O sucesso das lives em um mundo isolado

Por Andressa Siemionko e Josimara Megiato   

Artistas enfrentam desafios e promovem shows on-line durante a pandemia

Se divertir na sala de casa como única alternativa nunca passou pela cabeça de ninguém. Mas, com o isolamento causado pela pandemia do novo coronavírus, essa foi a realidade do entretenimento no mundo todo. Com o fechamento dos bares, festas e eventos culturais, as lives tornaram-se um verdadeiro sucesso, acumulando milhões de visualizações.

As lives começaram a aparecer em 2011, mas só em 2020 estouraram na internet. Segundo uma pesquisa do Google (plataforma que administra o Youtube) as lives já foram vistas por 85 milhões de brasileiros. A transmissão mais vista da plataforma Youtube é da cantora sertaneja brasileira Marília Mendonça, disponibilizada em 8 de abril de 2020, com 3,3 milhões de visualizações simultâneas.

Marília Mendonça é recordista de audiência on-line Foto: Reprodução Youtube

Todo esse sucesso chegou ao sul do Rio Grande do Sul e vários artistas e bandas também se apresentaram no formato online. A cantora Paola Souza, da cidade de Amaral Ferrador, explica que a ideia de produzir apresentações on-line surgiu depois de uma participação na live realizada pela Rádio São José do Patrocínio, localizada no mesmo município e também pelo incentivo dos amigos.

No dia 4 de julho do ano passado, Paola fez o primeiro show on-line “Boteco da Paola” e, dia 8 de outubro, a segunda liveBoteco da Paola – II edição. Para a cantora, foi uma experiência única de ter feito essa apresentação. Ela conta que a principal diferença entre os shows transmitidos on-line e a apresentação em um bar são os aplausos substituídos pelos comentários na internet.

A segunda edição do Boteco da Paola foi lançada em outubro do ano passado

Mesmo com todo o sucesso das transmissões ao vivo, na pandemia, os cantores têm passado por inúmeras dificuldades. “Quem faz as lives não arrecada nada; a gente até consegue patrocínio, mas é para arcar com as despesas, tem toda uma equipe por trás das câmeras”, ressalta Paola.

Estudo de música em Canguçu

A cantora e proprietária da escola de música, Espaço Cultural Acordes, Cristiane Dias Ribeiro, também enfatiza: “Para nós que vivemos da cultura, que somos a cultura e distribuímos o que somos através da arte, a pandemia chegou estraçalhando nosso campo de trabalho”.

A artista da cidade de Canguçu também aderiu às lives, para seguir divulgando arte para seus espectadores. “Foram as lives dos mais variados temas que propiciaram, mais uma vez, que o ‘o povo da arte’ perdurasse”, conta.  Além de ser artista, Cristiane também tenta levar seu conhecimento e amor pela arte para seus alunos da escola de música. Não está sendo fácil ensinar arte e cultura sem a possibilidade de promover eventos e sem contato físico. “Quando optamos também por fazer uma live, foi como renascer a chama da arte dentro de cada artista”.

 

Democratização

A arte mundial, custa caro, no Brasil esse fato não é diferente. Segundo uma pesquisa de 2010 feita pelo IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 70% da população nunca foi ao museu ou em centro culturais; e 51,5% nunca vão a shows musicais. Com isso, a chegada das transmissões on-line criou uma nova onda de democratização da cultura, pois não há frequentemente necessidade de efetuar nenhum pagamento para assistir aos espetáculos.

Além disso, junto aos eventos, muitos artistas se uniram em prol da solidariedade pedindo de maneira voluntária, que as pessoas contribuíssem com valores para doações. Fã das atrações culturais, a estudante de Engenharia Ambiental da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Manoela Duarte Lemos observa: “Com um número tão alto de pessoas assistindo num momento pandêmico os artistas começaram a promover grandes ações solidárias”.

Apesar de não ter a euforia dos shows presenciais, muitas pessoas aderiram à ideia e tornaram-se telespectadores das lives, afinal é um dos únicos entretenimentos na quarentena. “Esse acesso à cultura é, sem dúvidas, fundamental para a formação de um cidadão, creio que, não só em momento de pandemia, deveriam existir ações que abrangem a maioria da população”, conta Manoela.

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