A Posologia Desequilibrada de uma Sociedade Rasa

Najara Leal / Em Pauta

O filme intitulado A Substância foi lançado dia 19 de setembro de 2024 no Brasil com gênero terror/ficcção científica e duração de 2 horas e 20 minutos, dirigido pela roteirista francesa Coralie Fargeat, também conhecida pelos longas metragens Vingança (2017) e Reality+ (2018). A produção cinematográfica retrata a vida de Elisabeth Sparkle renomada por apresentar um programa de televisão de exercícios aeróbicos, um clássico da tv americana das décadas de 80 e 90, após ver sua carreira acabar ao ser demitida pelo seu chefe Harvey, e no meio dessa crise de identidade, um laboratório lhe oferece uma substância que promete revolucionar a sua vida. Sob essa perspectiva, vai além de uma simples história envolta de personagens: faz com que o público tenha uma conexão e sensibilização com a dor da personagem principal, ao mesmo passo que Fargeat utiliza muito bem do subgênero body horror para tratar de um problema atual. Se antes o medo estava ligado ao sobrenatural, hoje, o medo concentra-se muito mais no corpo e na perda de controle sobre si mesmo, refletindo as ansiedades de cada época.

Sendo assim, A Substância é um dos filmes mais falados do ano de 2024, por excelentes razões, trazendo debates importantes em um mundo dominado por pressões estéticas e padrões de beleza cada vez mais inalcançáveis, tudo isso, tecendo uma crítica a inúmeras vertentes sociais, sendo uma delas, ao “prazo de validade” da mulher na indústria do entretenimento, baseada totalmente em uma ideia patriarcal, onde são objetificadas e só possuem valor dentro de uma faixa etária específica. Tanto que, a personagem interpretada por Demi Moore, Elisabeth, no momento de sua demissão já sabe o motivo que leva Harvey a tomar essa decisão, que é exclusivamente por conta da sua idade, e o filme reforça essa ideia com várias sequências visuais que dão a entender que o seu “prazo de validade” na industria do entretenimento, enquanto mulher, expirou.

A história retratada pelo filme, mesmo sendo fictícia representa muitas mulheres reais que passam por isso dentro da indústria, hollywood tem um longo histórico de descartar mulheres conforme envelhecem, enquanto atores homens continuam a ter papéis de destaque. Um exemplo notório disso é no longa metragem Top Gun, em que na continuação do 1º filme, o par romântico de Maverick, interpretado por Tom Cruise, foi simplesmente substituído, afinal, Tom Cruise não deixou transparecer a idade, mas Kelly McGillis sim? Mulheres são comparadas e substituídas na indústria todos os dias. É deprimente e insistente essa ideia de um “prazo de validade”, como se mulheres estivessem longe de serem pessoas e fossem apenas produtos expostos em prateleiras de mercados. Essa lógica não se limita ao olhar dos outros: ela também é internalizada pelas próprias mulheres, que passam a enxergar o envelhecimento com repulsa e a acreditar que seus corpos precisam ser modificados para continuarem sendo aceitos. Assim como no caso de Demi Moore, diversas atrizes da indústria também enfrentam a realidade deplorável que nos encontramos pela busca de uma beleza e juventude inalcançáveis. O filme ressalta como essas questões estão intrinsicamente ligadas á industria do entretenimento e á sociedade em que vivemos, destacando a luta de mulheres que buscam preservar sua identidade, talento e relevância em um sistema que muitas vezes as vê apenas como objetos de consumo visual.

Contudo, o longa é capaz de despertar um choque de realidade e até retalhar os sentimentos dos telespectadores, mostrando como é angustiante essa busca pela “perfeição” e o que uma pessoa é capaz de fazer consigo mesma para alcançar os padrões expostos por uma sociedade rasa. Coralie Fargeat utiliza perfeitamente a escolha de cada ângulo, zoom nos detalhes, cores, sons amplificados, causando um ataque sensorial para chamar atenção, implicar desconforto e passar a mensagem do filme de forma que todos possam compreender. E acerca dessa mensagem, Demi Moore entendeu bem e emocionou a todos com seu discurso no Globo de Ouro ao ganhar o prêmio de melhor atriz por seu papel nesse filme: […] “Vou deixar vocês com uma coisa que acho que este filme transmite. Nesses momentos em que achamos que não somos inteligentes o suficiente, bonitos o suficiente, magros o suficiente, bem-sucedidos o suficiente ou basicamente ‘só não o suficiente’, uma mulher me disse: ‘Saiba que você nunca será o suficiente, mas pode entender o seu valor se simplesmente deixar de lado a régua de medidas.

É justamente a partir dessa ideia de insuficiência que o título desta resenha começa a fazer sentido. Posologia é a indicação da maneira correta de utilizar um medicamento, definindo a dose, os horários, os intervalos entre as administrações e a duração do tratamento. Na sociedade em que vivemos, porém, é como se ela própria assumisse o papel de uma espécie de doutor, prescrevendo uma “posologia” para o corpo feminino, determinando doses de beleza, juventude, magreza e perfeição que devem ser seguidas para que uma mulher seja considerada suficientemente bonita, relevante ou desejável. O problema é que essa posologia é desequilibrada. Ninguém deveria precisar dizer a uma mulher quem ela deve ser, o que deve fazer e, principalmente, como deve ser sua aparência. Elisabeth Sparkle representa, portanto, não apenas uma mulher que busca recuperar a juventude, mas alguém que foi levada a acreditar que precisava modificar a si mesma para voltar a ter valor. No fim, a maior violência não está apenas na transformação do corpo, mas na forma como a nossa sociedade ensina as mulheres a enxergarem seus próprios corpos como algo que nunca é suficiente.

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