Pandemia revela pouca valorização da arte

 

Por Matheus William Müller Rückert     

Ator do Grupo Tholl descreve dificuldades enfrentadas no meio artístico

Fábio Marques Belém em uma das apresentações do Grupo Tholl 

Na atual conjuntura, muitos trabalhos e maneiras de sustento tiveram que ser repensados pelos artistas das artes cênicas da região. Aumentou, nos últimos meses, o número de casos da pandemia de Covid-19, que atualmente assola o mundo inteiro com um vírus letal e de rápido contágio. Obviamente, com o setor da cultura local não seria diferente, já que é uma das áreas que mais necessita da audiência ao vivo do público. E, claro, também teve que se reinventar. O ator Fábio Belém do grupo Tholl relata as dificultades que os artistas em geral estão enfrentando.

O setor cultural foi um dos mais afetados pela pandemia, pois depende diretamente do contato com os públicos para a realização de sua arte e, assim, manter as suas formas de ganho e sustento. Os artistas tentam seguir fazendo o que fazem mesmo que, na maioria das vezes, sem nenhum incentivo monetário ou moral por parte dos seus prefeitos e governadores. Persistem simplesmente porque amam o que fazem e fazem isso para alegrar os seus espectadores, ouvintes e seguidores.

Se, antes deste momento delicado em que estamos, a cultura artística já não era tão apreciada e tão seguida, imagine-se agora, com o contato com o público reduzido, sem quase nenhuma fonte de renda e sem previsões de quando tudo voltará ao normal. A situação em que os artistas locais se veem atualmente é mais crítica e confusa do que nunca.

Obviamente a cultura abrange muitos tipos de trabalhos e designações para que esta seja praticada de forma contínua. Dentre uma variedade de atividades, estão os grupos teatrais da cena pelotense e como eles estão lidando com as novas formas de levar a arte e a cultura para com os demais que acompanham seus projetos.

É claro que, independente do que aconteça, jamais deixará de existir arte e cultura, porque estas fazem parte da criação e da organização da nossa sociedade. Somos cercados por vários pilares que definem o rumo social como um todo e, com certeza, a arte e a cultura são alguns dos pilares mais importantes para esta formação. Ensinam e enxergar um mundo completamente diferente do habitual e agregam pessoas de várias classes sociais em seus projetos culturais.

    

Falta de valorização da arte

Fábio Marques Belém é ator, produtor cultural e professor. Com 36 anos de idade, ele já atua na carreira da artística há 20 anos. É participante e atuante do grupo de teatro pelotense Tholl há mais de doze anos. Também é responsável pela curadoria artística das páginas das redes sociais do grupo e sempre se coloca no lugar de todos os seus colegas e parceiros ao observar as dificuldades enfrentadas. Entende que, hoje, mais do que nunca, está difícil de se trabalhar com a arte, ainda mais com a cultura local, que não é tão influente em relação aos maiores centros urbanos, com mais oportunidades para a propagação das produções culturais.

No seu relato, Fábio descreve com clareza o porquê e o quão difícil é a carreira de um artista dentro do Brasil e como a pandemia dificultou ainda mais a execução de seu trabalho, e também sua fonte de renda.  “Infelizmente, viver exclusivamente de trabalhar com arte hoje em dia é bastante difícil. Devido à desvalorização da arte como um todo, pois não existem políticas públicas concretas para que o trabalhador ou trabalhadora cultural possa exercer plenamente seu ofício. As pessoas entendem a cultura como um simples entretenimento, mas não enxergam todo o trabalho que existe por trás. Hoje as pessoas estão passando dias e dias em casa por causa do isolamento social, assistindo filmes, séries, escutando música, lendo livros. Tudo isso é cultura e, infelizmente, quem produz isso é pouco valorizado”, diz.

Independentemente do quão difícil seja esta luta, os artistas, principalmente os locais, sempre vão estar dispostos para nos mostrar que têm sim uma solução para os problemas atuais. Sempre haverá a perseverança na hora de trabalhar artisticamente, seja quando for para um público gigante, ou, até mesmo, para uma plateia de duas pessoas.

Como muito bem colocado por Fábio, a desvalorização do trabalho cultural é real e ela acontece com muito mais evidência em tempos como este, quando as pessoas só ficam em casa consumindo músicas, séries e filmes e nem pensam sobre a repercussão artística local como parte do processo. Claro que isto não é apenas culpa do público e, sim, uma reação ao problema atual com causas anteriores. Mesmo assim, não deixa de dificultar ainda mais o trabalho dos artistas, que, muitas vezes, não conseguem nem se manter, apenas fazendo o que amam e têm que procurar por uma renda a mais, já que a arte não era devidamente valorizada e remunerada desde antes da pandemia.

O trabalho circense do Grupo Tholl, por si só, já é um trabalho complicado, e com essa situação do vírus ficou ainda mais difícil de continuar a atuar e levar alegria para as pessoas. Muitos projetos artísticos estão sendo executados on-line. com a apresentação de lives, ou seja, as gravações das apresentações que costumavam ser feitas nos palcos.

Mesmo que existam menos recursos e participantes, isso não é um empecilho para travar os amantes desse trabalho. Com muita interatividade e comunicação com seu público via rede social, o grupo Tholl vem repensando e redirecionando a maneira em que atua na cultura local, sendo um dos maiores e melhores grupos teatrais da região.

A Prefeitura de Pelotas vem alterando o seu decreto em relação às atividades remuneradas durante o período da pandemia. Os locais e instituições voltadas para apresentações teatrais não sabem ao certo quando vão poder voltar às suas atividades normalizadas, sendo que há uma maior atenção para o comércio convencional.

Por enquanto, os grupos teatrais se financiam como podem, seja isto feito com doações dos seus seguidores e admiradores do seu trabalho ou até mesmo investimentos pessoais por parte dos participantes dos grupos. A situação em que estamos não é nada simples e para quem depende de apresentações e eventos é mais complicado ainda. Obviamente, estes grupos não vão pôr em risco as vidas de seus participantes e nem as do seu público. Mesmo assim, o seu trabalho é muito afetado por conta disso, já que a maior parte do seu trabalho é algo que envolve algum tipo de apresentação ou entretenimento ao vivo.

É de certa forma injusto tratar a arte e cultura da maneira em que são tratadas pelas políticas públicas, muitas vezes, sem nenhum tipo de incentivo. Estas instituições de prática e de aprendizado englobam crianças, adultos e, às vezes, até idosos em seus grupos. Para manter um negócio neste nicho, não é algo barato, ainda mais quando se está no mercado há mais de 15 anos, como é o caso do grupo Tholl. A companhia conta com uma trupe de mais de 45 artistas, na qual todos podem ter a oportunidade de algum dia se apresentar em algum palco, como o do Teatro Sete de Abril. Isso é um sonho para muitos artistas, porém, não é uma jornada nada fácil. É preciso ter muita motivação, pois quem irá financiar seu próprio sonho é você e você mesmo.

   

Grupo Tholl conta com participação de 45 artistas      Foto: Juliano Kirinus

É preciso sempre ter em mente o quão difícil é para certas profissões continuarem a se manter num período pandêmico como este, e para os teatros e seus grupos isto fica ainda mais complicado. Espera-se que o mais breve possível essa situação vivida se normalize e, então, os artistas locais possam continuar a trazer seu espetáculo e sua arte, que, quando vistos de perto, encantam ainda mais a todos que assistem.

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