Hospital universitário de Pelotas e de Santa Maria investem em terapia assistida por animais na saúde pública
Pesquisas apontam que após a interação com cães, ocorre um aumento nas produção de ocitocina e redução do cortisol
Andrine Teixeira Garcia / Em Pauta

Durante as intervenções, o contato com os cães contribui para a redução do estresse e da ansiedade em crianças hospitalizadas, promovendo um cuidado mais humanizado
A hospitalização costuma representar uma experiência potencialmente estressante para a maioria dos pacientes, assim como outros tratamentos relacionados à saúde. A Terapia Assistida por Animais (TAA) surge como uma abordagem terapêutica que utiliza o contato com animais como parte de tratamentos de caráter biopsicossocial – conceito que engloba fatores psicológicos, sociais e biológicos no entendimento e enfrentamento de doenças. Problemas no desenvolvimento cognitivo, emocional, social e neurológico também podem ser trabalhados com essa técnica, como uma maneira de humanizar o tratamento e mitigar o estresse.
Em Santa Maria, o projeto de Cinoterapia (terapia assistida por cães) ocorre há 8 anos no Hospital Universitário (Husm-UFSM). Uma vez por semana, cães de busca e resgate do 4º batalhão de Bombeiros Militares da cidade realizam visitas aos pacientes da Unidade de Saúde Mental .
Daiana Foggiato, enfermeira e docente da Universidade Federal de Santa Maria, diz que a escolha pela Terapia Assistida por Animais depende de alguns fatores, como a necessidade e perfil dos usuários, ambiente/contexto de saúde. Além, é claro, da indicação terapêutica profissional. O uso da TAA promove a aceitação na proposta terapêutica da equipe de saúde, tornando-se uma forte aliada aos tratamentos convencionais.
“Durante a cinoterapia, a pessoa, ao acariciar o cão, desenvolve a liberação hormonal de serotonina, responsável pelo relaxamento e a diminuição do cortisol, levando à redução de sintomas estressores. Ainda, o contato das pessoas em sofrimento psíquico com o cão, geram memórias de vivências afetivas.”
Alguns dos benefícios, segundo um artigo publicado por Daiana, é a redução nas crises de humor, proporcionando ao paciente psíquico uma sensação de cuidado e liberdade, assim como a melhora na ambiência hospitalar, em decorrência da promoção de um espaço mais acolhedor, gerando mudanças de humor positivas e um cuidado humanizado.
A chefe da Unidade de Saúde Mental do hospital, a psicóloga Taiane Klein, aponta que o cão é um ser que interage e tem sentimentos, fazendo com que desperte uma conexão e empatia com aqueles com quem tem contato. O cachorro, neste sentido, desempenha o papel de mediador entre paciente e terapeuta.
No Hospital Universitário de Pelotas (HU-UFPEL), o projeto Pet Terapia vem auxiliando centros de saúde desde 2006, a partir da iniciativa de alunos do curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal de Pelotas.

A interação entre crianças e cães terapêuticos fortalece vínculos afetivos e transforma o ambiente hospitalar em um espaço mais acolhedor, favorecendo o bem-estar emocional durante o tratamento
Haviam muitos cães que foram abandonados no câmpus. Em busca de adotantes para estes animais, os estudantes passaram a adestra-los e observar um comportamento muito dócil e afetivo por parte deles. Com isso, a Escola e Centro de Reabilitação (Cerenepe), órgão público em Pelotas, fez a sugestão da realização da TAA desses cães junto aos profissionais e pacientes do hospital universitário , buscando uma melhora no bem-estar dos assistidos.
No momento, além de ações em oficinas e intervenções assistidas por animais realizadas semanalmente na Unidade da Criança e do Adolescente do Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas (HE-UFPel), realizadas semanalmente na sala da Brinquedoteca, o projeto atua juntamente com a Terapia Ocupacional, com crianças no Centro de Atendimento ao Autista Dr. Danilo Rolin De Moura, também em Pelotas.
Liandra Dotta, Terapeuta Ocupacional da Prefeitura de Pelotas, afirma que a presença do animal favorece a ludicidade aos atendimentos, deixando o ambiente mais espontâneo e divertido. Faz com que os pacientes tenham maior interesse pelas atividades propostas pelos terapeutas. Além disso, a TAA é uma forma de quebrar a monotonia e a sensação de “obrigação” dos atendimentos.
A Médica Veterinária e residente no Programa Saúde Animal integrada à Saúde Pública da Universidade Federal de Pelotas, Fernanda Hirooka, afirma que o procedimento da TAA se dá a partir da seleção dos animais mais apropriados e a preparação para atividades, as quais são preparadas por profissionais da saúde e educação, como terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, educadores, médicos, enfermeiros.
“Uma pesquisa mostrou que após a interação com os cães, ocorre o aumento da ocitocina e diminuição do cortisol, e que o efeito de acariciar um cão promove o aumento do anticorpo imunoglobulina. No âmbito social, estudos discutem o papel dos animais no suporte social e emocional.”
A escolha dos animais
De acordo com Alex Sandro Brum, 1º sargento do 4º batalhão de Bombeiros Militares de Santa Maria, os cães que participam do projeto Cinoterapia no HUSM passam por um treinamento específico com uma prova de certificação. A prova tem duas etapas: a de habilidades fundamentais, o que se encaixa como um treinamento para a Terapia, e a de busca propriamente dita.
Em algumas partes da etapa de habilidades fundamentais, é observado o comportamento do cão para verificar se ele é dócil e sociável com pessoas estranhas e outros animais, características indispensáveis para que o animal participe da TAA.
Para o cão se encaixar no projeto, também é levantado outro ponto criterioso: o bem estar do animal. É averiguado se ele não demonstra estresse ou agitação, se aparenta gostar de receber a atenção e socializar. Brum aponta que esses cães são como estagiários, passando por uma pré – avaliação antes de entrar em contato com os pacientes. Posteriormente, após a análise de comportamento, decidem se o animal permanece na TAA. Afinal, nem todo cão obediente vai se sentir bem participando dessa interação.
Fernanda Hirooka, Médica Veterinária e residente no Programa Saúde Animal integrada à Saúde Pública da Universidade Federal de Pelotas, compartilhou que atualmente, no projeto Pet Terapia, os pets que participam são na verdade animais de estimação de voluntários do projeto. Os primeiros passos para inserção deles na TAA é a realização de atividades através de caminhadas, comandos básicos e dessensibilização para toques e ruídos. Antes de introduzi-los no processo terapêutico de um paciente, os animais são levados a eventos abertos para que seja observada a maneira como interagem com pessoas diferentes.

Carinho, brincadeira e afeto fazem parte das práticas da Terapia Assistida por Animais, que utiliza o vínculo com os cães como apoio no cuidado à saúde mental de crianças e adolescentes.
Tradicionalmente, os cães são animais domésticos muito sociáveis, o que acaba os tornando a opção mais viável para esse tipo de atividade. Além disso, os cavalos também têm sido destaque na TAA, devido a seu comportamento dócil.
O que dizem as pesquisas
Em artigo publicado por psicólogas do Centro Universitário FADERGS, em Porto Alegre, foram apresentados os benefícios da TAA. Nas considerações finais, as autoras concluem que essa técnica terapêutica, e o contato com animais de forma mais geral, é benéfico para a comunicação e expressão de sentimentos; que os animais desempenham o papel de estimulante social.
De acordo com outra pesquisa desenvolvida por três universidades portuguesas – Universidade do Porto, Universidade de Maia, Universidade Católica Portuguesa e Universidade Fernando Pessoa – sobre os efeitos da TAA para redução de ansiedade em crianças e adolescentes, produzida este ano , a técnica é promissora para a prevenção dos sintomas em jovens. Os participantes também relatam a diminuição de sintomas relacionados ao estresse. A presença do animal tende a deixar o ambiente mais relaxante, proporcionando mais segurança e confiança para que as pessoas expressem seus sentimentos.
O Brasil foi um dos pioneiros dessa prática. Em 1950, o primeiro registro de terapia envolvendo animais foi fruto do trabalho da médica Nise da Silveira, no hospital psiquiátrico Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. No ateliê de pintura e modelagem no qual os pacientes tinham acesso, circulavam livremente entre eles cães e gatos, a partir disso, ela pode observar os benefícios emocionais que essas pessoas tinham após a interação com os animais, como a redução da agressividade e promoção de autocuidado.
Nise, além de ser uma das primeiras mulheres a se formar em medicina no Brasil, é uma referência mundial na área da psicologia e psiquiatria, com museus, centros culturais e instituições terapêuticas levando seu nome. Além de ser uma das primeiras pessoas no mundo a inserir animais como co-terapeutas, ela também criou a arteterapia, uma forma de seus pacientes se expressarem por meio da arte, com cores e símbolos, e de forma não verbal, humanizando os tratamentos. Nise – O coração da loucura, lançado em 2016, é um filme longa metragem que conta sua trajetória e o legado.
Além da TAA: o benefício dos animais de estimação em casa
A Delta Society (órgão que regulamenta os programas com animais nos Estados Unidos) fez a divisão das Intervenções Assistidas por Animais (IAA) entre a TAA, como visto anteriormente, e a Atividade Assistida por Animais (AAA), que busca a melhora na qualidade de vida por meio da recreação e entretenimento, sem a necessidade do acompanhamento e análise da equipe de saúde.
Em 2024 o departamento de medicina da Universidade de Harvard publicou um estudo realizado para determinar se um vínculo próximo com um animal de estimação está associado à redução da depressão e da ansiedade, especialmente entre mulheres que sofreram abuso na infância. A execução deste estudo ocorreu através da análise de um questionário respondido por cerca de 200 mulheres.
Os resultados desta pesquisa apontam que a proximidade aos animais de estimação é um fator que auxilia na melhora do bem-estar psicológico de seus tutores, com destaque para aqueles que apresentam uma saúde mental mais vulnerável. Além disso, quanto maior o apego emocional ao animal, principalmente aos cães, menores são os sintomas de ansiedade e estresse.
Vantagem da interação com os animais entre os jovens
Ainda em 2024 a Organização Mundial da Saúde (OMS) tornou pública uma pesquisa na qual apontava que 14% dos jovens de 10 a 19 anos sofrem com problemas de saúde mental. Entre os transtornos emocionais, os mais frequentes são depressão e ansiedade. Enquanto o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e o transtorno de conduta, que envolve sintomas de comportamento destrutivo ou desafiador, são os mais recorrentes entre os transtornos comportamentais.
Purewal e outros autores (2017) realizaram a análise de 22 estudos relacionados à saúde emocional de jovens e o suporte dos pets. Alguns deles indicaram que jovens que possuíam cães apresentavam menor índice de ansiedade em relação aos que não possuíam um, apontando o animal como uma maneira de prevenção de ansiedade infantil e adolescente, principalmente ansiedade de separação e social. Enquanto isso, em outro estudo analisado, crianças de 08 a 12 anos que tinham animais de estimação, demonstraram menores sinais de tristeza, e quanto maior o apego aos pets, maior era a autoestima e confiança destes jovens.
Por fim, a análise conclui que índices de solidão são menores quando se tem apego a um animal, e como a solidão é um ponto que gera ansiedade, depressão e baixa autoestima, o animal de estimação passa a ser um grande aliado na prevenção de problemas na saúde mental. Além disso, também pode ser benéfico para o desenvolvimento emocional, cognitivo, comportamental, educacional e social de crianças e adolescentes.
Lídia La Rocca é psicóloga com atuação clínica há nove anos em Pelotas e observa com frequência o impacto positivo gerado na saúde mental a partir da convivência com animais de estimação. A presença de um pet também pode ser uma companhia significativa para pessoas que vivem sozinhas ou em processo de luto, vínculo que pode funcionar como fator de proteção em momentos de crise.
“Animais costumam ser fontes de amor incondicional, o que é especialmente significativo para pessoas que vivem momentos de sofrimento psíquico, solidão ou instabilidade emocional. Diversas pesquisas na área da saúde mental apontam que o vínculo com animais pode contribuir para a regulação emocional, redução de sintomas ansiosos e depressivos e até mesmo na prevenção desses quadros. […] Além de favorecer a liberação de neurotransmissores como dopamina e ocitocina (associados ao prazer e bem-estar)”.
Ainda de acordo com Lídia, em crianças, a convivência pode auxiliar no desenvolvimento da empatia, da responsabilidade e do afeto. Na adolescência, os animais de estimação podem ser aliados importantes para lidar com emoções intensas, inseguranças e solidão. E que na vida adulta e na velhice, a presença de um animal também pode ser muito significativa, servindo como companhia afetiva, ajudando na manutenção de uma rotina ativa e no enfrentamento da solidão.

