Do Dunas pro mundo

Foto: arquivo pessoal

Por Gisele Moraes

Luis Henrique Barcelos Duarte, 21 anos, mais conhecido pelo seu nome artístico “Mano Rick”, compõe letras de rap desde muito cedo e ano passado (2017) lançou seu álbum “Do Dunas Pro Mundo”. Além disso, é ex-aluno da escola Areal e hoje, acadêmico do curso de licenciatura em Geografia pela UFPel.

Ele sempre teve afinidade com a música. Relembra que quando era criança, encontrava rádios descartados em alguns terrenos baldios perto de sua casa e fazia de tudo para que voltassem a funcionar. Acredita que automaticamente foi sendo conduzido ao rap, pelo fato de gostar de músicas que remetessem a sua realidade de alguma forma e relembra: “Eu fazia show com meu vizinho quando era pequeno, o pessoal ficava sentado na frente de casa, tomando chimarrão e ouvindo a gente cantar”.

 A iniciação oficial no mundo da música segundo o cantor, foi quando produziu o seu primeiro registro digital, que aconteceu em 2007, cantando uma música escrita por ele, quando tinha 10 anos. “Quando me perguntam quanto tempo estou no mundo do rap, eu digo que são 10 anos, apesar de ter gravado outras músicas em fitas, considero minha carreira a partir da minha gravação digital”, afirma.

CARREIRA

Em 2009 ele começou a cantar profissionalmente, passando por oficinas de violão. Em 2011, fez uma participação na Coletânea Dunas Rap, antes da gravação do primeiro Extended Play (EP – gravação em vinil ou CD que é longa demais para ser considerada um compacto e muito curta para ser classificada como álbum) Fatos e Fatos. Já em 2013 foi lançado seu primeiro EP solo.

Para Mano Rick, a música significa muito. “Eu tenho muitas razões para estar vivo e para correr atrás das paradas e o rap é uma delas”. Quando se trata do gênero musical que canta, não argumenta só em torno dele, mas também ressalta a importância da produção musical, alegando que uma coisa leva a outra. Para a letra da música ser válida, ela precisa acrescentar algo para alguém e para ele, esse é o seu principal critério ao produzir. “O Rap automaticamente me faz movimentar, porque se vou escrever uma letra com a intenção de abordar um assunto, eu preciso estudar a questão”, tendo a relação com as pessoas, os livros, pesquisas e análises como apoio.

Ao falar em inspiração para compor, Luis Henrique relata que ela surge naturalmente: “Quando observo minhas primeiras composições e as comparo com as mais recentes, percebo o quanto aprendi e me tornei mais responsável com o que escrevo. Com isso, não quero dizer que fui irresponsável em algumas escritas, mas sim, que o tempo me ensinou muito, e que cada experiência reflete no modo em que me proponho a escrever. Todos nós temos uma visão do mundo. Como iniciei muito cedo a compor rimas, minha visão do mundo era um tanto específica”.

“Aos 10 anos de idade, meu mundo era o meu bairro, e o tanto que eu sabia além do bairro, era o que ouvia nos raps ou nas conversas dos adultos. Visto isso, percebo que desde menino eu fui um observador do meu mundo, e com o passar dos anos, isso não saiu da minha personalidade, porém, as vivências que obtive em outros lugares, conversas e leituras, acrescentaram para a formação do modo que tenho composto minhas músicas”, declara o jovem cantor.

 O artista considera que a região onde nasceu, Dunas, é um pouco responsável pelo que canta. “Hoje, posso dizer que a essência das minhas letras foi meu bairro que me deu, mas as relações com o mundo é o que tem feito elas mais eficientes. Nos raps, tenho posto todo o sentimento, seja em momentos bons ou ruins, é como uma terapia. Algo que tem me ajudado a evoluir. Ao perceber que isso também tem acrescentado na vida de outras pessoas, vejo que minhas letras têm tomado uma dimensão maior do que eu poderia imaginar, por isso, ao escrever, busco passar boas ideias, e além de tudo, respeitar a diversidade que compõe a nossa sociedade”, diz.

Suas músicas geram impactos positivos sob muitas pessoas, como o reconhecimento e a representatividade, principalmente naqueles que o acompanham desde o início da carreira. O apoio da família sempre foi fundamental. “Meus pais sempre apoiaram e resistiram”. E alcançar as pessoas através da música era um de seus objetivos e isso já acontece. A partir de agora, segundo Luis, é aprimorar o que já se tem e fazer com que isso tenha maior dimensão. “Ter meu estúdio e mais equipamentos é um propósito. A base para isso eu já tenho”.

DUNAS

Morador do loteamento Dunas desde que nasceu, Mano Rick, comenta que sempre foi participativo nas atividades que ocorriam nas proximidades, principalmente, àquelas relacionadas à música e diz: “Hoje vejo o quanto estas atividades foram fundamentais para a minha formação pessoal e profissional, pois foi a partir delas que me descobri como MC e protagonista do movimento hip hop”. Minha relação com a comunidade sempre foi muito produtiva. Penso que se não fossem as experiências vividas neste lugar, eu não seria quem sou hoje. Esforço-me para retribuir tudo o que a mim foi ensinado, embora eu nunca tenha sido cobrado, acredito que é o mínimo que posso fazer diante de todo o carinho que as pessoas demonstram por mim e pelo trabalho que desenvolvo”, relata.

Na mídia local é muito comum o bairro ser retratado sempre de forma negativa. “O Loteamento Dunas, assim como outras comunidades de nossa cidade contém fortes reflexos dos problemas urbanos. Acredito que devemos nos atentar aos mesmos e promover métodos para reverter tal situação, mesmo que em longo prazo. Porém, ao nos atentarmos a isso, não devemos deixar de lado toda a riqueza artística e cultural, que se dermos a devida atenção, iremos notar que é uma das semelhanças de nossas comunidades. O que me entristece é perceber a ênfase que se dá a criminalidade ao falar sobre os bairros, sendo que a riqueza cultural também marca presença, atuando firmemente e cumprindo tarefas de obrigação estatal, mesmo sem remuneração. Acredito que isso acontece pela influência midiática, ou seja, parece mais interessante aos meios de comunicação ressaltar as negatividades do bairro do que dar ênfase às boas ações; e isso influência diretamente na visão das pessoas, muitas vezes desestimulando os ativistas locais”, desabafa Mano.

Questionado sobre ser uma influência para os jovens do Dunas, Mano Rick fala sobre o seu compromisso com o bairro. “Trabalho com a música rap a pouco mais de 10 anos. Desde que iniciei, aderi à ideia de tentar trazer uma nova ótica para as pessoas sobre a minha comunidade, e acredito que por este fato, comumente o nome Mano Rick está ligado ao loteamento Dunas. Ao longo deste tempo realizei muitos sonhos, tais sonhos que para grande parte dos que surgem em uma realidade semelhante a minha são distantes demais”.

E relembra: “Pouco após o lançamento do meu primeiro EP (aos 16 anos – 2013), pude ingressar em uma universidade federal (2015), e com o lançamento do álbum “Do Dunas Pro Mundo” (2017), fiz minha primeira viagem de avião para conhecer São Paulo (SP), onde tive a oportunidade de dividir ideias com aqueles artistas que cresci escutando e vendo apenas pela televisão”.

Ao refletir sobre o início da carreira e sua realidade, coloca: “Voltando ao início de tudo, relembro que poucos acreditavam na possibilidade dessas realizações, por vezes, alguns até tiravam sarro. Hoje, eu compreendo que a falta de confiança dos demais em meus planos era algo natural, até porque, ninguém próximo a nossa realidade havia obtido expansão além do território local através do rap. Sei que ainda tenho muito a fazer, e a cada feito, a cada troca de ideias, aprendo um pouco mais e já tenho algo a compartilhar por onde eu for. Acredito que a luta e a persistência na realização dos meus objetivos podem inspirar meus semelhantes, já que cada conquista comprova a possibilidade da vitória através dos sonhos, e que mesmo em condições desfavoráveis, devemos persistir e nos fortificar para ultrapassar cada obstáculo”.

 A ESCOLA AREAL

 Luis Henrique estudou na escola Areal e conta que enfrentou muita resistência para cantar e tocar violão dentro do ambiente escolar. Fez dois shows na escola, mas sem muita confiança da direção. Manteve algumas amizades que construiu no Areal, sendo que alguns também estão no mundo do rap, todos contam com o seu apoio e ajuda para dar continuidade na carreira. Ele também comenta sobre alguns professores que conhecem seu trabalho e sempre o apoiaram, todos são considerados maravilhosos pelo rapper.

Ao fazer uma observação de como era a escola na sua época e em como ela está agora, afirma que talvez não consiga lidar com regras e normas, e essa questão de autoridade é uma algo que, segundo ele, deveria ser mudado, pois todos obtêm conhecimento e tem algo a oferecer, sem descartar a necessidade de alguma autoridade, mas ressaltando o pedido de ‘moderação’. Ele diz: “A escola deveria fazer uma reforma da escola”. Em relação ao Ginásio do Areal, ele afirma que com a música a abertura sempre foi mais difícil comparada à abertura para esportes. Hoje, há na instituição a Orquestra da Escola e ele comenta: “Acho da hora, se tivesse na minha época eu estaria tocando um violãozinho”.

Para encerrar, Mano Rick, deixa um recado àqueles jovens que estão em um processo de realização de sonhos ou que estão inseguros em relação aos seus objetivos: “Se a pessoa tem um sonho e acredita que é isso que gosta, tem que olhar as possibilidades ao redor, tendo em mente que vão existir pessoas que não vão compactuar com aquilo e vão querer te desvirtuar, muitas vezes, dentro de casa. Frequentemente, não é maldade das pessoas, às vezes é a preocupação que não dê certo. É fundamental ouvir as pessoas que estão por perto, porém, tu não és obrigado a abraçar todas as ideias delas. É a lei do convívio”, conclui.

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