Histórias brotaram ao ar livre

Victória Salomão conduz oficina que celebra vivências locais. A escritora ofereceu ferramentas e confiança para quem deseja pôr suas histórias no papel e desenvolver a escrita literária

Victória Salomão discursando na Feira do Livro de Arroio Grande (foto: Luís Garcez)

Luís Garcez / Em Pauta

Na tarde de sábado, a oficina de escrita criativa “Escrever Vivências”, comandada pela escritora Victória Salomão, trouxe à praça Maneca Maciel a magia de narrar experiências durante a Feira do Livro de Arroio Grande.

Victória, auto proclamada “Arroio Grandense de coração” – apesar de ter nascido em Rio Grande – é jornalista, graduada em Relações Internacionais, com MBA em Marketing Estratégico e mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pelotas. Hoje vive em Brasília, mas retornou a Arroio Grande semana passada para atender a Feira do Livro da cidade, onde organizou e coordenou a oficina de escrita criativa “Escrever Vivências” na tarde do dia 12 de outubro.

Durante a oficina, Victória relatou sua experiência com a escrita, leu e fez a análise de alguns de seus contos favoritos como também de contos retirados de seu livro, “Grande Sentimento”, uma coletânea de 20 contos que exploram a vida de personagens arroio grandenses na época da pandemia. Além disso, também coordenou uma atividade com os participantes, onde estes deveriam escrever uma breve história usando algumas fotografias da cidade como inspiração.

Victória Salomão e alguns dos participantes de sua oficina (foto: Luís Garcez)

Em uma conversa particular com Victória, ela me contou um pouco mais sobre sua relação com o Arroio Grande, nas palavras da escritora, desde criança ela sempre gostou da cidade, mas na vida adulta aprendeu a amá-la. Enxerga o município como tranquilo, festeiro, e sua referência de “casa”.

Perguntei a ela sobre a experiência de passar a isolamento durante a pandemia da covid-19 no Arroio Grande, o que consequentemente gerou o processo de escrita de seu livro. Victória, com pesar, contou sobre a perda de seu pai, o doutor Farydo Salomão Júnior, renomado na cidade, que faleceu na época. Entretanto, também comentou que voltar para a cidade lhe fez bem, pois teve o privilégio de poder se cuidar, se manter com trabalhos online e se concentrar em escrever “Grande Sentimento”.

Para a escritora, o livro “Grande Sentimento” nasceu como um refúgio da angustia causada pelo isolamento, pelas notícias com o número crescente de mortes, pela falta de previsão de vacina e pela falta de políticas públicas federais sérias sobre a pandemia, e, principalmente, o medo de perder as pessoas que amava. Lidou com tudo aquilo se refugiando na escrita, onde decidiu por no papel um projeto antigo, um livro de contos com histórias que se passavam em Arroio Grande, mas com uma pequena alteração: sentiu que precisavam ser mais do que apenas histórias arroio grandenses, mas histórias arroio grandenses durante a pandemia.

Quando perguntei à Victória se ela achava que escrita poderia ser ensinada, ela me respondeu positivamente. “Eu acredito que a escrita pode ser ensinada sim. A escrita literária é arte, mas não deixa de ser um exercício. É fundamental que esse exercício venha acompanhado de referências, como todo processo criativo. Precisamos ler, ter referências de textos, do que gostamos, do que não gostamos na literatura, ter ‘estofo’ e repertório para criar, e esse talvez seja o processo mais demorado. Por outro lado, o que vivemos, o que sentimos, o que observamos também é referência e repertório e é com isso que podemos exercitar essa arte. Escrever, revisar, testar frases que gostamos mais, que as pessoas entendam. Temos que escrever até entender nosso próprio fluxo de ideias. No curso de Jornalismo, nas aulas de Redação, uma professora que eu amo muito, a Mabel Teixeira, fazia questão de frisar isso para mim quando eu dizia ‘tô sem inspiração’. Escrita é exercício, o que também nos implica como autores, entende? Foge do estigma do artista que fica passivo, esperando a ideia ou o lapso da criação surgir, e coloca o artista como um criador, como ator do seu processo. É sentar e escrever.”

Perguntei sobre o que fez com que ela se apaixonasse pela escrita, onde recebi uma resposta muito “Anos 10”. Victória, desde criança, era ávida leitora. Criou alguns blogs quando a internet chegou no Arroio Grande, onde contava de seu dia a dia, com algumas reflexões sobre músicas e filmes. No final do ensino fundamental teve contato com o gênero crônica e, durante um exercício em aula, se apaixonou por aquela forma de escrita. A partir dali seus textos passaram a seguir aquele estilo, além de serem fortemente inspirados pelas revistas que lia, como a Rolling Stone, além das músicas que escutava na MTV e o que a Martha Medeiros escrevia em sua coluna na Zero Hora (viu, eu disse que era uma resposta digna dos anos 10). Decidiu que queria fazer jornalismo para escrever qualquer coisa, fossem reportagens, notícias, etc. Ali pelos dezesseis anos, conheceu Machado de Assis, que considera ser o maior gênio da literatura do mundo, começou a experimentar com a ficção.

Victória me falou que seu objetivo com a oficina era compartilhar um pouco como era seu processo, com base em diversos cursos de escrita que ela mesma fez. Disse ainda que pretendia explicar sobre o gênero literário da crônica, que tanto adora, pois acredita que a estrutura textual é importante para iniciantes, pois serve como um norte que funciona há anos. Relatou que a ideia da oficina surgiu porque muitas pessoas a perguntam como ela escreve e comentam que gostariam de publicar algo, mas não tem coragem. A escritora acha que uma explicação embasada em elementos textuais, acompanhada de elementos práticos, podem passar um pouco de confiança. Por fim, disse que a mensagem que quer passar é que “ser escritor é possível para todas as pessoas. Somos os animais que detém o poder da linguagem, isso é intrínseco à gente. Precisamos ter confiança, sensibilidade aos fatos que acontecem no dia a dia, que é onde se escondem as melhores histórias, e paciência para escrever, errar, apagar, escrever de novo.”

Victória Salomão lendo um dos contos de seu livro, “Grande Sentimento” (foto: Luís Garcez)

 

Logo que a oficina terminou, me aproximei de Diana Araújo, uma das participantes, e perguntei se poderíamos ter uma conversa breve sobre a experiência. Diana tem 26 anos e conheceu Victória pelas redes sociais, por onde acompanha o trabalho da escritora desde 2020. Ela soube da oficina através das redes da própria Victória, como também pelo perfil da Prefeitura Municipal de Arroio Grande, que fez ampla divulgação do evento.

Diana comentou que a experiência da oficina foi muito interessante e que foi gratificante acompanhar os textos dos outros participantes durante a dinâmica de desenvolver um texto próprio em um curto intervalo de tempo, achou divertido e um pouco desafiador, já que no final teve que compartilhar seu próprio texto com os outros.

Após minha conversa com Diana, me encontrei com Ricardo Freitas da Silva, o famoso “Donga”. Cartunista e escritor a praticamente 40 anos, Ricardo tem uma longa trajetória nas artes plásticas, onde atua desde 1986. Já trabalhou também na gestão pública, onde foi secretário de cultura de Arroio Grande e de Rio Grande.

Ricardo conhece Victória desde que ela era criança pequena, devido a uma relação muito próxima tanto com o pai quanto com a mãe da escritora. Disse ter acompanhado toda a trajetória da menina, que então virou mulher, e aí se tornou uma mulher famosa. Lembra com carinho da época que ela tinha vários blogs e diz que percebe com orgulho uma evolução constante em sua escrita.

Perguntei como era o sentimento de ver um conterrâneo se destacando e florescendo nesse mundo da literatura de do jornalismo, O cartunista respondeu: ““Muito orgulho. A gente tem muito orgulho quando alguém aqui do território do município do Arroio Grande começa a se projetar. Temos outros casos também, mas a Victória tem dado esse retorno, alguns vão e não retornam, outros vão, mas nunca perdem a essência da cidade, sempre estão retornando para o Arroio Grande, fazendo produções e vindo para nossas feiras do livro lançar elas aqui. A oficina da Victória para promover e fomentar a escrita cada vez em nossa cidade com certeza contribui para que a gente tenha cada vez um acervo maior de escritores de Arroio Grande.”

Naquela tarde, Victória compartilhou reflexões, leituras e atividades que aproximaram a escrita dos participantes à prática literária. A oficina revelou-se espaço de aprendizado, acolhimento e inspiração, onde a palavra escrita se mostrou capaz de ajudar a compreender dores, celebrar memórias e resgatar identidades. Com histórias que nascem do cotidiano e da emoção, a oficina de Victória Salomão deixa sementes para que novas vozes surjam e floresçam em Arroio Grande.

 

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