Inverno impulsiona a produção de lã natural e movimenta o artesanato em Pelotas
A atividade serve como complemento de renda para famílias locais, mas os artesãos ainda enfrentam desafios de valorização frente à indústria.
Por Otávio de Mattos Pinto / Em Pauta
O inverno, que historicamente impulsiona o consumo de artigos de lã no Rio Grande do Sul, é o momento de maior fôlego para o casal de artesãos Neida Mattos e Valmir Mattos. Há 24 anos, Neida dedica-se a transformar a lã de ovelha em produtos artesanais, mantendo um ciclo de produção que preserva tradições rurais ameaçadas pela industrialização.
Ela aprendeu o ofício em um curso promovido pelo Senar. Inicialmente, dedicava-se à confecção de edredons de lã e foi a única integrante do grupo original a permanecer na atividade. Desde então, ampliou a produção e consolidou o artesanato como fonte de renda da família. “Trabalho com lã crua, fazendo todo o processo desde lavar, desfiar, cardar, fazer o fio e a tecelagem”, explica Neida.

Com o auxílio da roca, a lã é torcida e unida, formando o fio utilizado na confecção das peças artesanais.
O trabalho é uma parceria familiar que se expandiu após a aposentadoria de Valmir. Após anos de dedicação como caminhoneiro, encontrou na nova fase da vida uma vocação para o trabalho manual: curioso, começou com a marcenaria e, a cerca de uma década, passou a atuar ativamente no trabalho com a lã ao lado de sua esposa. Foi ele, inclusive, quem desenhou e construiu as próprias ferramentas de trabalho do casal, incluindo os teares e as rocas para fazer o fio, além de esculpir em madeira os botões que finalizam os casacos e os ponchos. “O trabalho do tear e da lã é todo manual, do início ao fim”, orgulha-se o artesão.
Processo manual e valorização cultural
O ofício, que exige paciência e técnica, começa muito antes do tear: “Demora uns três dias para fazer uma peça, depois mais um dia de acabamento”, revela Neida. A produção, que segue sem o uso de produtos químicos, utilizando tingimento natural à base de cascas de fruta e plantas, é um diferencial que atrai um público interessado na procedência e na sustentabilidade. Para dar conta da demanda, o casal trabalha o ano inteiro, estocando peças durante o verão para vendê-las, principalmente, nos meses frios e em feiras tradicionais do estado, como a Fenadoce e a Expointer.

Após sair do tear, a peça passa pela etapa de acabamento, quando recebe costuras e ajustes finais realizados manualmente
O papel da Emater e o cenário local
Apesar do forte apelo cultural no estado, a escala desse tipo de produção em Pelotas revela uma arte quase exclusiva. Segundo Joana Caetano, extensionista da Emater em Pelotas, atualmente existem apenas duas famílias que trabalham diretamente com o artesanato em lã ovina atendidas pela instituição na cidade, sendo o casal Neida e Valmir uma delas.
Joana destaca que o artesanato em lã vai além da economia. “Ele entra como complemento de renda, melhora a qualidade de vida e aumenta a autoestima do artesão, além de preservar a cultura e evitar que essas técnicas manuais sejam esquecidas”, explica.
A Emater atua articulando a participação desses produtores em feiras regionais, que são os principais pontos de escoamento. No entanto, a atividade enfrenta desafios significativos. A desvalorização da lã bruta e a competição com produtos sintéticos industriais, de custo menor, dificultam a sustentabilidade financeira dos artesãos. “O artesanato não é tão valorizado quanto deveria. Peças artesanais são únicas e possuem um diferencial que não se encontra na indústria”, avalia Joana. Além disso, a falta de recursos para o custeio de viagens a eventos mais distantes e a necessidade de sucessão familiar são pontos críticos para o futuro da atividade.
Perspectivas
Apesar dos obstáculos, o otimismo de Neida e Valmir reflete a força dessa rede. “A cada ano, a procura aumenta. As pessoas vão conhecendo o produto”, afirma Valmir. Moradores do interior de Pelotas, eles percorrem o Rio Grande do Sul participando de feiras e eventos para divulgar e comercializar peças produzidas com lã ovina.








