Frutas e açúcar: A tradição dos doces coloniais pelotenses

Nova reportagem com Museu do Doce traz contribuição dos imigrantes europeus para culinária de Pelotas   

Por Isabella Barcellos   

          Primeiro rótulo usado em  1920. quando a Quinta Pastorello inaugurou nova era na indústria dos doces coloniais           Foto: Arquivo Museu do Doce

 

Receitas açucaradas criadas a partir da travessia entre uma Europa castigada por crises econômicas em direção a uma terra com promessas e novas oportunidades. Os doces coloniais fazem parte do patrimônio imaterial pelotense desde a fundação da cidade e foram responsáveis por um amplo desenvolvimento industrial local na primeira metade do século XX. Conhecer mais sobre essa história é garantir a sobrevivência de um legado. Esta é uma parte do que pode ser visto nas exposições do Museu do Doce, na Praça Coronel Pedro Osório, Casarão 8 – bairro Centro, em Pelotas, aberto à visitação de terça-feira a sábado, das 13h às 18h.

 

                              O pêssego tornou-se parte da identidade pelotense, movendo a economia e a memória coletiva                  Foto: Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Pelotas/2021

Estabelecer raízes

Para os imigrantes europeus em meados do século XIX, a chegada ao sul do Rio Grande do Sul veio acompanhada da necessidade de garantir moradia e sustento. Famílias vindas em sua maioria de países como Portugal, Alemanha, Espanha, França e Itália estabeleceram raízes na Antiga Pelotas através do espaço rural. O trabalho desempenhado na agricultura e pecuária tinha seus produtos direcionados às elites charqueadoras e a crescente população urbana pelotense. Com os conhecimentos herdados de seus antepassados e os recursos locais, os colonos passaram a cultivar pomares e desenvolver doces a partir de cada safra.

Os doces coloniais nada mais são do que frutas conservadas em caldas de açúcar e água. Sejam cristalizados, em massa ou compota, os conhecidos doces de tacho (por conta de seu preparo em tachos de cobre) surgiram inicialmente para o consumo familiar. Em toda a região os pomares predominantes eram os de pêssego, figo, goiaba, laranja, maçã, pera e marmelo. Gradativamente, os preparos passaram a ser comercializados em espaços urbanos e ganharam muita popularidade. Segundo o pesquisador e historiador Alcir Bach, os primeiros passos da industrialização na fruticultura colonial foram dados pelo francês Amadêo Gustavo Gastal, em 1874.

No atual distrito de Monte Bonito, Gastal abriu o Bruyères, estabelecimento da região que “fabricou as primeiras compotas artesanais de pêssego em calda, além de vinhos e aguardentes de uvas finas, cultivadas por ele mesmo no local”. Os doces em conserva eram comercializados em vidros esverdeados e se tornaram símbolo de qualidade e modernização. A Colônia Santo Antônio passou a se desenvolver economicamente em volta da fruticultura, dando origem à Quinta Pastorello, a primeira indústria de compotas de pêssego fundada na década de 1920.

 

       Atividades museológicas cumprem com papel de  registrar e divulgar contribuições dos imigrantes para Pelotas      Foto: Fábio Vergara/2015

A subjetividade do que é imaterial

A tradição dos doces coloniais, ao lado da tradição dos doces finos, mistura-se com a história e o desenvolvimento de Pelotas. Entretanto, os doces coloniais se relacionam mais especificamente ao cotidiano das famílias moradoras da zona rural. O professor e diretor do Museu do Doce, Roberto Heiden afirma que saber sobre “a história dos doces [coloniais] é também conhecer o processo de urbanização local e a importância da agricultura familiar para o desenvolvimento da região sul do Estado”.

Enquanto diretor, Roberto testemunha os mais diversos relatos de quem passa pelo Museu. “A reação de cada visitante é subjetiva, geralmente relacionada ao passado dela com estes doces”, relata. “Temos uma exposição sobre as fábricas de doces enlatados. Muitas pessoas que passaram décadas trabalhando em fábricas da região vêm ao museu e se emocionam relatando passagens da própria vida”. Há também aqueles que se lembram da infância, da receita passada por um familiar já falecido ou de outros episódios guardados na memória.

Legado em metamorfose

A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) define o patrimônio imaterial como “as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas – com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados – que as comunidades, os grupos e, em alguns casos os indivíduos, reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. “Os saberes envolvendo os doces coloniais são parte fundamental do patrimônio imaterial pelotense. Além de envolver estes recortes históricos em registros, pesquisas acadêmicas e educação do público (tarefas desempenhadas tanto pelo Museu do Doce quanto por outros órgãos ligados à Universidade Federal de Pelotas), é necessário também analisar possíveis transformações nesse legado.

“Um desafio dos dias atuais é a proibição da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] quanto ao uso de tachos de cobre para preparar as receitas”, conta o professor Heiden. “Os tachos de cobre são proibidos pela vigilância sanitária porque é alegado não serem 100% seguros para o preparo dos doces. No entanto, quem prepara essas receitas diz que só as panelas em liga de cobre garantem o ‘ponto’ certo”. Segundo especialistas, o cobre em contato com as altas temperaturas dos preparos pode desencadear nos seres humanos desordens neurológicas, psiquiátricas, renais e ósseas. E, atualmente, só estão aprovados os modelos com revestimento de ouro, prata, níquel ou bronze. Além disso, frutas como o marmelo não têm a mesma popularidade atualmente, o que prejudica produções em maior escala. 

Toda a tradição passa por transformações com o surgimento das novas gerações. Mas ainda é notável a presença de feiras de agricultura familiar, doces em conservas e receitas familiares no cotidiano local. Valorizar esses saberes é, por consequência, valorizar uma história que muitas vezes parece estar esquecida.

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