Rock gaudério e música clássica juntos

Documentário registra encontro inédito entre banda gaúcha Doidivanas e Orquestra Estudantil de Pelotas    

Por Maria Eduarda Santos    

Um encontro entre o rock gaudério e a música clássica se transformou em mais do que um concerto. Virou narrativa. Virou documento. Tendo estreado em julho, o documentário “Doidivanas e a Orquestra Estudantil de Pelotas” acompanha os bastidores e encontros que resultaram na apresentação realizada entre a banda pelotense Doidivanas, a Orquestra Estudantil de Pelotas e a Orquestra Estudantil do Areal, situada no bairro Areal de Pelotas e ligada a um projeto social de formação musical com jovens da periferia. Mais do que registrar um evento, o filme propõe refletir sobre o papel da cultura como direito e como política pública.

Para Daniel “Cuca” Moreira, integrante da Doidivanas, o principal objetivo do documentário é preservar a história de quem faz arte com comprometimento. “O documentário serve para registrar, para ter um documento que conta a história da orquestra, e neste caso com a banda Doidivanas. A função mais importante do documentário foi registrar o trabalho da orquestra em si. Mostrar que isso é feito com carinho, com importância. Com cuidado”, destaca. O documentário contou com imagens e edição de Maria Luiza Kletz e Maria Eduarda Santos, também autora desta reportagem.

 

Documentário registra a parceria da banda Doidivanas com projetos musicais comunitários de Pelotas

 

A parceria entre os músicos da banda e os jovens da orquestra transcende o palco e revela uma relação de troca entre diferentes vivências musicais. Nas cenas do longa, fica evidente que há uma conexão gerada pela escuta e pela construção coletiva — elementos que também atravessam a fala da maestrina Lys Ferreira, regente da Orquestra do Areal. Para ela, o documentário traz à tona uma reflexão sobre a responsabilidade do poder público diante da cultura.

“Quando a gente para e pensa, vemos o quão pouco oferecemos para a comunidade, como serviço público. Como é dito no documentário, isso é um direito. A cultura é um investimento, é muito importante para uma cidade como Pelotas, que serve como referência para as cidades menores. É uma coisa que dá trabalho e exige das instituições públicas, mas dá retorno. E é muito legal quando essas pessoas olham para a orquestra e se enxergam”, afirma.

Mais do que um produto audiovisual, “Doidivanas e a Orquestra Estudantil de Pelotas” se consolida como um ato político de valorização da cultura feita a partir das margens. Um filme sobre a escuta. Sobre o encontro. E sobre o registro daquilo que, tantas vezes, passa em silêncio.

Assista o documentário:

 

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Nostalgia sangrenta do slasher noventista

O novo “Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado” tenta retomar os filmes de terror para adolescentes dos anos 1990    

Por Manuella Centeno     

O filme “Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado” (2025) surge como uma tentativa de revitalizar a clássica franquia de terror adolescente dos anos 1990, especificamente os filmes originais de 1997 e a sequência de 1998. Dirigido por Jennifer Kaytin Robinson, a obra de 2025 procura dialogar com uma geração que cresceu cercada pela estética nostálgica dos anos 2000 e, ao mesmo tempo, se insere na atual onda de retorno dos slashers, um subgênero que tem sido resgatado por Hollywood com apelo tanto comercial quanto afetivo.

 

Cena do filme original de 1997, logo após o acidente, com Ray Bronson (Freddie Prinze Jr.), Julie James (Jennifer Love Hewitt), Helen Shivers (Sarah Michelle Gellar) e Barry Cox (Ryan Phillippe)       Fotos: Divulgação

 

O original de 1997, inspirado no livro de Lois Duncan, apresentava uma narrativa simples e eficaz: um grupo de jovens comete um crime acidental e é perseguido por uma figura misteriosa no verão seguinte. Carregado por ícones da época como Jennifer Love Hewitt e Sarah Michelle Gellar, o longa estabeleceu alguns dos clichês mais reconhecíveis do slasher depois do filme “Pânico” (1996): juventude culpada, assassinatos simbólicos e a tensão crescente entre segredo e sobrevivência.

Já o remake de 2025 tenta atualizar essa fórmula com novas personagens, tecnologia contemporânea e uma abordagem mais autoconsciente. No entanto, ao tentar equilibrar um enredo inédito com fan service excessivo, o filme acaba tropeçando nas próprias intenções. A primeira metade promete uma narrativa independente, centrada em novos protagonistas, mas à medida que os personagens da trilogia original retornam, a trama se rende à nostalgia. Em vez de reforçar o legado da franquia, o retorno das figuras antigas assume o protagonismo e fragiliza o desenvolvimento dos novos rostos.

 

Cena após o acidente na versão de 2025: Milo Griffin (Jonah Hauer-King), Stevie Ward (Sarah Pidgeon) Ava Brucks (Chase Sui Wonders), Danica Richards (Madelyn Cline), e Teddy Spencer (Tyriq Withers)

 

A direção busca comentar sobre a própria onda nostálgica, inclusive com falas metalinguísticas como “nostalgia é superestimada”, mas esse gesto soa vazio quando o filme se apoia justamente nesse recurso para sustentar seu terceiro ato. Além disso, a reviravolta final, embora inesperada, é mal fundamentada e enfraquece o impacto dramático construído anteriormente.

Ainda assim, o longa oferece momentos divertidos para os fãs do gênero: mortes criativas, decisões questionáveis por parte dos personagens e a clássica incompetência policial, marcas registradas dos slashers. O elenco tem química, e o tema do trauma intergeracional — desenvolvido através dos personagens antigos — poderia ter rendido mais, caso não fosse tratado de forma tão superficial.

A nova onda de slashers, impulsionada por franquias como “Pânico” (1996) e “Halloween” (1978), que também ganharam reboots e continuações recentes, mostra que há um apetite do público por esse tipo de terror sanguinolento e estilizado. No entanto, esse movimento corre o risco de se tornar repetitivo e pouco inventivo quando se apoia exclusivamente em fórmulas passadas sem ousar reinventá-las.

Em resumo, “Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado” (2025) é um exercício de nostalgia que diverte, mas não inova. Funciona melhor quando tenta ser algo novo do que quando insiste em homenagear o velho, justamente o oposto do que a franquia precisava para renascer com força no cenário atual do horror.

Ficha Técnica

Título original:I Know What You Did Last Summer

Duração: 1h 51min

Gênero: Terror, Suspense

Direção: Jennifer Kaytin Robinson

Roteiro: Leah McKendrick, Lois Duncan

Elenco: Jonah Hauer-King, Sarah Pidgeon, Chase Sui Wonders, Madelyn Cline, e Tyriq Withers

 

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Imagens contaram “Doces Aventuras” na Fenadoce

A desenhista Larissa Silva relatou um pouco sobre como foi participar como ilustradora da 31ª edição da Feira Nacional do Doce, que terminou dia 3 de agosto        

Por Giovana Costa e Vinicius Terra        

A 31ª edição da Feira Nacional do Doce (Fenadoce) em Pelotas se encerrou no domingo, dia 3 de agosto, mas já deixa os pelotenses com saudades de um dos maiores eventos do Rio Grande do Sul. Um dos pontos de maior destaque neste ano foi o espaço “Doces Aventuras”, que possuía o mesmo nome do tema da feira. O espaço, considerado o coração da Fenadoce, representava a arte, com os doces típicos virando árvores em ilustrações, papéis de parede customizados e janelas diferenciadas. Por meio da arte, a cultura local de Pelotas ganhou vida pelo olhar e habilidade artística de Larissa Silva, uma jovem artista de 21 anos que criou tudo isso.

 

Prédios históricos da cidade de Pelotas ganham versão ilustrada na Fenadoce

 

Larissa contou sobre como foi o processo após ser convidada pela representante do Centro de Diretores Lojistas (CDL) de Pelotas, Adriane Silveira. Como é característico desta parte do ano na cidade, ocorreu “em um mês de muita correria e criatividade”. Para a criação de personagens, houve uma semana e meia. Daí surgiram as versões personalizadas em bonecos dos doces quindim, camafeu, ninho, bem casado, papo de anjo etc. O resto do tempo foi totalmente dedicado a cada canto do espaço “Doce Aventuras”. “Tive que pensar em cada cantinho individualmente e na harmonização de como eles ficariam ao olhar o conjunto”, disse a artista, ainda que na correria. Para Larissa, o maior desafio foi a tradução da arquitetura da cidade de Pelotas em doces.

 

Bonecos e atores fazem parte do universo de personagens da Feira Nacional do Doce

 

Com muitas artes presentes no espaço, Larissa ainda diz ficar dividida entre as roupas dos personagens e na casa da baronesa, quando perguntada sobre a arte que mais gostou de criar. A casa da baronesa, feita de doces, “foi um processo mais cansativo, quase uma brincadeira de encaixar docinhos”, Larissa comenta, e ainda finaliza que “foram dias pesquisando atrás de referências da casa original por fora e por dentro, tentando capturar a essência do clássico, [mesclando] com a magia do lúdico”.

 

Larissa inventou cenários lúdicos com os doces tradicionais de Pelotas

 

A profissional criativa Larissa Silva tem 21 anos, trabalha com design desde 2019 e cursa Artes Visuais na Universidade Federal de Pelotas. Ela ainda afirma que a arte “sempre esteve ali” para ela, já que sua mãe é artista plástica e seu pai músico. “Espero cada vez mais poder influenciar as pessoas a acreditar em seus potenciais e ver o mundo com novos olhos”, finaliza.

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“Dos Sinais à Cena”

Projeto promove protagonismo da comunidade surda no teatro em Pelotas     

Por Larissa Ribeiro Duarte      

Em um cenário onde a acessibilidade cultural ainda é um desafio, o projeto Dos Sinais à Cena transforma o teatro em uma potente ferramenta de inclusão e protagonismo da comunidade surda em Pelotas. Criada por Germano Rusch, ator, professor e diretor, a iniciativa propõe uma cena feita com e por surdos, na qual a Libras (Língua Brasileira de Sinais) e a expressão corporal são os elementos centrais da criação.

A ideia nasceu em 2017, quando Germano, ainda estudante da licenciatura em Teatro na Universidade Federal de Pelotas (UFPel), decidiu sair da zona de conforto no estágio curricular. Ao optar por trabalhar com estudantes surdos do Ensino Médio na Escola Carmen Baldino, em Rio Grande, ele percebeu o quanto a arte poderia ser uma ponte entre mundos. A inspiração veio das aulas de Libras na faculdade e do desejo de atuar em um espaço no qual  a acessibilidade cultural era quase inexistente.

 

À esquerda, Germano Rusch, idealizador do projeto “Dos sinais à cena”, durante oficina     Fotos: Divulgação

 

“Eu me sentei com eles e disse: vocês me ensinam Libras do jeito de vocês e eu mostro como o teatro pode ser legal. Eles toparam”, relembra Germano. Daquela troca surgiu o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Germano e que mais tarde se tornaria projeto aprovado pela Incubadora de projetos de inclusão OTROPORTO, com apoio financeiro e técnico para se consolidar.

Libras, corpo e vivência coletiva

Todas as oficinas são conduzidas em Libras, mesmo quando há participantes ouvintes. Além da língua de sinais, os chamados classificadores (gestos e expressões corporais que ampliam ou substituem os sinais) são usados para dar fluidez à comunicação e estimular a criação. A linguagem teatral surge do corpo, do olhar e da vivência compartilhada.

 

Todas oficinas são conduzidas em Libras e com os gestos e expressões corporais que ampliam ou substituem os sinais

 

Germano conta que precisou adaptar a metodologia para lidar com um grupo diverso, composto por crianças, adultos e idosos, incluindo pessoas autistas, com dificuldades cognitivas ou em processo de alfabetização. O objetivo era nivelar o grupo sem tirar a leveza e o prazer de aprender. “A aula tinha que ser gostosa para eles. Tinha que ser divertida pra mim, principalmente, e muito mais para eles.”

O processo de criação é coletivo desde o início. As cenas surgem a partir das experiências reais dos participantes, principalmente relacionadas às dificuldades enfrentadas pela comunidade surda. Uma delas retratava a tentativa frustrada de assistir a um filme nacional sem legenda, o que para um público ouvinte é comum, mas para eles é determinante.

“Eles são os protagonistas da cena. Atuando, mostrando suas dificuldades ou qualidades, mas eles em cena”, destaca o diretor. A proposta do projeto é garantir que as pessoas surdas tenham propriedade para contar suas histórias, sem mediações.

Mais do que ensinar teatro, Germano conduz um processo de criação coletiva que valoriza a autonomia e as narrativas de quem sempre esteve à margem da cena.

O projeto contou com a parceria da Escola Alfredo Dub e com o apoio da Associação de Surdos de Pelotas (ASP), promovendo aulas práticas em que a linguagem teatral é usada como instrumento de expressão visual, corporal e emocional. Em vez de um intérprete isolado na lateral do palco, os próprios estudantes constroem narrativas a partir de referências pessoais e situações cotidianas.

Além da acessibilidade: apropriação e identidade

A diferença mais significativa entre o teatro convencional e o que se constrói em Dos sinais à cena está no pertencimento. Segundo Germano, muitos temas explorados no teatro tradicional não atravessam a comunidade surda. Para que o trabalho fizesse sentido, ele precisou partir das experiências do grupo, criando espaços onde cada pessoa pudesse se reconhecer. As cenas não seguem roteiros prontos, mas surgem das necessidades, emoções e vivências dos participantes.

A fluidez da expressão corporal garante que mesmo quem não domina Libras consiga compreender as cenas. “Eles são muito expressivos. A teatralidade está no corpo deles desde sempre”, comenta o diretor.

 

Atividades contam com parceria da Escola Alfredo Dub e apoio da Associação de Surdos de Pelotas (ASP)

 

O futuro do projeto

Com apoio inicial da Incubadora OTROPORTO, o projeto teve investimento para aulas, intérpretes e capacitação. Agora, Germano busca novas formas de financiamento para dar continuidade às oficinas e, quem sabe, levar as cenas ao palco para públicos diversos, com acessibilidade para ouvintes e surdos.

Apesar da relevância e do impacto do projeto, a falta de apoio financeiro é um obstáculo constante. A parceria com a incubadora foi o empurrão necessário para transformar uma ideia em prática.

Agora, o futuro do Dos Sinais à Cena depende do interesse e do investimento coletivo em uma arte feita para todos e com todos.

Trabalhar com arte inclusiva, para Germano, é mais do que ensinar: é aprender. “O mais transformador é ver eles se reconhecendo em cena, mostrando suas dores e conquistas. É teatro de verdade, com propósito e com alma.”

Para acompanhar mais sobre o projeto, siga @dossinaisacena_projeto no Instagram.

Assista ao vídeo com o depoimento de Germano Rusch sobre a iniciativa:

 

 

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Nova versão dos super-heróis da Marvel

“Quarteto Fantástico: Primeiros Passos” é uma boa porta de entrada para novos fãs    

 Por Pedro Farias     

 

Filme estreou em julho com Ebon Moss-Bachrach (Ben Grimm/’O Coisa”), Pedro Pascal (Reed Richards/”Sr. Fantástico”), Vanessa Kirby (Sue Storm/”Mulher Invisível”) e Joseph Quinn (Johnny Storm/”Tocha Humana”) Fotos: Marvel Studios/Divulgação

 

“Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”, lançado nas salas de exibição do Brasil em 24 de julho, é uma nova versão da origem do famoso grupo de super-heróis da Marvel. O filme é uma excelente porta de entrada para quem nunca leu as HQs ou viu os filmes anteriores, apresentando de forma leve e divertida como cada personagem ganhou seus poderes. A classificação etária permite levar a criançada, que provavelmente vai se divertir com as piadas e momentos de ação mais descontraídos.

O filme traz Pedro Pascal como Reed Richards (Sr. Fantástico), Vanessa Kirby como Sue Storm (Mulher Invisível), Joseph Quinn como Johnny Storm (Tocha Humana) e Ebon Moss-Bachrach no papel de Ben Grimm (O Coisa). O elenco consegue dar vida a personagens clássicos com carisma e energia, especialmente em um roteiro que equilibra aventura com humor.

 

Pedro Pascal, no papel do Sr. Fantástico, na cena em que fala com a imprensa          

 

O visual também é um dos destaques. Os uniformes têm um estilo retrô, que lembra a década de 1960, mas com um toque futurista que atualiza a estética da equipe sem perder a essência original. A direção de arte valoriza o colorido e a identidade visual da equipe, o que torna o filme agradável de assistir até para quem não é fã de super-heróis.

Para quem já acompanha o Quarteto Fantástico, vale lembrar que esta é a mais nova tentativa da Marvel de revitalizar os personagens no cinema. Antes disso, o grupo teve três filmes principais: “Quarteto Fantástico” (2005), sua continuação “Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado” (2007), com Ioan Gruffudd, Jessica Alba, Chris Evans e Michael Chiklis; além de um reboot com o mesmo título original, fracassado em 2015, com Miles Teller, Kate Mara, Michael B. Jordan e Jamie Bell. Diferente desses, “Primeiros Passos” aposta em um tom mais acessível e fiel ao espírito original das HQs, sem abrir mão de atualizações modernas.

No geral, o filme acerta ao simplificar a origem da equipe e torná-la divertida para novos públicos. Não é uma produção complexa, mas cumpre muito bem seu papel de reapresentar o Quarteto Fantástico às novas gerações e, quem sabe, preparar o terreno para histórias mais ambiciosas no futuro.

 

Conversando com H.E.R.B.I.E.,  está “O Coisa”, que adquiriu seus poderes depois de  exposto a raios cósmicos 

 

Ficha Técnica:

“Quarteto Fantástico: Primeiros Passos”

Direção: Matt Shakman

Roteiro: Josh Friedman, Eric Pearson, Jeff Kaplan, Ian Springer

Elenco: Pedro Pascal, Vanessa Kirby, Ebon Moss-Bachrach, Joseph Quinn, Julia Garner, Natasha Lyonne, Paul Walter Hauser, Ralph Ineson, Sarah Niles, Mark Gatiss, Matthew Wood, Ada Scott

Duração: 115 min.

Faixa etária: 12 anos.

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“A ideia é formar um ser humano mais consciente, mais autônomo”

Em entrevista, o professor Emanuel Santos fala sobre sua trajetória na arte-educação       

Por João Pedro Goulart      

Arte-educador formado em Artes Visuais, Emanuel dos Santos é professor da rede estadual de ensino e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Artes, do Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), na linha de Educação em Artes e Processos de Formação Estética. Ele conta como se reencontrou com o desenho na universidade, depois de uma juventude dedicada à música, e como a docência se consolidou em sua vida profissional. Em entrevista, ele destacou momentos da infância, falou sobre o início como professor na cidade de Piratini e refletiu sobre o cuidado como base de sua prática pedagógica.

Arte no Sul – O que te motivou a seguir a carreira de arte-educador?

Emanuel – Na verdade, eu não esperava que fosse seguir esse caminho. Quando entrei na universidade, estava muito voltado para a música. A arte sempre fez parte do meu cotidiano, das minhas vivências, mas eu queria mesmo era cursar música, aprender mais e tocar. Não pensava em dar aula ou ser professor.

Arte no Sul – E como aconteceu a mudança para as artes visuais?

Emanuel – Acabei não conseguindo entrar na universidade de música e entrei para Artes Visuais – Licenciatura. Ali, me reconectei com o desenho, que era uma prática que eu tinha desde antes de começar a tocar. Desde que me conheço por gente, eu desenho. Minha mãe conta que eu desenhava nas paredes da sala. Uma das lembranças mais antigas que tenho é de desenhar nas paredes de uma estação velha que havia em frente à casa onde eu morava quando era criança.

Arte no Sul – Teus primeiros passos como professor aconteceram ainda na graduação?

Emanuel – Sim. Já tinha dado oficinas e aulas, desde muito cedo. Dei aula de violão, por exemplo. Sempre gostei muito de dar aula, mas nunca tinha pensado nisso como profissão. Depois da faculdade, fui me inscrevendo em processos seletivos do estado, do município, e consegui uma vaga para dar aula em Piratini.

Arte no Sul – Foi nesse momento que tu te reconheceste como professor?

Emanuel – Acredito que sim. Foi quando se consolidou esse meu lado professor como profissão. Até então, eu não pensava muito nisso, talvez por entender a responsabilidade que o professor tem. O estudante passa grande parte do tempo na escola, às vezes tanto quanto em casa. Então o professor tem uma influência muito grande na vida da pessoa, e isso exige um comprometimento real.

 


Emanuel dos Santos vê um sentido libertador no ensino das artes

Arte no Sul – Como é tua abordagem enquanto arte-educador?

Emanuel – Depois que entrei nesse caminho, resolvi me atirar de cabeça. Já que foi isso que a vida me proporcionou, resolvi encarar e dar o meu melhor. Tento sempre trazer um olhar da arte-educação mais voltado para uma perspectiva de cuidado: cuidado com as relações, com o entorno, com o ambiente.

Arte no Sul – Como tu explicas a escolha pelo mestrado e qual a linha está pesquisando?

Emanuel – Optei por seguir o mestrado porque ele também é voltado para a educação, que já era o foco da minha formação na graduação. Mas o que me atraiu mesmo foi essa linha ligada à formação estética. Quando a gente fala sobre estética, não é no sentido de salão de beleza, mas sim da maneira como a gente encara a vida — uma estética de vida. O que você acredita que é verdadeiro, justo, bonito. A estética, para mim, está ligada a esse universo de valores e crenças.

Arte no Sul – Como essa ideia de estética se conecta com a educação?

Emanuel – Acredito que a educação também deve ajudar o estudante a ampliar o olhar sobre o que está vivendo. Sigo muito a perspectiva [de Paulo Freire] da educação para a autonomia, de uma educação que liberta. A autora bell hooks também fala dessa educação transcendente, que auxilia o sujeito a se posicionar no mundo de maneira mais saudável. E isso tudo tem a ver com aquele cuidado que comentei antes: o cuidado com o próximo, com o meio ambiente, com as relações e também com si próprio.

Arte no Sul – Esse cuidado passa também pela formação de um olhar mais crítico?

Emanuel – Com certeza. É tentar ser mais crítico com os conteúdos que se consome — até com o próprio alimento, com os hábitos, os hobbies, as companhias. Tudo isso entra. A ideia é formar um ser humano mais consciente, mais autônomo.

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Pulsação ancestral e resistência no filme “Pecadores” e no disco “Bluesman”

História cinematográfica entra em sintonia com o trabalho musical de vários artistas que batalham para a contínua valorização da expressão sonora do blues     

Por Amanda Marin    

 

Michael B. Jordan está nos papéis dos gêmeos Stack e Smoke     Foto Divulgação 

 

Lançado mundialmente em 3 de abril de 2025 nos serviços de streaming, “Pecadores” é a nova obra de Ryan Coogler, cineasta de referência no cinema negro contemporâneo, diretor de “Pantera Negra”, “Creed” e “FIG”. Ambientado em 1932, no Delta do Mississippi, o filme “Pecadores” narra a trajetória dos gêmeos Stack e Smoke, interpretados por Michael B. Jordan, que retornam à cidade natal para abrir um clube de música e entretenimento destinado à população negra local, que ainda sofria absurdamente a resistência em ambientes de lazer. A temática do filme acompanha o movimento sonoro em que vários artistas, entre os quais, o rapper, cantor e compositor brasileiro Baco Exu do Blues. Ele cultiva o gênero musical como uma forma de resistência no seu disco “Bluesman”.  

A cena central do filme envolve o jovem Sammie Moore (Miles Caton), que, ao tocar no clube dos irmãos, cria um transe coletivo que funde blues, hip hop, tambores e interpretações religiosas, num plano‑sequência mágico que desloca passado, presente e futuro. Essa cena, segundo o diretor Coogler, busca provocar uma experiência quase extracorporal no espectador.

O compositor Ludwig Göransson, vencedor do Oscar, conduziu uma imersão sonora profunda: visitas a Clarksdale, Indianola e Memphis, workshops com músicos tradicionais e gravações em estúdio com artistas como Buddy Guy, Brittany Howard, Raphael Saadiq, Christone “Kingfish” Ingram e Cedric Burnside. A trilha sonora, lançada em 18 de abril de 2025 pela Sony Masterworks, conta com 22 faixas, incluindo clássicos de Buddy Guy e composições originais de Rod Wave e James Blake.

A simbologia do blues no filme vai além da estética musical: os vampiros representam o racismo estrutural e o apagamento cultural, enquanto o blues age como contraponto espiritual, ancestral e comunitário, capaz de unir e curar um contexto opressivo.

É nesse ponto que o filme mergulha em uma de suas maiores potências simbólicas: a releitura da lenda de Robert Johnson. No imaginário popular, Johnson teria vendido a alma ao diabo numa encruzilhada em troca de se tornar um mestre da guitarra, lenda que por décadas foi usada para explicar a genialidade do músico e que, ao mesmo tempo, escancara um racismo enraizado: a crença de que artistas negros só poderiam atingir níveis extraordinários de talento por intervenção sobrenatural (normalmente maligna), e não por estudo, prática e genialidade própria.

Em “Pecadores”, essa lógica é subvertida. Em vez de vender sua alma, o jovem Sammie — inspirado em Robert Johnson — é justamente o alvo de forças mágicas, vampiros, liderados por um homem branco, desejam o dom musical do garoto. A genialidade dele é tão potente que seres do outro mundo querem se alimentar dela e explorá-la. Coogler inverte a fábula: não há pacto, mas sim assédio e desejo de roubo. É uma crítica contundente à forma como o talento negro é constantemente apropriado ou desacreditado, como se fosse impossível um jovem negro simplesmente ser bom no que faz.

Essa reinterpretação da lenda de Johnson, feita décadas após sua consolidação no imaginário popular, mostra como o filme trata de um tema atual.  Ainda hoje, em diferentes linguagens, artistas negros seguem respondendo ao apagamento histórico, à desconfiança sobre sua genialidade e à tentativa de diluição de suas contribuições culturais. A participação de Buddy Guy (um dos maiores guitarristas e cantores de blues dos Estados Unidos), em cena pós-créditos, interpretando um Sammie já idoso em Chicago, reforça esse elo simbólico entre a ficção e o legado real do blues, como ponto de partida de uma linhagem musical e ancestral.

Criação sonora de Baco Exu do Blues

É exatamente esse espírito que move artistas contemporâneos a resgatar o blues como raiz, matriz e resistência. Muitos cantores negros têm explorado esse elo entre o blues e outras vertentes musicais, mesclando-o ao rap, ao funk, ao jazz, ao soul, como continuidade viva, moldada pelas urgências e potências de hoje. Entre esses artistas, o baiano Baco Exu do Blues se destaca.

As obras de Baco são parte de um projeto artístico mais amplo e visceral. Baco Exu do Blues, nome artístico de Diogo Moncorvo, é um dos artistas mais expressivos da nova geração da música brasileira. Sua obra é marcada pela fusão de gêneros, pela estética provocadora e pelo compromisso em recontar a história do povo preto a partir de sua própria voz. No disco “Bluesman”, ele resgata a figura mítica do bluesman norte-americano e a transforma em um símbolo de poder, de ruptura e de reapropriação. Sua presença no cenário musical é como uma continuação daquilo que “Pecadores” propõe: afirmar que o talento preto não é milagre nem maldição, é identidade e herança.

Em “Bluesman”, faixa-título do disco lançado em 2018, Baco declara:

“Eu sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos

 O primeiro ritmo que tornou pretos livres

 A partir de agora considero tudo blues

 O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues

 O funk é blues, o soul é blues, eu sou Exu do Blues

 Tudo que quando era preto era do demônio

 E depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues

 É isso, entenda

 Jesus é blues”

 

Capa do Álbum “Bluesman” de Baco Exu do Blues

 

Ao afirmar que tudo é blues, Baco amplia os contornos do gênero e reinscreve a história da música negra como uma trajetória de poder. A letra ecoa o mesmo enfrentamento que vemos no filme: o questionamento sobre porque, historicamente, quando o talento vem de um corpo negro, precisa ser atribuído a um pacto com o além, como se a excelência não pudesse ser natural, humana, negra.

Baco constrói um discurso sobre o blues como impulso primordial de liberdade: um ritmo capaz, segundo ele, de ressignificar o corpo negro e criar um novo espaço de riqueza e poder simbólico, antes estigmatizado e demonizado nas mãos negras, mas humanizado e aceito quando apropriado pelos brancos.

Ele afirma que queria “fazer um disco de blues sem usar o gênero musical blues”, construindo por meio da voz, de samples como o de “Mannish Boy” de Muddy Waters, e de colaborações com artistas como Tim Bernardes, Tuyo, 1LUM3 e Bibi Caetano, uma poética sonora que refletisse o espírito do blues, não sua forma tradicional.

Ainda que o blues seja fundamentalmente uma criação afro-americana, no Brasil o reconhecimento público como “principal artista de blues” recaiu, ironicamente, sobre o guitarrista branco André Christovam, que tem mais de 29 anos de carreira, fenômeno que levanta questões sobre representatividade e visibilidade dos artistas negros no país.

Cantores negros contemporâneos que perpetuam o blues vivo

Inspirado pelo filme e pela perspectiva poética do álbum de Baco, seguem artistas negros contemporâneos que mantêm acesa a chama do blues e suas ramificações:

  • Christone “Kingfish” Ingram, do Mississippi, é considerado um dos mais brilhantes guitarristas da nova geração do Delta blues, herdeiro direto de Junior Kimbrough e R.L. Burnside, com técnica visceral e autenticidade emocional.
  • Buddy Guy, lenda viva que aparece em “Pecadores”, atua não só como ícone performático, mas também como símbolo da continuidade do blues como narrativa de dor e superação.
  • Brittany Howard, do Alabama Shakes, transita entre blues, soul e rock com força ancestral e presença marcante.
  • Raphael Saadiq, produtor e colaborador do filme, transita com fluidez entre R&B, soul e elementos de blues moderno.
  • Rod Wave interpreta a faixa-título da trilha sonora de “Pecadores”, mesclando melodia atual com espírito do blues ancestral.
  • Shemekia Copeland mantém viva a tradição com uma voz potente e letras que falam sobre injustiça racial, orgulho negro e espiritualidade.

Cantor e guitarrista Buddy Guy na solenidade de pré-estreia do Filme “Pecadores”

 

Esses artistas atualizam o blues como ferramenta de empoderamento, criatividade e consciência histórica, compromisso espiritual e cultural tão presente quanto nas cenas de “Pecadores” ou na poética urbana de Baco.

Então, se “Pecadores” representa o blues como ritual ancestral que salva, transforma e conecta gerações de corpos negros, “Bluesman” de Baco Exu do Blues simboliza poeticamente essa mesma energia reimaginada nas ruas de Salvador, com versos agudos, voz rouca e uma interpretação visceral de liberdade. Juntos, ambos os trabalhos reafirmam a arte negra como espaço de resistência, disputa simbólica e renovação cultural.

O certo é que o blues não está parado no tempo: pulsa em vozes negras contemporâneas que continuam o legado. É música, é política, é ancestralidade e religião em movimento — pois, como diz Baco, Jesus também é blues.

 

Ficha Técnica do filme

Título: “Pecadores” (“Sinners”, 2025)

Direção: Ryan Coogler

Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole

Produção: Marvel Studios / Coogler Films

Elenco principal: Michael B. Jordan (Stack e Smoke Moore), Miles Caton (Sammie Moore), Danielle Deadwyler, Delroy Lindo, Ayo Edebiri, Glenn Plummer, Buddy Guy (participação especial)

Fotografia: Autumn Durald Arkapaw

Montagem: Michael P. Shawver

Trilha sonora original: Ludwig Göransson

Lançamento: 3 de abril de 2025

Duração: 129 minutos

Gênero: Terror, Drama, Musical

Idioma: Inglês

Distribuição: Warner Bros. Pictures

 

Ficha Técnica do Álbum “Bluesman”

Artista: Baco Exu do Blues

Título: “Bluesman”

Lançamento: 23 de novembro de 2018

Gênero: Hip-Hop/Rap

Duração: 30 minutos

Formato: Digital (streaming e download)

Gravadora: EAEO Records

Produção: Baco Exu do Blues, DKVPZ, KLZ, Portugal

Participações especiais: Tim Bernardes, Bibi Caetano, 1LUM3 e Tuyo

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Do papel à tela: o Sítio do Picapau Amarelo como espelho da cultura brasileira

Mais do que um clássico da infância, obra literária revela as camadas complexas da formação cultural brasileira, também há 50 anos na sua versão televisiva, entre encantamento, crítica e contradições    

Por Bárbara Beatriz Carvalho   

   

A personagem Emília ganha vida na sua primeira adaptação televisiva do Sítio, nos anos 1970, em preto e branco, marcando gerações com sua irreverência e liberdade        Foto: Acervo O Globo/Divulgação

 

Em julho de 2025, o programa “Sítio do Picapau Amarelo” completa 50 anos de sua primeira exibição televisiva na Rede Globo. A data reacende o interesse por uma das maiores obras infanto-juvenis da literatura e da televisão brasileira, cuja trajetória atravessa livros, desenhos animados e debates sobre identidade cultural. Ainda hoje, o universo criado por Monteiro Lobato permanece como um marco da imaginação nacional, mesclando fantasia, folclore e crítica social.

 

A primeira edição do livro de 1920, que inaugurou o universo do Sítio e deu início a uma das obras mais marcantes da literatura infantil brasileira
Foto: Fundação Biblioteca Nacional 

 

Uma obra entre encantos e críticas

Monteiro Lobato (1882–1948) é um dos nomes mais influentes da literatura infantil no Brasil. Sua contribuição se firmou na capacidade de construir narrativas que uniam pedagogia e fantasia, como no caso do “Sítio do Picapau Amarelo”, publicado inicialmente em 1920 com “A menina do nariz arrebitado”. Ao longo dos anos, o autor desenvolveu esse universo com personagens icônicos como Emília, Visconde de Sabugosa, Dona Benta e Tia Nastácia.

É possível analisar o Sítio como produto das vivências de Lobato e como espelho da formação cultural brasileira, refletindo tanto suas virtudes quanto suas contradições. A importância da série, tanto literária quanto televisiva, ultrapassa o autor: ela se transformou em uma lente através da qual gerações de brasileiros aprenderam a olhar para o mundo e para si mesmos.

 

Exibida a partir de 2001, nova versão atualiza clássico sem perder encanto original   Fonte: Acervo Globo/Divulgação

 

Cultura e brasilidade no sítio encantado

O “Sítio do Picapau Amarelo” não é apenas uma obra de ficção. Ele é, antes de tudo, um reflexo simbólico do Brasil profundo. O cenário rural, os personagens arquetípicos e os elementos do folclore nacional, como o Saci, a Cuca e a Iara, ajudam a formar um imaginário coletivo brasileiro que une passado e presente, realidade e fantasia.

Além disso, a série sempre trouxe temas de ciência, política, história e filosofia de maneira lúdica. Emília, a boneca falante, representa a liberdade de pensamento; o Visconde de Sabugosa, o desejo pelo conhecimento; Dona Benta, a figura da sabedoria popular; Tia Nastácia, mesmo sob olhares mais críticos hoje, é vista por muitos como guardiã das raízes africanas na culinária e nas histórias.

Na televisão, essas representações ganharam forma e cor. A adaptação de 1977 se tornou um clássico, sendo exibida em horários nobres e conquistando uma geração. Já o desenho animado de 2012 atualizou a estética sem perder a essência, abrindo espaço para uma nova geração acessar o conteúdo com linguagem visual mais próxima dos padrões contemporâneos.

Um legado em movimento

Em tempos de debates sobre educação, memória cultural e pertencimento, revisitar o “Sítio do Picapau Amarelo” é um exercício de reconhecimento do que há de formador — e também de reformável — em nosso patrimônio simbólico.

Celebrar os 50 anos de sua presença na TV não é apenas um gesto nostálgico. É refletir sobre como uma obra consegue atravessar décadas e ainda ser ponto de partida para diálogos sobre infância, cultura e identidade. O sítio criado por Monteiro Lobato continua sendo, para muitos, o primeiro contato com o prazer da leitura, com o folclore nacional e com a ideia de que o Brasil também pode ser o cenário da imaginação.

Linha do tempo: do livro à televisão

1920 Publicação de A Menina do Nariz Arrebitado, primeiro livro da série do Sítio.

1933 Lobato lança Reinações de Narizinho, consolidando o universo do Sítio como um marco da literatura infantil.

1952 Primeira adaptação do Sítio para a televisão, na extinta TV Tupi.

1977 Estreia da versão mais marcante na Rede Globo, com produção de 1977 a 1986.

2001 Nova adaptação televisiva pela Globo, com linguagem atualizada e efeitos visuais mais modernos.

2012 Lançamento da versão em desenho animado, coproduzido com a Mixer e exibido pela TV Cultura, destacando-se como forma de reinvenção da série para o público contemporâneo.

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Cinema indígena e sobre floresta amazônica contribuem para conscientização

Relatos e experiências de duas professoras da Universidade Federal de Pelotas trazem reflexões importantes sobre os desafios, a cultura dos povos nativos e o cinema produzido por eles     

 Por Vanessa Oliveira   

Vivências com o cinema indígena foram o tema da aula aberta, no dia 26 de junho, no Centro de Artes da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Duas professoras do curso de Cinema da UFPel, contaram suas experiências no cinema documentário e na pesquisa. A professora Cíntia Langie visitou aldeias indígenas na Amazônia como documentarista e, de outro lado, a professora Ivonete Pinto foi à Inglaterra como pesquisadora visitante, na Universidade de Leeds, estudar sobre a importância do cinema indígena no Brasil e outros países. A professora Cíntia relata a sua experiência como documentarista na Amazônia e Ivonete sobre as suas pesquisa com o cinema dos povos nativos.

 

Professora Cíntia Langie trabalhou com filmagens 27 dias na Floresta Amazônica

 

Cíntia foi convidada para participar do projeto mae mekea, iniciativa que tem como objetivo de pesquisa co-projetar ações e políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas com base nas formas de viver e valores das comunidades indígenas da Amazônia. A proposta adota metodologias descolonizadoras, com foco no pluralismo ontológico indígena frente às mudanças ambientais globais no Bioma Amazônia. Quatro etnias indígenas (Yawanawa, Noke Koi Katukina, Shanenawa, Huni Kuin) de seis comunidades amazônicas co-projetam a metodologia. O trabalho se desenvolve em quatro partes ao longo de 18 meses, incluindo a ida para a Amazônia, onde Cintia foi como documentarista. 

Foram 27 dias no Acre, em seis aldeias de quatro etnias diferentes, o suficiente para Cíntia obter experiências e um olhar sensível sobre aquelas comunidades. “É um universo tão lindo, tão rico, tão amplo que eu não sabia como chegar lá e eu ficava o tempo todo pensando em como não ser invasiva e como respeitá-los”, disse a professora.

Cintia falou das dificuldades que encontrou ao visitar as aldeias, eram poucos os dias em que ficavam em cada uma delas. Então, o contato era pouco, tinha apenas duas pessoas para as filmagens e também houve dificuldades ao enfrentar o clima. Era um calor muito intenso e ela ficava exposta ao sol trabalhando na filmagem. A professora relata que o clima mudava repentinamente, o sol brilhava intensamente, mas logo era substituído por uma chuva muito forte e, em seguida, o sol retornava. Os equipamentos eram posicionados diretamente no chão — uma realidade bem diferente para quem está acostumado a trabalhar e colocar os equipamentos em cima de uma mesa. O escritório dela, agora, era a própria mata, o que exigia cuidado redobrado no manuseio e na proteção dos materiais.

 

Cineastas tiveram contato com o modo de viver integrado à floresta

 

A equipe que foi em busca de uma solução para as mudanças climáticas ouviu apenas pedidos de socorro e desespero. “Eles não têm que dar solução, não foram eles que causaram tudo isso, o mínimo que devemos fazer é defender a demarcação de terras deles, e deixar eles fazendo o que já faziam há muito tempo. Nós fomos lá e ouvimos por que a vida deles não dá mais certo,” explicou Cintia.

Demarcação das terras indígenas

A demarcação das terras indígenas refere-se à garantia dos direitos territoriais dos indígenas, estabelecendo limites de suas terras a fim de garantir a sua identidade. Essa demarcação é prevista por lei, assegurada pela constituição federal de 1988. Além disso, segundo pesquisas feitas pela Rights and Resources Initiative, juntamente a Woods Hole Research Center e o World Resources Institute: as terras indígenas contribuem para a diminuição do efeito estufa, visto que diminui o desmatamento, impactando, assim, positivamente ao meio ambiente.

A professora Cíntia relatou sobre as dificuldades que as comunidades vivem, como os problemas com a alimentação. Por ser baseado no plantio, muitas vezes o alimento sai podre por conta do calor na terra e a caça não é mais possível por conta dos desmatamentos. E o que resta a essas comunidades é a resistência.

“O sistema deles não é exploratório, eles não destroem todas as árvores para poder plantar mais, para crescer mais e lucrar mais, eles colhem o que necessitam para comer no dia a dia e quando pegam seu alimento, não é individual, é para comunidade inteira. Então, essa ideia que eles têm de comunidade, de reflorestamento e de cuidado é o que nós temos que trazer para a sua preservação”, analisou a professora.

Para se deslocarem de uma aldeia para outra, Cintia conta que iam com barquinhos muito pequenos chamados de “voadeiras” e no primeiro dia a professora ficou em uma casa parecida com uma cabana. Não tinha janelas e nem portas, só dava pra pendurar a rede na parede para dormir.  “Nós temos uma imagem dos povos indígenas que é muito colonizada e não é essa a lógica, a lógica é o sentido de vida que eles dão a isso, eles plantam, colhem, caçam, mas fazem isso para [a manutenção] deles e isso não destrói, o que destrói é a ganância”.

A professora ficou os 27 dias comendo da dieta das comunidades e até pensou que poderia passar mal, o que não aconteceu. Ela explicou que, nas comunidades, não era comum ter o açúcar, algumas tinham, mas isso não fazia parte do seu cotidiano, o sal também era muito pouco e nada de produtos industrializados.

“O projeto comprou barrinhas de proteína se caso faltasse para nós, que não estamos acostumados, e as crianças começaram a comer e gostaram, aí, eu pensei meu Deus, estamos estragando essas crianças (risos)”, contou.

A professora relatou que a experiência foi ao mesmo tempo incrível e chocante. Por meio das imagens captadas com o drone, era possível ver claramente a diferença entre uma terra indígena e uma área vizinha explorada por fazendeiros. Enquanto o território indígena permanecia preservado e coberto por vegetação verde, a outra área apresentava sinais visíveis de degradação, com um tipo de vegetação totalmente diferente, reflexo do uso exploratório da terra.

Um aspecto triste é que a equipe não poderá dar a eles o que mais precisam, que são as mudanças das políticas ambientais, então o objetivo de Cíntia agora é devolver a eles todos os depoimentos na íntegra para que possam divulgar nas escolas ou guardar como documentos de pesquisa. “É um histórico brasileiro de só explorar, só destruir, vai lá, explora o que é bom deles e vai embora e nós vamos ser mais um projeto que vai fazer isso. Infelizmente.”

 

Professora Ivonete Pinto participou de intercâmbio de pesquisadores que se voltam ao cinema indígena

 

O cinema produzido por povos indígenas

Na aula aberta do Centro de Artes, a professora Ivonete Pinto contou sobre sua experiência como pesquisadora na Universidade de Leeds, uma das maiores instituições da Inglaterra. A ida da professora foi motivada pelo interesse no Centro de Estudos de World Cinema, dedicado à pesquisa de cinemas periféricos, tema que também é foco de sua atuação na UFPel. Ela já mantinha uma relação acadêmica de longa data com a coordenadora do centro, que escreveu o prefácio do seu livro “Cinemas Periféricos – estéticas e contextos não hegemônicos” e participou de outras publicações organizadas por Ivonete. Foi sob sua orientação que participou do programa Visiting Research Fellow (Pesquisador Visitante). Segundo a professora, além da parceria acadêmica, a escolha pela instituição também se deu pela excelência de sua biblioteca, que oferece acesso ao acervo de universidades como Oxford.

A professora estudou sobre o cinema indígena de quatro países: Austrália, Canadá, Nova Zelândia e Brasil. Ela contou que o critério se deu por serem países que passaram por processos de colonização europeia, como o Brasil, e explica que os indígenas de outras partes do mundo ainda enfrentam lutas sobre demarcação de terras, só que num estágio bem mais avançado de conquistas.

Entre os principais desafios enfrentados durante sua pesquisa, a professora Ivonete destaca as limitações de acesso ao acervo bibliográfico no Brasil.  “O maior desafio é voltar e não ter acesso a certos textos. Nossa biblioteca não tem os mesmos convênios que eles têm lá fora”, relata. Outro obstáculo apontado é a dificuldade em encontrar informações consolidadas sobre a trajetória dos filmes brasileiros.

Ela também reforça a importância do ambiente acadêmico no exterior, especialmente em centros como a Universidade de Leeds, que reúnem pesquisadores de diferentes partes do mundo. “Ter acesso a bibliografias atualizadas, estudar em bibliotecas ricas e silenciosas, assistir a palestras e trocar ideias com outros pesquisadores faz toda a diferença”, afirma. Durante sua passagem pela universidade, teve contato com professores e alunos de países como China, Índia, Rússia, Turquia e Coreia do Sul, o que ampliou ainda mais seus horizontes de pesquisa.

Arte no Sul – Como surgiu seu interesse pelo cinema indigena?

Ivonete – Eu dou uma disciplina no curso de Cinema e Audiovisual da UFPel chamada História do Cinema Brasileiro. Nela, uma das aulas é sobre cinema indígena. E como desenvolvo pesquisa sobre cinemas periféricos, entendo o cinema indígena como periférico dentro do periférico, pois se o cinema brasileiro é periférico, o indígena é ainda mais. Isto em termos de produção (crescente, mas ainda pequena) e de circulação (os filmes são exibidos apenas em festivais e mostras segmentadas).

Arte no Sul – A experiência no Reino Unido mudou de alguma forma o seu olhar sobre o cinema indígena brasileiro?

Ivonete – Sim, porque passei a entendê-lo como dentro de um processo histórico. As conquistas que eles já tiveram lá, ainda vão chegar aqui. Claro que tudo depende dos governos, de quem faz as leis. A demarcação de terras, o marco legal é uma questão que já teve avanços por aqui, mas também retrocessos. Termos uma ministra indígena é um passo adiante, porém os fazendeiros, o garimpo, etc, continuam sendo os inimigos dos indígenas. E esta é uma questão prioritária, por isso, a produção de filmes em longa-metragem e com circulação maior, acaba ficando em segundo plano. Mas é importante, pois traz identidade, preserva a cultura, reafirma uma sabedoria milenar que os não indígenas precisam conhecer.

 

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Destaques do cinema gaúcho recebem homenagem em Gramado

A entrega do Troféu Leonardo Machado e dos Prêmio Iecine será no 53º Festival de Cinema no dia 22 de agosto

 

O filme “Um é Pouco, Dois é Bom”, produzido em 1970 e recentemente restaurado, é um dos destaques   Foto: Super Filmes Ltda

 

Os destaques do audiovisual gaúcho serão homenageados com o Troféu Leonardo Machado e dos Prêmios Iecine (Instituto Estadual de Cinema) no dia 22 de agosto, durante a cerimônia de premiação de longas-metragens no 53º Festival de Cinema de Gramado. Os escolhidos foram anunciados nesta semana pela Secretaria da Cultura do Estado (Sedac), por meio do Iecine. O Troféu Leonardo Machado vai para a atriz Araci Esteves, e os Prêmios Iecine, para o filme “Um é Pouco, Dois é Bom”, para Victor Di Marco e Márcio Picoli e para Gustavo Spolidoro – nas categorias Destaque, Inovação e Legado, respectivamente. A comissão de seleção dos destaques foi formada pela jornalista Adriana Androvandi e pelos cineastas Alexandre Mattos Meireles e Davi de Oliveira Pinheiro.

“Celebrar nossos talentos é fortalecer o audiovisual do Rio Grande do Sul e toda a sua cadeia produtiva”, destaca a diretora do Iecine, Sofia Ferreira. “É muito satisfatório poder, a cada ano, reunir uma comissão que conhece e acompanha o andamento das mais diversas frentes do nosso setor audiovisual. Com base nesse levantamento, determinamos as homenagens”, complementa.

 

Traballho no teatro e no cinema da atriz Araci Esteves  tem reconhecumento  Foto: Petci Pedron

 

A atriz Araci Esteves, que recebe o Prêmio Leonardo Machado, tem um longo trabalho no teatro e está em obras cinematográficas fundamentais do cinema gaúcho. Como protagonista de “Anahy de las Misiones” (1997), de Sérgio Silva, tornou-se um ícone cinematográfico do Estado, no papel de mãe corajosa e mulher aguerrida.

Graças à restauração do filme “Um é Pouco, Dois é Bom” (1970), é possível ver novamente Araci na produção dirigida e estrelada por Odilon Lopez (1941-2002). O longa-metragem recebe o Prêmio Iecine Destaque. Obra atemporal, destaca-se por sua qualidade artística considerada singular e pioneira para o cinema negro brasileiro. Seu diretor Odilon Albertinence Lopez é o terceiro cineasta negro a dirigir um longa-metragem no Brasil. Antes dele vieram Cajado Filho e Haroldo Costa.

 

O ator Marcos Palmeira atuou com Araci Esteves no clássico gaúcho “Anahy de Las Misiones” (1997)

 

Já o Prêmio Iecine Inovação vai para Victor Di Marco e Márcio Picoli, por inovarem a linguagem audiovisual com um olhar considerado original e sensível sobre o universo PcD e pela tradução cinematográfica do sentido da palavra acessibilidade.

 

Marcio Picoli e Victor Di Marco foram destaque por inovações na linguagem audiovisual   Foto: Isidoro Guggiana

 

Já Gustavo Spolidoro recebe o Prêmio Iecine Legado. O realizador foi escolhido por sua capacidade múltipla de atuação. Em seu trabalho pioneiro na criação cinematográfica, destaca-se pela difusão das possibilidades de experimentação da linguagem do cinema e pela contínua formação de novas gerações de cineastas.

 

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