Será esse o fim da esperança?
Reincidência climática no RS em 2025 e o esgotamento de quem já perdeu tudo. Conheça a história de Nelcioner Nolasco, uma das vítimas da enchente em Pelotas.
Yasmin Arroyo

Bairro Praia do Laranjal em Pelotas alagado após fortes chuvas. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil.
Os eventos climáticos no Rio Grande do Sul são, acima de consequências humanas, uma resposta à insistência em erros cometidos pela própria humanidade. É o reflexo de um modelo de desenvolvimento que negligencia os limites da natureza, prioriza o lucro em detrimento da vida e ignora alertas científicos cada vez mais urgentes.
A atual ministra do meio ambiente, Marina Silva, afirmou, no Dia Mundial do Meio Ambiente, que é preciso aprimorar as políticas públicas e a legislação ambiental do Brasil. “Vivemos tempos em que as mudanças climáticas, provocadas pela degradação do meio ambiente e pelo consumo excessivo de combustíveis fósseis, ameaçam profundamente o nosso futuro. O aumento das secas, inundações, ondas de calor e incêndios coloca em risco a alimentação, a saúde, a moradia de milhões de pessoas, em nosso país e em todo o mundo” , completa Marina.
Distante das vítimas da enchente de 2024, a esperança por tempos melhores é novamente testada com as inundações de junho de 2025. Nelcioner Nolasco, consultor técnico e um dos mais de 2 milhões de afetados no ano passado, expressa desânimo ao acreditar que o desastre possa se repetir.
“A enchente é uma coisa que a gente não espera, ninguém acreditava que fosse acontecer o que aconteceu (…) Tudo que tu conquista tu coloca dentro de uma casa, então foi bastante coisa pequena, a gente não consegue contabilizar (…) Tem muito o que dizer nessa hora, mas o que mais causa desânimo é que vai acontecer de novo, porque a gente não viu nada a ser feito”, diz Nelcioner.
O consultor técnico foi vítima na cidade de Pelotas. Sua casa, localizada no bairro Laranjal, está há alguns metros de distância da Lagoa dos Patos e, na época, foi inundada até 75cm de altura. Além da contaminação da água ter deixado muitas marcas, a família de Nelcioner perdeu muitos móveis, sendo recuperados um forno elétrico e uma airfryer pelo projeto “Reconstruindo Lares: manutenção de eletrodomésticos em famílias afetadas por enchentes em Pelotas”, das engenharias da Universidade Federal de Pelotas. Esta foi uma das regiões mais afetadas de Pelotas, somando-se à Colônia Z3, Doquinhas, Pontal da Barra, Rua Nova Prata e proximidades do Canal São Gonçalo.
Diante do cenário de calamidade, a população se vê obrigada a improvisar soluções para sobreviver. A falta de recursos e insegurança marcam a rotina de quem já precisou abandonar suas casas uma vez e hoje teme ou já revive a tragédia. A cada novo alerta de chuva, o medo retorna. A memória recente de 2024 não deixa espaço para esquecer que, no atual contexto climático, tragédias como essa estão longe de serem eventos isolados —são, infelizmente, sinais de um futuro cada vez mais presente.
Enquanto isso, especialistas reforçam que os impactos não se restringem aos danos materiais. A saúde mental das vítimas também está afetada, especialmente nas comunidades ribeirinhas e mais vulneráveis. Esse é um caso interestadual, não se trata mais de tragédia, é reincidência. Políticas públicas são essenciais, mas o comprometimento coletivo com o meio ambiente é urgente.


