Atual nome do grupo remete à rivalidade que existia entre as escolas nos anos 1960
Por Marco Ayala
O coletivo de teatro do Colégio Municipal Pelotense, na cidade de Pelotas, o Teatro dos Gatos Pelados, tem as suas origens nas atividades extracurriculares da escola nas artes cênicas desde 1905 (quando ainda se chamava “Ginásio Pelotense”). O grupo, com outras denominações anteriormente, adotou o nome atual em 1963, sendo assim reconhecido e tendo a sua identidade. O apelido “gato pelado” é uma provocação reaproveitada como um símbolo de honra. A implicância era de alguns alunos de outro educandário, o Colégio Gonzaga (na época, “Ginásio Gonzaga”), que alimentavam rivalidades, fazendo menções à classe social dos estudantes do Ginásio Pelotense. O gato mascote surgiu com um caráter unificador, trazendo um sentimento de orgulho, de pertencimento, e representa a ideia de empatia e inclusão.

A identidade visual do gato pelado foi criada em 1951, pelo notável aluno da época, o escritor, desenhista, jornalista e professor Audyr Garcia Schlee
O Teatro dos Gatos Pelados faz jus ao próprio nome. O grupo é referência tanto por suas contribuições para o mundo da arte, quanto por seus princípios humanistas. Após a sua fundação, ampliou seus horizontes, sendo valorizado a nível nacional. Entretanto, o coletivo conta com obstáculos sérios em sua história centenária. Sendo assim, a sua trajetória é marcada por momentos altos e baixos, e, hoje, vive um processo de reestruturação. Atualmente, suas atividades se dividem em duas turmas – com a participação de alunos do quinto ao nono ano do Ensino Fundamental, além de estudantes do Ensino Médio.
Inspiração, potência e transformação
O teatro é uma expressão performática e cultural que conta com o trabalho cooperado de artistas e equipe de produção. Além do espetáculo oferecido à plateia, abrir as cortinas e sair das coxias traz bem-estar e outros benefícios aos participantes. Conforme a integrante do Ladra (Laboratório de Dramaturgia do curso de Teatro da Universidade Federal de Pelotas), Bárbara Nunes, estar no palco é ser fadado a representar qualquer coisa, seja uma pessoa ou um animal. Por isso, o fazer teatral é sinônimo de perda de timidez, compreensão dos seus próprios sentimentos e do seu corpo. Permite superar ansiedades e confusões consigo mesmo, entender o que é certo e errado, saber se comunicar e entender o mundo. Atiça o senso crítico profundo. Leva a lidar com pessoas de variados tipos e culturas, socializar e fazer amizades de modo mais eficaz. O trabalho em equipe desenvolve a empatia, criatividade, raciocínio e o sentimento de responsabilidade. São habilidades importantes ao longo da vida que o teatro exercita.
Ou seja, a prática também simboliza formar sujeitos éticos e educados, além de reciclar obstáculos para o bem-estar social e harmônico como expressões críticas aceitas na cidadania, que não são bem-vindas em qualquer contexto. Segundo o filósofo Friedrich Nietzsche: “a arte existe porque a vida não basta”.
“Trabalhar com teatro é maravilhoso! […] Pra mim, o teatro não tem malefícios. É sobre encontro, desenvoltura, parceria, jogos, alegria, energia pura! Assim passar essa questão do fazer teatral para crianças e adolescentes só tem a agregar ao mundo! Pra mim, o teatro e a arte são agentes de transformação social, mudam a pessoa, e acabam trazendo qualidades! […] O teatro é, realmente, um serviço para a sociedade. Quem nunca fez, eu sempre indico que faça uma aula de teatro!”
Bárbara Nunes
“O Teatro te proporciona uma visão geral de vida, de contrastes, de entendimento de comportamentos. Ele é mágico e atinge cada um de uma maneira. E é preciso entender que se despir da vaidade, da soberba e ideias bobas é muito importante para ser um artista teatral. […] Ele te torna um trabalhador a serviço do entretenimento, da arte de transmitir ideias e conjecturas sociais, de um tempo atual, passado ou futuro. Encarar o ser ator é um ato de generosidade e não de superioridade”
João Bachilli, proprietário do grupo Tholl e ex-integrante do Teatro dos Gatos Pelados
O teatro no Colégio Pelotense segue essas premissas, sendo considerado um ponto de amor, dedicação, inspiração e transformação. O impacto é percebido em estudantes e ex-estudantes que já participaram. Há os ex-integrantes que eram pessoas mais tímidas, ou que pertencem a grupos/classes com estereótipos marginalizados, aqueles que são mais privilegiados no meio social e/ou já dotados de habilidades que o teatro proporciona. Aparecem nomes que viriam a fazer sucesso na arte, até os que só fazem ou fizeram parte do coletivo por entretenimento e querem seguir outros rumos em suas jornadas… Todos convertem suas experiências artísticas em funções que continuam fazendo sentido no seu dia a dia. Uns menos e outros mais.

Alunos da turma da tarde praticando jogos lúdicos para aprendizados de capacidades corporais Fotos: Arquivo/ Teatro dos Gatos Pelados
“Não pretendo [seguir com o teatro na vida], mas eu respeito muito quem está lá! Eu acho sensacional estar perto de pessoas tão talentosas como os meus colegas; e eu dou todo o apoio para eles seguirem […]. Eu gosto de estar nesse meio pra me desafiar, pra conseguir falar de uma forma melhor. […] Minha comunicação sempre foi boa e eu sempre fui trabalhando mais ela. O teatro foi só mais um passo nisso. […] E é incrível poder ver esses colegas conquistando um espaço muito bonito dentro das artes!”
João Gabriel Soares Maicá, artista do Teatro dos Gatos Pelados
João Gabriel é estudante do Ensino Médio do Colégio Pelotense. O aluno vive diariamente com dislexia, TDAH e o autismo. No entanto, mesmo que ele tenha esses obstáculos neurodivergentes, eles se transformam em motivo de orgulho e autoestima. João Gabriel afirma que é alguém que lida muito bem com suas diferenças. O Teatro dos Gatos Pelados, por ser um espaço acolhedor e amigável, reforça sua autoconfiança e motivação. Estimula todos que tenham as mesmas características a lutar por seus direitos, não deixar se abalar ou achar que se é incapacitado, e não sofrer por ser alguém imperfeito ou fora do comum (se é que essas denominações existem). Então, o teatro é um espaço de resistência, felicidade, ativismo, companheirismo e evolução.
“A forma que eu luto [por uma sociedade melhor] é conscientizando as pessoas […] sobre os transtornos neurológicos e sobre as causas divergentes. […] acho que, por eu estar no teatro com os transtornos que eu tenho, já tem uma representatividade!”
João Gabriel Soares Maicá
Todos podem atravessar suas cortinas e superar seus limites. Assim, João Gabriel serve de inspiração, não só pela sua execução teatral bem-sucedida, mas também pela causa social que ele transmite. Mostra o poder da arte e por que ela é indispensável.
A mesma situação se aplica para Otávio Santos, aluno negro, que também estuda no Ensino Médio e participa do Teatro dos Gatos Pelados:
“Acredito, sim, que ser negro e vir de periferia faz diferença! Fazer teatro não é o sonho de todos que moram na periferia. Não existe um modelo a se seguir ou para se espelhar. Não é o meu caso, mas sabemos a dificuldade de acesso a esse tipo de arte nesses locais. Vejo que, ao entrar no teatro, a pessoa consegue aflorar tudo que sente e consegue expressar esse sentimento, assim, deixando a sua vida mais leve! Uma sociedade na qual as pessoas se sentem mais leves é uma sociedade menos ansiosa!”
Otávio Santos
De acordo com Otávio, o teatro é uma ferramenta social que lida com as relações de poder simbólicas, e a comunicação é a chave para a imposição do humano no mundo. Portanto, já que o fazer teatral tem como essência o desenvolvimento do ato de comunicar do praticante, essa modalidade de arte torna o artista armado de instrumentos que lhe dão poder para seguir seu caminho.
“O teatro influencia em quase todas as esferas da minha vida (se não forem todas!), […] desde a esfera social até a acadêmica. Eu já era comunicativo antes de ingressar no teatro. Mas, após meu início, eu tive uma melhora significativa em comunicação e sabemos que hoje em dia uma boa comunicação abre portas. São diversos os benefícios [do teatro]. A comunicação é aprimorada – assim como todas as outras habilidades sociais do indivíduo – você acaba se conectando mais consigo mesmo se conhecendo melhor com o tempo. E, acima de tudo, vejo que o teatro é um lugar no qual as pessoas tímidas conseguem desabrochar […]. Consigo falar uma definição do que é o teatro em minha vida: espaço seguro. Seguro para ser eu mesmo. Seguro para tentar coisas novas. Seguro para errar.”
Otávio Santos
O Teatro dos Gatos Pelados também é de grande importância e representatividade para o Colégio Pelotense em si (para quem o rege, para quem trabalha e estuda lá). O coletivo é ligado à escola desde sua origem, levando consigo o apelido da instituição de educação. Portanto, a história e a causa social do grupo reforçam a marca do Colégio como uma escola de ensino público capaz de formar seres humanos altamente qualificados, que incentiva a inclusão e interação entre as pessoas com personalidades e definições distintas, que acredita no potencial e inspiração da arte, e preocupada com o desenvolvimento dos alunos para além das matérias obrigatórias e da base curricular.


Manifesto do Teatro dos Gatos Pelados, lançado no dia 3 de dezembro de 1963, oficializando grupo
História com altos e baixos
Em 1905, as atividades extracurriculares iniciam no Ginásio Pelotense, partindo de iniciativa dos próprios alunos. Em 16 de setembro do mesmo ano, foi fundado o Grêmio Dramático do Ginásio Pelotense, que funcionou até meados da década de 1910. O Grêmio promoveu diversas ações – como a peça “Os Botões”, encenada ainda em setembro de 1905; um festival em novembro do mesmo ano, com duas peças e diversos monólogos; além dos dramas “Redenção”, em 1907, e “Dalila”, em 1909.
Em abril de 1911, foi fundado o Centro Literário 24 de Outubro. Esse era um clube estudantil – do até então Ginásio Pelotense – voltado para atividades de literatura e teatro. Uma das produções do Centro Literário foi o espetáculo “Rolando de Roncesvales”, no Theatro Sete de Abril, que foi considerado com “grande pompa e luxuoso figurino” pela imprensa.
Nas décadas de 1910 e 1920, o teatro ainda marcou presença no cotidiano da escola, com participação em festivais locais, intermunicipais, escolares e datas cívicas, mas foi a partir da década de 1930 que as artes cênicas escolares tomaram um impulso maior.
Em 1935, o Grêmio Estudantil criou o Dia do Gato Pelado, conjuntamente com o Festival do Gato Pelado, que era uma noite de apresentações artísticas produzidas pelos alunos. O evento agregava os estudantes da escola não só com teatro, mas também com outras atividades escolares extracurriculares. O Festival do Gato Pelado teve edições até 1961.
Ao longo das décadas, as atividades teatrais do Colégio Pelotense continuavam marcando presença na região. Um destaque vai para a radionovela “Os Amadores”, que – em 1956 – foi transmitida para toda a zona sul do Rio Grande do Sul pela Rádio Cultura. Foram oito capítulos que iam ao ar todas as quartas-feiras às 20:30min.
O teatro pelotense, como um todo, viveu um grande florescimento nos anos 1960 e 1970 com a criação da STEP (Sociedade de Teatro de Pelotas). Foi a STEP que promoveu os festivais de teatro de Pelotas entre 1960 e 1971. Esse movimento em prol das artes cênicas estimulou que, no final de 1963, fosse fundado o Teatro dos Gatos Pelados, dando continuidade à tradição cênica da escola que começou em 1905.
A geração “fundadora” do Teatro dos Gatos Pelados foi extremamente produtiva nas décadas de 1960 e 1970, com apresentações marcantes. Os três grandes destaques dessa época foram “Bira e Conceição” (eleito melhor Musical do 5º Festival Nacional do Teatro do Estudante), “O Jovem Rei” (premiado como melhor Roteiro, Melhor Figurino e Melhor Cenografia & Iluminação no 6º Festival Nacional do Teatro do Estudante) e “A Viagem de um barquinho” (medalha de prata no 6º Festival Nacional do Teatro Infantil). Diversos nomes de relevância nacional surgiram neste período, como Valter Sobreiro Júnior, Mauro Soares e Fernando Melo da Costa, dentre outros.
O Teatro dos Gatos Pelados seguiu em intensa atividade no restante do milênio. Então, limitar apenas esse período vitorioso como o momento de grandes eficiências nas criações artísticas é cometer um equívoco e descartar o restante da história. Não só no período mais glorioso – mas também no século todo – o Teatro dos Gatos Pelados continuou participando em apresentações nacionais, estaduais e regionais; sendo amplamente reconhecido pela comunidade e pelas mídias. Essas décadas de atividades ininterruptas revelaram outros grandes nomes. Alguns exemplos são Ruth Ferreira (formada nos anos 1950 com passagens em radiodifusoras do Rio de Janeiro); José Oliosi (integrante do Teatro dos Gatos Pelados na década de 1940 com mais de 50 filmes nacionais em currículo, como “Xica da Silva” e “Memórias do Cárcere”); Ronaldo Cupertino de Moraes (fundador da Associação dos Artistas Amadores de Pelotas, em 1985, premiado em diversos festivais); e Martha Isaacson de Souza – atriz e professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e ex-presidente da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós Graduação em Artes Cênicas (ABRACE).
Atualmente, talvez o perfil mais conhecido em atividade é João Bachilli (multipremiado pelo Teatro Escola e fundador do Grupo Tholl, renomado coletivo de circo e teatro de Pelotas). E vale mencionar duas jovens promessas que foram protagonistas de filmes estreados e bem valorizados em 2025. São eles: Gabriel Ferreira, de 18 anos – que atuou a versão adolescente de Marcelo em “Passaporte Memória” – e Lis Neuwald, de 14 anos (que representa Luna em “O Lado Obscuro de Luna”). Enquanto Gabriel continua no Teatro dos Gatos Pelados, Lis dedica maior parte de seu tempo a outras atividades, como o Grupo Oficina – dirigido por Flávio Dornelles – do Theatro Guarany, em Pelotas.
“Minha participação no Teatro dos Gatos Pelados foi num período quando não havia um diretor. Éramos um grupo de apaixonados por teatro e ficávamos fazendo exercícios teatrais e montando pequenas esquetes. Muitas vezes recebíamos visitas de ex-diretores […] que nos orientavam sobre esta arte de interpretar. […] O Teatro dos Gatos Pelados foi uma preparação com muita liberdade, sem grandes compromissos. […] As experiências mais técnicas e de imersão mais profundas vieram com o Teatro Escola de Pelotas; mas o Teatro dos Gatos Pelados me trouxe a certeza de que eu queria as luzes de um palco, a emoção de entrar em cena, a divertida ideia de viver personagens e tirar de cada um deles alguma coisa para a minha vida.”
João Bachilli
Entretanto, a história não foi escrita apenas com sucessos. Meados da década de 1990 já carregavam um enfraquecimento e irregularidade na frequência das atividades teatrais. E, em 2002, de forma oficial, o Teatro dos Gatos Pelados fechou as portas por algum tempo, sem se saber se voltaria a funcionar.
De acordo com o professor, historiador e atual coordenador do grupo, Joaquim Dias, as explicações para o fechamento foram a falta de estímulo à prática teatral e de professores interessados em seguir com o projeto. Isso aconteceu por falta de apoio e desvalorização da arte, que é um ciclo vicioso que acomete a sociedade, autoridades (governamentais, educacionais, etc.), os próprios artistas e a postura individual dos humanos. Essa deslegitimação vem da compra de discursos contrários ou indiferença com o fazer artístico. A linguagem de resistência às práticas culturais vem principalmente de argumentos das autoridades que regem a sociedade, mas também surgem do cidadão comum.
“Tudo faz parte de uma engrenagem. A sociedade não valoriza a arte. Logo em seguida, os nossos governantes também não. Logo em seguida, o comércio também não tem possibilidade de oferecer uma estrutura melhor para quem está fazendo entretenimento, para quem está fazendo esse tipo de coisa.”
Mateus Kempfer, músico da banda “Quarto Afora”
Sob esses fatores, o professor Joaquim também menciona a naturalidade dos jovens em seguir suas próprias vidas – priorizando outras coisas. Além disso, vários também deixam a arte de lado por dificuldades de enfrentar as barreiras estruturais, financeiros e sociais – ou os que querem e realmente tentam viver nessa área, mas não conseguem ser bem-sucedidos.
Houve tentativas de obter investimentos público e governamental durante a década de 2010 para que o Teatro dos Gatos Pelados voltasse, mas a pandemia da COVID-19 tardou os planos e o interesse foi escanteado.
Felizmente, o Teatro voltou a funcionar em 2021 com aulas virtuais – ainda em meio à pandemia da COVID-19 – e, em 2022, de modo presencial. A reabertura foi devida, novamente, à iniciativa de estudantes, estudo e aperfeiçoamento do conhecimento teatral por parte de Joaquim Dias, e, principalmente, graças a uma parceria com o LADRA (Laboratório de Dramaturgia), do curso de Teatro da Universidade Federal de Pelotas (UFPEL). Atualmente, o grupo passa por um processo de reestabelecimento para se reerguer, e já conta com registros e fatos que revitalizam a potência do coletivo.

Elenco e produção de “O Que Acontece Lá Embaixo?”, peça teatral que estreou em dezembro de 2025
O LADRA é um espaço universitário que foca na criação, estudo e experimentação de textos dramáticos e processos de escrita cênica, em que a prática se estende para além da UFPEL. Em março de 2021, o Colégio Pelotense aceitou um convite da coordenadora do LADRA, Marina de Oliveira, sobre o projeto “Oficinas Dramatúrgicas” para as escolas (que seriam encontros semanais virtuais para desenvolvimento da dramaturgia e habilidades cognitivas relacionadas). A partir de então, o LADRA seguiu em parceria com o Colégio Pelotense. Vêm ocorrendo oficinas, aulas, apresentações no auditório em datas festivas, e, assim, o Teatro dos Gatos Pelados começa a se reerguer.
Seguindo com o processo de reestruturação, em 2025, o grupo teatral se apropriou de uma comunicação mais digital e moderna. Reconstituiu o seu histórico desde 1905, tornando suas criações artísticas mais acessíveis, e buscando apoio comunitário e patrocínios para cumprir suas demandas. Então, Pelotas e região tiveram acesso às conquistas, realizações e personagens que compõem a trajetória do Teatro dos Gatos Pelados. Desse modo, os jovens voltaram a se sentir representados e a se identificar com a arte produzida da escola para a sociedade, assim como as gerações mais antigas.

Participantes do Teatro dos Gatos Pelados de 2023 que apareceram em “Passaporte Memória” e se fizeram presentes no 53º Festival de Cinema de Gramado. Da esquerda para a direita, são eles: Laura Gulart, Ingrid Mendes, Isadora Ulguium, Luiza Campos, Joana Naromi, Manuela Damasceno, Vinicius Teixeira, Gabriel Ferreira, Eduardo Teixeira e Joaquim Dias (coordenador do Teatro)
Além disso, a década de 2020 é marcada por outras conquistas dos “gatos pelados”. Em 2023, 12 alunos e três professores integrantes do grupo foram convidados pela produtora “Atama Filmes” para compor o elenco de “Passaporte Memória”. A obra debate memórias e traumas de um imigrante que volta de Paris para sua cidade natal após a Ditadura Civil-Militar. Teve como destaque a participação do estudante Gabriel Ferreira, chamado para representar o personagem principal – Marcelo – durante sua adolescência – o qual, na vida adulta, foi atuado pelo francês Stephane Brodt.
Em 2025, o filme estreou no 53º Festival de Cinema de Gramado. Assim, o grupo viajou para o município da serra gaúcha para assisti-lo. Porém, isso só foi possível com o sucesso de uma mobilização comunitária no Instagram para que pudessem bancar a ida de todos para o Festival. Lá, o filme foi premiado na categoria “Longas-metragens Gaúchos” duas vezes (“melhor ator” para Stephane Brodt, e “melhor atriz” para Lara Trémouroux). Além disso, Gabriel Ferreira foi indicado a concorrer como melhor ator coadjuvante, e “Passaporte Memória” também marcará presença nos telões franceses.
Ainda no ano passado, o lançamento e a exibição em diversos municípios gaúchos de “O Lado Obscuro de Luna” – com Lis Neuwald atuando como a personagem central – também chamou atenção para a importância do Teatro dos Gatos Pelados. Esses podem ser os estopins para o grupo continuar firme no mapa das referências culturais e sob os olhares da comunidade.
O coletivo continua produzindo novos trabalhos autorais todos os anos. A última obra apresentada foi “O Que Acontece Lá Embaixo?”, no dia 8 de dezembro de 2025. A encenação debate – de maneira brincalhona, fictícia e extremamente subjetiva – o abandono de crianças; a segregação socioespacial com um sistema de comunicação que atende a interesses individuais; inclusão e exclusão; além dos paradoxos que envolvem o que a sociedade entende como o bem e o mal, a relação entre “o mundo real e o inferno”.
Hoje em dia, a principal missão da instituição teatral escolar é aproveitar os recentes empurrões e as motivações internas para continuar se reerguendo, melhorar sua estrutura interna, encantar e dialogar com a população, e retomar o alcance e reconhecimento nas suas produções. Para tanto, as criações de espetáculos e as aulas de teatro não são suficientes. O grupo precisa e continua buscando a atenção e mobilização comunitária e dos meios de comunicação para a conclusão de seus objetivos.
“Com certeza, uma coisa que tem que destacar é que, se eles [Teatro dos Gatos Pelados] tivessem mais apoio e ajuda, estariam muito mais à frente e alcançariam muito mais pessoas. Muitos ainda não conhecem, não sabem que podem participar, onde assistir! O trabalho de divulgação do jornalista dentro da cultura é fundamental para que o público entenda e conheça o que está acontecendo. São oportunidades que se está perdendo por não se saber como participar ou contemplar essas obras, esse esforço […]. Por exemplo, um jogo de futebol é fácil de todos saberem […]. Mas sabe quando uma peça de teatro está em cartaz? […] Então, sem dúvida, a assessoria e os canais de imprensa são fundamentais e colocam mais um holofote em cima desses talentos que querem brilhar!”
Carolina Mattos, ex-assessora de imprensa do Teatro dos Gatos Pelados
“Um grupo de uma escola precisa de incentivo e ser levado a sério. Muitas vezes, um exercício teatral te leva a descobrir coisas para a tua vida extremamente importantes, valendo às vezes muito mais que muitas outras aulas convencionais. E, nesses grupos, grandes talentos surgem, e muitos seguem. Mas a grande maioria desiste por ser impedida pela família ou achar que não tem futuro!”
João Bachilli
Ademais – e, talvez, o mais importante – o Colégio Pelotense e o Teatro dos Gatos Pelados querem seguir formando seres humanos qualificados, de bom caráter e senso crítico, de conseguir provocar o debate público, com capacidade de lidar em sociedade (de modo a contribuir para a manutenção da civilização em seus diversos sentidos), de buscar um mundo melhor. Assim, consequentemente, todos serão bem-sucedidos com o que quiserem – seja na área profissional ou na vida pessoal – e serão felizes: coisas que o teatro tem como essência e é extremamente capaz de [trans]formar nas pessoas!

Parte do elenco de “Bira e Conceição” no Rio de Janeiro em 1968
Glórias inesquecíveis
Dentre tantos encantos, uma fase se destaca como o auge da jornada centenária da instituição. No final da década de 1960 e na década de 1970, o já fundado Teatro dos Gatos Pelados viveu um patamar que entrou para a história do teatro sulista e nacional.
Em 1967, o Serviço Nacional de Teatro (SNT) reverenciou a peça “Bira e Conceição”, do Teatro dos Gatos Pelados, convidando-o para o 5º Festival Nacional de Teatro dos Estudantes, no Rio de Janeiro, em 1968.
O Festival Nacional de Teatro dos Estudantes era uma competição entre os melhores grupos teatrais universitários do Brasil. Contribuiu para o lançamento de nomes consagrados como Gianfrancesco Guarnieri, Carlos Vereza, Paulo José, Tereza Rachel, Leila Diniz e Othon Bastos. O evento era administrado por Paschoal Carlos Magno: ator, poeta, diplomata, teatrólogo, crítico literário, ex-vereador do Distrito Federal, embaixador brasileiro, e chefe de gabinete do governo de Juscelino Kubitschek; considerado um renovador do teatro e da dança brasileira.
Sob essas circunstâncias, apenas o feito de ser selecionado para o Festival já era gigante (e foi fortemente comemorado). Vale lembrar que o Teatro dos Gatos Pelados foi o primeiro coletivo de estudantes não universitários a ser selecionado.
Assim, o grupo viaja ao Rio de Janeiro levando “Bira e Conceição”.
A equipe estava a comando do professor Valter Sobreiro Júnior, e não tinha grandes esperanças de premiações. Entretanto, o grupo se superou e se sagrou campeão na categoria musical. A partir daí, o Teatro e o Colégio Pelotense (que, na época, era reconhecido como o maior da América Latina) tem a sua imagem fortalecida. A escola recebe Moção da Câmara de Vereadores de Pelotas. Os jornais pelo Brasil a fora dão destaque à delegação. O vitorioso teatro faz tour pela região sul do Estado para apresentações da obra teatral campeã. A TV Gaúcha, que viria a ser a RBS, transmite a gravação de “Bira e Conceição” para todo o Rio Grande do Sul.

Notícia da vitória feita pelo jornal pelotense Diário Popular, em 21 de fevereiro de 1968
Com o tamanho da reverência, o grupo foi convidado para edições seguintes do Festival Nacional de Teatro dos Estudantes. Na sexta edição, levaram três vezes o primeiro lugar (melhor roteiro, cenografia e figurino) com “O Jovem Rei”. Na sétima edição, vence o prêmio de melhor comédia por voto público, com “Sirenna”. O coletivo pelotense também marcou presença no 6º Festival Nacional do Teatro Infantil, em 1978, quando conquistou o segundo lugar com “A Viagem de um Barquinho”.

Jornal de Pernambuco reconhece força do teatro gaúcho nacionalmenete e Teatro dos Gatos Pelados como “orgulho da STEP”
Além dessas décadas passadas, o momento atual do Teatro dos Gatos Pelados já conta com uma nova glória histórica e que serve de empurrão para a remontada com a participação em filmes, como foi descrito anteriormente.
Assim, o elenco levou para casa títulos materiais. E, também, o coletivo pelotense traz consigo uma série de conquistas imateriais: o sentimento união na escola e com o povo como uma família; a inspiração que o elenco causou e causa em artistas (tanto dentro quanto fora do Teatro dos Gatos Pelados); a esperança do sucesso pessoal de cada teatreiro da escola; além da continuação da retomada ao que, um dia, o grupo já foi.

Moção da Câmara de Vereadores, de 21 de fevereiro de 1968
O Festival do Gato Pelado
Vale lembrar que a história da instituição teatral e a eficiência das criações artísticas não se resumem apenas aos títulos. Em Pelotas, a maior marca do teatro da escola (o qual ainda não tinha o nome que conhecemos) é o Festival do Gato Pelado.
O Festival do Gato Pelado era um show multitalentos, organizado pelos próprios estudantes e pelo Grêmio Estudantil, que compunha a programação da noite do Dia do Gato Pelado. O Dia celebra o Colégio Pelotense e o que os seus alunos tinham a oferecer de seus estudos e produções para a comunidade.
Com pouquíssima interferência da direção, os alunos tinham liberdade total para o Festival: dança, teatro, música, declamações, entre outros modos de expressão artística (o que quisessem!). Havia de tudo um pouco, e tudo feito por eles.
O Festival não tinha uma frequência fixa, mas aconteceu entre 1935 e 1961. Alguns pontos culturais que já sediaram o evento foram o Theatro Sete de Abril (sendo o mais comum), o Theatro Guarany, o Teatro Avenida, o Auditório da Rádio Cultura e o Teatro Apolo. A preparação costumava ser na própria escola. Quando não havia disponibilidade de espaços, ocorria no Colégio São José. Algumas edições tiveram transmissão de rádio para toda a cidade e chegaram a ter quatro horas de duração e lotação máxima.
Conforme Nóris Maria Soares – historiadora formada pela UFPel – as apresentações eram brincalhonas, divertidas, sem faltar com qualidade. O teatro, no evento, teve destaque com algumas peças como “O Escultor”, “O Anjo”, “O Que Restou do Nosso Amor”, “O Ciúme” e “Agarra o Fantasma”.
Uma curiosidade interessante sobre o Festival do Gato Pelado é referente às datas de realização. Inicialmente, o evento costumava acontecer no dia 14 de julho: o mesmo da Tomada da Bastilha durante a Revolução Francesa de 1789. O Grêmio Estudantil escolheu essa referência para rotular o evento como um símbolo de liberdade, igualdade, fraternidade, direitos humanos e ideais iluministas, assim como os lemas da Revolução. Posteriormente, o Festival também ocorreu em 11 de agosto (Dia do Estudante) e 24 de outubro (aniversário do Colégio Municipal Pelotense).

Divulgação do Festival do Gato Pelado de 1942 no Diário Popular
Festivais, no geral, são importantes para o estímulo e crescimento pessoal e cognitivo dos participantes. O Festival do Gato Pelado não foi diferente. Marcou a vida de quem participou e vem mostrando que o ambiente escolar pode ser muito mais do que uma sala de aula. Pode ser espaço de libertação, criação e união!
Assim, a arte e a educação cumprem seu papel. Por vidas, pela evolução humana, por representatividade, pela democracia, e, claro, por liberdade, igualdade e fraternidade!
Legado do passado, reconstrução do presente e futuro brilhante!
Tendo em conta toda essa história, conclui-se que o Teatro dos Gatos Pelados é um coletivo escolar e jovem de suma importância para Pelotas e vem causando diversas formas de influência na sua jornada de 120 anos. É um ponto de fortalecimento pessoal, estímulo a habilidades cognitivas, constituição do indivíduo, exercício da cidadania, socialização, valorização das diferenças, inclusão e estruturação de carreiras. O ciclo entre esses fatores cultiva o amor pela arte e reforça que os colégios são fundamentais para o mantimento da democracia de modo harmônico. Não é apenas uma sala de aula em que o professor oriente o aluno, mas também um lugar em que estudantes têm voz e podem fazer a diferença!
Por outro lado, mesmo que o grupo tenha uma bela trajetória e marcas impactantes, existem obstáculos a serem superados e lições a serem aprendidas. Para tanto, se faz necessário recuperar e trabalhar o extenso passado da instituição teatral (por meio de fontes orais, escritas e jornalísticas); dialogar com a comunidade para auxiliar na reestruturação e revalorização, além de seguir produzindo arte, visando a evolução dos jovens teatreiros.
Hoje, o Teatro dos Gatos Pelados continua funcionando com muito amor, dedicação, e união, tendo muita história para contar. História sobre como a cultura é formadora e transformadora. História sobre o poder que a arte tem de unir e representar um povo. História da força da juventude e da inovação. História da importância e da presença da educação. História de que somos capazes de transformar o mundo com passos simples!
“EVOÉ!”
PRIMEIRA PÁGINA
COMENTÁRIOS