“Os Sete Maridos de Evelyn Hugo”: mentiras, traição, preconceito e amor

Por Ana Beatriz Assunção Garrafiel    

A história envolvente de uma diva do cinema e seus sacrifícios para chegar ao topo

A vida de Evelyn Hugo poderia facilmente ser a história de qualquer estrela do cinema que conhecemos, como Elizabeth Taylor, Marilyn Monroe ou Meryl Streep. E é justamente essa realidade honesta e cruel que fascina e nos prende ao longo das 360 páginas do livro. Escrito por Taylor Jenkins Reid e lançado originalmente em 2017, a narrativa conquistou diversos admiradores pelo mundo e agora prepara-se para virar filme na Netflix.

A atriz Elisabeth Taylor é uma das prováveis inspirações para a trama

‘’Os Sete Maridos de Evelyn Hugo’’ conta a história de, obviamente, Evelyn Hugo, fenômeno das telinhas e queridinha da América durante os anos 1960, conhecida por filmes clássicos e, principalmente, por ter sete casamentos no currículo. No livro, a personagem, já próxima dos 80 anos, decide contar sua história de vida para o mundo, através de uma biografia. Para isso, ela escolhe Monique Grant, jornalista que trabalha na renomada Vivant, para contar a todos a sua verdade, quem ela realmente é. De primeira, a sinopse pode soar simples e até meio tediosa, mas ao entrar no mundo da protagonista, nos envolvemos e descobrimos uma trama inesperada, cheia de reviravoltas, tragédias, mentiras e amores.

       Capa do livro lançado em 2017           Imagem: Divulgação

Evelyn Hugo desde criança teve uma realidade pobre e de miséria. Filha de uma imigrante cubana moradora dos Estados Unidos, ela testemunhou a morte da mãe aos 11 anos, vítima de uma pneumonia, e foi obrigada a ficar com o pai, que a via mais como uma figura sexual. Evelyn sempre soube que a vida não seria fácil para ela e que, se quisesse conquistar algo, teria que dar tudo de si para os outros. Tudo mesmo, incluindo seu corpo, atributo que ajudou muito na formação de sua fama. Foi por causa deste que Evelyn conseguiu uma viagem à Hollywood ainda com 15 anos, onde deu seus primeiros passos em direção ao estrelato.

O livro divide-se em sete partes, cada uma levando o nome de um marido e contando uma parte da vida da personagem. Assim, podemos crescer e evoluir juntamente com Hugo, acompanhando suas dificuldades, o início da fama, seus sacrifícios pela mesma e as consequências que a estrela teve de enfrentar por conta de suas escolhas. Ao mesmo tempo que voltamos para a década de 60, no começo da carreira de Evelyn, também acompanhamos a escrita de sua biografia junto de Monique Grant, nos dias atuais. O livro faz essa mescla de tempo na narrativa de uma forma muito bem estruturada e que não confunde o leitor.

Taylor Jenkins Reid, autora do livro, também escreveu Forever, Interrupted (2013), After I Do (2014), Em outra vida, talvez? (2015), One True Loves (2016) e Daisy Jones & The Six (2019)         Foto: Divulgação

Além da leitura fácil e envolvente, “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” encanta por tratar de problemas reais e que até mesmo as pessoas mais famosas do mundo enfrentam. Agressões no relacionamento, homofobia, sexualização infantil, assédio, traição, ciúmes, inveja e mentira. São temas da vida real, porém considerados tabus, e muitas vezes acobertados, escondidos, ignorados.

O livro nos mostra uma realidade crua, porém verdadeira, onde somos obrigados a encarar tais assuntos e refletir sobre eles. Mais do que isso, a história nos faz pensar em como julgamos e apontamos o dedo, quando cometemos erros iguais ou até piores que os da personagem. Evelyn, ao contar sua história, nos mostra que, para muito além de queridinha do cinema, de ícone mundial, ela é um ser humano com defeitos e imperfeições, que errou muito, teve atitudes egoístas e tóxicas, magoou quem mais amava e, por muitas vezes, colocou a fama e o dinheiro acima de sentimentos. Porém, ao mesmo tempo, nos mostra seus motivos e razões, que fez o que fez sempre pensando em proteger a si mesma e seus amores. Com isso, nos vemos refletidos na personagem, pois todos já estivemos pelo menos uma vez em tal situação. Afinal, como a própria Evelyn cita em certo ponto do livro, ninguém é totalmente bom ou ruim.

Perspectiva jornalística

O livro também traz um ponto de vista de uma jornalista, embora em uma história de ficção, que se vê com a missão de escrever uma biografia importante, tendo como fonte a própria biografada. Ao passar dias ao lado da personagem Evelyn Hugo, escutar detalhes de sua vida – muitos deles desconhecidos pelo restante do mundo – Monique Grant torna-se outra personagem que se envolve com a narrativa e pela figura contadas, dando opiniões e tomando lados perante as situações escutadas. Isso quebra a ideia de que jornalismo tem que ser imparcial e objetivo.

Claro que, em sua essência, o jornalismo preza pela objetividade e clareza das informações, sem tomar lados escancaradamente. Mas isso por vezes pode deixar a profissão mais fria, como se por trás de toda reportagem não houvesse um ser humano, com sentimentos, pensamentos e opiniões. Ao apegar-se a Hugo e sua narrativa, Monique demonstra que, sim, há parcialidade no jornalismo em certos casos, e não podemos encarar todo tema com a mesma visão. Às vezes um pouco de sentimento e calor é capaz de trazer mais vida e mais humanidade ao texto.

Por fim, “Os Sete Maridos de Evelyn Hugo” nos faz refletir sobre diversos temas reais e cotidianos, bem como sobre nós mesmos como pessoas e nossas atitudes, tudo através de uma escrita clara e envolvente, com uma narrativa bem estruturada e uma trama recheada daquilo que todo leitor ama: romance, plot twists, personagens para odiar e uma protagonista problemática, cheia de defeitos e imperfeições, porém, acima de tudo, verossímil.

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