Hábitos de consumo literário mudam durante pandemia

 

Por Andrea Cardoso da Silva    

Faturamento das editoras brasileiras com conteúdo digital cresceu 36% em 2020  e jovens apreciam praticidade dos e-books

Segundo a Pesquisa Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro, houve um aumento de 36% no faturamento das editoras brasileiras com conteúdos digitais em 2020. As vendas de e-books, audiolivros e demais plataformas de distribuição contabilizaram R$ 147 milhões no primeiro ano da pandemia. A pesquisa foi realizada pela Nielsen Book e coordenada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL).

Em 2019, o conteúdo digital representava 4% do mercado editorial brasileiro, e em 2020 passou a representar 6%. O preço médio de e-books teve queda de 25%, reflexo de ações promocionais, campanhas e demais estratégias comerciais em meio à crise econômica em decorrência da pandemia do coronavírus.

Além dos valores mais acessíveis, os livros digitais podem ser consumidos em diversas plataformas, como leitores digitais, celulares, tablets e computadores, o que facilita a vida dos leitores, que podem carregar centenas de livros em pequenos dispositivos. O estudante Patrick Varela, 27 anos, afirma que só começou a se interessar por literatura depois que adquiriu seu leitor digital, logo no início da pandemia.

O jovem pensava que não seria o tipo de pessoa que se interessa por livros, mas seu hábito de leitura aumentou depois de adquirir um Kindle, um dos leitores digitais mais famosos do mercado, produzido pela Amazon. “Foi uma experiência que eu não estava esperando que iria passar. Mas acho que com a pandemia tudo ficou diferente. A gente adquiriu hobbies que não tinha e fez coisas que a gente não fazia”, comenta Patrick.

Através dos livros digitais, Patrick se aventurou até em gêneros que achava que não iria gostar. O estudante conta que sempre apreciou a ficção científica, mas durante a pandemia resolveu dar uma chance ao livro “Pachinko”, da escritora Min Jin Lee, que narra a saga de três gerações de imigrantes coreanos no Japão do século XX. E acabou gostando da experiência.

O livro “Pachinko”, da escritora Min Jin Lee, na sua versão física e digital

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Diferente de Patrick, a estudante Mariana Amaral, 23 anos, já possuía o hábito de leitura antes de adquirir um leitor digital, mas passou a consumir muito mais livros devido à praticidade do dispositivo. Ela conta que lia em média de quatro a cinco livros físicos por mês, mas com o leitor digital passou a ler de cinco a seis livros por semana. “A pandemia me influenciou a ler, porque eu tinha mais tempo para ficar em casa. Eu estudava o dia inteiro e aí nas pausas eu lia um capítulo, lia dois, e todo o meu tempo livre era para a leitura.” Em 2021, a jovem conta que leu cerca de 130 livros durante o ano.

Depois da aquisição do seu leitor digital, Mariana não leu mais livros físicos, e destaca o conforto de ler e-books como os principais pontos positivos dessa experiência. Esses aparelhos possibilitam ajustes no tamanho das fontes e na iluminação, além de permitirem marcações em frases que o leitor considera importante, entre outras configurações. Tudo isso sem a necessidade de carregar o peso dos livros físicos.

Comparação entre o tamanho da versão física do livro e sua versão digital em um leitor digital

Assim como Mariana, Milene Louzada, 22 anos, também aumentou o consumo de livros lidos após a aquisição de um leitor digital, mas mesmo preferindo os e-books, ainda mantém o hábito de comprar livros físicos. Além de leitora, Milene também cria conteúdo sobre literatura para o Instagram, no perfil @mileituras, em que compartilha suas experiências sobre suas leituras, como resenhas e dicas de livros.

Ela reflete sobre como seus seguidores ainda preferem os livros físicos, por terem um apego emocional, mas também percebe um avanço dos livros digitais. “Várias amigas minhas, que são minhas seguidoras, começaram a adquirir e gostaram muito da experiência e hoje elas me culpam por terem perdido tanto o hábito de comprar livros físicos”, comenta a criadora de conteúdo.

Livros nacionais

Uma das maiores praticidades dos livros digitais é que eles podem ser comprados com apenas um clique, sem a necessidade de sair de casa. Assim, os leitores não dependem mais dos estoques das livrarias e conseguem encontrar títulos com maior facilidade.

Dos cerca de 130 livros lidos por Mariana em 2021, muitos dos títulos eram nacionais e ela relata que é mais fácil encontrar esses livros no formato digital do que físico. “Dependendo, os livros físicos demoram um pouco para sair ou saem só durante uma época, e aí depois as autoras colocam para a venda de novo, não ficam sempre disponíveis”, conta a jovem.

Com a sua experiência com criação de conteúdo, Milene afirma que os livros digitais facilitaram a vida dos autores, já que é muito mais caro lançar um livro físico do que um e-book. Ela relata que muitas autoras nacionais que ela conhece criam suas histórias a partir de fanfictions, que são narrativas ficcionais escritas e divulgadas por fãs com base em conteúdos já existentes.

“Então, a internet facilita o acesso, né, porque hoje em dia a gente consegue comprar um e-book por R$ 6,99 e isso não é nem um pedaço de bolo na padaria hoje em dia. Então o valor mais acessível conseguiu atrair mais leitores”, reflete a criadora de conteúdo. Dessa forma, a publicação no formato digital ajuda esses autores a chegarem em lugares onde os livros físicos não chegam.

Mesmo assim, Mariana reclama que os livros nacionais são muito desvalorizados. A estudante conta que seu gênero favorito são os romances eróticos, mas que as pessoas tendem a desmerecer tanto o gênero quanto as autoras nacionais.

“São poucas autoras internacionais que têm um nível de cuidado, de descrição, de embasamento que as autoras nacionais têm”, afirma a jovem. Ela diz que muitos dos romances tratam sobre transtornos e doenças, como bipolaridade e bulimia, e que as brasileiras têm um cuidado em buscar conhecimento para não gerar mal-estar, ao contrário das autoras de outros países.

Os livros físicos vão deixar de existir?

A dentista Silvia Cardoso, 64 anos, acredita que não. Ela afirma que sua geração foi acostumada apenas com os livros físicos, e acha difícil que eles deixem de existir. Silvia conta que nunca se interessou por livros digitais, e não abre mão do prazer de tocar e folhear os livros nas livrarias. Mesmo com os preços altos, ela conta que tem amigas que deixam de comprar outras coisas para continuarem com o hábito de ler exemplares impressos. No entanto, não tem tanta certeza se a geração atual continuará consumindo.

Respondendo à dúvida de Silvia, Patrick, Mariana e Milene também não acreditam que os livros físicos vão deixar de existir. Mesmo preferindo as praticidades dos livros digitais, os três acreditam que os livros físicos vão continuar ocupando as estantes, mas como itens colecionáveis. Milene acha que a produção de livros físicos vai diminuir com o tempo, enquanto Patrick acredita que no futuro as editoras irão investir em edições comemorativas.

Mariana já consome os livros dessa maneira, e conta que só compra as versões físicas dos livros que gostou muito, principalmente os de fantasia. “Eu não vou deixar os livros físicos morrerem. Eu gosto de ter eles na minha estante”, afirma a jovem.

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