Día de los Muertos: no México, a morte também é festa
Altares coloridos, flores de cempasúchil, caveiras de açúcar e comidas preparadas para quem já partiu fazem parte de uma tradição que transforma a saudade em celebração. Reconhecida pela UNESCO, a festividade mexicana também ganhou projeção internacional com o filme Viva – A Vida é uma Festa.
Por Franciele Vargas / EmPauta
“O amor que nos une será para sempre.” – Viva – A vida é uma festa
Enquanto no Brasil o dia 2 de novembro é marcado pelo Dia de Finados, com visitas aos cemitérios e homenagens aos familiares que morreram, no México a data faz parte de uma celebração cheia de cores, flores, música e comida. Conhecido como Día de Los Muertos, o costume reúne famílias para lembrar aqueles que já partiram. A tradição também ganhou visibilidade em outros países por meio do filme Viva – A Vida é uma Festa (2017), da Pixar, que apresenta elementos dessa cultura.
De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a festividade representa o retorno temporário das almas dos falecidos ao mundo dos vivos, onde reencontram simbolicamente seus familiares e participam da celebração. Embora seja associada principalmente aos dias 1º e 2 de novembro, as homenagens podem começar ainda no fim de outubro.
Em muitas regiões, o dia 1º é dedicado às crianças que morreram, conhecidas como “muertos chiquitos”, enquanto o dia 2 é reservado aos adultos. Em algumas localidades, também existem homenagens em outras datas, como 28 de outubro, para pessoas que morreram de forma trágica ou em acidentes.
A celebração parte de uma relação diferente com a morte: em vez de representar apenas a despedida, ela também se torna uma oportunidade de manter vivas as lembranças de quem partiu. A ideia é que, enquanto forem lembrados, os falecidos continuarão presentes na história de suas famílias.
O altar, nível por nível
Um dos principais elementos da tradição é o altar dos mortos, conhecido como altar de muertos ou ofrenda. Montado em casas, cemitérios e espaços públicos, ele reúne fotografias, velas, flores, incensos, água, sal e alimentos que eram apreciados pelas pessoas homenageadas.
Cada elemento tem um significado. As velas representam a luz que orienta o caminho das almas, enquanto a água é oferecida para matar a sede depois da viagem. O sal simboliza a purificação, e as fotografias ajudam a identificar aqueles que estão sendo lembrados. Entre os alimentos, um dos mais tradicionais é o pan de muerto, pão preparado especialmente para o período.
A montagem dos altares varia conforme a região e os costumes de cada família. Uma das versões tradicionais é a de sete níveis, em que cada andar recebe elementos específicos. De cima para baixo, podem aparecer imagens de santos ou da Virgem, velas, brinquedos e figuras de sal, pan de muerto, caveiras de açúcar, comidas e bebidas preferidas dos falecidos, fotografias, flores de cempasúchil, papel picado e cruzes feitas de sementes ou sal.
Cada elemento contribui para a composição da oferenda e ajuda a representar a relação entre os vivos e aqueles que são lembrados durante a celebração.
Flores, caveiras e esqueletos
Entre os símbolos mais conhecidos do Día de los Muertos está a flor de cempasúchil, de cor alaranjada e bastante presente durante a celebração. Sua cor representa o Sol e, conforme a tradição, suas pétalas ajudam a formar caminhos que conduzem as almas até os altares. As flores também são utilizadas na decoração das oferendas e na montagem de arcos.
Ouo elemento característico são as calaveras dulces, caveiras feitas de açúcar e decoradas com cores e desenhos. Em algumas delas, são escritos nomes de pessoas na testa, como uma forma de homenagem e lembrança.
Os esqueletos também aparecem em diferentes formatos, feitos de papel, madeira, barro e outros materiais. Com roupas e acessórios, eles são representados de maneira descontraída, reforçando a relação da celebração com a ideia de que a morte faz parte da vida.
La Catrina: um símbolo mexicano
Entre as representações mais conhecidas da festividade está La Catrina, figura de um esqueleto feminino vestido com roupas elegantes e adornos. Sua origem está ligada ao trabalho do gravurista mexicano José Guadalupe Posada, que criou, entre 1910 e 1913, uma imagem chamada La Calavera Garbancera.
A ilustração fazia uma crítica social às pessoas que negavam suas origens indígenas para adotar costumes e aparências europeias. Anos depois, em 1947, o muralista Diego Rivera retomou a figura em sua obra Sueño de una tarde dominical en la Alameda Central. Foi ele quem a representou com roupas sofisticadas e popularizou o nome La Catrina.
Com o passar do tempo, a imagem se tornou um dos símbolos mais conhecidos da cultura mexicana, associada à ideia de que, diante da morte, as diferenças sociais deixam de existir.
Origem da festa
Em 2003, o Día de Los Muertos foi proclamado pela UNESCO como Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. Em 2008, passou a integrar a Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
A origem da celebração, no entanto, não é apresentada da mesma forma por todas as instituições. A UNESCO relaciona a festividade ao encontro entre as tradições religiosas católicas, trazidas pelos espanhóis durante a colonização, e os rituais praticados pelos povos indígenas que já habitavam o território mexicano. Entre eles estavam os mexicas, conhecidos também como astecas, que realizavam cerimônias em homenagem aos mortos.
A instituição também destaca a relação da celebração com o calendário agrícola, especialmente com o fim do ciclo de cultivo do milho.
Uma interpretação diferente aparece em um artigo do Instituto Nacional de Antropologia e História do México (INAH). O texto questiona a ideia de que o Día de Muertos tenha origem diretamente pré-hispânica e aponta que as celebrações católicas de Todos os Santos e dos Fiéis Defuntos já existiam na Europa medieval, antes de chegarem ao México no século XVI.
Segundo o artigo, o Dia dos Fiéis Defuntos foi instituído em 998 pelo abade Odilão, do mosteiro de Cluny. O instituto reconhece que os povos mesoamericanos possuíam suas próprias cerimônias funerárias, mas destaca que elas aconteciam em outras datas e foram reprimidas após a chegada dos espanhóis.
Nessa interpretação, a celebração mexicana foi construída a partir da incorporação de crenças e costumes locais às datas do calendário católico. O artigo também aponta que a associação direta da festividade com as tradições pré-hispânicas ganhou força no século XX, em meio à construção de uma identidade nacional mexicana.
Do México para as telas do cinema
A tradição mexicana também ultrapassou as fronteiras do país e chegou ao público internacional por meio do cinema. Em 2017, a Pixar lançou Viva – A Vida é uma Festa (Coco), animação que tem o Día de los Muertos como parte central de sua história.
O filme acompanha Miguel, um menino que sonha em ser músico, mas enfrenta a resistência da família. Durante as celebrações do Día de los Muertos, ele acaba atravessando para o mundo dos mortos e conhece seus antepassados. Ao longo da história, a animação apresenta elementos da festividade, como os altares, as fotografias, as flores de cempasúchil e as oferendas.
Um dos pontos centrais da narrativa é a importância da memória familiar. No filme, ser lembrado pelos vivos representa a possibilidade de continuar existindo no mundo dos mortos. Essa ideia se aproxima do significado da celebração mexicana, que valoriza as histórias e os vínculos construídos entre as gerações.
Embora seja uma obra de ficção, Viva – A Vida é uma Festa foi desenvolvido a partir de pesquisas sobre a cultura mexicana e ajudou a apresentar seus costumes a espectadores de diferentes partes do mundo.
Entre flores, fotografias, músicas e comidas, o Día de los Muertos mostra uma maneira diferente de lidar com a saudade. Mais do que lembrar quem partiu, a celebração mantém vivas as histórias e os laços familiares. Afinal, enquanto houver lembranças, aqueles que partiram continuam fazendo parte da vida de quem ficou.




