Em “Fim”, Fernanda Torres desmonta o mito da vida perfeita
Em seu romance de estreia, Fernanda Torres explora as contradições da velhice e mostra que o tempo não apaga os erros do passado.
Por Bruna Palharini / Em Pauta
A literatura costuma retratar a morte como o desfecho de uma grande história. Em Fim, romance de estreia de Fernanda Torres, acontece o contrário: é a morte que inaugura a narrativa. Logo nas primeiras páginas, o leitor sabe quem morre, quando morre e em que ordem. O suspense desaparece para dar lugar a uma pergunta muito mais incômoda: o que realmente sobra de uma vida quando o tempo acaba?
Publicado em 2013, o romance acompanha cinco amigos cariocas — Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro — desde a juventude até a velhice. Entre casamentos, traições, excessos, arrependimentos e amizades que resistem às décadas, os personagens revisitam suas escolhas enquanto enfrentam a inevitabilidade da morte.
O maior mérito de Fernanda Torres está em fugir da romantização da velhice. Seus protagonistas não envelhecem mais sábios ou realizados. Pelo contrário: continuam inseguros, egoístas, vaidosos e cheios de contradições. O tempo não os transforma em pessoas melhores, apenas reduz as possibilidades de corrigir os erros que carregaram durante toda a vida.
A autora constrói personagens profundamente humanos justamente porque não tenta torná-los agradáveis. Sílvio é impulsivo e autodestrutivo, Álvaro vive aprisionado pela hipocondria e pelo ressentimento, Ribeiro insiste em preservar uma juventude que já não existe, Neto parece ter levado uma vida correta, mas também convive com frustrações silenciosas. Nenhum deles representa um modelo moral. São homens comuns, marcados por escolhas banais que, somadas, definem quem se tornam.
Embora o título sugira encerramento, Fim é, na verdade, um romance sobre o peso do passado. Cada capítulo mostra que as pequenas decisões do cotidiano moldam destinos muito mais do que os grandes acontecimentos. Casamentos que pareciam eternos acabam, amizades sobrevivem por hábito, paixões se transformam em lembranças desconfortáveis. Fernanda Torres parece dizer que a vida não muda de uma vez, mas lentamente, até que um dia percebemos que ela já passou.
A escrita acompanha essa proposta. O texto é direto, irônico e bem-humorado, sem perder a sensibilidade. A autora alterna momentos de humor ácido com reflexões melancólicas, produzindo um contraste que impede a narrativa de se tornar excessivamente pesada. O Rio de Janeiro também funciona como personagem: a praia, os bares e os apartamentos de Copacabana ajudam a construir o retrato de uma geração da classe média carioca que acreditava viver uma juventude permanente.
Outro aspecto interessante é a maneira como o livro questiona certos ideais de sucesso. Ao chegar à velhice, quase nenhum personagem encontra a realização que imaginava na juventude. O trabalho, o casamento, o dinheiro e o prestígio revelam-se insuficientes para preencher o vazio deixado pelo tempo. Essa percepção torna Fim um romance profundamente atual, especialmente em uma sociedade que incentiva a busca constante por produtividade, felicidade e sucesso, como se existisse uma fórmula capaz de garantir uma vida plenamente satisfatória.
Talvez a maior qualidade da obra seja justamente sua honestidade. Fernanda Torres não oferece lições de moral nem respostas fáceis sobre envelhecer. Em vez disso, apresenta personagens que convivem com culpa, desejo, medo e solidão até os últimos dias. O resultado é um romance que trata da morte sem transformar a vida em algo extraordinário. Afinal, o verdadeiro drama não está em morrer, mas em descobrir, tarde demais, que muitas oportunidades ficaram pelo caminho.
Fim demonstra que Fernanda Torres é tão talentosa na literatura quanto no teatro e na televisão. Seu romance de estreia evita sentimentalismos e constrói uma narrativa inteligente, divertida e melancólica na medida certa. Ao terminar a leitura, fica a sensação de que o título não se refere apenas ao encerramento da vida dos personagens, mas também ao fim das ilusões que construímos sobre nós mesmos ao longo dos anos.



