Arte conceitual e utilitária

Reportagem de Manuela Soares –

Carlos Diego Silveira Alves e Valmir Lopes expõem na sala multiuso da Prefeitura de Rio Grande –

 

Valmir Lopes e Carlo Diego criaram um sofá da linha mobiliário a partir da reutilização de pneus                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  Fotos: Manuela Soares

     Com obras de Carlo Diego Silveira Alves, 31 anos, formando do curso de Artes Visuais da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e de Valmir Lopes, aposentado, a exposição “Creare – Fazer, crescer e elevar” convidou a comunidade a prestigiar uma tipologia diferenciada de arte no mês de fevereiro. Dispostas na sala Multiuso da Prefeitura Municipal do Rio Grande, as obras chamaram a atenção do público por fugirem da proposta das exposições tradicionais que mostram peças artísticas apenas para serem apreciadas.

     Ao explicarem seus conceitos, os artistas convidavam o público a experimentar as obras. As peças foram divididas em duas linhas: mobiliário e acadêmico. São realizadas artesanalmente, a partir de uma fusão dos conceitos de arte e design, e apenas com materiais recicláveis. Os autores salientam que, para a criação, apropriaram-se do conceito do município como pólo pesqueiro.

Surgimento da ideia

     Em 2008, a professora do curso de Artes Visuais da FURG, Teresa Lenzi, idealizou o projeto “Re-utilize”, que tinha como objetivo a reutilização de insumos da Universidade para criar materiais escolares. Em 2015, o então estudante de artes, Carlo Diego, inseriu-se no projeto iniciando o trabalho focado em desenvolver design de produtos com o projeto linha acadêmica – mochilas, estojos, entre outros.

     Para desenvolver este projeto, os estudantes passaram a ter acesso ao lixão multiuso da FURG, no propósito de oportunizar que estes realizassem coleta de material para o desenvolvimento das obras. Conforme Diego, a busca por materiais estimulou os participantes do projeto a criarem peças diferentes.

     O trabalho rapidamente teve sucesso, ganhando espaço em exposições, chamando atenção de diversos públicos. Com isso, foi proposto que os compradores das peças da linha realizassem fotos com os produtos adquiridos. Para a surpresa dos idealizadores, as peças circularam o mundo, os artistas contam que foram recebidas fotos de colecionadores utilizando as peças em países como Portugal, Espanha e Eslováquia.

     De acordo com o artista Carlo Diego, “o contato com as peças gera provocação, pois as obras fazem com que os indivíduos percebam que é possível reciclar qualquer coisa”.

Incentivo e frutos

     A verba arrecadada a partir da venda dos produtos desde o princípio era destinada aos gastos com etiquetas e maquinário para produzir produtos da linha. A etiqueta é um detalhe importante: “Tem o desenho de mãos, representa o artesanal, o fazer artístico de cada peça que tem reprodutibilidade limitada e viés orgânico e geométrico”.

Etiqueta personaliza do Estúdio Valmir Lopes e Carlo Diego em almofada da linha mobiliário

     Com o sucesso na venda dos produtos da linha acadêmica, foi criada a linha de mobiliários que proporcionou considerável lucratividade e foi incentivo para Carlo e Valmir, que eram amigos e já trabalhavam juntos, utilizassem da ideia para abrir seu próprio ateliê.

     Os artistas denominam seu espaço como “Estúdio Carlo Diego e Valmir Lopes”, o espaço é localizado na Rua dos Escalheres, 308, bairro Parque Marinha, Rio Grande e tem as seguintes funções: visitação, comércio de produtos, espaço de criação, troca de ideias e realização de encomendas.

     Atualmente, ambos afirmam que vivem da arte e que “vendem ideias, não mercadorias, que têm o propósito de serem produtos úteis, que propõem novos significados a partir de criações artesanais”. Além da capitalização da arte, é desenvolvido um trabalho de democratização da mesma com a comunidade. O público é convidado a participar de oficinas, as quais objetivam ensinar como podem ser criadas obras úteis com material reutilizável.

Como começou o trabalho conjunto

     Casualmente, Valmir e Carlo Diego se conheceram em um churrasco de família e mantiveram contato por terem interesses em comum. Com um desempregado e o outro vivendo apenas da renda da aposentadoria, ambos tiveram a ideia de começar a trabalhar juntos, realizando decoração de ambientes.

     Após isso, começaram a trabalhar com pintura, estofaria, costura e marcenaria. Com o desenvolvimento de muitos trabalhos artísticos e a inserção de Carlo no projeto da FURG, as circunstâncias foram favoráveis para que os dois iniciassem a produzir peças como estojos, mochilas, luminária e sofás, entre outros objetos, a partir de materiais recicláveis. 

A arte, o design e o interior

     Na percepção de Diego, “o design é crítico e geométrico, já a arte proporciona liberdade, porque ela não vê a necessidade de seguir regras, e a fusão destes dois conceitos proporciona a criação de peças que atraem a nova geração, que cria ou associa novos significados ao nosso trabalho”.

     Quanto ao fato de estarem trabalhando no interior do Estado, os entrevistados ressaltam que “este espaço não se mostra uma barreira para os artistas, a cidade de Rio Grande precisa ter esse olhar de que o espaço proporciona o conceito pesqueiro que pode ser aproveitado artisticamente”.

Planos para o futuro

     De acordo com os artistas, o plano éapresentar sua arte e explorar o Brasil, expor, criar, utilizando os conceitos do design e da arte, aproveitando-se da linha tênue entre os dois, que possibilita expor em diferentes eventos”.

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