Colleen Hoover traz verdades nuas e cruas sobre violência doméstica

Por Sabrina Lacerda Borges      

Na escrita envolvente de “É assim que Acaba”, autora texana incentiva mulheres a romperem  ciclo de agressões

Na história do livro “É Assim que Acaba”, a autora texana Colleen Hoover aborda a violência doméstica. Apresenta situações chocantes como o abuso psicológico, agressão e tentativa de estupro. Além disso, mostra a realidade “nua e crua” (termo utilizado algumas vezes ao decorrer do livro) que diversas mulheres vivem diariamente. O texto nos deixa apreensivos e faz o leitor repensar muitas coisas.

A personagem Lily cresceu vivenciando situações de violência. Ela se tornou adulta detestando o pai, que é uma figura influente na cidade e um “exemplo” de pessoa e profissional. Todos admiram aquele homem, todos menos Lily, que sabe quem ele é realmente.

Ela mora em uma cidadezinha no Maine, se formou em marketing, mudou para Boston e abriu a própria loja. Tenta buscar seus sonhos, corre atrás de seus objetivos e acaba envolvida em um relacionamento, que a princípio, como todos os relacionamentos abusivos, é apaixonante, envolvente e tranquilizador. “É perfeito”.

Ryle Kincaid, um lindo neurocirurgião, começa a demonstrar seu temperamento manipulador e agressivo aos poucos. As agressões físicas começam com empurrões, apertos nos braços e vão evoluindo pra tapas, quedas, mordidas, socos… até que chega a tentativa de estupro.

Escritora faz pensar sobre as relações abusivas

Lily volta com ele tantas vezes, acreditando que tudo vai ser diferente. Ela ama Ryle e fica grávida dele. Mas passa a viver com medo e quando não suporta mais, abre o jogo com amigos e com a mãe, que foi vítima da violência praticada pelo pai de Lily por anos.

“É muito difícil nadar quando você se sente ancorada dentro d’água”. 

De acordo com a pesquisa do Instituto Datafolha encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgada no dia 7 de junho do ano passado, uma em cada quatro mulheres acima de 16 anos afirma ter sofrido algum tipo de violência no país.

A psicóloga Laís Bazzo foi coordenadora responsável pela Rede de Atenção às Mulheres (RAM) de Camaquã, durante cinco anos, deixando o cargo em setembro do ano passado. No entanto, ela se mantém ativa nas ações da entidade, observando que os índices de violência são muito maiores, pois mostram apenas as mulheres que “continuam a nadar” e realizaram uma denúncia. Muitas sofrem em silêncio.

“Temos a ideia do lar doce lar, mas sabemos que na realidade não é bem assim, é um ambiente humano de muito conflito”, falou a psicóloga. “Durante a pandemia, a violência doméstica encontrou um local de ampliação por que este esteve fechado por muito tempo, limitando o convívio das vítimas com outras pessoas”, explicou.

“Os fatores que impedem as mulheres de denunciar são diversos, porém quando reconhecem que estão em um ciclo de violência, o medo e a vergonha ainda são os que mais impactam”, afirmou.

Quando ficamos sabendo sobre casos de mulheres que retornam para lares violentos, é comum surgirem julgamentos. Esse livro apresenta ao leitor um pouco do que algumas dessas mulheres sentem, dos medos, dos desejos de mudança, de um lar, de uma família feliz… Elas sonham com vidas melhores. Elas demoram pra enxergar que o fim é a possibilidade de mudanças concretas.

Quebrando ciclos de violência 

Para a psicóloga é necessário haver um reconhecimento de que se está inserida em um relacionamento abusivo, buscar ajuda, ter acompanhamento em uma rede de apoio, em que psicólogos, assistentes sociais e policiais vão dar o suporte necessário para a vítima e seus filhos.

Em “É assim que Acaba”, a protagonista consegue dar um fim no ciclo de violência. Ela toma uma decisão muito difícil, mas que muda a vida de todos. Mesmo que não seja possível visualizar a princípio, é possível quebrar o ciclo de violência.

Quem está  vivendo uma situação de violência, ou conhece alguém, deve pedir ajuda, denunciar. A medida é entrar em contato com a Polícia Militar (190), Central de Atendimento à Mulher (180) e Rede de Apoio à Mulher da sua cidade. O sofrimento não deve continuar..

“E, por mais que seja uma escolha difícil, nós destruímos o padrão antes que o padrão nos destrua”.

Literatura no combate às agressões dentro de casa

Colleen Hoover é autora de romances e ficção para jovens adultos. Ela publicou seu primeiro romance, “Slammed”, em janeiro de 2012. “É assim que Acaba” é o 16º livro da autora, que já publicou 28 obras de 2012 até 2021.

Colleen Hoover escreve com base no processo de superação que viveu

“É assim que Acaba” é uma obra incrível e extremamente responsável, por retratar situações que muitas mulheres podem estar vivendo sem discriminação. É educativo, abordando diversas formas de abuso, que muitas vezes passam despercebidas e abre possibilidades para possíveis vítimas encontrarem a força necessária para romper relacionamentos assim.

Além disso, a autora mostra que a vítima e o agressor não têm sempre o mesmo perfil, qualquer pessoa pode passar por isso. Uma das grandes problemáticas da literatura atual também foi abordada aqui – o passado não justifica erros. Em muitos livros, é comum se deparar com um “mocinho” abusador, que é assim por conta de algum trauma. Colleen deixa muito claro que nada justifica a violência.

No final do livro, em suas notas, ela conta da lembrança mais antiga que tem da infância, em que o pai arremessou a televisão da família contra a mãe. Ponto que torna a leitura ainda mais importante é a relação com a própria história da autora.

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