A psicolinguística investiga como a mente lida com a linguagem, considerando a produção, a compreensão e a aquisição de línguas. A sua vertente orientada à prática é a psicolinguística aplicada (Gabryś-Barker, 2022), que se preocupa em resolver questões relacionadas a neurodivergências, inteligência artificial, questões forenses e ensino de línguas. Como o foco do nosso grupo de pesquisa é o ensino, apresentamos, a seguir, algumas contribuições da área e do próprio grupo.
Rastreamento ocular (eye-tracking)
Imagine poder ver, em tempo real, para onde os olhos do leitor vão enquanto ele lê. É isso que o rastreamento ocular permite: registrar onde o olhar se fixa, por quanto tempo e quando volta atrás para reler. Como esses movimentos acompanham o que a mente faz com o texto, funcionam como um microscópio da leitura, revelando o que um questionário jamais captaria. Foi assim que pesquisadores notaram que leitores experientes voltam mais a partes anteriores do texto para extrair as ideias principais, enquanto os menos proficientes leem de forma linear e vão se desmotivando, sem distinguir o que é central do que é secundário (Rayner, 1998). Mas o uso mais instigante talvez seja outro: mostrar aos próprios alunos os registros de seu olhar, para que percebam como leem e que há formas mais eficazes de fazê-lo. Experiências iniciais nessa direção (Maia, 2018) sugerem que transformar o aluno em observador da própria leitura pode ajudá-lo a se tornar um leitor mais atento e estruturado.
Consciência metalinguística
Um leitor competente vai além do que está explicitamente apresentado no texto. Maia (2019) propõe que, para transformar leitores lineares incompletos no que ele chama de ‘leitores estruturantes’, isto é, capazes de perceber como os diferentes elementos textuais contribuem para a estrutura e para a mensagem total do texto, é necessário promover atividades em sala de aula que reflitam “sobre o nível mais microscópico do período”. É necessário, então, propor uma análise dos elementos gramaticais como produtores de sentido.
Essas habilidades estão relacionadas à consciência metalinguística, uma capacidade que permite analisar a(s) língua(s), sistematizando, selecionando e processando a língua em categorias estabelecidas (Bialystok; Ryan, 1985). Dessa forma, torna-se possível notar padrões, refletir sobre ambiguidades e pensar a língua sob diversas perspectivas. Esse processo pode ser exemplificado pela aquisição da linguagem: as crianças identificam regularidades na formação dos verbos e passam a aplicar a mesma regra a verbos novos, construindo, assim, hipóteses sobre o funcionamento da língua. Explorar a consciência metalinguística deve ser um elemento central no ensino de línguas, visando não apenas à formação de leitores e interlocutores críticos, mas também de comunicadores proficientes.
Influências translinguísticas
Quando uma pessoa aprende uma nova língua, ela não deixa de lado as línguas que já conhece. Pelo contrário: seus conhecimentos anteriores podem aparecer na maneira como fala ou escreve na nova língua. Por exemplo, um estudante que fala espanhol e está aprendendo português pode usar uma palavra, uma estrutura ou uma forma de expressão do espanhol ao produzir uma frase em português. Esse tipo de influência, também chamado de transferência, é natural no processo de aprendizagem e ajuda a mostrar a interação constante entre as línguas do repertório de uma pessoa.
Estudos desenvolvidos no Laplimm, como os de Freitas (2021), Oliveira (2024) e Silva (2025), mostram que as influências não acontecem de maneira aleatória. Elas podem ser favorecidas, por exemplo, pelas semelhanças entre as línguas que o estudante conhece, pelo uso mais recente de uma determinada língua e pelo contexto em que a nova língua é aprendida. Assim, aquilo que muitas vezes é visto simplesmente como um “erro” pode revelar como o aprendiz está mobilizando seus conhecimentos linguísticos para construir sentidos em uma nova língua. Compreender as influências também pode contribuir para o ensino de línguas. Em vez de tratar os erros apenas como algo que precisa ser corrigido, professores podem observar o que eles revelam sobre o processo de aprendizagem e criar atividades que explorem as semelhanças e diferenças entre as línguas. Dessa forma, o repertório multilíngue dos estudantes deixa de ser visto como um problema e passa a ser reconhecido como um recurso importante para a aprendizagem.
Julgamento de aceitabilidade
O teste de julgamento de aceitabilidade é um método que solicita aos participantes que avaliem a estrutura das sentenças que constituem o objeto de pesquisa. De acordo com Sá, Ciríaco e Godoy (2022), o teste é baseado na ação de julgar, que é uma atividade humana do dia a dia dependente da compreensão e do processamento do objeto. Um exemplo de atividade em que a ação de julgar ocorre de forma natural, segundo os autores, é a leitura de textos escritos, na qual o leitor julga o texto lido a partir da sua interpretação, das suas concepções e do seu processamento. Dessa forma, o processamento do texto e sua compreensão influenciam diretamente a avaliação do leitor.
Assim como na leitura de textos, na tarefa de julgamento de aceitabilidade, o participante recebe o estímulo, faz sua leitura, compreende-o e processa-o e, por fim, atribui-lhe uma nota. Esse julgamento é feito a partir da percepção sobre a sentença ser ou não aceitável na língua que está sendo analisada. Na prática, isso significa, por exemplo, apresentar ao participante uma sentença como “O menino comeu o bolo”, que tende a ser julgada como plenamente aceitável. Outras sentenças (por exemplo, “O menino come para o bolo”) geram estranheza e uma nota mais baixa, evidenciando que o julgamento não é uma resposta de certo ou errado, mas uma escala. Uma construção será julgada como aceitável ou não a partir do seu processamento, do seu significado e do contexto em que está inserida (Oliveira; Sá, 2013).
Em relação ao ensino, a tarefa de julgamento de aceitabilidade pode ser utilizada para colher informações que ajudem o professor a entender melhor o conhecimento linguístico dos estudantes. O professor pode empregá-la como instrumento de diagnóstico, identificando quais estruturas da língua já estão consolidadas na gramática internalizada dos estudantes e quais ainda não estão, o que orienta o planejamento didático. Essa tarefa também ajuda a evidenciar como esses fatores influenciam a avaliação linguística. Isso é relevante, pois mostra que as dificuldades de julgamento podem refletir não apenas o desconhecimento da norma, mas também dificuldades de processamento, permitindo ao professor diferenciar a forma de avaliar as produções e leituras dos estudantes. Por fim, por ser uma ferramenta de fácil acesso a dados quantitativos, os professores podem utilizá-la para levantar informações sobre o conhecimento linguístico de seus estudantes.
Acesso lexical e o papel de cognatos
Uma das contribuições da psicolinguística aplicada ao ensino de línguas está relacionada aos aspectos cognitivos do contato entre as línguas (Gabryś-Barker, 2022). O cérebro de um falante bilíngue não isola os sistemas linguísticos em “gavetas” separadas, tampouco “desliga” uma língua para ativar a outra de forma completa, pois as informações linguísticas estão interconectadas e influenciam-se mutuamente (Grosjean, 1989). Embora as línguas pareçam operar de modo independente no uso cotidiano, elas compartilham estruturas mentais, permitindo que as habilidades de leitura, escrita e pensamento crítico desenvolvidas em um idioma sejam transferidas para o outro (Cummins, 1985).
Essa dinâmica estende-se também ao “dicionário mental”, isto é, um inventário com todas as palavras que uma pessoa conhece (Dijkstra, 2005), cuja ativação é fundamental para a compreensão de qualquer mensagem (Leffa, 2000). No uso dos chamados “cognatos verdadeiros” (transparentes), como information e informação, family e família, ou problem e problema, as formas e os significados parecidos funcionam como pontes que ligam os idiomas, reduzindo o esforço de compreensão de significados durante o processo de aprendizagem de uma nova língua (Limberger, 2018; Oberste-Berghaus, 2025). Essas relações produtivas operam inclusive na relação entre língua minoritária e língua majoritária. Duas pesquisas do Laplimm já mostraram essas relações, inclusive, entre hunsriqueano e alemão (Limberger, 2018) e pomerano e inglês (Griep, 2021).
Sendo assim, mais do que explicar como as palavras são acessadas na mente de uma pessoa bilíngue (Dijkstra, 2005), esses achados podem trazer mudanças para o ensino. Entender que a primeira língua (L1) deixa de ser um obstáculo ou uma interferência negativa para o aprendizado da segunda língua (L2) é um apoio para facilitar a leitura e a expansão do vocabulário. Na prática, os aprendizes podem buscar as semelhanças entre as palavras usando o vocabulário que já conhecem na sua L1 para que possam compreender o contexto de um texto na L2.
Em conjunto, as pesquisas mostram que entender como usamos e aprendemos uma língua pode ajudar a melhorar a maneira como ensinamos. Ao observar o que acontece durante a leitura, a compreensão e a aprendizagem de uma nova língua, a psicolinguística nos permite ir além de simplesmente identificar acertos e erros: podemos entender melhor por que eles acontecem. Aproximar esse conhecimento da sala de aula pode ajudar professores a reconhecer as dificuldades dos alunos, aproveitar melhor seus conhecimentos prévios e pensar em estratégias de ensino mais adequadas às diferentes formas de aprender. É assim que a pesquisa sobre a linguagem pode contribuir, de forma concreta, para o ensino de línguas.
Referências
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Documento produzido coletivamente pelos integrantes do Laplimm.