Conhecimento e história no coração de Canguçu

Entre livros e relíquias: Biblioteca e Museu celebram o saber do passado, presente e futuro da cidade   

Por Chaiane Römer e Amanda Leitzke   

 

Casa da Cultura Marlene Barbosa Coelho abriga as duas instituições                  Foto: Chaiane Romer

 

A Casa da Cultura Marlene Coelho, localizada no centro de Canguçu, é um espaço onde o passado e o futuro se encontram. Construído no século XIX, durante o período Imperial em estilo neoclássico, foi originalmente a residência da família Piegas, onde ocorreram memoráveis saraus e comemorações, como o casamento dos filhos da família. Em 12 de dezembro de 1901, os herdeiros venderam o palacete para a municipalidade de Canguçu. Desde então, o edifício testemunhou momentos históricos marcantes e hoje abriga a Biblioteca Municipal Clóvis Rocha Moreira e o Museu Municipal Capitão Henrique José Barbosa.

 

Biblioteca homenageia radialista e conta com cerca de 13 mil livros       Foto: Reprodução Prefeitura de Canguçu

 

A Biblioteca Municipal Clóvis Rocha Moreira possui um acervo de quase 13 mil livros, incluindo títulos técnicos, profissionais e literários, além de exemplares históricos e uma seção dedicada a autores canguçuenses. A biblioteca homenageia, de acordo com a Lei nº 3323, Clóvis Rocha Moreira, um nome fundamental para a cultura e comunicação local. Apaixonado pelo rádio, Moreira foi um dos responsáveis pela fundação da Rádio Liberdade AM e contribuiu para a produção das primeiras novelas radiofônicas de Canguçu. Além disso, destacou-se como compositor e escritor, deixando um legado importante para a literatura e a música da cidade.

Segundo a biblioteconomista Carina Pires, “mais do que um espaço de leitura, a biblioteca desempenha um papel essencial na inclusão digital, oferecendo computadores de acesso público de forma gratuita e promovendo projetos de mediação e contação de histórias que incentivam a leitura e democratizam o conhecimento”. Os frequentadores mais assíduos são idosos do interior do município, além de estudantes, pesquisadores e escritores que buscam informação e inspiração.

 

Museu abriga cerca de 12 mil peças que ajudam a contar a história       Foto: Reprodução Prefeitura de Canguçu

 

O Museu Municipal Capitão Henrique José Barbosa, fundado oficialmente em 1983, tem raízes ainda mais antigas, remontando a 1972, quando a professora e animadora cultural Marlene Coelho iniciou a coleta e preservação de objetos históricos da cidade. Seu nome homenageia o Capitão Henrique José Barbosa, que lutou nas guerras do Uruguai e do Paraguai, onde veio a falecer.

O museu abriga aproximadamente 12 mil peças que ajudam a contar a história de Canguçu e região. Entre os destaques do acervo estão uma unha de megatério, preguiça gigante que viveu há cerca de 20 mil anos, um piano de cauda do século XIX, peças indígenas, algemas utilizadas durante o período da escravidão, cartas da Guerra do Paraguai e o poncho do folclorista Barbosa Lessa.

A professora de história Miriam Zuleica Reyes Barbosa destaca que “o museu não apenas preserva objetos históricos, mas também funciona como um guardião da memória coletiva do município, permitindo que as novas gerações tenham contato direto com o passado através das visitas guiadas e exposições”.

A integração entre a biblioteca e o museu torna a Casa de Cultura um verdadeiro centro de referência histórica e cultural. Um exemplo disso é a exposição comemorativa aos 120 anos do nascimento de Érico Verissimo, que, neste ano de 2025, relembra sua obra “O Tempo e o Vento”. A iniciativa busca criar um diálogo entre literatura e história ao expor não apenas os livros do autor, mas também artefatos do museu que remetem às descrições presentes na obra.

A história da Casa de Cultura Marlene Coelho reforça sua importância para Canguçu. Nomeado em homenagem à professora Marlene Coelho, responsável pela idealização do Museu Municipal, o local é um marco da preservação cultural na cidade. Tombado pelo Patrimônio Histórico Municipal, foi ali que, em 1939, aconteceu a cerimônia de elevação do município à categoria de cidade. O local também recebeu figuras políticas marcantes, como o interventor federal Oswaldo Cordeiro de Farias e os governadores Leonel Brizola e Ildo Meneghetti. Durante anos, o Salão de Honra foi palco das posses de prefeitos e vice-prefeitos, bem como de despedidas fúnebres de governantes locais.

Além de sua relevância histórica, o edifício se destaca pela sua arquitetura imponente. Sua fachada eclética do final do século XIX apresenta acesso central com uma porta de duas folhas e um vitral superior. A escada principal é de legítimo mármore italiano, e o prédio possui 21 janelas com postigos internos e arestas arredondadas simetricamente à fachada frontal. O porão, provido de gateiras com grades, provavelmente servia para armazenar mantimentos e abrigar pessoas que foram escravizadas. No interior, o Salão Nobre exibe um magnífico entalhe no forro e mantém móveis originais da casa, preservando a elegância do período imperial.

O prédio é de grande importância para a cidade, pois além de testemunhar a antiguidade do município, ou seja, o 22º a ser criado no Estado do Rio Grande do Sul, no ano de 1857, vem resistindo ao tempo e às investidas da modernidade, guardando o seu aspecto original. Em 1982, quando a prefeitura foi transferida para outro edifício, o palacete passou a abrigar a biblioteca e o museu, consolidando-se como espaço de preservação e difusão cultural. Hoje, o prédio continua resistindo ao tempo e à modernização, mantendo-se como um ponto de encontro entre gerações, onde memórias do passado são guardadas e compartilhadas para iluminar o futuro.

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

 

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.

Minissérie “Adolescência” conquista público com temas difíceis de tratar

Tendo apenas quatro episódios, a produção acompanha a investigação de um crime no interior da Inglaterra, em que o principal suspeito é um jovem de apenas 13 anos        

Por Carolina Soares      

 

O primeiro capítulo estreou dia 13 de março no streaming                               Foto: Divulgação

 

A narrativa da minissérie “Adolescência” se desdobra a partir de diferentes perspectivas e é filmada em planos sequência, nos quais cada episódio foi realizado em uma única tomada contínua, sem cortes. Com apenas quatro capítulos, a história se passa no interior da Inglaterra, tendo como protagonista Jamie, um jovem de 13 anos, suspeito de um crime. A produção mescla em seu elenco veteranos e novatos, com Stephen Graham, Christina Tremarco e Owen Cooper interpretando a família principal. Como coajuvantes, estão Erin Dohery, Amelie Pease, Faye Marsey e Ashley Walters. A minissérie pode ser vista no serviço de streaming Netflix.

Sem entregar vilões ou heróis, o enredo destaca de forma intensa a complexidade do universo adolescente nos dias de hoje. Mostra como a falta de diálogo, o isolamento emocional e as pressões sociais podem levar a comportamentos extremos, principalmente associados com o excesso da internet.

Outro ponto importante retratado pela minissérie é o impacto das dinâmicas familiares silenciosas para os jovens. Com uma abordagem sensível e provocativa, “Adolescência” se apresenta como um convite à reflexão sobre o papel da família, da escola e da sociedade na formação dos adolescentes.

 

Owen Cooper, como Jamie Miller, vive as tensões provocadas pelas redes sociais                    Foto: Divulgação

 

Nessa trama, encontramos termos fortemente presentes em fóruns da internet e que, até então, eram desconhecidos para muitas pessoas, mas ganharam força ultimamente. O termo “Incel” trazido pela obra é uma abreviação de “involuntary celibate” ou “celibatário involuntário”. Na internet, os chamados “incels” costumam se reunir em fóruns on-line para compartilhar frustrações e experiências pessoais, expressando um sentimento de exclusão tanto sexual quanto social. Essa comunidade tem ganhado espaço, muitas vezes chamada de “machosfera”, caracterizando-se por crenças violentas e visões machistas.

Na série, o universo dos “incels” é explorado quando trata sobre a relação de Jamie (personagem principal) com a internet. Outro ponto abordado é a chamada “regra do 80/20”, uma crença popular entre esses grupos de que 80% das mulheres se sentem atraídas por apenas 20% dos homens, afirmando que os homens “incel” não têm mais nada a perder com as mulheres.

Em um mundo hiperconectado, o comportamento de uma geração que cresceu junto com a ascensão da internet está sujeito ao risco de impulsividade e comportamentos extremos em busca da aceitação social.

A série “Adolescência” provoca um impacto profundo ao expor questões delicadas presentes em muitas famílias, ao mesmo tempo em que leva a reflexões essenciais sobre os desafios enfrentados pelos jovens na atualidade. A obra convida a questionar: Estamos realmente atentos aos adolescentes ao nosso redor? Oferecemos o suporte necessário diante do bullying nas redes sociais? Até que ponto a educação na internet pode ser considerada uma forma saudável de sociabilidade? Sem dúvida, essas questões ganham destaque nas discussões que surgem após o sucesso da série.

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.

Trabalho exemplar do documentarista Eduardo Coutinho em “Jogo de Cena”

Longa-metragem oferece uma experiência estimulante ao questionar a busca pela verdade no cinema      

Por Murilo Schurt Alves       

 

Gravado no Teatro Glauce Rocha, ambiente cria espaço intimista entre documentarista e documentado

 

Um anúncio de jornal onde se lê, com letras garrafais, a palavra “convite”. Logo abaixo, um pedido: “se você é uma mulher com mais de 18 anos, moradora do Rio de Janeiro, tem histórias para contar e quer participar de um teste para um filme documentário, procure-nos”. Neste contexto, em um cenário minimalista, no palco do teatro carioca Glauce Rocha, “Jogo de Cena” (2007 – disponível na Netflix) nos convida a ouvir mulheres que falam de maternidade, da relação com seus pais e maridos, e demais histórias que envolvem o universo feminino. Contudo, não é só isso.

E se essas histórias íntimas, contadas de maneira tão visceral, não fossem, na verdade, completamente reais? E se os depoimentos não pertencessem, de fato, a quem os apresenta? Ao convidar atrizes, conhecidas e desconhecidas do grande público, para interpretar as histórias reais relatadas por mulheres anônimas, o diretor Eduardo Coutinho questiona os limites da verdade e nos convida para discutir a linha tênue que separa o documentário da ficção. Aqui, o próprio gênero cinematográfico ao qual Coutinho dedicou a sua carreira é colocado em debate.

O documentário revela sua proposta aos poucos. Inicialmente, parece seguir uma estrutura linear de conversas: a primeira convidada fala sobre o seu sonho de ser atriz desde a infância; a segunda, sobre um relacionamento que não deu certo. No entanto, essa segunda conversa é cortada abruptamente. A atriz Andréa Beltrão repete a última frase pronunciada pela convidada anterior e continua a sua história, interpretando-a com os mesmos trejeitos. Depoimento real e sua recriação ficcional começam a se intercalar, despertando a suspeita de que algumas histórias não são, de fato, experiências vividas por seus narradores.

Não para por aí, Coutinho vai além. A próxima personagem se identifica como babá e divide, de forma autêntica, um encontro casual que resultou no nascimento de sua filha. A construção da cena leva o espectador a acreditar que se trata de mais uma mulher anônima. Entretanto, ao final de seu depoimento, a personagem desvia o olhar do diretor e sentencia diretamente para a câmara: “Foi isso que ela disse”. Em outro momento, duas outras personagens surgem apenas uma vez, sem que suas falas sejam interpretadas por outra mulher. Uma delas declara, desde o início, ser atriz, contando uma história aparentemente pessoal. Quem fala a verdade? Quem está encenando? Será que precisamos diferenciá-las? Nesta altura do campeonato, o importante são as histórias e não a quem elas pertencem.

 

       Coutinho convida atrizes consagradas, a exemplo de Fernanda Torres,  para interpretar relatos de mulheres desconhecidas             (Fotos: Matizar Filmes / Divulgação)

 

Além disso, a montagem alterna as histórias com momentos quando as atrizes consagradas discutem sobre a própria capacidade interpretativa. Em um dos trechos mais marcantes, a atriz Fernanda Torres expressa sua dificuldade em atuar por meio dos gestos e expressões da própria personagem, tornando-se impossível distinguir quando ela sai do papel e quando permanece nele. Ainda neste momento com Torres, a atriz desabafa para o diretor: “Parece que eu estou mentindo para você. […] Quando a origem é a ficção, é muito mais fácil”.

Afinal, o que é realidade e o que é ficção? Ao longo do documentário, enquadramentos tornam visíveis parte da estrutura de produção: fios soltos pelo chão, spots de luz, aparelhos de filmagem e a presença da equipe técnica. Diante de uma câmera ligada, na frente de outras pessoas, estas mulheres, inclusive as anônimas, não assumem um papel? E nos dias de hoje, quando publicamos fotos e posicionamentos nas redes sociais, não estamos construindo uma persona? Em “Jogo de Cena” — e na vida real —, não há uma verdade absoluta, mas sim suas representações.

Cabe destacar que Coutinho adotou um modo de documentar no qual o diálogo se tornou parte central da narrativa, principalmente a partir do final do século passado. O diretor se distanciou da impessoalidade e buscou, na oportunidade do encontro e da conversa olho no olho, a transformação da pessoa em personagem. Obras como “Santo forte” (1999) e “Edifício Master” (2002) já demonstravam que a força do relato podia ser mais envolvente do que a busca pela verdade objetiva ou factual. Em “Jogo de Cena”, isso se potencializa com as atrizes em tela. Na relação dialética entre realidade e interpretação, Coutinho nos deixa apenas com as dúvidas — que, convenhamos, são muito mais interessantes do que as certezas.

Ficha técnica

Direção: Eduardo Coutinho

Produção: Raquel Freire Zanfrandi, Bia Almeida

Roteiro: Eduardo Coutinho

Fotografia: Jacques Cheuiche

Montagem: Jordana Berg

Direção de arte: Rosa Verçosa

Elenco: Marília Pêra, Andréa Beltrão, Fernanda Torres, Aleta Gomes Vieira, Claudiléa Cerqueira de Lemos, Débora Almeida, Gisele Alves Moura, Jeckie Brown, Lana Guelero, Maria de Fátima Barbosa, Marina D’Elia, Mary Sheila, Sarita Houli Brumer

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

 

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.

Animação independente “Flow” faz história no Oscar

O filme da Letônia comprova que criatividade e inovação estão presentes no cinema internacional mesmo com recursos limitados               

Por Lorenzo Goulart Bonone          

 

História: Um gato que vive na floresta vê o seu lar ser  tomado por uma enchente rapidamente

 

Quem acompanhou as premiações de cinema da temporada 2024/2025 viu um gatinho preto virar um fenômeno global. Dirigido por Gints Zilbalodis, “Flow” conquistou 54 prêmios em 70 indicações, incluindo Melhor Animação nos principais eventos como o Oscar, Globo de Ouro, Festivais de Veneza e Cannes e o Globo de Ouro. Neste caminho, desbancou os estúdios Pixar (com “DIvertidamente 2”) e Dreamworks (com o ótimo “Robô Selvagem”). O longa-metragem contou com uma equipe de apenas 20 pessoas, utilizou o software gratuito Blender  e um orçamento de apenas U$3,7 milhões (conquistado com apoio de políticas do governo da Letônia). A título de comparação, “Divertidamente 2” e “Robo Selvagem” contaram com orçamento de US$ 200 milhões e U$78 milhões, respectivamente.

No país de origem, a equipe do filme foi recebida com festa, e as estatuetas estão em exposição no Museu Nacional de Arte Letã, e o diretor divulgou diversas animações comemorando o feito. Em Riga, capital da Letônia, foi erguida uma estátua do protagonista.

A história do personagem principal é a de um gatinho preto que vive na floresta e vê o seu lar ser rapidamente tomado por uma enchente. Na tentativa de sobrevivência, ele se encontra em um barco que une a uma capivara, um cachorro labrador (inspirado no cão do diretor), um lêmure e um secretário (espécie de ave de rapina). O filme narra os perigos, convivências e adaptações do grupo com a sua nova realidade.

Narrativamente, a obra cativa o público com cenas fofas que imitam características de gatos, como a curiosidade, brincadeiras com reflexos ou as famosas bolas de pelo, ao menos tempo que cria uma forte relação de sobrevivência entre animais que seriam inimigos naturais. Mesmo sem falas, o filme capta diálogos nas expressões, atitudes e sons dos animais, seja nos conflitos, momentos de calmaria ou aprendizados. As situações de risco encaradas pelo gatinho são o ponto de maior tensão no roteiro, deixando o espectador tenso.

 

“Flow” estreou nos cinemas brasileiros no dia 20 de fevereiro     Imagens: Divulgação/Prime Video

 

Aqui cabe destacar o trabalho fantástico do engenheiro de som Gurwal Coïc-Gallas. que por diversas horas gravou animais reais para encaixar no longa de duas horas. Um dos desafios foi o som da capivara, que acabou sendo substituída por um camelo filhote. Nas redes sociais, Coïc-Gallas compartilhou a captação das “vozes” de sua gatinha Miut, que serviu de base para o protagonista.

Além da óbvia mensagem sobre um futuro em que não conseguimos combater as mudanças climáticas, o filme traz mensagens interpretativas ao maior estilo David Lynch e Hayao Miyazaki. As mensagens dependem de cada espectador, mas é possível buscar no roteiro entender o que Zilbalodis quis transmitir. Mesmo que a narrativa seja feita pelo drama dos animais tentando sobreviver, a presença de uma baleia na enchente da floresta pode indicar que nem sempre o que é negativo para alguém, não pode ser positivo para o outro. A subida e descida da água também pode indicar que todas as adversidades são passageiras.

“Flow” está em exibição nos cinemas do Brasil, e ainda não tem previsão para estreia digital.

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

 

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.

Projeto de extensão incentiva a leitura de obras literárias escritas por mulheres

Aberto para a comunidade, o Clube de Leitura Ler Mulheres visa promover a literatura feminina e retoma suas atividades no mês de março         

Por Maria Eduarda Lopes         

 

                     As reuniões ocorrem todos as quintas-feiras de cada mês e são espaços para leituras e discussões sobre livros                   Foto: Arquivo Pessoal

 

No mês de março, marcado pelo Dia Internacional das Mulheres e pela luta feminista, o Clube de Leitura Ler Mulheres retorna com suas atividades no dia 27, próxima quinta-feira, das 18h às 19h30, no Otroporto (Rua Benjamin Constant, 701, bairro Centro, em Pelotas). O Clube é um projeto de extensão desenvolvido pelo Centro de Letras e Comunicação (CLC) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), que visa incentivar a leitura de obras literárias escritas por mulheres. Sendo uma atividade gratuita e aberta ao público, as reuniões ocorrem todos as quintas-feiras de cada mês e se tornam espaços para leituras e discussões sobre livros, além de fomentar a visibilidade acerca da relevância da escrita feminina.

O único custo de investimento para participar é a aquisição do livro e a locomoção até o local de reunião. O público-alvo do clube busca englobar o público geral, não havendo nenhum tipo de limitação de idade para a participação. A escolha dos livros, baseada no conceito de bibliodiversidade, inclui autoras de diferentes nacionalidades e épocas, e obras de diversas editoras.

O projeto surgiu há quase dois anos através da motivação de existir um clube de leitura dentro de uma universidade pública, conforme relatado pela coordenadora do Centro de Letras e Comunicação da UFPel, Vanessa Damasceno. “Surge de uma motivação pessoal minha, enquanto mulher, enquanto pessoa, enquanto professora, que sempre tive os livros como companheiros desde a minha adolescência, antes de me tornar professora e formadora de professores”, disse Vanessa.

Entre os principais objetivos do clube, a coordenadora lista o equilíbrio na representatividade das mulheres na sociedade, pois historicamente as mulheres tiveram menos oportunidades para se dedicar à literatura, foram menos publicadas, divulgadas e premiadas. Um dado que comprova essa realidade é que das 117 edições do Prêmio Nobel de Literatura, que existe desde 1901, apenas 18 mulheres foram laureadas, nenhuma delas sendo brasileira.

“É para escutarmos a visão das mulheres sobre temáticas que muitas vezes foram e ainda são escritas por homens, para saber o que pensa e como se exprime metade da população mundial. E se estamos em busca de mais mulheres em todos os espaços, na política, no institucional e nas profissões, para termos equilíbrio, é necessário que a gente leia mulheres”, completa a coordenadora.

Além da importância de trazer visibilidade para a equidade de gênero na literatura, o projeto também fomenta a cultura na comunidade local. A participante e chefe do núcleo administrativo do Centro de Letras e Comunicação da UFPel, Carla Machado, conta um pouco sobre a sua experiência: “Eu sempre gostei de ler literatura. No entanto, buscava uma orientação sobre o que ler que realmente me interessasse. E quando vi essa proposta de ler livros escritos por mulheres, logo pensei que deveria ser bom. Mas ao entrar para o clube, bem no início do projeto, no início de 2023, me surpreendi positivamente. Foi uma das melhores escolhas que fiz nos últimos tempos”, reflete Carla.

Uma das obras que marcou a participante foi o livro “Solitária”, da escritora e jornalista brasileira Eliana Alves Cruz. O livro conta a história de duas mulheres negras, Mabel e Eunice, mãe e filha, que moram em um condomínio de luxo no qual trabalham. Entretanto, Eunice acaba se tornando testemunha-chave de um crime chocante ocorrido na casa dos patrões.

Retornando em março, o Clube de Leitura Ler Mulheres é um importante projeto construído e desenvolvido dentro da universidade pública para impactar positivamente a comunidade pelotense, trazendo uma iniciativa importante para a sociedade atual ao valorizar e reconhecer não só a literatura feminina, mas também as mulheres que edificam o campo literário.

Para o ano de 2025, o clube vai contar com a seguinte curadoria de livros:

Março: “A maior mentira do mundo” de Luciana Gerbovic

Abril: “Essa coisa viva” de Maria Esther Maciel

Maio: “João Maria Matilde” de Marcela Dantés

Junho: “Controle” de Natalia Borges Polesso

Julho: “Cartas para a mãe” de Teresa Cárdenas

Agosto: “Virgínia mordida” de Jeovanna Vieira

Setembro: “Dias de se fazer silêncio” de Camila Maccari

Outubro: “O céu para os bastardos” de Lila Guerra

Novembro: “Um exu em Nova York” de Cidinha da Silva

Dezembro: “A analfabeta” de Ágota Kristof

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

 

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.

Ir ao cinema na era do streaming

Entrevista de gerente de marketing do CineArt destaca as diferenças que permanecem ao ver os filmes na tela grande       

Por Enrique Carvalho       

 

O hábito de frequentar as salas de cinema tem seu sentido renovado na era digital

 

Atualmente, na era do streaming, a cultura cinematográfica mudou muito, mas a experiência completa de ver um filme continua sendo a ida a uma sala de exibição. A gerente de marketing do CineArt de Pelotas, Gabriela Isquierdo, fala sobre as estratégias que estão sendo criadas e como é o relacionamento do público local com este cinema, que atualmente conta com quatro salas.

A arte do cinema, nascida em 1896 com o clip “A Chegada do Trem na Estação” dos irmãos Lumière, passou por transformações ao longo dos séculos. Desde ser considerada, principalmente pelas elites do começo do século XX, uma simulação menos prestigiosa do teatro e ser relegada para a classe trabalhadora mais desprivilegiada, até ser consolidada como uma linguagem artística base de uma indústria que em 2024 teve seu recorde de 30 bilhões de dólares de faturamento conforme informa o site americano Deadline.

Nos anos pós-pandêmicos, contudo, há uma instabilidade em relação à frequência de espectadores indo às salas de cinema. Os números de ingressos vendidos foram de mais de 11 bilhões em 2019 para menos de 2,5 bilhões em 2020. A queda expressiva dá-se por conta do lockdown global, mas mesmo após a normalização da situação sanitária, o cinema não tem performado a mesmo ritmo de escalada que estava tendo desde 2004. Pode-se claramente ver esse desempenho no gráfico ao lado retirado do site The Numbers.

Ao contrário das telonas, os serviços de streaming, como a Netflix, nunca pararam de ter seus números de assinantes subindo a cada ano, chegando a mais 300 milhões em 2024, como vemos no gráfico de assinantes ao lado retirado do site Statista.

 

 

Para entendermos mais sobre o cenário local do cinema, conversamos com Gabriela Isquierdo, gerente de marketing do CineArt, cinema já consolidado da cidade de Pelotas. Aberto em 2001, o CineArt tem ao longo do tempo modernizando-se e ampliando seu espaço para acomodar mais telespectadores. Em 2004, teve sua primeira ampliação para três salas. Em 2014, mudou o sistema de exibição para ter suas salas cem por cento digitais. Já, em 2018, é ampliado novamente para ter quatro salas.

Arte no Sul – Qual é a estratégia do cinema para atrair o público?

Gabriela Isquierdo – Aqui no CineArt, nós trabalhamos com bastante promoções, temos o valor bastante acessível. Além disso, nós buscamos ter uma rede-social bem ativa e promovemos bastantes anúncios; eu acredito que a gente precise instigar as pessoas a ir ao cinema. Antigamente, para saber as programações dos filmes, as pessoas deveriam sair de casa e ir na frente do cinema saber os horários. As salas, hoje em dia, com as redes-sociais, podem estimular que as pessoas acessem isso de uma maneira muito mais fácil. Precisamos trabalhar um bom marketing, não apenas em torno do que já é feito pelas distribuidoras, Disney e  Warner, por exemplo.

Arte no Sul – De que maneira o cinema pode oferecer uma experiência única e imersiva que supere a experiência de assistir a um filme em casa?

Gabriela Isquierdo – Pra mim, pessoalmente, assistir a um filme no cinema é uma experiência totalmente diferente de ver um filme em casa. Você não terá uma tela gigante como tem no cinema, não terá o som do cinema, é uma outra experiência. Até a pipoca que tu comes. É uma experiência muito diferente de você ver um filme em casa.

 

O CineArt está localizado no Centro da cidade de Pelotas   Foto: Divulgação 

 

Arte no Sul – Como a sua equipe lida com as mudanças nos hábitos de consumo de entretenimento e como elas impactam a programação e marketing do cinema?

Gabriela Isquierdo – A gente [equipe do CineArt] comenta muito sobre a diferença de você pedir uma comida em casa e você ir em um restaurante. Quando você está indo ao cinema, você não está indo só assistir a um filme, as pessoas colocam muito isso na cabeça. Mas, não, quando você está indo no cinema, está indo fazer uma programação. Tu estás saindo de casa, tu estás indo ver outras pessoas. Tem gente que vai no cinema sozinho, mas está numa sala junto de outras pessoas. É uma experiência de você rir em conjunto, ficar com medo em conjunto. É diferente de você assistir ao filme em casa.

Arte no Sul – Quais são as principais vantagens que o cinema oferece em relação às plataformas de streaming e como elas são comunicadas ao público?

Gabriela Isquierdo – Uma das principais diferenças, e tomara que ainda siga bastante tempo assim, é que as estreias a gente ainda confere só no cinema. Então, primeiro a estreia é lançada no cinema. Isso é a principal diferença, além de todos os fatores já citados.

Arte no Sul – Como a sua equipe trabalha para criar uma comunidade em torno do cinema, com eventos especiais, exibições temáticas ou parcerias com influenciadores locais?

Gabriela Isquierdo – Desde que assumimos a administração do cinema em 2014, não sei se você sabe, mas o CineArt é uma empresa local, desde então tivemos uma rede-social bem ativa, desde o tempo do Facebook, com um engajamento altíssimo. Hoje, até temos um engajamento legal no Instagram, mas no Facebook era bem forte. E também temos clientes bem engajados, eles conhecem a gente, quem são os donos do cinema.

As pessoas que realmente vão no cinema são bem assíduas, nos conhecemos pelo nome. Isso é a construção de uma comunidade, muito mais que uma rede-social ou chamar um influencer.

Sobre eventos, um dos mais legais que fazemos é o Doação de Cinema, quando trocamos cartazes do cinema por alimentos. Já tivemos três edições e logo teremos a quarta. As pessoas nos procuravam para pegar os cartazes dos filmes e pensamos por que não juntar tudo isso e fazer uma doação em um dia só, tudo em troca de um alimento?

 

Laços através do cinema

O ato de ir ao cinema não é apenas meramente um entretenimento, mas sim uma construção de um evento coletivo. Podemos avaliá-lo como a criação de laços dentre uma comunidade. A própria UFPel tem o Cine Ufpel, projeto que visa promover o acesso à cultura por meio de obras do audiovisual, em especial os filmes brasileiros e latino-americanos. Localizado na rua Lobo da Costa, 447, no centro de Pelotas, promove sessões nas quintas e sextas-feiras. Para acompanhar a programação, pode-se acessar o Instagram do Cine UFPel e acompanhar as divulgações de horários. 

 Os filmes, como podemos ver com a repercussão de “Ainda Estou Aqui”, mantém a memória viva de um recorte temporal de nossa história. Acompanhar o cinema é estudar o passado e aprender com ele, é buscar novas perspectivas de vida ou encarar realidades fantásticas que cativam o espírito. Assistir a um filme pode ser um ato de resistência, de amor, de medo, de coragem. Isso acarreta diversos propósitos e fazer esse ato em comunidade, indo ao local, enriquece ainda mais o senso de pertencer a um grupo social, uma comunidade, um país.

Com a ascensão dos streamings, assistir a uma obra audiovisual torna-se uma ação cada dia mais insipida em relação à experiência comunitária que poderia ser. Isso pode fazer parte de um movimento de atomização da sociedade, no qual o indivíduo se distancia dos outros com cada vez mais frequência e perde-se o senso de pertencer a um universo mais amplo e compartilhado com seus semelhantes. Ir ao cinema é manter parte de uma cultura viva.

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

 

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.

‘’O Tempo e o Vento’’ reflete sobre a história gaúcha

Filme de 2013 segue atuando como fonte de compreensão dos conflitos e tensões sociais no Brasil     

Por Clarissa Ribeiro           

 

                  A família Cambará tem início com o relacionamento de Pedro Missioneiro (Martin Rodriguez) e Ana Terra (Cleo Pires)          Fotos: Divulgação

 

O filme O Tempo e o Vento, dirigido por Jayme Monjardim, baseado na obra de Érico Veríssimo e estrelado por Cléo Pires, Fernanda Montenegro, Marjorie Estiano e Thiago Lacerda, é uma adaptação cinematográfica que busca capturar a complexidade da história do Rio Grande do Sul. Com seus elementos culturais e sociais bem-marcados, a obra retrata desde o período colonial até o início da Revolução Farroupilha, em 1835. A família Cambará é a protagonista, e se destaca ao retratar seu drama pessoal e luta pela sobrevivência no contexto de guerra.

As Missões

O filme começa com o nascimento do personagem que muito marca a trama: Pedro (Martín Rodriguez). O patriarca da família era filho de uma índia com um europeu, e carregava consigo a origem do povo brasileiro, suas dores e angústias. É avô de Bibiana, vivida por Fernanda Montenegro na maturidade e quem narra toda a história durante a obra.

Tendo sua mãe morrido no parto, Pedro recebeu atenção e educação dos padres jesuítas, sendo parte deste outro momento histórico do país: as missões jesuítas. Após sobreviver a um ataque espanhol em seu vilarejo, Pedro é socorrido por Ana Terra, com quem vem a ter um filho, o que motiva, no entanto, uma reação violenta do pai dela.

A força feminina

Ana Terra (Cléo Pires), esposa de Pedro Missioneiro, se destaca como exemplo de coragem feminina. Após lutar por seu relacionamento e vir a perder seu marido, Ana foge com seu pequeno filho e sobrevive como parteira da sua nova cidade, sempre tentando manter o legado da família vivo e honrá-lo. Com o tempo, seu filho cresce e se torna pai de Bibiana, vivida em diferentes fases de sua vida, por Janaína Kremer, Marjorie Estiano e Fernanda Montenegro. A neta de Ana Terra é outro exemplo de garra feminina em seu contexto de luta pelo seu matrimônio com o Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) e sua rotina com a maternidade.

A guerra e sua reflexão

O principal fato histórico por detrás da obra é, sem dúvida, a Revolução Farroupilha, e é ela que nos auxilia a entender o Estado Brasileiro atual e a fragilidade das instituições. A guerra afeta as relações pessoais, potencializa a força feminina e intensifica o ódio contra a miscigenação, pontos citados anteriormente. Além disso, estimula as disputas por poder entre os povos também dentro dos contextos das cidades, como, por exemplo, a guerra findada entre as famílias Terra-Cambará e Amaral.

O filme revela um olhar sobre o passado que dialoga com o presente, ao destacar a luta pela terra, o embate entre diferentes visões políticas e o contraste entre os interesses das elites e as lutas do povo. Ele sugere que, embora as circunstâncias históricas mudem, muitos dos dilemas enfrentados pelas gerações passadas continuam vivos nos dias de hoje.

 

Capitão Rodrigo (Thiago Lacerda) luta por seu amor por Bibiana e também se envolve na Guerra dos Farrapos

 

‘’O Tempo e o Vento’’ se aprofunda nos relacionamentos e sentimentos afetados em uma guerra, e em cada ponto que a violência tem influência. Combinando arte e garra, passado e presente, a obra se faz essencial para compreendermos nossa identidade e a continuidade de pequenas guerras, tensões sociais e desavenças que, ainda hoje, se fazem presentes. O filme nos convida a refletir quais aspectos passados ainda ressoam em nossa sociedade contemporânea, especialmente na relação do Sul com o resto do país e suas raízes políticas.

 

Ficha técnica do filme:

Classificação: 14 anos 

Duração: 127 minutos

Direção: Jayme Monjardim

Roteiro: Érico Veríssimo, Letícia Wierzchowski e Tabajara Ruas

Gênero: Drama, Guerra, Romance

Ano: 2013

País de origem: Brasil

Elenco:

Fernanda Montenegro – Bibiana Terra Cambará

Thiago Lacerda – Capitão Rodrigo Cambará

Marjorie Estiano – Bibiana Terra Cambará

Cléo Pires – Ana Terra

Suzana Pires – Ana Terra

Janaína Kremer – Bibiana Terra Cambará

Martin Rodriguez – Pedro Missioneiro

Vanessa Lóes – Maria Valéria

Rafael Cardoso – Florêncio

Igor Rickli – Bolívar Cambará

Mayana Moura – Luzia Silva

Cacá Amaral e Rafael Tombini – Pedro Terra

José de Abreu – Coronel Ricardo Amaral

Leonardo Medeiros – Bento Amaral

Paulo Goulart – Coronel Ricardo Amaral Neto

Leonardo Machado – Marciano Bezerra

Zé Adão Barbosa – Padre Lara

César Troncoso – Padre Alonzo

Cyria Coentro – Henriqueta Terra

Luiz Carlos Vasconcellos – Maneco Terra

José Henrique Ligabue – Antônio Terra

JN Canabarro e Cris Pereira – Juvenal Terra

Luiza Ollé e Áurea Baptista – Arminda Terra

Luis Franke – Nicolau

Fernanda Carvalho Leite – Paula.

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

 

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.

Com arte e ciência juntas, exposição “Ilustre Pampa” conscientiza sobre bioma gaúcho

Aberta à visitação no Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter, mostra apresenta ilustrações científicas que retratam espécies nativas da região      

Por Murilo Schurt Alves       

 

Abertura da exposição “Ilustre Pampa” aconteceu no dia 17 de fevereiro                      Fotos: Murilo Schurt Alves

 

Constituído por uma imensa diversidade de espécies e paisagens, o bioma Pampa encanta, mas também desperta constante preocupação. Com a crescente degradação ambiental, é importante pensar em práticas visando a divulgação e a valorização desse conjunto de ecossistemas que ocupa grande parte da região sul do território gaúcho. Nesse contexto, surge a exposição “Ilustre Pampa”, em cartaz no Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter (MCNCR) até 17 de abril.

A mostra reúne ilustrações do concurso homônimo, realizado no segundo semestre do ano passado pelo Núcleo de Ilustração Científica do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas (UFPel). A iniciativa faz parte do projeto Pampa Singular, um programa multidisciplinar da universidade que busca envolver a comunidade e estudantes na construção coletiva de conhecimentos e práticas sobre ecoturismo e conservação da biodiversidade desse bioma.

A abertura da exposição, que aconteceu em 17 de fevereiro, contou com a presença do professor João Iganci, coordenador do Núcleo de Ilustração Científica. Segundo ele, o concurso fez parte de um conjunto de três ações realizadas na 21ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, promovida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “A primeira atividade era um circuito de ações de extensão, visitamos escolas do ensino básico no interior do Rio Grande do Sul, levando atividades de botânica. A segunda foi um workshop de ilustração científica e, a terceira, é essa exposição. São formas de falar sobre a biodiversidade do bioma Pampa que é tão rica e, ao mesmo tempo, tão ameaçada”, explica.

 

Professor de Ilustração Científica João Iganci (ao centro) fala sobre ações do projeto Pampa Singular na abertura da exposição

 

Artistas de Pelotas, Novo Hamburgo, Porto Alegre e Osório compõem a exposição. Entre eles, a ilustradora Júlia de Moraes Brandalise retratou as espécies Phyllomedusa iheringii (conhecida popularmente como perereca-macaca), Erythrina crista-galli (corticeira-do-banhado) e Bipinnula montana (orquídea-terrestre). Ao falar sobre os seus desenhos, produzidos com lápis de cor, Júlia conta sobre a sua proximidade com as espécies retratadas: “Eu particularmente busco desenhar espécies nativas que eu já tenha visto em campo e que, de alguma forma, me impactaram e marcaram. É uma maneira de eternizar esse sentimento com espécies tão importantes e impressionantes. A ideia é que os desenhos tenham o mesmo impacto a qualquer um que os veja, assim como aconteceu quando eu as vi em campo”.

A ilustradora Eduarda Acosta Oyarzabal, por sua vez, retratou a espécie Fuchsia regia (brinco-de-princesa), feita inteiramente em grafite. Ela relembra que começou a aprender os fundamentos do desenho aos 13 anos, mas aprimorou suas técnicas por meio da disciplina optativa de Ilustração Científica, ministrada pelo professor João Iganci. Ao refletir sobre a relevância dessa área, Eduarda enxerga três aspectos complementares: “Há o lado científico, como participar da documentação de diversas espécies de plantas e animais, [essas ilustrações são muito utilizadas em artigos científicos, revistas do meio, etc.]. Também há o lado para fins educacionais [desde ilustrações de livros didáticos para o ensino básico de crianças até desenhos mais detalhados para o nível de graduação, por exemplo]. E, ainda, o lado artístico, porque a arte no geral chama a atenção do público, e a ilustração científica consegue tornar diversos assuntos técnicos mais acessíveis às pessoas, fazendo com que elas se conscientizem sobre diversos temas, como, por exemplo, a importância da preservação das espécies do bioma Pampa”, destaca.

 

Ilustrações foram produzidas por artistas de Pelotas e outras cidades do Rio Grande do Sul

 

O concurso contou com prêmios aquisição, garantindo que as ilustrações vencedoras, escolhidas por uma comissão técnica, passassem a fazer parte do acervo do Núcleo de Ilustração Científica da UFPel. Entre as vencedoras está Gabrieli Silveira, que desenhou as espécies Coprophanaeus milon (besouro) e Eumops bonariensis (morcego-de-orelhas-largas). Segundo ela, esse tipo de incentivo gera impacto e incentiva a continuidade da sua produção. Para seu trabalho, Gabrieli utilizou lápis de cor aquarelável sobre papel pólen em suas ilustrações e explica que “o papel poroso ajuda a absorver o pigmento, e esse tipo de lápis contém bastante pigmento, tornando as cores do desenho bem vivas. Para o meu tipo de desenho, considero mais fácil controlar os tons dessa forma, quando são mais vibrantes”.

Para ver as obras de Júlia, Eduarda, Gabrieli e de tantos outros talentosos artistas, a exposição “Ilustre Pampa” está em cartaz no Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter (MCNCR), localizado na Praça Coronel Pedro Osório, 01, no Centro de Pelotas. O Museu funciona de segunda a sábado, das 13h às 18h30, com entrada gratuita.

 

O Museu de Ciências Naturais Carlos Ritter está localizado na Praça Coronel Pedro Osório, 01

 

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.

Compromisso e obsessão: O jornalismo em “Zodíaco”

Filme fala sobre alguns pontos das atividades de imprensa, principalmente a reportagem investigativa     

Por Antonio Berndt       

 

               Jornalistas Paul Avery (Robert Downey Jr.) e Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal) investigam assassino autor de  cartas                                         Foto; Divulgação

 

Lançado em 2007 e sob a direção de David Fincher, “Zodíaco” é um suspense psicológico fundamentado em acontecimentos verídicos e inspirado nas obras de Robert Graysmith, que estudou o caso do famoso assassino do Zodíaco, que ficou conhecido com esse nome por escrever cartas aos jornais com essa assinatura, com ameaças de novas matanças e atentados. O filme explora a incessante busca de jornalistas e agentes da lei para descobrir a identidade do criminoso que assolou a Califórnia nas décadas de 1960 e 1970. É evitado o sensacionalismo e cenas de violência explícita, dando prioridade à tensão psicológica e à investigação detalhada.

O roteiro, de autoria de James Vanderbilt, é fundamentado em documentos autênticos e descreve as pistas, cartas cifradas e os enigmas que o assassino enviava aos jornais, bem como as várias teorias acerca de sua identidade.

Um dos principais tema do filme é a obsessão na resolução de crimes, especialmente observada nas figuras do cartunista Robert Graysmith (Jake Gyllenhaal) e do jornalista Paul Avery (Robert Downey Jr.). Ambos se comprometem intensamente com a investigação da identidade do Zodíaco, com Graysmith investindo anos em sua busca, o que acaba impactando negativamente sua família e sua saúde mental. A obra retrata como essa atividade investigativa pode dominar os profissionais envolvidos, fazendo com que eles deixem de lado outras áreas de suas vidas.

Outra questão é a responsabilidade enquanto ser jornalista e sua ética. O Chronicle e outros veículos de comunicação se deparam com um dilema em relação à publicação das cartas do Zodíaco. Caso decidam publicar, podem acabar estimulando o criminoso; por outro lado, se optarem por não divulgar, podem ser responsabilizados por eventuais novos assassinatos. Esse dilema destaca um debate clássico no jornalismo: até onde a imprensa deve ir na divulgação de informações que podem ter repercussões imprevisíveis?

A escolha de divulgar, retratada no filme, representa a influência que a mídia pode exercer em investigações criminais, muitas vezes assumindo um papel quase tão significativo quanto o da polícia. Além disso, isso evidencia a relação tensa entre jornalistas e autoridades, uma vez que nem sempre a polícia deseja que certos detalhes sejam expostos ao público.

Outro ponto importante que o filme traz acerca do jornalismo investigativo é a questão de o jornalista adentrar ainda mais nas investigações e agir como detetive, e como tudo isso afeta a questão psicológica do jornalista.  Paul Avery e, acima de tudo, Robert Graysmith se transformam em quase detetives durante a investigação. Graysmith, embora não seja um repórter, aplica suas competências analíticas para unir pistas e progredir na caçada ao assassino. Isso enfatiza como o jornalismo investigativo pode servir como uma extensão das investigações oficiais, frequentemente trazendo à tona informações que as autoridades não conseguem ou não desejam compartilhar.

E isso consome a vida de um jornalista. Avery cai no vício do álcool e observa sua trajetória profissional ruir, ao passo que Graysmith se afasta de seus entes queridos por causa da sua fixação pelo caso. Isso evidencia a carga psicológica e o sacrifício emocional que jornalistas de investigação enfrentam ao tratar de assuntos angustiantes.

Por fim, um último e importante tema é a questão da veracidade das informações no jornalismo, principalmente relacionadas a questões históricas. É adotado uma dedicação intensa à exatidão dos acontecimentos históricos, um aspecto crucial para qualquer projeto com um elemento jornalístico significativo. O roteiro, fundamentado na obra de Graysmith, recria conversas, reportagens e até características linguísticas das correspondências do criminoso. A metodologia cuidadosa enfatiza a relevância do jornalismo fundamentado em dados concretos e na verificação minuciosa dos fatos.

“Zodíaco” é um dos filmes que mais exemplificam a investigação jornalística no mundo do cinema. Ele não só mostra a batalha para identificar o criminoso, mas também aborda temas relacionados à ética, obrigações, efeitos psicológicos e a obsessão pelo ofício. Este filme evidencia tanto a potência quanto as fragilidades do jornalismo ao lidar com delitos que desafiam a realidade e a justiça. 

 

Trailer oficial:

 

Ficha técnica:

Gênero: Crime, Drama, Mistério

Direção: David Fincher

Roteiro: James Vanderbilt

Elenco: Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox, John Carroll Lynch, Richmond Arquette, Bob Stephenson, John Lacy, Chloë Sevigny, Ed Setrakian, John Getz, John Terry, Candy Clark, Elias Koteas

Produção: Ceán Chaffin, Brad Fischer, Mike Medavoy, Arnold Messer, Louis Phillips, James Vanderbilt

Duração: 147 min.

Ano: 2007

País: Estados Unidos

Classificação: 16 anos

Onde assistir: Pela assinatura da HBO Max ou alugando o filme por R$ 7,90 no Prime Vídeo

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

 

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.

A Coisinha: um espaço de arte, resistência e pertencimento

Edição mais recente aconteceu no dia 22 de fevereiro e a próxima está programada para 13 abril       

Por Vitória Scheffer e Arthur Rezer     

 

Edição recente aconteceu no Kilombo Urbano Canto de Conexão Foto: Amanda de Abreu

Entre pulsações de batidas eletrônicas e entrelaçar de corpos em meio à pista de dança, A Coisinha toma forma como um espaço onde arte e resistência caminham juntas. Não é apenas um evento, mas um território onde grupos historicamente marginalizados podem existir sem concessões. Em Pelotas, mesmo que a cena underground ainda enfrente barreiras a respeito da visibilidade e acesso, a Coisinha age como um ato político: Representa um manifesto de liberdade e pertencimento.

No dia 22 de fevereiro, mais uma edição reuniu música, performances e artes visuais no Kilombo Urbano Canto de Conexão. E a próxima já tem data: dia 13 de abril, na Praça Darci Pinho (Bairro Balsa), às 16h. Mas o que faz esse evento ser mais do que uma festa? Para entender sua força, é preciso olhar para quem o constrói e para a história que ele carrega.

Uma arte que se move e se reinventa

A Coisinha não surgiu de um plano estruturado, mas de necessidades urgentes e de um impulso criativo incontrolável. Amanda de Abreu, artista e produtora, mestranda em Artes Visuais pela UFPel (Universidade Federal de Pelotas), começou a explorar performances como forma de dialogar com o espaço que ocupava e, ao mesmo tempo, criar uma forma de sustento. Suas exposições sempre declararam uma manifestação, um ato de resistência política em meio à desigualdade econômica e social que observa.

O evento nasceu como um meio de subsistência, transformando-se gradualmente em um espaço de criação coletiva, no qual diferentes formas de arte passaram a coexistir. A festa cresceu, expandiu-se para outros territórios e consolidou-se como um refúgio para quem, muitas vezes, não encontra espaço dentro das estruturas tradicionais da cultura.

 

A artista visual e produtora Amanda de Abreu foi a criadora de A Coisinha         Foto: Vitória Scheffer

 

A música eletrônica, que pertence à identidade da Coisinha, também carrega essa marca de ressignificação. Por muito tempo, foi apropriada por setores elitizados que apagaram suas origens. Mas a história é outra: a música eletrônica nasceu da comunidade negra, periférica e queer. É dessa história que a Coisinha se apropria. “Para resgatar isso, para nos reeducarmos, para entender que isso também é nosso, que isso também é popular, que a música eletrônica é negra”, enfatiza Tom Nunes, DJ residente, uma das vozes que constroem o evento.

Música como ato político

Na Coisinha, cada batida é um manifesto. A pista não é apenas um local de entretenimento, mas um espaço onde a existência de corpos dissidentes se impõe. Marmo, DJ residente, viu sua trajetória artística transformada pelo evento. Vinda de um som mais experimental e ruidoso, encontrou na festa um território para mesclar essas influências com o techno e outras sonoridades periféricas. Para ela, a música não pode ser desvinculada das vivências e dos corpos que a constroem.

“A produção de arte e cultura no Brasil é historicamente tratada como algo descartável”, explica Marmo. “Manter um evento como a Coisinha é garantir que corpos dissidentes tenham onde criar e sobreviver”. Ela ressalta que o futuro da música eletrônica passa pela presença trans e pela inovação que emerge das margens da cena.

Hell, também DJ residente, vê a sua presença na Coisinha como parte de um ciclo de construção e pertencimento. “Ser DJ residente é mais do que tocar. É criar uma identidade sonora, manter a energia da pista e fortalecer a cena underground”, diz. Para ela, ser residente significa não apenas garantir uma continuidade musical e evoluir junto com a festa, mas também educar, experimentar e fortalecer a cultura local. “No fim das contas, ser residente é ser a alma sonora do evento, um guardião da sua identidade e um elo entre a música e a comunidade”, reflete.

 

Ideia é tratar diferenças ideológicas com arte        Imagem: Reprodução:Arueira

 

Mais do que isso, Hell percebe que sua participação na Coisinha é uma via de mão dupla: enquanto a festa se transforma e consolida identidade do evento, ela também sente a própria identidade artística e pessoal se modificando. “É uma relação de retroalimentação extremamente potente. Isso diz muito sobre o impacto que a Coisinha causa, não só na vida daqueles que a experienciam na pista, mas também naqueles que estão por trás, fazendo com que ela aconteça”, completa. Para ela, no fim das contas, a essência do evento está em manter viva essa experiência que faz as pessoas voltarem a cada edição.

E essa conexão se amplia a cada edição. Ryan, que tocou na Coisinha pela primeira vez, sentiu essa entrega. Escolher as músicas certas para abrir a noite foi um desafio, mas, ao ver o público responder, soube que estava no lugar certo.

Para além da pista: arte e comunidade

Se a pista de dança é o coração da Coisinha, a comunidade é sua alma. A festa não existe isolada – ela se conecta a diferentes expressões culturais e sociais. Niara é criadora da marca independente Front, e encontrou no evento um espaço para expandir seu trabalho, tal qual dialogar diretamente com outras formas de arte. Essa troca, que vai além da música, faz da Coisinha um território de construção coletiva de arte.

 

Festa se articula com diferentes expressões culturais e sociais              Foto/Reprodução: Vitória Scheffer

 

O impacto do evento, no entanto, vai além das expressões artísticas e culturais, abrangendo também ações que fortalecem a rede de apoio local. Durante a Coisinha, a Ocupa Canto de Conexão tem a oportunidade de montar bar e cozinha no evento, gerando uma renda extra para suas próprias iniciativas. Além disso, a arrecadação de alimentos contribui diretamente para a cozinha solidária do Kilombo Urbano, que oferece refeições para pessoas em situação de vulnerabilidade.

Sônia, voluntária da cozinha, vê na Coisinha uma rede de suporte que transcende a festa. “Ela movimenta o povo, traz gente, traz arte. Mas também fortalece nossa cozinha, garantindo que possamos continuar alimentando quem mais precisa”, explica.

A cozinha aceita doações diretamente no Kilombo Urbano, reforçando a importância de um circuito alternativo que se sustenta coletivamente. A Coisinha não apenas ocupa espaços, mas redistribui recursos, fortalecendo iniciativas que existem à margem das políticas públicas.

 

O A Coisinha visa criar espaços de expressão em locais diversos            Foto: Vitória Scheffer

 

Resistir é criar

Manter um evento independente como a Coisinha é um ato de resistência. O financiamento é sempre um desafio, e a estrutura da cidade impõe barreiras para eventos alternativos. Ainda assim, a Coisinha segue se reinventando. Editais como a Lei Paulo Gustavo e o Procultura têm ajudado a viabilizar algumas edições, mas o desejo é que esse espaço se mantenha vivo independentemente de apoios institucionais.

“A arte não precisa estar aprisionada em galerias. O underground sempre vai encontrar um jeito de existir”, afirma Amanda.

 

Evento promove encontro entre música, moda, artesanato e artes visuais       Foto: Vitória Scheffer

 

E a Coisinha segue pulsando. A cada edição, se fortalece como um espaço onde a arte não precisa pedir licença para existir. Onde corpos dissidentes não apenas ocupam, mas transformam. Onde a música, a dança e o underground andam juntos, garantindo que esse território não se apague. Enquanto houver quem acredite nisso, ela seguirá existindo.

 

PRIMEIRA PÁGINA

COMENTÁRIOS

 

Voltar

Sua mensagem foi enviada

Aviso
Aviso
Aviso

Atenção.