Na caixa de Pandora sobrou a esperança
Jack in the Box é a estreia solo de J-Hope, após 9 anos de BTS
Por Rafaela Stark
O cantor sul-coreano J-Hope, da boyband de sucesso global BTS, lançou em 15 de julho seu primeiro álbum solo. O rapper já havia realizado uma mixtape em 2018, Hope World, e um single em parceria com Becky G em 2019. Durante seus anos de carreira, J-Hope colecionou, ao lado de seus colegas, grandes êxitos na indústria musical, como se tornar o primeiro ato coreano a ser indicado ao Grammy, prêmio de maior prestígio da música.
Quem é J-Hope
Jung Ho-seok é rapper e dançarino do grupo BTS, que estreou em 2013 com o single No More Dream, mas foi com o viral Dope (2015) que eles alcançaram proeminência internacional. O artista contribui com boa parte das composições da banda, assim como na criação de coreografias.
Seu nome artístico “J-Hope” representa a vontade de ser a esperança de seus fãs, além de fazer referência a caixa do mito de Pandora, já que quando a caixa é aberta e o mal se espalha pelo mundo, tudo o que sobra é a esperança.
Em 2016, o álbum Wings trouxe faixas solos para cada um dos membros, J-Hope canta Intro: Boy Meets Evil e Mama, ambas co-escritas por ele. Já em 2018, lança sua primeira mixtape intitulada Hope World, a qual foi produzida pelo cantor.
Jack in the Box
Com Jack in the Box, J-Hope quebra toda imagem que seus fãs e admiradores construíram sobre si. A mixtape Hope World é colorida, tanto na estética quanto nas melodias, porém as composições já mostravam grande profundidade. Em Base Line, Hoseok conta sobre sua caminhada até se tornar um cantor de sucesso, os esforços cometidos em prol de seu sonho.
Eu debutei porque trabalhei mais do que ninguém
Eu dormi menos e fiz mais, por mim
A base principal de uma vida cinematográfica, o pilar
Aqueles que não conseguem voltar a si, retornem
A maior diferença entre as duas produções se dá no visual do artista, que sempre fora vendido como alguém alegre, vívido e colorido. Agora, J-Hope apresenta seu lado mais vulnerável e cru, algo que boa parte de seus fãs já imaginavam, graças a intimidade cultivada entre ambos durante a carreira.
A fim de entender como Jack in the Box impactou seus ouvintes, o Em Pauta entrou em contato com diferentes army’s e as questionou sobre alguns pontos.
O que era esperado para Jack in the Box
Dentre as entrevistadas, Isabela Rodrigues (19) e Lavigne Silva (18) esperavam algo mais parecido com o primeiro trabalho de Jung, uma extensão de Hope World. Já Valéria Braga (25), admitiu que esperava um lado completamente diferente, mais sombrio e introspectivo. Por fim, Elora Gomes (24) não colocou expectativas, mas quando viu o nome do álbum e seu possível conteúdo, se questionou como Hoseok iria abordar essa parte mais soturna de sua personalidade.
Após o lançamento do disco, o choque foi geral. O pré-single More foi algo completamente distinto do que já foi feito antes por ele. A sonoridade pesada e obscura, a mistura de rap com rock lembra a união da banda Aerosmith e do grupo de hip hop Run – D.M.C. nos anos de 1980.
A surpresa das meninas veio acompanhada da apreciação, Rodrigues destacou que conseguiu enxergar o J-Hope do BTS e o Hoseok em suas composições, sendo um mais suave e o outro mais forte, respectivamente. Ela também nomeia o álbum como “um dos melhores que tive a chance de escutar e de apreciar”, vindo de um artista que ela tanto admira.
A jovem Valéria definiu-o como “um soco no estômago”, já que a construção das músicas e a variação sonora são pontos que transformaram a experiência em algo incrível. Ela ressalta que é possível ver um lado mais “humano” de Hope, e simultaneamente intrigante e reflexivo. Isso se dá graças aos questionamentos do cantor sobre si, mas que refletem na vivência da juventude geral. A letra de What if expressa muitas incertezas que indivíduos possuem quando estão no início da vida adulta.
Me perguntei dezenas de vezes
Eu realmente sou assim?
Esperança, positividade, o rosto sempre sorridente
Eu pensei que isso era só o que eu conseguia fazer
Então a minha música, meu discurso, meus sentimentos
Eu fiz só
Mas eu tenho dúvidas
Faixas mais impactantes
Ao serem indagadas acerca de qual faixa mais gostaram, Lavigne apontou What If como sua favorita justamente pela alta capacidade de identificação. A música Safety Zone ficou em evidência graças a vulnerabilidade expressa na letra, Hope se despe de sua confiança e expõe seus sentimentos mais íntimos. Braga coloca a canção como sua preferida por ser a cor do álbum, ela explica que “precisamos dessa zona segura que nos ajuda a nos estabelecermos e seguir em frente”.
Trabalhei duro durante os meus vinte anos
E estou vivendo uma vida sem limites
Respondo orgulhosamente
Mas o zumbido nos meus ouvidos aumenta como se dissesse para olhar pra trás para mim mesmo
O mundo muda rapidamente
Sinto uma nova solidão
Sofro como se não tivesse aliados
Minha vida está ficando solitária
Elora intitula = (Equal Sign) como uma das faixas que mais a marcou. Afirma que o artista oferece seu melhor através da energia doce, vocais e composição instrumental. A música é amplamente elogiada pelos army’s, visto que sua letra é um protesto a favor dos direitos igualitários na sociedade. Através de versos pedindo por mais respeito e amor, Hoseok explica que todos são iguais e procuram pela mesma coisa – um lugar no mundo.
O ódio vai paralisar sua mente
Você precisa ver pelo outro lado
Não custa nada ser gentil
Não somos tão diferentes, eu e você
Procurando por amor sob uma perspectiva diferente
Até encontrarmos aquele sinal de igual
Já Isabela, ao escolher Pandora’s Box, a comparou com um dia de inverno, elucidando sua ideia através da fala “elas me fazem querer achar um modo de ficar quentinha e ao mesmo tempo encarar o tempo frio e lutar pra me animar e levantar da cama, mesmo sabendo que é uma tarefa difícil.
A luz na caixa deixada por Pandora
Coloque-a em um menino puro
Até o fim, emoldurado para ser a esperança do Bangtan
Fui nomeado assim, a cerimônia do destino
Esse é o meu nome
Com o significado profundo da mitologia
No meu caminho
Diferenças e semelhanças
Apesar de serem discos distintos na estética, Hope World e Jack in the Box possuem muitas semelhanças. Ambos abordam os pensamentos de J-Hope sobre si e como ele enxerga o mundo. O primeiro vem como uma introdução a persona integrante do BTS, enquanto o mais recente apresenta quem é, de fato, Jung Hoseok. O elo entre os trabalhos são as letras, majoritariamente compostas pelo cantor, fazendo com que Hope World seja a porta de entrada para Jack in the Box.
A jovem Isabela define as duas produções com uma moeda: “quando você joga a moeda para o alto, você não sabe se vai vir cara ou coroa, e esses dois álbuns são exatamente isso”. Além dessa metáfora, Rodrigues associa os dois às estações do ano, gerando alusões aos dias mais quentes até os mais frios e como isso a afeta.
Em contrapartida, Lavigne e Elora reiteram a diferença de um disco para outro. A primeira estabelece Hope World como algo mais alegre e alto astral, em oposição ao cenário obscuro e som pesado de Jack in the Box. Contudo, ela pontua que os dois possuem canções profundas e tocantes. Gomes percebe que Jung manteve a sonoridade semelhante, com fortes influências de hip hop e dance house, porém com um diferencial no estilo do canto, arriscando notas mais altas não utilizadas com frequência em seu tom.
Todavia, Elora realça a agressividade inesperada presente no álbum, faixas como Arson, o single principal, expressam bem o sentimento de revolta. Ainda que há dessemelhanças, ela ratifica seu ponto de vista como uma mudança mais estética do que nas composições em si.
E por fim, complementando Isabela, Valéria mostra sua perspectiva de que os discos são conectados. Mesmo que Hope World seja mais descontraído, ele agrega na brutalidade e realidade de seu sucessor. Braga aponta que a figura do palhaço presente em Jack in the Box representa o perfil artístico de J-Hope, visto que ele sempre foi considerado muito alegre e engraçado. O disco promove a quebra desse personagem, provando que por trás dessa alegoria, há dores e problemas como todos tem.
Em síntese, o trabalho é sublime, as letras criam uma intimidade entre cantor e ouvinte, fazendo com que todos se identifiquem, até os que não são fãs. J-Hope oferece um conforto com Jack in the Box, conversando sobre seus problemas pessoais que também representam boa parte dos jovens que, assim como ele, são inseguros e têm dúvidas se estão trilhando o caminho certo. Todavia, do mesmo modo que conforta, ele questiona seu receptor sobre suas decisões, o obrigando a refletir acerca de si.