de estar no palco de alma aberta. É sobre gratidão. Sobre responsabilidade com a obra, com os colegas, com o público.
A música nativista, entendida a partir dessa perspectiva, transforma-se em um arquivo vivo de experiências humanas contadas com as palavras, com os sons e com os símbolos do nosso lugar. Do Sul do Brasil. Do pampa, da fronteira, do campo, da cidade. Mas, ao mesmo tempo, transcendendo essa localidade.
Três formas diferentes de dizer a mesma coisa: que fazer música é um ato de entrega. Que é maior do que qualquer coisa. É uma forma de dizer que a história de um é a história de todos. Que a dor que não tem nome pode encontrar palavra. Que a palavra pode encontrar melodia. Que a melodia pode encontrar uma voz. E que essa voz pode tocar o coração de quem estava esperando por exatamente aquele som, mesmo que sem saber.
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Produção audiovisual estreou neste ano trazendo uma visão subjetiva dos desastres climáticos ocorridos em 2024
Por Emily do Amaral

As atrizes Liane Venturella, Cecília Guedes, Vitória Strada e o cão Tofu contracenam ao longo da história
Ao transformar uma tragédia ambiental recente em narrativa ficcional, o telefilme “Caju, Meu Amigo”, dirigido por Bruno Carboni, insere-se em um movimento contemporâneo do audiovisual brasileiro que busca articular drama social e intimismo emocional. A produção, que estreou neste ano, tem como ponto de partida as enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 e investiga as dimensões subjetivas dos desastres climáticos, privilegiando a reconstrução afetiva e simbólica dos indivíduos diante da devastação coletiva.
A premissa do filme é aparentemente simples: Rafaela (Vitória Strada) resgata o cachorro Caju (na pele do cão Tofu) durante a enchente e, ao descobrir sua verdadeira tutora, Nice (Liane Venturella), decide devolvê-lo. Entretanto, o roteiro utiliza essa jornada como narrativa para explorar questões mais amplas, que evidenciam um Estado levantando-se entre escombros e se reencontrando no que tem de seu: sua própria memória. Sob essa perspectiva, o personagem canino funciona como elemento mediador entre as duas personagens que representam diferentes experiências de perda.
O filme dialoga com produções que abordam a catástrofe não como um espetáculo visual, mas como experiência social. A narrativa evita a dramatização da enchente enquanto evento em si e concentra-se em suas consequências silenciosas, como a desorganização do cotidiano, o sentimento de desamparo e a necessidade de reorganização afetiva e existencial. Essa escolha aproxima a obra de uma tradição humanista do cinema brasileiro, interessada em retratar a vida ordinária.
Estrutura narrativa e metáfora do deslocamento
O roteiro desenvolve-se a partir de uma estrutura linear, sustentada pela jornada das protagonistas. A busca pelo cachorro funciona como uma metáfora do deslocamento vivido pelas personagens, que não procuram apenas o animal, mas também fragmentos de suas próprias identidades interrompidas pela tragédia ambiental.
Essa construção narrativa evidencia o uso de elementos simbólicos como catalisadores dramáticos. O filme sugere que, diante da destruição material, objetos e relações afetivas passam a assumir valor memorialístico, funcionando como âncoras emocionais para sujeitos em processo de reconstrução social. Nesse sentido, a obra propõe uma leitura do desastre climático que transcende o campo ambiental, inserindo-o em uma discussão sobre pertencimento e continuidade histórica.
A direção de Bruno Carboni privilegia uma linguagem contemplativa, marcada pelo uso recorrente de planos próximos e pela valorização dos silêncios. Essa escolha formal contribui para reforçar a interioridade das personagens e evidencia a intenção de construir uma narrativa centrada na experiência emocional. O ritmo desacelerado, embora coerente com a proposta estética, posiciona o filme dentro de uma tradição autoral que pode desafiar as expectativas de quem está habituado a estruturas dramáticas mais convencionais.
A ambientação em Porto Alegre desempenha papel fundamental na composição da narrativa. A cidade é apresentada não apenas como cenário, mas como espaço simbólico marcado por cicatrizes urbanas e sociais. A fotografia investe em tonalidades que evocam melancolia e memória, enquanto a trilha sonora surge de forma econômica, evitando a sobreposição sentimental e permitindo que o drama emerja das performances e das interações entre as personagens.
A atuação de Vitória Strada, de berço gaúcho, sustenta o eixo emocional da narrativa, apostando em uma interpretação contida que privilegia expressões sutis e gestualidade minimalista. A dinâmica estabelecida com a personagem da atriz Liane Venturella constrói o principal núcleo dramático do filme, propondo um contraponto entre diferentes formas de vivenciar o luto social. Essa relação amplia a dimensão temática da obra, transformando o reencontro com o animal em um processo de reconhecimento mútuo entre as personagens.
Os personagens secundários, embora apareçam de forma episódica, cumprem uma função sociológica relevante ao representar redes espontâneas de solidariedade que emergem após o desastre. A presença dessas figuras reforça a ideia de reconstrução coletiva e amplia o escopo social da narrativa.
Apesar de sua densidade temática, o filme apresenta certa previsibilidade estrutural. A progressão dramática segue convenções típicas do drama humanista, o que reduz a tensão narrativa em determinados momentos. Além disso, o ritmo contemplativo, característico da proposta estética, por vezes, compromete a fluidez narrativa, exigindo do espectador uma postura interpretativa mais paciente e reflexiva.
“Caju, Meu Amigo” destaca-se como uma produção que dialoga diretamente com o contexto sociopolítico e ambiental contemporâneo do Brasil. Ao transformar uma tragédia climática recente em narrativa sensível sobre memória e pertencimento, o filme reafirma o potencial do audiovisual como instrumento de reflexão social.
Sob a perspectiva cultural, a obra evidencia uma tendência do cinema nacional em abordar temas urgentes por meio de histórias intimistas, deslocando o foco da espetacularização do desastre para suas consequências humanas. No seu final, a obra sugere que, diante da devastação material, a permanência dos afetos constitui uma das formas mais potentes de resistência e reconstrução histórica.
No elenco, estão Tofu como Caju/Pingo, Vitória Strada (Rafaela), Liane Venturella (Nice), Bruno Fernandes (Vinicius), Gabriela Poester (Cachorreira), João Carlos Castanha (Zelador), Lívia Dávalos (Carla), Maria Benedita Belmonte (Dirce), João Pedro Monteiro (Encanador), Lincoln Speziali (Sandro), Natasha Villar (Graça), Adriano Basegio (Valdemar), Sandra Possani (Líria), Laila Garroni (Melissa), Cecília Guedes (Tâmara) e Rafa Velho (Luana). O filme está disponível no serviço de streaming Globoplay.
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Uma casa perfeita esconde relações de poder, manipulação e um terror silencioso
Por João Lucas Rodrigues da Silva

Sydney Sweeney e Amanda Seyfried contracenam em história marcada pelo suspense Fotos: Divulgação
O filme “A Empregada” (2025) é um suspense psicológico com direção de Paul Feig e protagonizado por Sydney Sweeney e Amanda Seyfried. Traz uma adaptação do aclamado livro de Freida McFadden e se junta a outras obras que abordam as complexas relações entre diferentes classes sociais, a dinâmica do poder e a violência psicológica. A trama segue Millie Calloway (Sydney Sweeney), uma jovem que acabou de sair da cadeia e vê uma oportunidade para dar a volta por cima no trabalho de empregada na luxuosa casa de Nina (Amanda Seyfried) e Andrew Winchester (Brandon Sklenar). Contudo, o que parecia ser um recomeço se transforma rapidamente em um lugar opressor, cheio de jogos mentais, abusos e mistérios que destroem qualquer resquício de sanidade.
O filme tece sua história com base na disparidade fundamental entre chefe e funcionária, usando a mansão como símbolo de um local onde as posições de poder financeiro se manifestam como controle sobre os sentimentos. Nina, vividamente retratada por Amanda Seyfried, personifica uma pessoa volátil e imprevisível, exibindo tanto carisma quanto brutalidade, o que a destaca como um dos maiores trunfos do projeto.

Andrew Winchester (Brandon Sklenar), nesta cena com Nina (Amanda Seyfried), provoca suspeitas ao longo filme
A atuação de Amanda dá vida à personagem e impulsiona a maior parte do suspense. A polêmica Sydney Sweeney, no papel de Millie, oferece uma atuação competente, embora em alguns momentos restrita por um texto que não explora bem o seu lado emocional, o que diminui consideravelmente a profundidade da personagem principal. Quem também chama a atenção é o sedutor Andrew Winchester, interpretado por Brandon Sklenar, que à primeira vista parece um homem cavalheiro, romântico e compreensível, mas que gera suspeitas por seu jeito “bom demais para ser verdade”.
Quanto à narrativa, “A Empregada” opta por surpresas e momentos tensos para prender a atenção do público, sendo eficaz como um suspense divertido, embora nem sempre como um thriller psicológico profundo. Por diversas vezes, o enredo usa saídas simplistas ou coincidências muito improváveis, o que prejudica a coerência da trama e pode afetar a experiência do espectador. Porém, nos seus melhores momentos, o filme estabelece um clima opressivo bem impactante, permitindo que o espectador vivencie a tensão da protagonista.
Apesar de não haver uma aprovação plena da crítica, a obra caiu nas graças do público. Não é à toa que teve uma bilheteria de mais de U$ 300 milhões, mesmo contando com um orçamento de apenas U$ 35 milhões. Mesmo que não seja um filme extremamente profundo, aborda questões sociais muito importantes e que merecem serem debatidas, ainda mais no Brasil atual, com taxas altíssimas de feminicídio.
De maneira geral, “A Empregada” consegue entreter o espectador, muito por conta da atuação de Amanda Seyfried e do clima de tensão que se cria durante a história. Apesar disso, as falhas no desenvolvimento do roteiro e a ausência de uma análise emocional mais profunda fazem com que não deixe uma marca tão forte. É um suspense que funciona bem para divertir, mas longe de ser um filme digno de premiações.
Ficha técnica:
Título: “A Empregada” (“The Housemaid”, 2025)
Direção: Paul Feig
Roteiro: Rebecca Sonnenshine e Freida McFadden
Produção: Paul Feig e Laura Fischer
Elenco Principal: Amanda Seyfried, Brandon Sklenar, Sydney Sweeney, Michele Morrone e Indiana Elle
Fotografia: John Schwartzman
Lançamento: 19 de dezembro de 2025
Duração: 131 minutos
Gênero: Thriller, Suspense, Terror Psicológico
Idioma: Inglês
Distribuição: Paris Films
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Trio elétrico abriu a programação carnavalesca todas as tardes às margens da Laguna dos Patos
Por Najara Leal e Raissa Iepsen

Trio elétrico fez a abertura da programação diária do Carnaval lourenciano
Sob o som potente do trio elétrico e às margens da Laguna dos Patos, o Bloco Ziriguidum transforma a Orla das Nereidas, em São Lourenço do Sul, em um mar de foliões durante o Carnaval. Mais de 10 mil pessoas participaram da programação ao longo de cinco noites, do dia 13 a 17 de fevereiro, consolidando o evento como o “Carnaval mais quente da Costa Doce” e uma das principais celebrações populares do sul do Estado. O trio elétrico deu início às festas carnavalescas todas as tardes, seguido pelo desfile das escolas na Passarela do Samba.
Criado há 11 anos, o Bloco Ziriguidum iniciou de forma modesta, reunindo cerca de 300 participantes na primeira edição. Desde então, apresenta crescimento contínuo em público, estrutura e visibilidade. Atualmente, o evento atrai moradores da cidade, visitantes da região sul e turistas de municípios vizinhos, movimentando a orla e fortalecendo o calendário de verão do município.
O trio elétrico acontece durante a tarde e conduz a multidão pela avenida, enquanto o público acompanha cantando, dançando e ocupando também a faixa de areia. O repertório reúne diversos estilos musicais, como funk, pagode, música eletrônica e sucessos do momento. A presença de atrações nacionais amplia o alcance do evento e reforça a projeção regional da festa.
Após o encerramento do trio, os portões são abertos para a continuidade da programação em área fechada. Atualmente, a estrutura conta com três espaços distintos: “Arena”, “Revoada” e o Lounge. Cada ambiente oferece uma proposta específica ao público, desde a concentração principal da festa até áreas mais reservadas, garantindo diferentes experiências aos foliões.

O Zirigundum inicia na Avenida do Samba e depois tem continuidade em área fechada com diversos estilos musicais
Além da programação musical, o evento conta com a equipe de segurança privada, controle de acesso, apoio de órgãos públicos e estrutura de atendimento emergencial. Pontos de comercialização de bebidas e alimentação também são instalados na área da festa.
Entre os foliões, a fisioterapeuta Suéle Pagel, que participa pela sexta vez do bloco, observa a evolução da festa. “É o meu sexto Ziriguidum. Cada ano melhora mais. A estrutura aumenta, as atrações são cada vez melhores e a organização está sempre evoluindo”, relata. “Cansa, mas vale a pena. A energia compensa.”
Quem também acompanha a evolução do evento é a estudante de nutrição Adriele Mulling, que é colaboradora do Ziriguidum há alguns anos. Ela destaca o empenho da equipe nos bastidores. “A gente vê de perto o quanto tudo é planejado. Tudo é muito bem pensado para que todo mundo aproveite o Carnaval. São cinco dias de trabalho cansativo, mas é gratificante ver a festa acontecer e dar certo”, afirma.
O impacto da festa também é sentido por quem trabalha na orla. A empresária Alessandra Freitas, que possui comércio na praia, ressalta a importância do evento para o verão. “Com o Ziriguidum aumenta muito o movimento. A cidade fica cheia, o pessoal consome mais e isso ajuda bastante quem trabalha aqui. É cansativo, mas vale a pena no final”.
Ao unir música, público expressivo, estrutura organizada e impacto econômico, o Ziriguidum consolida-se como uma das maiores celebrações populares da Costa Doce, reforçando o protagonismo de São Lourenço do Sul no cenário carnavalesco do sul do Estado.
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Entretenimento marcado pelos bailes farroupilhas vem dando lugar a novos ritmos musicais e novas compreensões dessa arte na fronteira gaúcha, especialmente como uma terapia
Por Daniel Santos e Lucas Maciel

As danças gauchescas representam a tradição cultural da região
O município de Herval, localizado na fronteira entre o Brasil e o Uruguai, é um dos berços da cultura tradicionalista gaúcha e sempre teve a dança como um dos melhores entretenimentos da sua população, que é apaixonada pelos famosos bailes farroupilhas. Eles fazem parte das programações dos tradicionais rodeios crioulos, que sempre influenciaram a cultura na cidade, mas, com o passar das décadas, novas tecnologias e outras expressões culturais foram surgindo, assim enfraquecendo a tradicional. Além disso, a dança vem sendo praticada como uma ferramenta de melhor integração social e de corpo e mente.
A dança em Herval, assim como em todos os lugares do planeta, sempre funcionou como uma espécie de escape da rotina, pois ela esteve e está presente nos momentos de lazer da população hervalense. E foi assim que surgiram as invernadas artísticas (grupos de dança tradicionalista) no Centro de Tradições Gaúchas (CTG) da cidade, que são uma das portas de entrada para os jovens na dança.

Guilherme Damaceno oferece um espaço de liberdade para a sua turma nas aulas de dança
Em torno das tradições, surgem novos estilos de dança na Sentinela do Sul (apelido carinhoso da cidade de Herval). Com a chegada das novas tecnologias, o município foi entrando em contato com novas culturas e, assim, a população foi descobrindo novos gostos. Nos dias atuais, eventos como o Carnaval e a Fejunahe (Festa Junina de Herval) foram tomando um pouco do espaço cultural do tradicionalismo.
Grupos de dança tradicionais
Nos tablados do CTG Minuano, os ensaios vão muito além de coreografias e danças. O presidente do Conselho Municipal de Cultura e instrutor de dança Robito Maciel, que atua há mais de 20 anos, relata que a dança é como uma terapia. Ele recorda ter acompanhado a transformação dos alunos que chegavam ao grupo incapazes de sustentar o olhar ou de se comunicar verbalmente devido à timidez excessiva.
Segundo Maciel, o movimento tradicionalista oferece um espaço seguro de superação, no qual a postura física exigida pela dança acaba se traduzindo em uma nova postura diante da vida: “Eu já vi muita gente que não conseguia falar, que tinha vergonha até de levantar os olhos, e através da dança encontrou uma superação”, conta.
Atualmente, a cidade comporta quatro grupos de danças tradicionais, número que, segundo o presidente, corresponde a cerca de metade dos existentes no período anterior à pandemia de covid-19. “No período entre 2002 e 2008, chegamos a ter cerca de oito grupos de invernada e um de folclore argentino na cidade”, acrescenta.

Integrantes do ano de 2003 na invernada do CTG Minuano Foto: Gilson Fotografias
Novos estilos
Com a globalização, a sociedade mundial tem vivenciado um intercâmbio cultural intensificado e cidades do interior como Herval foram fortemente impactadas. Na dança, com a chegada de novos meios de comunicação, novos ritmos de música foram entrando no cenário cultural do município da fronteira gaúcha. “Eu tinha grupos com pessoas de 15 a 73 anos, até mais, e eles só queriam dançar [com a música nordestina do tipo] forró”, comenta Maciel, sobre o enfraquecimento da dança tradicional.
Atualmente, na cidade, existe um estúdio de fitdance, onde as aulas são orientadas pelo instrutor e proprietário Guilherme Damaceno. Ele deu seus primeiros passos na dança através da invernada e, depois de anos buscando ganhar a vida em outras áreas, viu na dança o seu futuro.
O instrutor, além do fitdance, oferece aulas de dança de salão e afirma que deu o seu pontapé inicial na carreira de professor, orientando aulas de samba para o Carnaval. Guilherme tenta impactar a cultura de Herval oferecendo um espaço de liberdade para seus alunos. “Isso é muito mais do que dançar, eu preciso convencer as pessoas o que isso é realmente, que vai ser bom para elas, que elas são capazes de fazer e de que não precisam ter vergonha de chegar aqui e dançar”, destaca Damaceno.

A dança oferece um meio para trabalhar a relação entre corpo e mente, além da integração grupal
Guilherme também leva o nome de Herval para outros cantos através de seu trabalho, no ano de 2025 ele se apresentou em alguns festivais pelo Estado. Neste ano, ele já participou ativamente do Carnaval, tanto de Herval, quanto de Arroio Grande, cidade vizinha da Sentinela.
Dança, saúde e bem-estar
Para os instrutores Guilherme e Robito, a dança vai além do movimento corporal, ela é um ato de liberdade em que a mente descansa e se acalma. Isso vai de acordo com os estudos que indicam que a prática da dança ajuda no sustento de uma saúde mental saudável.
Em um cenário no qual um em cada cinco adultos enfrenta alguma doença de origem mental, a dança surge como uma terapia não farmacológica eficaz. A literatura médica destaca que o diferencial da dança está na integração: ela exige uma conexão total entre mente e corpo para ser executada.
Essa prática permite expressar emoções reprimidas através do movimento, funcionando como uma válvula de escape para o isolamento. Ao fortalecer a autoestima e promover a ressocialização, a dança se alinha ao conceito de saúde mental da Organização Mundial de Saúde (OMS), que envolve não apenas a ausência de doenças, mas a capacidade de contribuir com a comunidade e lidar com as tensões da vida.
Quando perguntado sobre o que significa a dança, Guilherme responde: “Ela é como o amor, inexplicável, algo que nos faz ir além.” Assim, se presume que a dança é um dos pilares para uma sociedade culturalmente saudável.
COMENTÁRIOS
Muito interessante a reportagem, parabéns!
Jaqueline
Grupos Antiga Pelotas, Pelotas Antiga e Olhares Sobre Pelotas se reúnem no Facebook, Instagram e Youtube, interessados em compartilhar imagens do passado da cidade
Por Pedro Ezequiel de Almeida

Participantes compartilham fotos como este antigo cartão postal com a Praça General Pedro Osório
Em um cenário conturbado de anos, o resgate histórico na cidade de Pelotas segue marcado por dificuldades ainda não resolvidas. A preservação da memória urbana parece caminhar em círculos: prédios históricos permanecem abandonados, como o edifício do Clube Comercial de Pelotas; obras de restauro acumulam atrasos, a exemplo do Grande Hotel, fechado desde 2018 para reformas que não se concluem; e espaços públicos centenários seguem sem revitalização, como a Praça Coronel Pedro Osório. Em contraste, cresce, paralelamente, o interesse popular em revisitar, registrar e discutir o passado da cidade.
Nas redes sociais, Facebook, Instagram e Youtube, iniciativas espontâneas passam a ocupar um vazio deixado fora das telas, funcionando como espaços de memória coletiva. Fotografias antigas, relatos pessoais e registros urbanos ajudam a reconstruir a história de Pelotas, ainda que de forma fragmentada, informal e distante das políticas oficiais de preservação.
Grupo Antigo Pelotas
Um dos exemplos mais expressivos desse fenômeno é o grupo Antiga Pelotas, no Facebook, criado há seis anos. Com cerca de 122 mil membros, o espaço reúne usuários interessados em compartilhar imagens de outras épocas, recordar vivências pessoais e trocar experiências ligadas ao cotidiano da cidade. Mais do que um ambiente de crítica, o grupo se consolida como um espaço de socialização guiado pela nostalgia de tempos passados e pelo apreço à cultura e à história de Pelotas.
Áurea Pimentel, uma das criadoras e idealizadoras do grupo, destaca que o crescimento do Antiga Pelotas foi muito rápido desde a sua criação, impulsionado pelo interesse coletivo em relembrar e compartilhar a história da cidade. “Com um ano e mais um pouco nós chegamos a 45 mil membros. A cada mil pessoas que entravam era uma alegria imensa. E nós continuávamos estudando a história juntos, publicando juntos, relembrando nossas memórias”, recorda.

Áurea Pimentel celebra tanto número de adeptos como comprometimento com objetivos do grupo
Todo o trabalho de organização, moderação e cuidado com o grupo é realizado de forma voluntária, reforçando o caráter colaborativo e comunitário da iniciativa. Na página, não há publicidade nem interesses comerciais envolvidos. O espaço é monitorado com o objetivo de preservar o respeito entre os participantes e garantir que o foco permaneça na história e na memória da cidade.
Para Áurea Pimentel, esse cuidado também parte do próprio público. “A melhor parte do Antiga Pelotas é o carinho do povo pelotense, do nosso público. É o zelo que eles têm com aquele espaço virtual que podem participar. São as pessoas dizendo que aqui não pode haver falta de educação, aqui não pode publicidade, aqui a gente não ataca ninguém. É aquele carinho, aquele zelo. Isso é o diferente”.

Página na rede social tem sido um modo de compartilhar memórias vivenciadas na cidade
Pelotas Antiga
Apesar do nome muito parecido, outro perfil é o Pelotas Antiga que atua principalmente no Instagram e reúne cerca de 16 mil seguidores. A página adota uma postura mais crítica em relação às transformações arquitetônicas da cidade e às perdas históricas acumuladas ao longo do tempo. Ao invés do debate aberto característico dos grupos no Facebook, o Pelotas Antiga aposta em uma curadoria definida e em uma narrativa cativante, que conta a história de Pelotas a partir dos arquivos, documentos e imagens que ainda restam, transformando o material histórico em reflexão sobre o presente.
O idealizador do Pelotas Antiga, Nikolas Corrêa, também desenvolve um projeto paralelo intitulado Pelotas Mal-Assombrada, que propõe passeios noturnos por locais da cidade associados a mistérios, crimes e acontecimentos marcantes, explorando outra camada da memória urbana pelotense. A proposta também abre espaço para a socialização e para a promoção do resgate histórico a partir da curiosidade popular por enigmas históricos, episódios pouco documentados e fatos ainda não plenamente esclarecidos da cidade.

Leonardo Tajes propõe avanço da fotografia para o audiovisual como forma de lembrar história
Olhares sobre Pelotas
O uso das redes sociais, nesse contexto, também possibilita abordagens mais especializadas e narrativas mais aprofundadas. É o caso do projeto Olhares Sobre Pelotas, criado pelo jornalista e sociólogo Leonardo Tajes em 2011. A iniciativa se diferencia ao investir em produções audiovisuais, como documentários e vídeos explicativos, que contextualizam a história da cidade e aprofundam temas ligados ao patrimônio e à memória coletiva.
“No início era um projeto mais fotográfico… e aí então fomos incorporando no projeto mais informações…” Com o tempo, segundo Leonardo Tajes, o Olhares Sobre Pelotas passou a migrar para o formato de documentários, a partir da percepção de que a fotografia, sozinha, impunha limites ao aprofundamento histórico e contextual das narrativas. A mudança ampliou o alcance do projeto: os documentários já somam mais de 200 mil visualizações no YouTube. Entre os mais notórios estão três documentários que sintetizam diferentes dimensões da memória local: “Praça Coronel Pedro Osório”, “A sociedade do charque” e “Culturas e tradições”, este último voltado às práticas culturais, costumes e manifestações que ajudaram a formar a identidade da cidade.
Mesmo com o alcance e a adesão do público, Leonardo Tajes levanta um alerta: a mobilização nas redes sociais, embora importante, não é suficiente para garantir a preservação do patrimônio histórico.
“Acredito que as redes sociais contribuem para a manutenção da história e da cultura da cidade, alcançando pessoas que os livros ou os documentários demorariam mais para atingir. No entanto, tenho dúvidas sobre o quanto elas conseguem, sozinhas, mobilizar a população para preservar os prédios e a cidade em que se vive. As redes não substituem a educação formal nem a familiar, e essas questões estão ligadas a fatores sociais mais complexos, que precisam ser trabalhados ao longo de gerações. A preservação do patrimônio envolve também políticas públicas, senso de pertencimento e a relação com o espaço público, aspectos que vão além do alcance das redes sociais”.
As experiências do Antiga Pelotas, Pelotas Antiga e Olhares Sobre Pelotas revelam diferentes formas de atuação diante de um mesmo problema estrutural da cidade. Sustentadas pela união de pessoas comuns, pelo trabalho voluntário e pelo interesse coletivo na história local, essas iniciativas demonstram a força da sociedade civil na preservação da memória pelotense. Ao criar espaços de encontro, diálogo e produção de conhecimento, os projetos mantêm viva a história da cidade e estimulam a reflexão sobre o passado. Ao mesmo tempo, sua existência evidencia uma lacuna persistente: a dificuldade do poder público em assumir, de forma contínua e efetiva, a responsabilidade pelo resgate, preservação e valorização do patrimônio histórico de Pelotas.
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Entre o ensino e as apresentações, o canguçuense constrói carreira na sonoridade dos pampas
Por Matheus Goularte Mesquita e Nikolas Vinhas de Sousa

Thiago Fonseca conquistou prêmio Vitor Mateus Teixeira de Melhor Composição, concedido pela Assembleia Legislativa Fotos: Arquivo/Pessoal
O cantor e professor musical Thiago Fonseca, natural de Canguçu, vem construindo sua trajetória conciliando apresentações, o ensino musical e o desenvolvimento de um trabalho autoral voltado à música nativista. A carreira de Thiago ganhou maior projeção a partir da canção “Vida no Campo”, composta em parceria com o pai, Paulo Fonseca, e que marcou o início de sua trajetória autoral.
Como educador, o artista adota uma metodologia que vai além do ensino de um único instrumento. Para ele, o aprendizado musical precisa ser mais amplo: “Eu sempre digo para os meus alunos que não dou aula de violão ou aula de canto. Eu dou aula de música”. A proposta envolve a imersão entre diversos instrumentos e linguagens, levando alunos de canto ao violão e vice-versa, ampliando a percepção musical como um todo.
Essa abordagem está diretamente ligada à forma como Thiago compreende a música. Mais do que técnica, ela é sentimento e experiência. “A música está totalmente ligada ao nosso sentimento. Quando a gente está triste, escuta uma música triste. Quando está feliz, escuta uma música feliz”, explica. Segundo ele, a conexão com o som começa antes da consciência musical: “Desde quando a gente nasce, a primeira coisa que sentimos é o bater do coração, que já é uma marcação de tempo. Por isso, a gente não pode só fazer música, tem que sentir a música”.
Tal relação com a arte se manifesta em “Vida no Campo”, canção composta durante a pandemia, em um ambiente familiar, quando a música ainda não era um trabalho para ele. A ligação com a música, no entanto, sempre esteve presente. O cantor relembra que, desde jovem, escutava as composições do pai, que eram cantadas durante festas em família.

Registro da gravação de “Vida no Campo”, composição que marcou o início da trajetória autoral de Thiago Fonseca
O lançamento da música ocorreu anos depois, quando a atividade artística passou a ocupar um espaço maior em sua vida. A escolha do repertório foi simbólica e objetiva para os dois: “A gente pensou: qual música escolher? E decidimos que tinha que ser ‘Vida no Campo’, porque foi a primeira que compusemos juntos”. O processo culminou no lançamento de um videoclipe e em um show de lançamento, que teve os assentos do Cine Teatro Municipal de Canguçu completamente ocupados.
O desenvolvimento da canção resultou na conquista do Prêmio Vitor Mateus Teixeira, na categoria de melhor composição. A cerimônia foi realizada em Porto Alegre, no Auditório Dante Barone da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.
Durante o evento, o músico teve contato com familiares e representantes de nomes históricos da música regional, como Teixeirinha, Jayme Caetano Braun, Marcelo Caminha e Pedro Ortaça, além da cantora Maria Alice.
Olhando para o futuro, o cantor e compositor projeta a continuidade do trabalho autoral e o fortalecimento de seu nome dentro da música nativista regional. Thiago Fonseca revelou que uma nova composição já está pronta e passa pelas etapas de ensaio, gravação e organização do lançamento.
Veja o vídeo com a música “Vida do Campo”:
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Dezessete blocos desfilaram pela avenida no sábado e os foliões comandaram a festa no maior Carnaval da região
Por Laura Crizel e Thiago David

Blocos e entidades carnavalescas trouxeram 21 mil pessoas para desfilar no principal dia Foto: Thiago David
O sábado de Carnaval foi marcado por uma grande presença de foliões no Balneário Cassino, na cidade do Rio Grande. Cerca de 70 mil pessoas acompanharam a passagem de 17 blocos na avenida Rio Grande, entre espectadores da festa e participantes da folia, que juntos de seus abadás, compuseram uma massa de 21 mil pessoas que fizeram o Carnaval acontecer.
A festa iniciou ainda cedo, às 20h, com a saída do bloco Lendários do Mar, marcando presença e reafirmando as raízes do Carnaval clássico, conhecido pelas famosas marchinhas. A noite terminou com o Bloco da Lambe, que reuniu uma grande quantidade de foliões, num estilo próprio, que mistura o clássico com as festas de DJs.
O sábado ainda ficou marcado pelas saídas dos blocos, Bloco do Zé, Chokolat, Quem me Viu Mentiu, Novo Avante, Eu Amo Minha Sogra, Fiateci, Baço da Onça, Os 100 Limites, 37,5 Não É Febre, Nokudum, Os Fora da Casinha, Regueiros Do Jamelão, Boêmios, Encosta que Ele Cresce e Treta & Trago.
Fantasias prateadas
Os jovens Eduardo e Thiago curtiram o Carnaval de uma forma diferente: ambos estavam completamente pintados de prata, fantasiados do famoso personagem dos programas de auditório da televisão brasileira, Freddie Mercury Prateado, por sua vez inspirado no ex-cantor da banda de rock britânica Queen. A pintura corporal também lembra as performances das “estátuas vivas” que aparecem com frequências nas grandes cidades. “É o segundo ano que a gente vem com pintura no corpo, em 2024 viemos de Smurfs, nós e mais uns cinco amigos e é sempre muito engraçado poder sair aqui no Cassino e o pessoal vir tirar foto”, comenta Eduardo.
Eduardo e Thiago ainda afirmaram terem sido parados por mais de 100 pessoas nesta noite na Avenida Rio Grande, para tirarem fotos com eles, “ É sempre muito bom poder arrancar uma risada do pessoal e é muito engraçado ver um cara totalmente pintado de cima a baixo de prata”.

Jovens Eduardo e Thiago escolheram aproveitar o Carnaval de uma forma não convencional Foto: Thiago David
Comércio
O grande movimento de locais somados aos turistas na Praia do Cassino, trouxe boas perspectivas para os comerciantes locais, que aproveitam de tal ocasião para gerar lucro em seus negócios. Neste ano, a edição do Carnaval do Cassino traz turistas de todos os arredores do Estado, do País e até mesmo estrangeiros, que buscam na festividade um momento de descontração e comemoração.
Aproveitando tal ocasião, os comerciantes vão às ruas para atender às necessidades do público. As vendas mais recorrentes são as de bebidas, como cerveja, água e refrigerante, mas as comidas não ficam para trás, churrasquinho, lanche, cachorro-quente, todos os produtos tem seu destaque e oportunidade.
Devido ao grande público, a concorrência entre os comerciantes se torna saudável, levando a preços mais justos ofertados ao consumidor, mas com espaço para todo negócio garantir seu lucro na festividade.
Em entrevista, o atendente de um comércio que opera há vinte anos no Cassino, comentou sobre as perspectivas de vendas no Carnaval deste ano: “O primeiro dia foi fraco, mas temos expectativa de que hoje seja melhor, estamos há cinco anos nesse ponto, e os carnavais costumam movimentar bastante o comércio”.
Já Gustavo Maciel, vendedor ambulante, comentou sua experiência no setor. “Faz dois anos que eu trabalho no Carnaval, o movimento está fraco, ontem vendemos 150 lanches, mas hoje acredito que melhore, pretendemos vender uns 250”.
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