Como a psicolinguística pode contribuir para o ensino de línguas?

A psicolinguística investiga como a mente lida com a linguagem, considerando a produção, a compreensão e a aquisição de línguas. A sua vertente orientada à prática é a psicolinguística aplicada (Gabryś-Barker, 2022), que se preocupa em resolver questões relacionadas a neurodivergências, inteligência artificial, questões forenses e ensino de línguas. Como o foco do nosso grupo de pesquisa é o ensino, apresentamos, a seguir, algumas contribuições da área e do próprio grupo.

Rastreamento ocular (eye-tracking)

Imagine poder ver, em tempo real, para onde os olhos do leitor vão enquanto ele lê. É isso que o rastreamento ocular permite: registrar onde o olhar se fixa, por quanto tempo e quando volta atrás para reler. Como esses movimentos acompanham o que a mente faz com o texto, funcionam como um microscópio da leitura, revelando o que um questionário jamais captaria. Foi assim que pesquisadores notaram que leitores experientes voltam mais a partes anteriores do texto para extrair as ideias principais, enquanto os menos proficientes leem de forma linear e vão se desmotivando, sem distinguir o que é central do que é secundário (Rayner, 1998). Mas o uso mais instigante talvez seja outro: mostrar aos próprios alunos os registros de seu olhar, para que percebam como leem e que há formas mais eficazes de fazê-lo. Experiências iniciais nessa direção (Maia, 2018) sugerem que transformar o aluno em observador da própria leitura pode ajudá-lo a se tornar um leitor mais atento e estruturado.

Consciência metalinguística

Um leitor competente vai além do que está explicitamente apresentado no texto. Maia (2019) propõe que, para transformar leitores lineares incompletos no que ele chama de ‘leitores estruturantes’, isto é, capazes de perceber como os diferentes elementos textuais contribuem para a estrutura e para a mensagem total do texto, é necessário promover atividades em sala de aula que reflitam “sobre o nível mais microscópico do período”. É necessário, então, propor uma análise dos elementos gramaticais como produtores de sentido.

Essas habilidades estão relacionadas à consciência metalinguística, uma capacidade que permite analisar a(s) língua(s), sistematizando, selecionando e processando a língua em categorias estabelecidas (Bialystok; Ryan, 1985). Dessa forma, torna-se possível notar padrões, refletir sobre ambiguidades e pensar a língua sob diversas perspectivas. Esse processo pode ser exemplificado pela aquisição da linguagem: as crianças identificam regularidades na formação dos verbos e passam a aplicar a mesma regra a verbos novos, construindo, assim, hipóteses sobre o funcionamento da língua. Explorar a consciência metalinguística deve ser um elemento central no ensino de línguas, visando não apenas à formação de leitores e interlocutores críticos, mas também de comunicadores proficientes. 

Influências translinguísticas

Quando uma pessoa aprende uma nova língua, ela não deixa de lado as línguas que já conhece. Pelo contrário: seus conhecimentos anteriores podem aparecer na maneira como fala ou escreve na nova língua. Por exemplo, um estudante que fala espanhol e está aprendendo português pode usar uma palavra, uma estrutura ou uma forma de expressão do espanhol ao produzir uma frase em português. Esse tipo de influência, também chamado de transferência, é natural no processo de aprendizagem e ajuda a mostrar a interação constante entre as línguas do repertório de uma pessoa.

Estudos desenvolvidos no Laplimm, como os de Freitas (2021), Oliveira (2024) e Silva (2025), mostram que as influências não acontecem de maneira aleatória. Elas podem ser favorecidas, por exemplo, pelas semelhanças entre as línguas que o estudante conhece, pelo uso mais recente de uma determinada língua e pelo contexto em que a nova língua é aprendida. Assim, aquilo que muitas vezes é visto simplesmente como um “erro” pode revelar como o aprendiz está mobilizando seus conhecimentos linguísticos para construir sentidos em uma nova língua. Compreender as influências também pode contribuir para o ensino de línguas. Em vez de tratar os erros apenas como algo que precisa ser corrigido, professores podem observar o que eles revelam sobre o processo de aprendizagem e criar atividades que explorem as semelhanças e diferenças entre as línguas. Dessa forma, o repertório multilíngue dos estudantes deixa de ser visto como um problema e passa a ser reconhecido como um recurso importante para a aprendizagem.

Julgamento de aceitabilidade

O teste de julgamento de aceitabilidade é um método que solicita aos participantes que avaliem a estrutura das sentenças que constituem o objeto de pesquisa. De acordo com Sá, Ciríaco e Godoy (2022), o teste é baseado na ação de julgar, que é uma atividade humana do dia a dia dependente da compreensão e do processamento do objeto. Um exemplo de atividade em que a ação de julgar ocorre de forma natural, segundo os autores, é a leitura de textos escritos, na qual o leitor julga o texto lido a partir da sua interpretação, das suas concepções e do seu processamento. Dessa forma, o processamento do texto e sua compreensão influenciam diretamente a avaliação do leitor.

Assim como na leitura de textos, na tarefa de julgamento de aceitabilidade, o participante recebe o estímulo, faz sua leitura, compreende-o e processa-o e, por fim, atribui-lhe uma nota. Esse julgamento é feito a partir da percepção sobre a sentença ser ou não aceitável na língua que está sendo analisada. Na prática, isso significa, por exemplo, apresentar ao participante uma sentença como “O menino comeu o bolo”, que tende a ser julgada como plenamente aceitável. Outras sentenças (por exemplo, “O menino come para o bolo”) geram estranheza e uma nota mais baixa, evidenciando que o julgamento não é uma resposta de certo ou errado, mas uma escala. Uma construção será julgada como aceitável ou não a partir do seu processamento, do seu significado e do contexto em que está inserida (Oliveira; Sá, 2013). 

Em relação ao ensino, a tarefa de julgamento de aceitabilidade pode ser utilizada para colher informações que ajudem o professor a entender melhor o conhecimento linguístico dos estudantes. O professor pode empregá-la como instrumento de diagnóstico, identificando quais estruturas da língua já estão consolidadas na gramática internalizada dos estudantes e quais ainda não estão, o que orienta o planejamento didático. Essa tarefa também ajuda a evidenciar como esses fatores influenciam a avaliação linguística. Isso é relevante, pois mostra que as dificuldades de julgamento podem refletir não apenas o desconhecimento da norma, mas também dificuldades de processamento, permitindo ao professor diferenciar a forma de avaliar as produções e leituras dos estudantes. Por fim, por ser uma ferramenta de fácil acesso a dados quantitativos, os professores podem utilizá-la para levantar informações sobre o conhecimento linguístico de seus estudantes. 

Acesso lexical e o papel de cognatos

Uma das contribuições da psicolinguística aplicada ao ensino de línguas está relacionada aos aspectos cognitivos do contato entre as línguas (Gabryś-Barker, 2022). O cérebro de um falante bilíngue não isola os sistemas linguísticos em “gavetas” separadas, tampouco “desliga” uma língua para ativar a outra de forma completa, pois as informações linguísticas estão interconectadas e influenciam-se mutuamente (Grosjean, 1989). Embora as línguas pareçam operar de modo independente no uso cotidiano, elas compartilham estruturas mentais, permitindo que as habilidades de leitura, escrita e pensamento crítico desenvolvidas em um idioma sejam transferidas para o outro (Cummins, 1985).

Essa dinâmica estende-se também ao “dicionário mental”, isto é, um inventário com todas as palavras que uma pessoa conhece (Dijkstra, 2005), cuja ativação é fundamental para a compreensão de qualquer mensagem (Leffa, 2000). No uso dos chamados “cognatos verdadeiros” (transparentes), como information e informação, family e família, ou problem e problema, as formas e os significados parecidos  funcionam como pontes que ligam os idiomas, reduzindo o esforço de compreensão de significados durante o processo de aprendizagem de uma nova língua (Limberger, 2018; Oberste-Berghaus, 2025). Essas relações produtivas operam inclusive na relação entre língua minoritária e língua majoritária. Duas pesquisas do Laplimm já mostraram essas relações, inclusive, entre hunsriqueano e alemão (Limberger, 2018) e pomerano e inglês (Griep, 2021). 

Sendo assim, mais do que explicar como as palavras são acessadas na mente de uma pessoa bilíngue (Dijkstra, 2005), esses achados podem trazer mudanças para o ensino. Entender que a primeira língua (L1) deixa de ser um obstáculo ou uma interferência negativa para o aprendizado da segunda língua (L2) é um apoio para facilitar a leitura e a expansão do vocabulário. Na prática, os aprendizes podem buscar as semelhanças entre as palavras usando o vocabulário que já conhecem na sua L1 para que possam compreender o contexto de um texto na L2.

Em conjunto, as pesquisas mostram que entender como usamos e aprendemos uma língua pode ajudar a melhorar a maneira como ensinamos. Ao observar o que acontece durante a leitura, a compreensão e a aprendizagem de uma nova língua, a psicolinguística nos permite ir além de simplesmente identificar acertos e erros: podemos entender melhor por que eles acontecem. Aproximar esse conhecimento da sala de aula pode ajudar professores a reconhecer as dificuldades dos alunos, aproveitar melhor seus conhecimentos prévios e pensar em estratégias de ensino mais adequadas às diferentes formas de aprender. É assim que a pesquisa sobre a linguagem pode contribuir, de forma concreta, para o ensino de línguas.

 

Referências
BIALYSTOK, E.; RYAN, E. B. A metacognitive framework for the development of first and second language skills. In: Forrest-Pressley, D. L.; MacKinnon, G. E.; Waller, T. G. (orgs.). Metacognition, cognition, and human performance. New York: Academic Press, 1985. p. 207-252.
CUMMINS, J. Bilingualism and Special Education: Issues in Assessment and Pedagogy. San Diego: College-Hill Press Inc., 1985.
DIJKSTRA, T. Bilingual Visual Word Recognition and Lexical Access. In: KROLL, J. F.; GROOT, A. M. B. de (orgs.). Handbook of Bilingualism: Psycholinguistic Approaches. New York: Oxford University Press, 2005. p. 179–201.
FREITAS, R. P. B. de. Influências translinguísticas lexicais na produção oral em espanhol por brasileiros adultos imigrantes falantes de português, espanhol e inglês. 2021. Dissertação (Mestrado em Letras) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal de Pelotas.
GABRYŚ-BARKER, D. (Applied) Psycholinguistics for Foreign Language Teachers: A Diachronic Perspective. Anglica Wratislaviensia, v. 60, n. LX, p. 151–69, 2022.
GRIEP, G. W. Influências do pomerano na leitura de palavras cognatas em inglês. 2021. 153 f. Dissertação (Mestrado em Letras) – Centro de Letras e Comunicação, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas. 2021.
GROSJEAN, F. Neurolinguists, beware! The bilingual is not two monolinguals in one person. Brain and Language, v. 36, n. 1, p. 3-15, 1989.
KELLERMAN, E. Now you see it, now you don’t. In: GASS, S.; SELINKER, L. (orgs.) Language transfer in language learning. Rowley: Newbury House Publishers, 1983. p. 112–134.
LEFFA, V. J. Aspectos externos e internos da aquisição lexical. In: LEFFA, V. J. (org.). As palavras e sua companhia; o léxico na aprendizagem. Pelotas, 2000, v. 1. p. 15-44.
LIMBERGER, B. K. Processamento da leitura multilíngue e suas bases neurais: um estudo sobre o hunsriqueano. 2018. 269f. Tese (Doutorado em Linguística) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018.
MAIA, M. Pensando (Psico)linguisticamente, experimentalmente, educacionalmente. In: PILATI, E.; NAVES, R.; SALLES, H. (orgs.). Novos Olhares para a Gramática na sala de aula: questões para estudantes, professores e pesquisadores. Campinas: Editora Pontes, 2019. p. 93-118.
MAIA, P. Oficina de leitura e produção de imagem crítica: uma experiência de trabalho como princípio educativo. In: CHEDID, F. et al. (orgs.). Tecnologia para o Desenvolvimento Social: Diálogos NIDES/UFRJ. Marília: Editora Lutas Anticapital, 2018. p. 439-456.
OBERSTE-BERGHAUS, N. Cognates in Foreign Language Learning: A Cognitive and Linguodidactic Perspective. Revista Românească pentru Educaţie Multidimensională, Iasi, v. 17, n. 2, p. 1-37, 2025.
OLIVEIRA, C.; SÁ, T. M. M. de. Métodos off-line em psicolinguística: julgamento de aceitabilidade. ReVeLe, n. 5, p. 01-20, 2013.
OLIVEIRA, G. Z. de. A influência da língua espanhola na língua portuguesa em contexto de fronteira Brasil-Uruguai: o emprego da regência verbal em textos escritos por estudantes do Ensino Fundamental II. 2024. Dissertação (Mestrado em Letras) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2024.
RAYNER, K. Eye movements in reading and information processing: 20 years of research. Psychological Bulletin, [S. l.], v. 124, n. 3, p. 372-422, 1998.
SÁ, T. M. M. de; CIRÍACO, L.; GODOY, M. Julgamento de aceitabilidade: um método de fácil acesso a dados quantitativos. In: OLIVEIRA, C. S. F. de; SÁ, T. M. M. de. (orgs.). Métodos experimentais em psicolinguística. 1. ed. São Paulo: Pá de Palavra, 2022. p. 27-29.
SILVA, L. R. da. Influências translinguísticas lexicais na produção escrita em português brasileiro como língua adicional: um estudo com migrantes internacionais adultos multilíngues falantes de espanhol. 2025. Dissertação (Mestrado em Letras) – Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal de Pelotas, Pelotas, 2025. Continue lendo

Leitura dinâmica: atalho ou cilada?

Leia 10 mil palavras por minuto! Termine um livro em uma hora!

Você provavelmente já esbarrou em anúncios assim. Cursos e aplicativos de leitura dinâmica prometem multiplicar por dez a sua velocidade de leitura. A oferta é tentadora; quem não quer dar conta de um monte de textos na metade do tempo? Só que há um problema: quando o objetivo é entender o que se lê, a promessa não se cumpre.

O que vendem, no fundo, são dois truques: treinar os olhos para “engolir” uma linha inteira de uma vez ou eliminar o movimento dos olhos exibindo uma palavra por vez em altíssima velocidade (é o que faz o aplicativo Spritz, por exemplo).

Mas por que não funciona? Primeiro, por pura anatomia: enxergamos com nitidez apenas três ou quatro letras a cada parada do olhar. A pesquisadora Fernanda Ferreira lembra que, para compreender um texto, os olhos precisam pousar em quase todas as palavras (Ferreira, 2025, p. 61). É biologicamente impossível ler uma linha inteira de uma vez. Quem tenta está, na verdade, lendo uma ou duas palavras e adivinhando o resto. Pior: no método Spritz, os olhos nem se movem, o que impede de voltar para reler um trecho confuso. Essas voltas não são aleatórias: o cérebro mira exatamente o ponto que gerou a confusão, e cerca de 10% dos nossos movimentos oculares são esses reparos (Traxler, 2023, p. 387).

Segundo, porque já somos leitores rápidos. O pesquisador Matthew Traxler explica que um leitor fluente e habitual lê perto do limite possível (cerca de 200 a 250 palavras por minuto) e que não sobra muito para “turbinar”. 

Imagem gerada com a ferramenta Claude Design – Modelo Opus 5

Então, não dá para ler com mais eficiência? Dá, mas sem mágica:

  1. Ajuste o modo ao objetivo. Para pegar só a ideia geral, passar os olhos pode funcionar; e para achar um dado específico, basta caçá-lo na página. Mas para compreender de verdade, não há saída: é preciso ler com calma e atenção.
  2. Nada é de graça: mais velocidade compromete a compreensão. Quanto mais rápida for a leitura, menos o leitor vai absorver do texto.
  3. O que realmente nos torna leitores melhores é um processo a longo prazo: vocabulário, conhecimento sobre o assunto e muita prática. Quanto mais você sabe, mais os olhos pulam o que já consegue prever e, assim, a leitura fica um pouco mais rápida.

No fim das contas, leitura dinâmica não é atalho: é uma troca. E, para entender de verdade, nenhum truque substitui a leitura atenta, frequente e variada. Ah, e aquele livro em uma hora? Só se você não se importar de não entender nada dele.

Referências
FERREIRA, Fernanda. Reading. In: FERREIRA, Fernanda. Psycholinguistics: a very short introduction. Oxford: Oxford University Press, 2025. p. 59- 
TRAXLER, Matthew J. Reading. In: TRAXLER, Matthew J. Introduction to psycholinguistics: understanding language science. Oxford: Wiley-Blackwell, 2023.

Por uma Psicolinguística decolonial: o que são os acrônimos WEIRD (DIRETO), não-WEIRD, MIND, MYAL e BIPOC?

A língua é um componente complexo da existência humana, porque seu propósito não é somente facilitar a comunicação, mas também expressar a individualidade e cultura do falante. A ciência linguística, fragmentada em subáreas, nem sempre consegue captar essas questões. Bylund (2022) discorre sobre as lacunas na pesquisa psicolinguística, uma vez que a maioria dos estudos da área são feitos por e com o mesmo padrão de indivíduos: ocidentais, brancos, neurotípicos, ouvintes e falantes de línguas hegemônicas. A problemática trazida pelo autor é extremamente relevante: se a pesquisa conta com apenas um grupo seleto de participantes, então ainda não há compreensão da mente humana na sua totalidade, mas a compreensão de somente um tipo de mente em um tipo de contexto. Surgem, então, diversos questionamentos: de que forma falantes de línguas minoritárias ou marginalizadas usam as línguas? De que forma essas línguas são capazes de influenciar a percepção de seus falantes? De que forma a cultura desses falantes influencia o uso da língua e vice-versa? Uma ciência que não se preocupa em analisar essas questões deixa lacunas. Estudos com outras amostras podem dar início a descobertas mais profundas, complementar aquelas já feitas e possibilitar outras generalizações.

As amostras WEIRD, acrônimo cunhado por Henrich, Heine e Norenzayan (2010), resultam em dados de participantes e contextos ocidentais (western), acadêmicos (educated), provenientes de países industrializados (industrialized), ricos (rich) e democráticos (democratic). Isso contrasta com a realidade experienciada pelo restante da população mundial, representada pelas amostras não-WEIRD, que incluem informantes de contextos distintos daquele grupo dominante em termos de poder. Segundo Polinsky (2018), a população WEIRD corresponde a somente 12% da população mundial. Embora a expressão “não-WEIRD” abranja a maioria das pessoas do mundo, essa diversidade ainda é frequentemente negligenciada em pesquisas ou, quando estudada, sofre com preconceitos e exotificação. No nosso grupo de pesquisa, tentamos adaptar o acrônimo WEIRD para o contexto brasileiro. Achamos necessário criar outra expressão, seguindo um processo de domesticação na tradução. Criamos o acrônimo “DIRETO”: contexto democrático, industrializado, rico, escolarizado, tradicional e ocidental.

A adoção de um contexto de pesquisa “WEIRD” ou “DIRETO” como grupo ideal de estudo dificulta e desestimula, por exemplo, a pesquisa com falantes de línguas minoritárias, contempladas mais frequentemente pela Sociolinguística. De modo geral, na Psicolinguística, as pesquisas sobre bi-/multilinguismo são feitas através das “lentes do monolinguismo” (Leivada et al., 2023, p. 2). Certas comunidades linguísticas, no entanto, são, por natureza, bi-/multilíngues, não havendo um grupo “monolíngue” de comparação. Ademais, tal prática cria a ideia de que o monolinguismo é a “norma”, o padrão a ser esperado, enquanto o bi-/multilinguismo é o evento “atípico” a ser estudado. A consequência dessa visão é a falta de representatividade das línguas minoritárias nos estudos, enquanto pesquisas com línguas hegemônicas/majoritárias são amplamente desenvolvidas e aceitas pela comunidade acadêmica. Segundo Figueroa (2024), isso contribui para a manutenção da supremacia branca – uma vez que seus perfis linguísticos são adotados como os mais desejáveis na pesquisa, enquanto os de populações racializadas sofrem apagamento, tanto no âmbito acadêmico quanto social.

A pesquisa em Psicologia em geral tem sido criticada por ter uma amostragem excessiva de populações WEIRD (Kirk, 2023). Podemos atribuir essa crítica também à (Psico)Linguística, que tem o problema de realizar uma grande quantidade de pesquisas com um número relativamente pequeno de línguas. No entanto, mesmo em ambientes WEIRD, as experiências dos falantes de línguas minoritárias, Indígenas, Não padrão e Dialetais (MIND, em inglês: minority, indigenous, nonstandard(ized) and dialect variety) nem sempre são capturadas juntamente com o uso de uma língua padrão de maior prestígio. O novo acrônimo incentiva os pesquisadores a MIND sua linguagem – (do inglês mind ‘ter em mente, considerar’), desenvolver formas mais inclusivas de capturar as experiências linguísticas dos falantes MIND, para se afastar das distinções binárias de “bilíngue” e “monolíngue”, reconhecer diferentes dialetos do português e conceder o status de língua a variedades linguísticas independentes, com o objetivo de reconhecer a diversidade linguística. Esse reconhecimento deve abranger, igualmente, as línguas de sinais, como a Libras, frequentemente marginalizada por não se tratar de uma língua oral, mas sinalizada. Devido à estigmatização, muitos multilíngues não reconhecem o seu multilinguismo, porque somente a língua de prestígio é válida. 

Outro acrônimo utilizado para contestar a supremacia de algumas amostras na pesquisa psico(linguística) é o MYAL (monolingual, young, avaliable, literate), proposto por Polinsky (2018). A ênfase em falantes idealizados, isto é, monolíngues, jovens, disponíveis e letrados pode estar distorcendo a percepção sobre os achados linguísticos. Pessoas que não correspondem ao padrão MYAL são, por vezes, consideradas como atípicas, mesmo sendo a maioria.

Essas questões na Psicolinguística (assim como em outras ciências) têm relação direta com a colonialidade, uma vez que parte do pressuposto de que certas línguas e nacionalidades são mais interessantes para a pesquisa do que outras (Figueroa, 2024). Essa ideia automaticamente exclui falantes de línguas marginalizadas pela sociedade, contribuindo para perpetuar preconceitos linguísticos, como o de que crianças de classes sociais baixas têm um mau desenvolvimento linguístico porque seu repertório linguístico é de “pior qualidade” – sem levar em consideração que esta noção existe devido à métrica de comparação: o repertório linguístico de crianças de classe social alta (Figueroa, 2024). Esse tipo de pensamento tenta colonizar linguisticamente (e, por consequência, culturalmente) falantes que se encontram fora do contexto WEIRD, percebido como superior. Por essa razão, muito tem se discutido a respeito de uma Linguística decolonial (Figueroa, 2024), que busca incluir falantes marginalizados pela classe dominante na pesquisa científica.

Apesar de ainda ter muito a avançar, a Linguística tem dado passos significativos a caminho de se tornar uma ciência mais autoconsciente dos próprios vieses. Além da discussão sobre decolonialidade e sobre o conceito WEIRD, outro exemplo é a promissora área da Raciolinguística, que tem como principal preocupação a forma como raça e língua interagem e quais as influências que uma é capaz de ter sobre a outra. Dessa forma, a área é capaz de investigar assuntos sociais importantes, como o fato de pessoas pretas, indígenas e pardas – do acrônimo em inglês BIPOC (black, indigenous, people of color) muitas vezes serem percebidas como indivíduos em necessidade de correção (e recriminação) pelo modo como utilizam a língua. No Brasil, preferimos a sigla “NI” (negros e indígenas), pois não é comum o uso do termo “pessoas de cor” por aqui.

Na Raciolinguística, estudos sobre o vernáculo afro-americano (AAVE) têm mostrado inúmeras lacunas e preconceitos por parte da sociedade estadunidense. No Brasil, temos o “pretuguês”, uma variedade que mistura o português com termos, estruturas e expressões africanas — variedade esta que, assim como o AAVE dos EUA, recebe pouca valorização social e científica. O termo ganhou visibilidade a partir da autora Conceição Evaristo, que o utilizou em sua escrita para demonstrar como a língua é um aspecto importante para a resistência negra brasileira.

Tendo em vista a relevância das discussões apresentadas, que agora ganham espaço no âmbito acadêmico da (Psico)linguística, levar em consideração questões sociais do uso da língua e diferentes amostras não deve ser um fazer restrito à Sociolinguística, uma vez que os campos do conhecimento devem se complementar, investigando o uso e processamento linguístico em seus diversos contextos.

Referências 

BYLUND, E. WEIRD Psycholinguistics. In: WILLIAMS, Q.; DEUMERT, A.; MILANI, T. M. (orgs.). Struggles for Multilingualism and Linguistic Citizenship. Bristol/Jackson: Multilingual Matters, 2022. p. 183–200. 

FIGUEROA, M. Decolonizing (psycho)linguistics means dropping the language gap rhetoric. In: CHARITY HUDLEY, A. H.; MALLINSON, C.; BUCHOLTZ, M. (orgs). Decolonizing Linguistics. Nova Iorque: Oxford Academic, 2024. p. 157–172. 

HENRICH, J.; HEINE, S. J.; NORENZAYAN, A. The weirdest people in the world? Behavioral and Brain Sciences, v. 33, n. 2–3, p. 61–83, 2010.

KIRK, N. W. MIND your language(s): Recognizing Minority, Indigenous, Non-standard(ized), and Dialect variety usage in “monolinguals.” Applied psycholinguistics, v. 44, n. 3, p. 358–364, 2023. 

LEIVADA, E. et al. Bilingualism with minority languages: Why searching for unicorn language users does not move us forward. Applied psycholinguistics, v. 44, n. 3, p. 384–399, 2023.

MORAES, D. Nós falamos pretuguês!. Mundo Negro, 4 maio 2022. Disponível em: https://mundonegro.inf.br/nos-falamos-pretugues/. Acesso em: 25 nov. 2024. 

POLINSKY, M. Heritage language and their speakers. Cambridge: Cambridge University Press, 2018. 

Texto escrito de forma coletiva pelos integrantes do Laplimm no período de outubro a dezembro de 2024. 

Como o multilinguismo beneficia a sociedade?

Em seu livro “The Power of Language: How the Codes We Use to Think, Speak, and Live Transform Our Minds”, a Professora Viorica Marian explica os diversos benefícios do multilinguismo, tanto para a pessoa que usa várias línguas como para a sociedade onde várias línguas coexistem. Os seus efeitos são percebidos em aspectos positivos na cognição, bem como em aspectos externos, como a conexão com pessoas de diferentes culturas e a possibilidade de uma visão mais criativa e diversa no âmbito profissional.

Como mostra a pesquisadora, nossas experiências individuais não estão dissociadas do mundo e são parcialmente moldadas por fatores externos. Portanto, apresentamos alguns dos benefícios que o multilinguismo pode oferecer à sociedade:

A preservação da cultura de diferentes povos

As línguas não são apenas instrumento de comunicação, também são símbolos dos ideais e valores carregados por um povo. A língua é parte essencial da cultura! Dessa forma, uma comunidade que têm sua língua marginalizada ou “extinta” perde não apenas os aspectos formais de comunicação específicos daquela língua, mas também a história de seu povo, além de suas memórias e apegos emocionais mais significativos. Enquanto isso, o restante da sociedade também sofre uma perda: diferentes formas de enxergar o mundo, os conhecimentos produzidos e as narrativas naquele idioma.

Aumentar a consciência sobre a diversidade linguística e cultural de um povo e diminuir o preconceito

Diversos aspectos de uma língua (cor, gênero, tempo, entre outros) são capazes de influenciar como os seus falantes percebem a realidade. A mídia, os políticos e outras pessoas em posição de poder sabem disso. Através do contato com diversas línguas, a sociedade acaba desenvolvendo uma consciência mais apurada sobre as diversas formas de se falar a respeito de um assunto. Além disso, as pessoas podem notar que as palavras e termos utilizados, assim como a forma que uma frase é construída, são capazes de expressar o viés de um interlocutor.

A compreensão dos objetivos por trás de um discurso faz com que cidadãos se tornem mais críticos ao se depararem com debates, propagandas e notícias. Essa visão pode os proteger de governos e líderes totalitários, da propagação de notícias tendenciosas e de outros cenários onde a língua é utilizada como principal ferramenta em táticas de controle e persuasão.

O fomento do acesso à cultura

Uma sociedade multilíngue significa uma sociedade mais multicultural, uma vez que a arte e a cultura são produzidas em todas as línguas, sem exceção. Quantas vezes queremos ler um livro ou assistir a um filme, mas ele está disponível somente em sua língua original, da qual não temos conhecimento? Através do multilinguismo, os diversos profissionais e órgãos do governo que promovem ações culturais podem compreender a importância do contato com o cinema, a arte, a literatura e a poesia mundial, diversificando as possibilidades de tradução e legendagem de obras estrangeiras (para além do inglês) e a possibilidade da promoção de eventos que visem ao contato com diversos idiomas.

A valorização do multilinguismo possibilita que percebamos que todas as línguas têm seu valor e aprendê-las nunca é um desperdício – muito pelo contrário, é a abertura de um novo mundo, com novos saberes, tradições, culturas e princípios. 

Dessa forma, é possível compreender que os benefícios advindos da promoção do multilinguismo na sociedade são diversos. Seu impacto é capaz de tornar a sociedade mais diversa e avançada tecnológica, política e humanamente. 

Referência

MARIAN, V. The Power of Language: How the Codes We Use to Think, Speak, and Live Transform Our Minds. 4. ed. New York: Dutton, 2023.

Como o multilinguismo torna a pessoa superpoderosa?

O multilinguismo, de forma geral, é o uso de três ou mais línguas pelo indivíduo. Esse fenônemo pode ser estudado a nível social e individual. Em seu mais recente livro, “The Power of Language: How the Codes We Use to Think, Speak, and Live Transform Our Minds” (2023), a Professora Viorica Marian (diretora do Laboratório de Bilinguismo e Psicolinguística, Universidade Northwestern, nos Estados Unidos), multilíngue de origem moldava, busca dissecar as principais características e os benefícios do multilinguismo no comportamento humano e na mente. A partir de exemplos de fenômenos culturais e, especialmente, experimentos científicos, a autora expõe as principais complexidades do multilinguismo com relação à cognição, bem como seus efeitos na experiência e interpretação de realidade individuais e subjetivas.

Como mostra a pesquisadora, ser multilíngue significa possuir diversos “poderes”, que muitas vezes não são reconhecidos e apresentados na mídia e na cultura popular. Isso faz com que os falantes multilíngues não tenham consciência de seu próprio potencial. Consequentemente, a maioria das pessoas não sabe da importância de aprender línguas. Portanto, a professora Viorica se empenha em expor os diversos poderes do multilinguismo, sendo alguns deles:

  • Diminuir o preconceito: valorizar a aprendizagem de uma nova língua pode fazer com que o indivíduo também enxergue valor em sua cultura e povo. Dessa forma, a pessoa pode se tornar mais tolerante e aberta às diversas realidades culturais existentes.
  • Fomentar relações interpessoais e profissionais com novas pessoas: utilizar diversas línguas pode auxiliar a ampliar a variedade de pessoas do seu círculo, seja no âmbito profissional, aumentando as possibilidades de emprego; ou no âmbito pessoal, como no caso de amizades e outros relacionamentos.
  • Servir como um “presente a si mesmo”: o processo de aprender uma nova língua é mais divertido e fácil do que as pessoas imaginam, e seus efeitos são mais do que favoráveis ao indivíduo em comparação com as dificuldades. Além de poder colher os vários bens advindos do estudo de línguas, o indivíduo pode fazê-lo com um sentimento de realização pelo seu próprio esforço. 
  • Diminuir a chances de ser manipulado linguisticamente: um dos efeitos do estudo da língua é compreender a sua importância não somente na vida pessoal, mas também em nossa sociedade. Consequentemente, isso faz com que o indivíduo perceba os padrões e nuances no uso da linguagem em diversas situações de possível manipulação, como, por exemplo, política ou religiosa.
  • Estimular a criatividade: falantes de múltiplas línguas costumam fazer mais conexões entre itens diferentes, devido à vasta quantidade de palavras e conceitos em seu sistema linguístico. Essas associações contribuem para o nascimento de novas ideias, uma maior abertura a novas experiências e fortalecem a habilidade de resolver problemas. Além disso, pesquisas sobre criatividade cognitiva mostram que relações interculturais também contribuem para aumentar a criatividade, como em inovações no ambiente de trabalho e empreendedorismo, e criatividade ao escolher nomes para produtos de marketing.
  • Fortalecer a capacidade cognitiva: o conhecimento de múltiplas línguas não é o único meio de melhorar a saúde cerebral, mas é capaz de reforçar todos os benefícios cognitivos encontrados em outras atividades, como, por exemplo, a capacidade de fazer conexões entre palavras e sentidos (encontrado no hábito de leitura) e o atraso na manifestação da demência (encontrado na atividade física). Conforme a pesquisadora, a mente multilíngue faz uma espécie de “ginástica cerebral” por conta da constante troca de informações entre as línguas.

Ao ter em vista os diversos proveitos psicológicos, sociais e profissionais advindos do multilinguismo, é possível reconhecer a importância do conhecimento e do estudo de línguas. O multilinguismo é uma habilidade valiosa não apenas para o indivíduo, mas também para a sociedade como um todo, ampliando a compreensão e o apreço entre pessoas de diferentes culturas.

Referência
MARIAN, V. The Power of Language: How the Codes We Use to Think, Speak, and Live Transform Our Minds. 4. ed. New York: Dutton, 2023.

Como criar um filho bilíngue?

Para a autora do livro “The Power of Language: How the Codes We Use to Think, Speak, and Live Transform Our Minds” (2023), Prof. Dra. Viorica Marian (diretora do Laboratório de Bilinguismo e Psicolinguística, Universidade Northwestern), línguas são super-poderes. É através da língua que agimos no mundo e sobre o mundo. 

Criar crianças bilíngues/multilíngues é, nesse sentido, muni-las de super-poderes. A Prof. Dra. Claudia Maria Riehl, da Universidade Luís Maximiliano de Munique na Alemanha, elencou, em texto de 2006, algumas vantagens do multilinguismo precoce, tais como: maior facilidade em trocar entre as línguas, melhor entendimento de regras gramaticais, aprendizagem de leitura facilitada e capacidade aprimorada de reconhecimento das palavras.

Se você quer criar seus filhos de modo bilíngue ou multilíngue, não há receitas, mas podemos dar algumas dicas, sugeridas pela pesquisadora Marian (2023):

1. Aumente a quantidade de estímulo linguístico

Quanto maior for o estímulo linguístico oferecido à criança, maior será seu vocabulário e melhor o seu desenvolvimento gramatical – logo, maiores as chances de adquirir a língua. Exponha seu filho à língua tanto quanto possível!

2. Aumente a qualidade do estímulo linguístico

Estímulos vindos de outras pessoas são mais benéficos do que as telas. Interaja com a criança na língua-alvo: converse, leia livros e brinque com ela. Varie as palavras que você usa com as crianças.

3. Conte com a ajuda de amigos e família

Interagir com múltiplos falantes da língua-alvo pode ajudar no desenvolvimento bilíngue. Tios, primos, avós e amigos podem ser aliados dos pais nessa tarefa.

4. Encontre estratégias que funcionem para sua família

Não existe um método perfeito ou infalível para criar filhos bilíngues. Escolha a abordagem que funcione melhor para a sua família. Citamos alguns exemplos abaixo, mas você pode desenvolver suas próprias estratégias:

  • Um pai, uma língua: ou seja, cada cuidador falará uma língua com a criança. Por exemplo: a mãe falará espanhol e o pai, português. Essa é uma estratégia comum quando os pais possuem línguas maternas diferentes.
  • Língua de casa vs. língua da rua: dentro de casa, uma língua é falada pela família (normalmente, uma língua minoritária ou de herança). Na escola e nos demais ambientes de convívio social, ela irá adquirir a língua majoritária.

5. Observe a criança e dê comandos claros

Preste atenção na criança e em seus interesses. Há maior chance de a aprendizagem ser bem sucedida se as atividades envolvendo a língua forem interativas e interessantes. No entanto, às vezes, é necessário dar comandos para que a criança use uma língua ou outra. Os pais podem dar um comando social a mais, como “Tira o dedo da tomada, pega o garfo e fala na língua X.”

6. Considere uma educação bilíngue, se possível 

Escolas com programas bilíngues ou cursos de idiomas para crianças também são boas opções e auxiliam na manutenção de um bilinguismo/multilinguismo precoce. 

7. Continue pesquisando sobre desenvolvimento bilíngue

Existem muitos mitos sobre a criação bilíngue. Procure informações em fontes confiáveis. 

Referências
MARIAN, V. The Power of Language: How the Codes We Use to Think, Speak, and Live Transform Our Minds. 4. ed. New York: Dutton, 2023.
RIEHL, C. M. Aspekte der Mehrsprachigkeit: Formen, Vorteile, Bedeutung. In: HEINTS, D.; MÜLLER, J. E.; REIDBERG, L. (Eds.). Mehrsprachigkeit macht Schule. Kölner Beiträge zur Sprachdidaktik: Reihe A. Duisburg: Gilles und Francke Verlag, 2006. v. 4. p. 15–24.

Como aprimorar a sua aprendizagem de línguas estrangeiras?

Com base no livro “The Power of Language: How the Codes We Use to Think, Speak, and Live Transform Our Minds” (2023), da Prof. Dra. Viorica Marian (diretora do Laboratório de Bilinguismo e Psicolinguística, Universidade Northwestern, nos Estados Unidos), elencamos algumas estratégias que podem ser aplicadas para aprender um novo idioma na vida adulta:

1. Faça aulas

Além dos cursos particulares, muitas universidades e/ou instituições públicas oferecem cursos de idiomas. Existem várias boas opções! A Universidade Federal de Pelotas promove cursos de línguas presenciais de alemão, espanhol, francês e inglês a baixo custo. Para quem prefere aulas online, a plataforma Kultivi oferece cursos de várias línguas gratuitamente. Outra opção são as aulas da iniciativa Idiomas sem Fronteiras, que oferece cursos online e presenciais de seis idiomas diferentes em várias universidades do país. 

2. Use aplicativos

Se você não tem tempo para fazer aulas, a tecnologia é sua aliada. Existem vários aplicativos para você escolher (por exemplo, Duolingo, Babel e Wlingua). Muitos deles contam com uma proposta de gamificação, que estimula a produção de serotonina e dopamina e torna a aprendizagem mais divertida. 

3. Viaje, se possível 

Imersão e contato com falantes nativos são excelentes modos de aprender uma língua. Busque por programas de intercâmbio junto à sua universidade ou agências privadas. A UFPel, por exemplo, possui uma série de universidades parceiras, com as quais estabelece acordos de mobilidade. Programas de voluntariado ou AuPair também são boas opções. 

4. Se relacione com falantes de outras línguas

Interaja com pessoas que falem outras línguas! Essa é uma das maneiras mais fáceis (e divertidas!) de aprender outra língua, ao mesmo tempo em que amplia seu círculo social. Algumas universidades possuem grupos de conversação em língua estrangeira. Você também pode praticar através do Tandem. Nesse método de aprendizagem, um falante nativo ou estudante da língua “A” que está aprendendo a língua “B” se encontra com um falante nativo ou estudante da língua “B” que está aprendendo a língua “A” para conversarem e aprimorarem suas habilidades linguísticas. Isso pode acontecer presencialmente ou online através do aplicativo

5. Crie hábitos

Faça da aprendizagem uma parte do seu dia a dia. Consistência é a chave! Mas não é preciso estudar através dos livros ou de aulas todos os dias. Ouvir músicas, assistir a filmes ou jogar jogos na sua língua-alvo também são formas de se expor à língua. 

6. Use técnicas mnemônicas e associações

Mnemônicos são técnicas de memorização. Existem vários mnemônicos: músicas, acrósticos, acrônimos, siglas etc. Um mnemônico com o qual muitos estudantes de alemão se deparam, por exemplo, é o acrônimo “TeKaMoLo” – uma técnica para lembrar a ordem das informações em uma frase (tempo, causa, modo e local). Para os aprendizes de inglês, há o acrônimo OSASCOMP, que refere-se à ordem dos adjetivos – opinião, tamanho (size), idade (age), formato (shape), cor, origem, material e propósito. Além disso, faça associações entre palavras parecidas entre as línguas (por exemplo, information e informação), crie pontes e narrativas que funcionem para você.

7. Encontre estratégias que funcionem para você

Existem muitos caminhos para aprender uma nova língua. Escolha aquele que se encaixe no seu dia a dia e no seu estilo de aprendizagem.

Independentemente do caminho escolhido, o maior investimento para aprender uma nova língua é o tempo. Quanto mais tempo a pessoa dedicar às estratégias corretas, mais rápida e melhor poderá ser a aprendizagem.

Referência
MARIAN, V. The Power of Language: How the Codes We Use to Think, Speak, and Live Transform Our Minds. 4. ed. New York: Dutton, 2023.

Autora: Gabriela Cassiano. Graduanda em Letras – Português e Alemão e bolsista de iniciação científica do CNPq, vinculada ao Laplimm.

Por que o multilinguismo é um plus?

As línguas não ficam isoladas dentro da mente de uma pessoa multilíngue. Pelo contrário: elas interagem entre si, formando um sistema, o que oferece as seguintes vantagens.

A aprendizagem de uma nova língua é diferente entre uma pessoa que não tem experiência de aprendizagem de línguas estrangeiras e um multilíngue. O segundo, já familiarizado com o processo de aprender um idioma, possui uma série de estratégias de aprendizagem que o monolíngue não possui. Ademais, o multilíngue possui uma carga de conhecimentos linguísticos e uma consciência metalinguística fortalecida. Ele pode fazer consultas ao seu sistema linguístico, procurando semelhanças e relações entre as línguas que já conhece e a língua nova. Todos esses fatores facilitam a aprendizagem de uma língua em relação com a outra. 

O multilinguismo também pode levar a uma “reorganização” dos neurônios, criando novas conexões e otimizando o funcionamento do cérebro, mesmo nas áreas do cérebro que não estão diretamente ligadas à língua e a seu uso. Os processos de estudar e usufruir de múltiplas línguas também estão ligados a um aumento nas substâncias cinzenta e branca do cérebro, além de ajudar a desacelerar sua deterioração devido à idade.

Além disso, o multilinguismo pode estar relacionado a vantagens cognitivas. Estudos demonstram que indivíduos multilíngues podem apresentar desempenhos mais aprimorados em tarefas de flexibilidade mental, criatividade, atenção seletiva e capacidade de resolução de problemas. Isso ocorre porque o cérebro precisa constantemente alternar entre os diferentes sistemas linguísticos por meio das funções executivas. Dessa forma, o uso de duas ou mais línguas fortalece um sistema cognitivo. 

Do ponto de vista social, a conscientização sobre o multilinguismo cria uma consciência étnica e identitária de falantes de línguas minoritárias sobre as suas línguas e as outras. Os estudos nessa área podem contribuir para a preservação e valorização de línguas minoritárias.

Por fim, saber falar várias línguas pode abrir uma série de portas: melhores cargos e salários na profissão, viajar sem medo e conhecer novas pessoas e culturas. O multilinguismo, portanto, só tem a acrescentar aspectos positivos na vida do indivíduo. Por isso, o esforço de aprender línguas vale a pena.

 

Referências

GABRYŚ-BARKER, D. Applied Linguistics and Multilingualism. In: SINGLETON, D. M.; ARONIN, L. (Eds.). Twelve lectures on multilingualism. Bristol: Channel View Publications, 2018. p. 35–64.

HUFEISEN, B.; JESSNER, U. The Psycholinguistics of Multiple Language Learning and Teaching. In: SINGLETON, D. M.; ARONIN, L. (Eds.). Twelve lectures on multilingualism. Bristol: Channel View Publications, 2018. p. 65–100.

MARIAN, V. The Power of Language: How the Codes We Use to Think, Speak, and Live Transform Our Minds. 4. ed. Nova Iorque: Dutton, 2023.

RIEHL, C. M. Aspekte der Mehrsprachigkeit: Formen, Vorteile, Bedeutung. In: HEINTS, D.; MÜLLER, J. E.; REIDBERG, L. (Eds.). Mehrsprachigkeit macht Schule. Kölner Beiträge zur Sprachdidaktik: Reihe A. Duisburg: Gilles und Francke Verlag, 2006. v. 4, p. 15–24.

WITYNSKI, Max. Why multilingualism is a ‘superpower’ – Northwestern Now.

Autora: Gabriela Cassiano. Graduanda em Letras – Português e Alemão e bolsista de iniciação científica do CNPq, vinculada ao Laplimm.

O que é didática do multilinguismo?

De acordo as pesquisadoras Karen Pupp Spinassé e Maria Lidiani Käfer (2017, p. 397), a didática do multilinguismo é “[…] uma abordagem de ensino em que se trabalhe, com o aprendiz, mais de uma língua, simultaneamente, levando-se em conta os diferentes sistemas com os quais o aluno possa estar (ou possa vir a estar) em contato” .

Através da didática do multilinguismo, busca-se desenvolver a competência plurilíngue dos alunos, incentivando-os a utilizar os conhecimentos que já possuem sobre um idioma para facilitar a aprendizagem de outro. 

Como utilizar a didática do multilinguismo?

  • Reconhecer e integrar na aula os conhecimentos linguísticos prévios dos estudantes;
  • Incentivar e auxiliar os alunos a estabelecer conexões entre as línguas; 
  • Propor atividades que sensibilizem e conscientizem os alunos para as línguas e o papel que elas exercem na sociedade; 
  • Transferir estratégias de aprendizagem de uma língua estrangeira para a outra;
  • Aprimorar a consciência (meta)linguística.

Confira, na imagem abaixo, um exemplo de atividade no âmbito da didática do multilinguismo, elaborada e aplicada por Karen Pupp Spinassé e Maria Lidiani Käfer (2017, p. 406) com estudantes de contextos multilíngues (de contato português e Hunsrückisch).

Nesse exercício, os estudantes deveriam identificar as línguas apresentadas e completar as lacunas com as línguas que sabem. Dessa forma, eles podem se abrir para outras línguas e estabelecer conexões entre as línguas, verificando que possuem conhecimentos que podem ajudar a aprender línguas tipologicamente semelhantes.

Referências
KUMARAVADIVELU, Bala. Beyond Methods: Macrostrategies for Language Teaching. Illustrated ed. New Haven: Yale University Press, 2002.
SPINASSÉ, Karen Pupp; KÄFER, Maria Lidiani. A conscientização linguística e a didática do multilinguismo em contextos de contato Português-Hunsrückisch. Gragoatá, v. 22, n. 42, p. 393–415, 2017.

Autora: Gabriela Cassiano. Graduanda em Letras – Português e Alemão e bolsista de iniciação científica do CNPq, vinculada ao Laplimm.

O que é Hipótese Sapir-Whorf?

Também conhecida como Relativismo Linguístico, a Hipótese Sapir-Whorf, que estamos estudando no grupo de pesquisa, explora a relação entre língua e pensamento. Mais especificamente, como as línguas que sabemos podem afetar o modo como nos lembramos das coisas ou em que prestamos atenção.

A Hipótese baseia-se em duas ideias principais:

  • Diversidade Linguística: as línguas diferem entre si, tanto no nível estrutural quanto no conceitual;
  • Relatividade Linguística: as línguas podem influenciar o modo como pensamos;

Wilhelm von Humboldt via as línguas como sistemas de interpretação da realidade. Isso não quer dizer que diferentes línguas representem diferentes mundos, mas que a estrutura e o vocabulário de uma língua podem fazer seus falantes notarem e expressarem certos aspectos da realidade com mais detalhe ou frequência do que os falantes de outra língua.

A teoria é especialmente relevante nos estudos do Multilinguismo porque pode ajudar a compreender fenômenos como a transferência conceitual – quando o modo de pensar em uma língua afeta como nos expressamos em outra, e a investigar como aprendemos novas maneiras de entender e expressar conceitos como cor, tempo, espaço, movimento, gênero, dentre outros.

Referências
BASSETTI, Benedetta; COOK, Vivian. Language and Billingual Cognition. Londres: Psychology Press, 2010.
PAVLENKO, Aneta. The Bilingual Mind: and what it tells us about language and thought. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.
FERREIRA, Renan Castro; MOZZILLO, Isabella. Transferência Conceitual: O Relativismo Linguístico na Aprendizagem de Segunda Língua. Alfa: Revista de Linguística (São José do Rio Preto), v. 65, e12799, 2021.