Visita ao Museu do Doce em vídeo

Por Gilmar Hermes

No início deste mês, dia 2 de julho, a emissora TV Brasil apresentou uma edição do programa Conhecendo Museus sobre o Museu do Doce de Pelotas, vinculado ao Instituto de Ciências Humanas da UFPel. E, desde o dia 15 de julho, o episódio da temporada deste ano pode ser assistido no Youtube. Enquanto estamos na fase de distanciamento devido à pandemia do novo coronavírus, o vídeo é uma forma de visitarmos o local e sabermos muito sobre a história da região, sua cultura e atividades econômicas.

O diretor do Museu, Roberto Heiden, informa que também estão sendo compartilhados novos conteúdos sobre as tradições doceiras de Pelotas e região nas páginas do Museu do Doce no Facebook e no Instagram. Foram produzidas séries temáticas, explorando questões históricas em torno do doce, personagens e lugares importantes para o surgimento e consolidação das tradições doceiras, registros históricos e memoriais das fábricas de doce em conserva que existiram na região. Também são disponibilizadas entrevistas com colaboradores, imagens e textos sobre o edifício sede do Museu do Doce. Assim como o doce de Pelotas, o prédio do museu também é reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio cultural brasileiro.

“Estamos trabalhando na produção de duas exposições virtuais sobre as tradições doceiras que serão lançadas nas próximas semanas, assim como em alguns vídeos curtos sobre os mesmos temas. Ainda criamos um grupo para que o público do museu possa trocar receitas de doces entre si, durante a pandemia”, descreve Heiden.

O diretor do museu considera que não se pode ter certeza neste momento de quando o museu poderá reabrir fisicamente. “Enquanto a pandemia não estiver controlada certamente não teremos essa possibilidade, mas seguiremos trabalhando com a dimensão virtual do museu. Estamos ansiosos pela reabertura”, diz.

Segundo Heiden, os museus do mundo inteiro foram duramente prejudicados neste ano. Ele observa que alguns estudos chegam a numerar em 90 por cento o número de instituições que já fecharam suas portas por algum período, a maioria ainda sem reabrir. “O setor cultural foi um dos mais prejudicados pela pandemia, em razão das próprias características do meio, e esse mesmo setor infelizmente será um dos últimos a poder retomar normalmente suas atividades”, comenta.

O Museu fica na Praça Coronel Pedro Osório no Centro de Pelotas

Gravações foram em 2019

O programa exibido pela TVE foi gravado em março de 2019. A equipe de produção do programa esteve em Pelotas durante três dias, convivendo com a rotina do museu, seus funcionários e o entorno da cidade. Heiden avalia que os episódios da série “Conhecendo Museus” surpreendem pela qualidade da produção. “Presenciar parte do processo de produção de um dos episódios permite que se perceba que o trabalho desenvolvido é elaborado e cuidadoso”, elogia. Ele recorda que alguns meses antes da gravação propriamente dita, a equipe já estava em contato com o museu para discutir o conteúdo que seria abordado e para começar a organizar o cronograma de atividades da gravação. “O museu não tem responsabilidade no roteiro, mas a equipe museológica colaborou diretamente no contato com profissionais e locais que poderiam prestar depoimentos ou figurar no episódio”, lembra.

O museu colaborou com imagens e informações que tinham origem no seu acervo. No que diz respeito à produção, Heiden acompanhou diretamente os três dias em que a equipe trabalhou no próprio museu com as gravações. Houve um cronograma intenso de atividades que iam desde tomadas diversas da cidade de Pelotas, entrevistas dentro e fora do museu, e o registro de cenas das suas instalações e das exposições. “Foi notável o trabalho paralelo de pesquisa histórica desenvolvido pela equipe, de modo a fomentar o diálogo entre as gravações e o conhecimento produzido em torno do tema”, destaca. Após as gravações, a equipe de produção do programa permaneceu em contato para compreender melhor alguns aspectos históricos e conceituais e o museu seguiu colaborando nesse sentido.

“A equipe do museu de uma forma geral ficou bastante satisfeita com o resultado, e pessoas próximas ao museu de uma forma geral também ficaram. No âmbito da UFPel também houve um retorno muito positivo”, comenta o diretor.

O episódio da série “Conhecendo Museus” é uma coprodução do Instituto Brasileiro de Museus, Ministério do Turismo, Fundação José de Paiva Neto, TV Brasil e da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Tem direção, pesquisa e roteiro de Mariana Palumbo e conta com imagens dos arquivos do Museu do Doce e do Museu da Baronesa.

História viva

O programa descreve que a casa com arquitetura eclética que sedia o museu foi construída em 1878 e foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (IPHAN) em 1977. Em 2001, o prédio estava ameaçado pela falta de manutenção e a UFPel assumiu o trabalho de restauração e adequação das instalações. O Museu do Doce foi criado em 2013. Além de promover exposições permanentes e temporárias, reúne atividades de pesquisa e extensão de vários cursos sobre a tradição doceira e o patrimônio edificado.

O prédio foi residência do casal Francisca Gonçalves Moreira (1838-1910), filha do Barão do Butuí, e de Francisco Antunes Maciel (1847-1917), que veio a exercer cargos políticos, defendendo os interesses provinciais dos charqueadores.

A arquitetura do prédio é no estilo eclético

Conhecido como Barão do Butuí, o pai de Francisca, José Antônio Moreira (1806-1876), foi um dos maiores barões do charque, a carne salgada, símbolo das atividades econômicas dos séculos XVIII e XIX na região, dentro do sistema de trabalho escravista. O gado era usado para a produção de couro – exportado para os Estados Unidos e a Europa – e o uso do sal era o meio de conservar a carne, que serviria para a alimentação nas áreas do país que se voltavam para as plantações de café e cana de açúcar. As embarcações se dirigiam ao norte do país carregadas de carne e voltavam com açúcar, o que motivou a produção de doces.

Ao visitar o museu, é importante olhar para cima, pois os diversos aposentos são identificados por decorações em relevo no teto, ora mostrando de quem eram a casa e os seus respectivos quartos, ora a finalidade do ambiente, como acontece com a sala de jantar.  

Decorações do forro identificam antigos moradores dos quartos

Tradição doceira

O consumo de doces era inicialmente um hábito da elite que passou gradativamente a ser compartilhado por toda a população. Em 1920, quando o charque já estava em decadência com o surgimento dos frigoríficos, os doces da região começam a ter fama nacional

A atual exposição – que poderá ser vista quando houver a reabertura do museu – “Entre o Sal e o Açúcar, o Doce Através dos Sentidos”, explica a tradição do doce com a participação de vários imigrantes e povos que fizeram o caldo cultural de Pelotas. Está relacionada com as pesquisas que contribuíram para o inventário de referências nacionais e o reconhecimento da tradição doceira como patrimônio nacional. Há duas vertentes, os doces de bandeja, ligados à economia das charqueadas e ao luxo da vida urbana no século XIX; e a dos doces coloniais, relacionados à vida rural dos imigrantes de origem italiana, francesa, pomerana e alemã, com a produção de doces a partir de frutas para conservação. 

Local reconstitui época dos “doces de bandeja”

No museu, há objetos simples e sofisticados, textos, documentos, recortes de jornais e fotos que contribuem para a compreensão da história, muitas vezes relacionados aos rituais do chá e do doce. Os tachos são um objeto central na produção de doces, mas há também há outras tecnologias relacionadas à fabricação. Em cartazes, fotos e anúncios é possível conhecer a Confeitaria Nogueira, a com maior duração na cidade, fundada em 1889 e que completou quase cem anos.

Documentos, objetos e imagens lembram tradição doceira

A industrialização dos doces é apresentada como uma contribuição dos imigrantes franceses. Já o produtor das primeiras compotas no final do século XIX foi Amadeo Gustavo Gastal (1828-1903). A princípio eram para o consumo das famílias, mas de 1950 a 1970, havia 61 fábricas de compotas na zona rural. Elas acabaram devido à pressão das grandes indústrias, com tecnologias e equipamentos novos.

Tachos são objetos emblemáticos da tradição doceira

O projeto “Museu do Conhecimento para Todos” propõe a inclusão de pessoas com deficiência visual com a disponibilidade de maquetes tácteis, propiciando assim um melhor aproveitamento da visita ao museu

O Museu do Doce fica na Praça Coronel Pedro Osório, no Casarão 8, mas temporariamente está fechado de maneira a contribuir para o distanciamento em meio à pandemia. Enquanto isso, é imperdível ver o episódio da série Conhecendo Museus. Outros museus também podem ser vistos no site do programa

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